Maringá



Por insegurança, lojas funcionam com portas trancadas

Trabalhar com as portas do salão fechadas pode parecer uma medida extrema, mas foi o único jeito que a cabeleireira Maria Francisca da Cunha e sua filha Djaine encontraram para terem um pouco de tranquilidade enquanto atendem as freguesas. Há 12 anos que as freguesas sabem que precisam marcar horário por telefone ou se identificarem ao chamar pela campainha no salão na Avenida São Domingos, na Vila Morangueira.

Lorislei Librelatto espera a chegada das clientes para destrancar a porta: segurança para ela própria e para as freguesas

“Este é o tipo do ambiente em que só há mulheres e tanto nós quanto as nossas clientes temos receio de assalto, pois a cada dia temos notícias de que mais e mais estabelecimentos foram assaltados”, contou Djaine. Ela e a mãe desistiram de manter a porta aberta depois que uma mercearia vizinha foi assaltada à mão armada três vezes em plena luz do dia, uma lotérica, além de outros estabelecimentos também.

“Não esperamos chegar a nossa vez e nem queríamos trabalhar aos sobressaltos. Pensamos também na segurança de nossa clientela. Nossas clientes já estão acostumadas a agendar ou chamar e entendem os motivos para a porta fechada”, justifica Djaine.

Funcionar com portas fechadas é uma medida que vem sendo adotada por cada vez mais empresas e em praticamente todos os bairros de Maringá. Na região mais central da cidade, três estabelecimentos da Rua Basílio Sautchuk, um ao lado do outro, já fazem isto há mais de dois anos. “Estamos cercados por duas mini-cracolândias e a todo momento algum noiado entrava na loja”, diz Lorislei Piacentini Librelatto, proprietária de uma loja de roupas femininas na subesquina com a Rua Néo Martins. “Não temos nada contra estas pessoas, mas algumas delas criam problemas, já fui pressionada, ameaçada e as clientes – aqui atendemos mulheres – ficam amedrontadas”.

A comerciante, que está no mesmo local há 20 anos, percebe que a situação vem piorando muito nos últimos anos. “Antes a gente trabalhava com tranquilidade, às vezes atendíamos até mais tarde. Agora, as lojas da vizinhança estão cheias de câmeras, alarmes e até contratamos um guarda para a rua e mesmo assim trabalhamos assustados e infelizmente somos forçados a manter portas fechadas, tendo que esperar a cliente bater na porta”.

Ao lado da Via Corso de Lorislei, o salão Espaço Beleza, de Nair Frageri, também trabalha com as portas trancadas há mais de dois anos. “A desculpa é porque temos ar condicionado, mas na verdade o queremos é segurança e tranquilidade”, diz dona Nair, instalada naquele ponto há 10 anos. O argumento é o mesmo da comerciante Selma Nunes, dona da Josefa Acessórios, ao lado do salão, que também só abre a porta quando chega algum cliente.

Para o Conselho Comunitário de Segurança (Conseg), o fato de ter comerciante trabalhando com portas fechadas é indicativo de que a confiança na segurança pública caiu e os constantes registros de assaltos em estabelecimentos comerciais preocupam. “É uma questão complexa, porque não depende só da polícia, é necessário que existam várias frentes atuando juntas, integradas, porque temos também o problema dos moradores de rua, usuários de drogas e outros que estão levando preocupação aos comerciantes”, disse o vice-presidente do Conseg, o publicitário Fernando Alves dos Santos. “Tem gente sofrendo e tendo prejuízos com isto, portanto as ações que tiverem que ser adotadas precisam ocorrer logo, antes que o problema aumente”.

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Na cidade, sim, mas com o pé na roça

Quem nasceu no sítio sabe o quanto é verdadeiro o ditado que diz que “a gente sai da roça, mas a roça jamais sai da gente”. Mas, nem todos vivem de saudosismo. Há quem deixou o meio rural há muitos anos, goza de todo o conforto proporcionado por uma cidade de alto padrão, como Maringá, e ainda se dá ao luxo de estar na roça, bastando, para isto, cruzar a rua. Melhor ainda quando se pode ter o com asfalto, iluminação pública, linha de ônibus e até rede de esgoto sanitário, sem precisar desembolsar um tostão sequer em impostos.

Luiz Roberto cuida da roça iniciada pelo pai dele quando chegaram os primeiros moradores do Parque Itaipu

Este é o caso de várias famílias da Rua Gertrude Heck Fritzen, paralela ao Contorno Sul, no Parque Itaipu, “proprietárias” de pequenos sítios onde plantam café, milho, feijão, laranja, mamão e frutas diversas. Na realidade elas estão ocupando uma faixa de terra entre o Contorno e o bairro, onde passa uma linha de alta tensão da Eletrosul Centrais Elétricas, empresa do governo federal que distribui energia elétrica para as concessionárias estaduais, como a Copel, no Paraná, Celesc, em Santa Catarina, e a Cesp, em São Paulo.

