sutis no Paraná



Pesquisa resgata história de povo que viveu em Maringá antes da colonização

Quando o grupo de financistas ingleses chefiado pelo Lord Lovat, da Paraná Plantations, empresa de capital britânico, chegou para conhecer as terras que a empresa ganhou o direito de vender no norte e noroeste do Paraná, na década de 1920, encontrou gente morando em toda a área em que nasceriam cidades como Maringá, Londrina, Umuarama e outras. Além de tribos indígenas, a região era ocupada pelos Sutis, um povo que desapareceu e hoje raramente é citado na história.

Os sutis, também conhecidos como caboclos, permaneceram na região de Maringá até depois depois da chegada dos primeiros desbravadores, conviveram pacificamente com quem estava chegando, eram vistos no núcleo urbano que se formou, hoje conhecido como Maringá Velho, e negociavam com os novos moradores. O povo desapareceu sem deixar rastros e hoje a única marca da presença dos sutis na região é o Cemitério dos Caboclos, às margens da PR-323, entre Paiçandu e o distrito de Água Boa.

Donizete é o autor da principal pesquisa já feita na região sobre os sutis

Em Maringá, o mais importante estudo sobre os sutis foi realizado pelo jornalista Airton Donizete de Oliveira para seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da graduação em História pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Com o material colhido na pesquisa, Donizete pretende dar início a um livro. “Este foi um bom momento para estudar a presença dos sutis na região porque muitas pessoas que conviveram com eles ainda vivem em Maringá e região e puderam descrever como era este povo, que hoje está caindo no ostracismo da história”, explica o mestre em Comunicação, que durante três anos conversou com alguns dos primeiros pioneiros a chegar a Maringá.

Donizete justifica seu interesse nesta pesquisa porque “a maioria desconhece a trajetória daqueles caboclos de baixa estatura, de fala mansa e pausada, descendentes de negros e índios que viviam em casas de pau a pique cobertas com tábuas de embira e habitaram esta região antes dos colonizadores e desapareceram e hoje nem são citados como parte da história do Paraná”.

O pesquisador chegou à conclusão de que os caboclos chegaram a esta região por volta de 1910

e permaneceram até a década de 1960. Mas a exemplo dos índios, que só agora começam a aparecer nos livros didáticos, ficaram fora da história oficial do Paraná.

A dona de casa Antonia Moreno Doce, de 87 anos, provavelmente a moradora mais antiga da região ainda viva, chegou com a família em 1943, antes da existência do núcleo conhecido como Maringá Velho, e conviveu com os sutis onde depois nasceu o povoado que hoje é o distrito de Iguatemi. Os únicos vizinhos da família eram os sutis, que já moravam na região fazia mais de 20 anos. Segundo ela, “era um povo bom, de fácil convivência, que vivia em comunidades em que tudo era dividido e ninguém tinha preocupação de ser dono de nada”.

Outros pioneiros ouvidos por Airton Donizete, como o violeiro Julio Pires de Morais, de Floriano, Severino Bolognese e Luciano Contardi, de Paiçandu, contaram que os sutis eram alegres, realizavam festas e participavam das festas dos pioneiros. Ficou bastante conhecido nesta época o lider espiritual Sebastião Justus, que abençoava casais que pediam bênção depois de casamento na igreja católica. A bênção tinha origem em ritos africanos, mas era bem aceita pelos católicos.

Cemitério

O Cemitério dos Caboclos, uma pequena área, de menos de 100 metros quadrados, cercada de pedra e com uma pequena capela de pedra, toda pintada de branco às

Modificado do que era originalmente, o Cemitério dos Caboclos é a principal marca da presença dos sutis na região

margens da PR-323, entre Paiçandu e o distrito de Água Boa, é a marca mais visível da passagens dos sutis por esta região.

A muralha de pedra não existia até a década de 1940 e presume-se que ela foi feita por moradores de Marilá, Paiçandu e Água Boa, já que vários pioneiros também foram sepultados lá.

Donizete descobriu que na época em que somente os sutis viviam na região, praticamente não se usava caixões. A exemplo do que acontecia em comunidades tribais, os mortos eram transportados em banguês, uma espécie de rede amarrada em um pedaço de madeira. Quando chegaram os primeiros pioneiros, os sutis continuaram enterrando seus mortos no velho cemitério, mas o defundo era depositado na terra, não em caixão. O caixão, se tivesse um, ficava por cima do corpo.

Espalhados pelo Brasil

Os sutis do norte e noroeste do Paraná eram negros, mas já misturados com um pouco de branco, um pouco de índio, resultado da convivência com outros povos nas andanças até chegarem aqui. Embora participassem das atividades católicas dos pioneiros, eles eram originalmente muçulmanos.

Acredita-se que o grupo que estava aqui seja originário de escravos da Bahia, que deixaram a região após a Grande Revolta dos Malês, em 1835, quando muçulmanos escravos e libertos pertencentes aos povos iorubá/nagô, haussá, nupe e jeje se espalharam pelas matas do Brasil. Nômades, não se fixavam por muito tempo em uma região, viviam do que encontravam nas florestas, criavam animais, principalmente porcos, praticavam a agricultura de sobrevivência, eram hábeis artesãos e viviam em moradias de pau a pique com cobertura de folhas de palmeira ou de sapé. Várias cidades foram formadas pelos sutis, entre elas Vila Bela da Santíssima Trindade, primeira capital de Mato Grosso, e Cuiabá.

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