Os pequenos sítios começaram a surgir nas décadas de 1970 e 1980, quando foram loteados bairros próximos à saída para Campo Mourão. Na época, a região era rural e os loteamentos faziam divisa com áreas de fazendas em direção à Gleba Pinguim.

O Contorno Sul ainda não existia, mas linhão da Eletrosul já estava lá e, por lei, debaixo dele não pode ser feito qualquer tipo de construção. Com isto, a faixa de terra onde estão as torres era ocupada por matagal e acabava servindo para o descarte de restos de construção, sofás e móveis velhos, galhadas e outros tipos de lixo, provocando o surgimento de ratos, baratas, forte mau-cheiro e péssimo visual.

Como quase todo mundo que morava perto do linhão tinha vindo do sítio, logo as pessoas começaram a limpar pequenos espaços para plantar alguma coisa”, conta o mecânico João de Lima. “As pessoas trabalhavam durante o dia em seus empregos e nos finais de tarde e nos fins de semana davam de mão a enxadas e facão e vinham plantar. A intenção não era ter lucro. No fundo, queríamos mesmo era matar a saudade dos tempos do sítio”.

Enquanto conversava com a reportagem, João mostrava cerca de 20 graviolas que acabava de colher no pé que ele plantou entre pés de café e bananeiras. O suco de umas duas semanas está garantido e ele ainda fez a média com vários amigos que apreciam a famosa fruta.

João Leandro da Silva não tem motivos para ter saudade do sítio. Ele trabalha em um curtume e, quando chega em casa, troca de roupa e vai trabalhar em sua pequena chácara em frente a casa. Ele se gaba aos amigos que aquele pedaço de terra serve para descontrair.

Além de eliminarmos o estresse, ainda podemos levar para nossa família e distribuir aos amigos alimentos fresquinhos, cultivados sem qualquer produto químico”, diz “o sitiante” Luiz Roberto Vitorino, que “herdou” a terra do pai, o pioneiro Anselmo Vitorino.

Segundo ele, Anselmo era um autêntico agricultor, que teve que mudar-se para a cidade após as geadas históricas de 1975 dizimarem a cafeicultura paranaense. Às vésperas de completar 70 anos, Luiz Roberto, que na cidade estudou, foi auxiliar, sub-gerente e gerente de empresas, se aposentou e assumiu o “sítio” iniciado pelo pai. Em uma área de 1 mil metros quadrados ele planta café, cana, banana, laranja e outras plantas e todos os finais de tarde, quando o sol já não está tão ardente, ele volta a ser o roceiro dos tempos de criança.

Para nós, é bom. É uma ocupação e uma forma de termos alimentos sem agrotóxicos. Mas, para a Eletrosul é uma garantia de que enquanto tivermos nossas plantações aqui não surgirão favelas, invasões, ninguém vai descartar lixo. Enfim, ela deixa até de gastar com a limpeza do terreno”, diz Vitorino.

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Geladeira Solidária será entregue sexta-feira

O Projeto Amigos Solidários de Maringá (ASM), formado por mais de 150 voluntários que entregam marmitas durante a noite a moradores de rua e colaboram com outras instituições filantrópicas, inaugura na próxima sexta-feira a primeira Geladeira Solidária de Maringá, que vai disponibilizar alimentos de graça a quem não tem condições de comprar.

Foto ilustrativa do site awebic

O eletrodoméstico, que permanecerá ligado 24 horas por dia, será instalado na próxima sexta-feira, às 14 horas, na Praça Raposo Tavares, ao lado do prédio onde funcionou o Cine Plaza, na região que mais concentra moradores de rua. Ele poderá ser abastecido por qualquer pessoa e qualquer um tem o direito de retirar alimentos sem precisar de qualquer autorização. Nela poderão ser colocadas marmitas, pão, bolacha, bolos, iogurte, refrigerantes, frutas e outros alimentos. As únicas restrições são para bebidas alcoólicas e alimentos com princípios de deterioração.

Além de ser oferecido alimento a quem precisa, a geladeira será também uma oportunidade para que qualquer pessoa possa fazer doação anonimamente”, disse o voluntário Vandré Fernando, um dos líderes do projeto. “Mesmo antes da instalação, várias pessoas já estão envolvidas, dando de si para que este benefício se torne realidade, como uma empresa que se propôs fazer, gratuitamente, a manutenção da geladeira, e várias pessoas se propuseram a fazer esporadicamente o abastecimento com doações”.

A geladeira, que utilizará energia elétrica do antigo Cine Plaza, foi doada por um dos membros do Amigos Solidários de Maringá, que prefere que seu nome permaneça no anonimato. Ela é do modelo bastante comum em lojas de conveniência, com portas de vidro.

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Confirmada a instalação de Colégio da Polícia Militar em Maringá

O Núcleo Regional de Educação inicia em janeiro um estudo para definir qual dos colégios estaduais de Maringá será destinado à implantação do Colégio da Polícia Militar, instituição de ensino que será subordinada à Diretoria de Ensino da corporação e vinculada à Secretaria Estadual de Educação.

A instalação do colégio é uma decisão do governo e foi informada pela vice-governadora Cida Borghetti, que permaneceu no exercício do cargo de titular do governo até a última sexta-feira. Segundo ela, a pretensão do governo é que pelo menos as cidades consideradas polos regionais, que tenham sede de batalhão da PM, contem com colégios, que terão metade das vagas reservadas a filhos de policiais militares e as demais serão disponibilizadas à sociedade, mediante teste seletivo.

Alunos do CPM de Curitiba em formação

A chefe do Núcleo Regional de Educação em Maringá, Maria Inês Teixeira Barbosa, disse que o Colégio da Polícia Militar deverá começar a funcionar em Maringá somente no ano letivo de 2019, porque, além de escolher um estabelecimento, realizar as adaptações, há que ser definida a proposta pedagógica. O de Londrina, que foi autorizado antes pelo governo, poderá funcionar já em 2018.

Segundo Cida Borghetti, o CPM terá um alinhamento muito maior com a PM, objetivando criar oportunidade do jovem cidadão de conhecer a filosofia e a disciplina militares. Além das disciplinas escolares, o colégio vai trabalhar o civismo e a cidadania, hierarquia e disciplina. Os alunos usam uniforme completo e entram em formação, em um processo que visa promover o respeito às autoridades e às leis.

Os colégios do interior devem seguir o modelo do que já funciona há alguns anos em Curitiba, que nos últimos cinco anos foi considerado o melhor colégio público da Capital, além de ganhar vários prêmios pela qualidade do ensino. O CPM de Curitiba oferece 120 vagas para a 5ª série pela manhã e tarde, sendo 80 delas preferenciais para filhos de policiais e bombeiros militares. Para o primeiro ano são 90, sendo 60 preferenciais para famílias de militares.

Colégio pioneiro

A chefe do Núcleo Regional de Educação não confirma, mas o governo tem interesse que a escolha recaia sobre o Colégio Gerardo Braga, no Maringá Velho, primeiro estabelecimento de ensino de Maringá. Há dois anos já houve uma tentativa de extinguir o colégio, o que só não aconteceu devido à reação de alunos, professores e da sociedade, que foram para as ruas protestar.

O que faz do “Gerardão” o ideal para as necessidades da Polícia Militar é que é um dos raros colégios de Maringá com pátio amplo.

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Deco e a mais longa viagem de sua vida

TEXTO DO LIVRO “MARINGÁ 70 ANOS”

Nas décadas de 1960 e 1970, um homem negro, pobre e quase analfabeto se destacava em Maringá e cidades da região proferindo palestras sobre leis trabalhistas, traduzindo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para uma linguagem compreensível pelo trabalhador comum e ajudando a criar sindicatos de trabalhadores em todo o norte/noroeste do Paraná.

Em Maringá Adenias foi ensacador de café, presidente de sindicato, funcionário da prefeitura e vendedor de calçados

Este homem era o baiano Adenias Raimundo de Carvalho, na época presidente do Sindicato dos Carregadores e Ensacadores de Café de Maringá, sindicato com maior número de associados, ao lado do Sindicato dos Arrumadores. Ele tinha chamado a atenção da sociedade maringaense e dos órgãos de repressão do governo militar ao liderar, no sindicato, aquela que possivelmente tenha sido a primeira greve de trabalhadores do Brasil durante o regime que se estabeleceu no País em março de 1.964. O escritor Laércio Souto Maior, que prepara um livro sobre os movimentos sociais de Maringá nas décadas de 60, 70 e 80, escreveu em sua coluna em O Diário do Norte do Paraná que “o sempre bem humorado Adenias de Carvalho (…) na semana do golpe militar, e nas duas semanas subsequentes, liderou uma greve histórica, enfrentando com coragem as autoridades militares que invadiam as sedes dos sindicatos brasileiros, destituindo suas diretorias. A greve terminou vitoriosa e ficará para sempre na história do sindicalismo maringaense e do Paraná”.

Para presidir o poderoso sindicato por oito anos, Adenias, ou Deco, como o chamavam os mais próximos, teve que se preparar, com noites de leitura de grossos livros sobre leis trabalhistas, sindicalismo e liderança, tarefa que não devia ser fácil para homem de pouco estudo que tinha que ler sob a luz de lamparinas, já que na época, boa parte da Zona 7, onde morava, não tinha rede de energia elétrica. Além disto, a pequena casa de madeira estava sempre cheia de gente, pois era garantia de abrigo para muitas famílias que chegavam da Bahia em busca de melhores dias.

Baiano de Baixa Grande, próxima a Mundo Novo, nunca tinha se afastado mais de 100 quilômetros do lugar onde nasceu quando, no início da década de 50, decidiu fazer a maior viagem de sua vida até então para conhecer o norte do Paraná, de onde chegavam notícias sobre uma terra roxa que dava tudo que se plantasse e, o que é importante para os nordestinos, chovia. Recém-casado com Celina Maria, embarcou em um pau-de-arara junto com o sogro, sogra e uma penca de cunhados, todos menores de idade.

O dinheiro foi curto para chegar ao destino e assim a família passou um curto tempo nos cafezais de São Paulo e só depois chegou a Maringá.

A família, que na Bahia nunca soube o que é blusa e cobertor, enfrentou na chegada um frio de 0 grau. Na nova cidade, onde diariamente centenas de famílias chegavam no trem, em caminhões e nas jardineiras que faziam ponto na ‘Praça da Pernambucanas’, o baiano fez de tudo: foi roceiro e como funcionário da Companhia Melhoramentos ajudou a retirar tocos de árvores da Avenida Brasil e a plantar as palmeiras imperiais da ‘Praça da Pernambucanas’, que anos depois recebeu o nome de Napoleão Moreira da Silva.

Mas, sua esperança era sempre a safra do café. Nestes períodos, milhares de trabalhadores chegavam de outros Estados para trabalhar na colheita e os mais jovens e fortes queriam mesmo trabalhar nas máquinas de beneficiamento e armazéns, carregando sacos. “Um saqueiro ganhava em uma safra o que demoraria anos trabalhando num serviço comum”, contava sempre.

E foi como jovem e forte que ele carregou muitos sacos de café nos armazéns, encheu vagões de trem e caminhões e chegou a ir trabalhar no Porto de Paranaguá no descarregamento de caminhões e vagões para encher navios com o café paranaense que seguia para a Europa.

Mesmo ganhando muito, os saqueiros trabalhavam em péssimas condições. Como não tinham patrão, também não tinham a quem recorrer nas dificuldades, faltavam condições de segurança, armazéns impunham valores considerados injustos e a maioria não pagava a Previdência. Muitos ficavam ao léu se sofressem acidentes no trabalho – e os acidentes eram muitos e vários chegaram a ficar inválidos. Estas condições fortaleceram os movimentos de trabalhadores, que resultaram na criação de sindicatos no início da década de 1960, entre eles o dos Carregadores e Ensacadores de Café de Maringá.

Deco participou ativamente da luta dos trabalhadores da sacaria por melhores condições e acabou sendo eleito presidente do sindicato. Quando percebeu que os armazéns e máquinas não estavam dispostos a oferecer o que a categoria cobrava, chamou uma greve que resultou na paralisação do trabalho nos armazéns, muito café não pode ser embarcado para os portos. Quando o regime militar foi instalado, com o nome de Revolução, os saqueiros de Maringá e região já estavam de braços cruzados e pareceram não ter se importado, possivelmente por não saberem dos anos de chumbo que tal regime imporia ao Brasil nos anos seguintes. Os ensacadores só voltaram a carregar sacas quando algumas garantias foram acertadas.

Quando deixou o sindicato e coincidentemente a cafeicultura entrava em baixa após as geadas de 1975, Adenias foi funcionário da prefeitura e depois foi vender calçados, o que fez até se aposentar forçado por um acidente vascular cerebral.

Se todo mundo que veio para Maringá tivesse ficado, a população hoje seria maior do que a de Curitiba”, contava sempre, quando lembrava de tantos colegas de trabalho que passaram por aqui apenas uma ou duas safras de café. “Os que tinham dinheiro, vinham para cá para se estabelecer, os pobres vinham para trabalhar e a maioria sonhava em voltar para o lugar de onde vieram. Os nordestinos, por exemplo, amam demais sua terra e só saíram de lá por precisão”. Ele, que era nordestino, saiu de sua terra ‘por precisão’, mas no dia que viu Maringá teve a certeza de que não voltaria mais.

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Era para ser dia de festa

Nos últimos anos, o dia 4 de dezembro era sempre dia de festa na nossa família. Era o aniversário do patriarca, Adenias Raimundo de Carvalho, que hoje completaria 94 anos. Deco, como era chamado pelos amigos, partiu um mês antes do aniversário e assim a data que era para ser de festa será de saudade.

O livro “Maringá 70 Anos – Famílias, personagens e fatos que contam nossa história”, lançado na semana passada pelo jornal O Diário, faz uma homenagem a Deco, um pioneiro maringaense.

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Livro de Miguel Fernando traz novas informações sobre o Caso Clodimar

“Sala dos Suplícios” traz novas informações na segunda edição sobre os torturadores que mataram Clodimar há 50 anos

Pela primeira vez os maringaenses poderão conhecer a versão do assassinato do garoto Clodimar Pedrosa Lô contada pelo viajante Antonio Fortes, que teria sido o pivô do caso ao denunciar à direção do Palace Hotel que havia desaparecido uma grande soma em dinheiro que estaria em seu quarto. Por causa da denúncia, o garoto foi apontado como suspeito e acabou torturado até a morte por dois policiais. Ainda como consequência, três anos depois, o pai de Clodimar assassinou com cinco tiros, no centro de Maringá, o gerente do hotel.

A versão de Fortes está na edição revista e ampliada do livro Sala dos Suplícios: Dossiê do caso Clodimar Pedrosa Lô”, que o historiador Miguel Fernando lança nesta quinta-feira, às 19 horas, no auditório Dr. Miguel Kfouri Neto, na Associação Comercial. Na continuidade das pesquisas após a publicação da primeira edição, o historiador conseguiu a íntegra do depoimento que Antonio Fortes fez perante a Justiça. Pelas palavras do viajante da Casas Alô Brasil é possível entender o momento em que aconteceu a prisão do menino de 15 anos que trabalhava no hotel como carregador de malas e era o único empregado presente no horário em que Fortes achou que o dinheiro havia sido roubado.

Outra novidade da segunda edição de “Sala dos Suplícios” é o relatório do capitão Luiz Gastão Richter, da Polícia Militar de Curitiba, que comandou as forças policiais que encontraram e prenderam os policiais Manoel Gerson Maia e Benerval Merêncio Bezerra escondidos na região de Imperatriz, interior do Maranhão, um ano após terem cometido o mais famoso caso da crônica policial de Maringá.

O historiador Miguel Fernando diz que ainda há muito para se conhecer sobre o caso mais importante da crônica policial de Maringá

Segundo Miguel Fernando, ao publicar a primeira edição, há 10 anos, ele já sabia que sua pesquisa não estava fechada. “Assim como não terminou com esta segunda edição, pois trata-se de um caso que ainda tem muito a ser descoberto e muito mais a ser explicado”. Além da barbaridade praticada pelos dois policiais, Fernando considera o Caso Clodimar um marco na história, pois foi a partir dele que o governo do Paraná promoveu uma mudança geral nas forças de segurança do Estado para que a sociedade visse nela uma proteção e não razão para medo.

Clodimar, de 15 anos, garoto cearense que viveu desde pequeno na Vila 7, foi torturado até a morte no dia 23 de novembro de 1967, há 50 anos.

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Reconstrução dobra a capacidade da Paróquia Cristo Ressuscitado

A Paróquia Cristo Ressuscitado, principal templo católico da Zona 5, em Maringá, estará em casa nova nos festejos de seus 50 anos de instalação, em 2019. O templo atual, construído há cerca de 40 anos, teve uma parte demolida e quando a reconstrução estiver concluída a igreja terá capacidade para receber o dobro de fiéis.

Do antigo templo sobraram somente as paredes e a cobertura Foto: João Cláudio Fragoso

Esta reconstrução estava programada há anos e a nova igreja deveria ser construída na Praça Pio XII, conhecida como Praça das Antenas, cujo terreno pertence à Cúria Diocesana. Porém, como a área há muitos anos é ocupada por antenas de TVs e de emissoras de rádio, houve uma negociação para que as antenas continuem na praça e a igreja seja reconstruída no espaço em que está há quase meio século.

“Na realidade, a estrutura que tínhamos era de um salão paroquial”, explica o padre Altair Ciarallo, pároco da Cristo Ressuscitado. Segundo ele, na época já havia o projeto de construir a igreja na praça e na quadra ao lado ficariam o Centro Pastoral, a TV 3º Milênio e as entidades filantrópicas ligadas à igreja, além do salão paroquial, que foi adaptado para ser usado temporariamente na celebração de missas, casamentos, batizados e outros eventos. Mas o que era para ser temporário continuou até agora.

Arte gráfica mostra como ficará a igreja depois de pronta

A previsão é de que a obra dure um ano e enquanto isso as missas e reuniões estão acontecendo no Centro Pastoral, ao lado. “A área do terreno não permite aumentar muito o tamanho da igreja, mas com ampliações nas laterais e no fundo será possível dobrar a capacidade”, diz o padre Altair. A igreja que funciona no salão paroquial tem capacidade para pouco mais de 500 pessoas, mas quando as obras estiverem prontas a previsão é de que haverá espaço para em torno de 1,2 mil pessoas.

Padre Altair Ciarallo, pároco da Cristo Ressuscitado

O novo templo terá na parte da frente uma torre e a entrada será feita em mármore. A obra está orçada em R$ 2,8 milhões – parte já estava reservada pela paróquia e o restante vem de doações dos próprios fiéis.

 

Um pouco da história

Embora a região Maringá Velho/Zona 5 seja onde nasceu a cidade de Maringá, no início da década de 1940, somente em 1969 ganhou sua própria paróquia, a Cristo Ressuscitado. Com o crescimento da cidade, o bispo diocesano dom Jaime Luiz Coelho criou, em 18 de dezembro de 1969, a Paróquia Cristo Ressuscitado, nomeando o padre Geraldo Schneider como seu pároco.

A igreja construída no início da década de 1970 era de madeira      Arquivo: Maringá Histórica

O padre Geraldo, um alemão que veio para o Brasil para trabalhar na Santa Casa de Misericórdia, fez seus estudos no Paraná, fez o seminário em Curitiba e tinha voltado a Maringá, onde foi ordenado por dom Jaime, seu amigo pessoal e principal incentivador.

Desmembrada da Catedral, a nova paróquia abrangia as zonas 4,5 e 6 da área urbana e, na zona rural o distrito de Floriano, as capelas de Borba Gato, Pinguinzinho e Placa Pinguim.

Em 12 de dezembro de 1992 foi criada a paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, desmembrada da Paróquia Cristo Ressuscitado. As capelas de Borba Gato, Pinguinzinho e Placa Pinguim, Floriano e São Domingos passaram à nova paróquia.

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Há 50 anos, morte de Clodimar ainda abala a cidade

Justiça falhou e os policiais que mataram o garoto a pancadas morreram sem serem punidos

No meio da multidão havia um caixão. As centenas de pessoas que subiam a pé a Avenida Paraná pararam na linha de ferro, viraram-se para o prédio da cadeia e passaram a gritar impropérios: “assassinos!”, “covardes!” “justiça!”, “vocês vão pagar!”.

Teve quem pegasse em pedras, paus, mas ninguém atirou nada contra a Delegacia, que era o maior prédio da Avenida Paraná. Da colônia de casas dos ferroviários, no outro lado da avenida, mulheres e crianças olhavam em silêncio. Nos armazéns da AGEFF, na beira da linha do trem, homens de cabeça baixa, acompanhavam em silêncio até que decidiram também gritar por justiça.

Naquela sexta-feira de céu nublado, o grupo de pessoas que subia a única pista de terra batida da Avenida Paraná, carregando o caixão, viu o comércio dos dois lados baixar suas portas, pessoas permanecerem na frente, em silêncio, chapéu na mão, cabeça baixa. Todos estavam abismados e inconformados com o que aconteceu. Um menino, que viram crescer ali na vila, foi morto a pancadas. Mas, a revolta era ainda maior porque a barbaridade foi cometida pela polícia.

Nem as pessoas que seguiam o cortejo carregando o caixão de mão em mão, nem as que assistiam dos barrancos da rua sabiam direito o que tinha acontecido. As emissoras de rádio não tinham tocado no assunto, os dois jornais da cidade, “Folha do Norte do Paraná’ e ‘O Jornal’ só publicariam sobre o caso no dia seguinte. Televisão ainda era algo de que, por aqui, só se ouvia falar.

Uma das raras fotos de Clodimar em um documento

No caixão, o garoto Clodimar Pedrosa Lô, de 15 anos, estava desfigurado. O rosto inchado, cheio de hematomas, os olhos pareciam duas bolas de sangue arroxeadas e dava para ver que o crânio estava torto, afundado. As mãos cruzadas sobre a barriga estavam esfoladas, inchadas e roxas e diziam as pessoas que o resto do corpo estava ainda em pior estado.

O garoto tinha morrido ali mesmo, na cadeia da Avenida Paraná, durante a madrugada anterior e quem testemunhou os horrores daquela noite perdeu o sono por muito tempo.

“Era comum a gente ouvir que alguém estava apanhando da polícia, mas naquela noite foi um horror, o menino urrava e os policiais gargalhavam e gritavam como demônios”, contou o barbeiro João Gonçalo, que estava preso na época por ter se envolvido em uma briga de vizinhos. Gonçalo morreu muitos anos depois, mas nunca deixou de contar sobre a noite que o traumatizou para o resto da vida.

 

Sala de tortura

“A gente não via nada, mas todos os outros presos ficaram em silêncio porque entenderam que o que acontecia naquela noite era diferente”, contava. As torturas na 9ª Subdivisão de Polícia de Maringá, no cadeião da Paraná, eram comuns, principalmente depois da implantação no País do regime militar. A polícia se sentia autorizada a bater até que o preso confessasse até o que não fez e assim muitos inocentes eram condenados por assumirem crimes sob pancadas.

Na cadeia de Maringá torturadores da polícia queimavam interrogados com pontas de cigarro, afogavam em baldes com água, aplicavam choques elétricos depois de despejarem um balde d’água no corpo do preso, batiam com cinta, pedaço de pau e havia o temível pau-de-arara, uma barra de ferro que era atravessada entre os punhos amarrados e a dobra dos joelhos do torturado, colocado entre duas mesas, ficando o corpo pendurado de cabeça para baixo a alguns centímetros do chão.

 

Desculpa inaceitável

Os coices de mula Gerson Maia e Beneval Bezerra durante uma audiência na Justiça depois de serem presos no Maranhão

Os policiais militares Manoel Gerson Maia e Beneval Merêncio Bezerra, lotados na cadeia de Maringá, bateram tanto que o menino morreu, em uma poça de sangue. Tinha sofrido hemorragia interna e o crânio teve afundamento.

Os policiais se apavoraram. Precisavam achar uma justificativa. Colocaram o corpo em um jipe, o famoso “28”, e saíram da cidade em direção a Mandaguari. A certa altura da estrada jogaram o corpo no asfalto e ao chegarem a um médico disseram que o preso tinha pulado do carro em movimento e morrera na queda. Mas o médico não acreditou e informou as autoridades.

Depois, uma autópsia realizada no Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba comprovou que o menino já estava morto quando foi jogado do carro.

 

Bode expiatório

Clodimar foi preso na noite de 23 de novembro de 1967 por ser o único funcionário trabalhando naquela noite no Palace Hotel, na Avenida Brasil, entre as avenidas Duque de Caxias e Getúlio Vargas. Já fazia um ano que ele trabalhava lá como carregador de malas, levando a bagagem dos clientes pelos três andares do prédio sem elevador.

Tarde da noite, um cliente que acabava de chegar da rua – dizem que ele estava embrigadado depois de beber com mulheres na zona do baixo meretrício – chamou o gerente, o italiano Atílio Farris, para reclamar que havia desaparecido dinheiro de seu quarto. Depois de muita discussão, Farris telefonou para a polícia. Os PMs Gerson Maia e Beneval Bezerra chegaram e após algumas conversas chegou-se à conclusão que o dinheiro só poderia ter sido pego por Clodimar, único funcionário presente àquela hora.

 

Santo popular

A comoção gerada na população de Maringá pela morte de Clodimar fez com que nestes 50 anos o seu túmulo seja disparadamente o mais visitado do Cemitério de Maringá. Sobre a laje há centenas de plaquetas de metal depositadas por pessoas que dizem ter recebido graças e milagres após rezarem pedindo a ajuda do menino.

De fato, a morte causou muitas mudanças. O historiador Miguel Fernando, que há mais de 10 anos pesquisa o caso e se debruçou sobre todos os documentos possíveis, diz que foi o crime dos dois policiais que levou o então governador Paulo Pimentel a reformular a Polícia Militar, trocar delegados e altas figuras do comando da PM e determinar firmeza no combate à tortura de presos.

O levantamento feito por Miguel Fernando o levou a publicar o livro “Sala dos Suplícios: Dossiê do caso Clodimar Pedrosa Lô”, cuja segunda edição, revista e ampliada, será lançada no próximo dia 30, às 19 horas, na Associação Comercial.

 

 

O tio Oésio no túmulo de Clodimar

Sem punição

Diferente do que muito se disse até agora sobre Clodimar Pedrosa Lô, ele não era um garoto que veio do Nordeste fugindo da seca e da pobreza. Embora tenha nascido no interior do Ceará, ele cresceu em Maringá. Morou na Rua Bragança, na Vila 7, estudou no então Grupo Escolar Santa Maria Goretti e desde pequeno participava dos jogos de bola nos campinhos de terra batida. Era conhecido de toda a molecada da vila.

O pai, Sebastião Pedrosa Lô, era muito conhecido porque, junto com o irmão, Oésio, tinha uma caixa d’água na Rua Oswaldo Cruz, que atendida parte da Vila 7 com água encanada de poço artesiano em uma época em que todas as casas só tinham poços caipiras.

De fato ele veio do Nordeste porque, devido a mãe estar adoentada, a família voltou para o Ceará, mas logo ele retornou para Maringá, com 13 anos, e ficou na casa do tio Oésio de Araújo Pedrosa que, além do poço, tinha uma escola de datilografia.

Quando ocorreu a tragédia, ele já trabalhava fazia um ano no Palace Hotel, onde trabalhavam também outros parentes dele.

O advogado Valdecir Guidini de Morais, hoje com 64 anos, foi amigo de infância de Clodimar e o descreve como um garoto tranquilo, que evitava confusão até nos campinhos de futebol. Os primos Amílkar Pedrosa e Shirley Pedrosa Moscardi, que viviam com ele na mesma casa, também o descrevem como brincalhão e preocupado em proteger os parentes menores.

Guidini há anos acompanha tudo o que diz respeito a seu amigo de infância. Como começou a trabalhar no Fórum ainda menino, com 16 anos, assistiu inclusive aos depoimentos dos dois policiais, que foram presos um ano depois quando se escondiam no Maranhão, do vendedor que havia denunciado o sumiço do dinheiro e depois voltou atrás, além do hoteleiro que chamou a polícia. Guidini estudou Direito, foi promotor de Justiça e permaneceu no Fórum por 37 anos, até se aposentar.

“Os policiais Gerson e Beneval foram presos preventivamente, mas em razão da demora na prestação jurisdicional, acabaram sendo beneficiados por uma ordem de Habeas Corpus e soltos, nunca mais sendo localizados. Em face da inoperância da Justiça, a família da vítima, constituída de nordestinos, tinha sede de vingança”, diz Guidini.

 

Justiça própria

De fato, o pai do garoto, Sebastião, voltou para Maringá e por três anos esperou a chance de estar cara a cara com um ou os dois

A família Pedrosa Lô

policiais. Queria o sangue deles. Esperou, mas nunca encontrou os assassinos fugitivos. Nem o viajante que denunciou seu filho. Mas, Atílio Farris, que após o caso havia ido para a Itália e ficado lá dois anos, voltou para Maringá e morava no Centro, na esquina da Avenida Herval com Rua Joubert Carvalho, no primeiro andar do prédio da Cunha Rego Tecidos.

Uma tarde, Sebastião permaneceu em frente ao prédio do gerente do hotel, viu-o sair e seguiu-o por um quarteirão. Na Avenida Brasil, chamou o homem pelo nome. Atílio virou e  ouviu: “O senhor é o ‘seu’ Atílio?”. Ao responder que sim, foi alvejado por cinco tiros e morreu no local, a 100 metros de onde morava. O atirador permaneceu no local, esperando a polícia.

Levado a julgamento, Sebastião tinha a seu lado a opinião pública, mas a defesa não era tão fácil quanto parecia. Guidini lembra que tratava-se de réu confesso, que matou sem dar chance de defesa à vítima, o crime foi premeditado e movido por vingança. A Promotoria tinha farta documentação para acusar o réu, mas os advogados Eli Pereira Diniz, Abel Tonon e Ayres Aniceto de Andrade conseguiram convencer os jurados e seis dos sete membros do Júri absolveram o pai de Clodimar.

 

Personagem histórico

O menino de 15 anos que trabalhava à noite para ajudar a família – naquela época era comum menores serem empregados por empresas ou mesmo trabalhar por conta própria, como os engraxates, vendedores de coxinhas ou auxiliares de serviços mais pesados – não fazia ideia de que de uma hora para outra se tornasse um dos personagens mais comentados da história de Maringá.

“Sala dos Suplícios”, de Miguel Fernando, terá a segunda edição lançada no próximo dia 30

Além de ser lembrado pelos antigos e os fatos repassados para os mais jovens, Clodimar é personagem de um longa-metragem produzido e dirigido pelo publicitário Eliton de Oliveira, é personagem central de uma peça de teatro e do livro “Sala dos Suplícios: Dossiê do caso Clodimar Pedrosa Lô”, resultado de uma apurada investigação realizada pelo historiador Miguel Fernando, que já está na segunda edição.

 

Arte: Welington Wainer/Infografia O Diário
Fotos: Arquivos O Diário, Maringá Histórica, JC Cecílio
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Velório do padre Schneider será encerrado com missa

Com o bispo dom Jaime, padre Geraldo fazendo visita a presos na cadeia de Maringá

Uma missa a ser celebrada pelo arcebispo dom Anuar Battisti, às 15h30, encerra o velório do monsenhor Geraldo Schneider na Catedral Nossa Senhora da Glória, em Maringá. O padre de 81 anos morreu na manhã de ontem depois de sofrer um infarto.

Após a missa, o corpo segue para o Crematório Angelus, no Cemitério Parque, onde será cremado, como era desejo do padre. As cinzas serão depositadas o ossário da catedral. Veja mais

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