Vila Operária



A operária setentona se enobrece e vira bola da vez

Construtoras e imobiliárias dizem que a Operária é a bola da vez para a construção de edifícios residenciais

A vila foi cenário para um filme de Tarzan rodado com atores do bairro e sediou o primeiro jogo noturno de futebol

Vista aérea da Operária na década de 60    Arquivo Maringá Histórica

A Vila Operária, que ocupa toda a Zona 3, está completando 70 anos com motivos de sobra para se orgulhar. A primeira periferia de Maringá, criada dentro do plano urbanístico para ser um local para as moradias dos trabalhadores da Companhia Melhoramentos e das primeiras empresas da nascente cidade, foi o berço do primeiro prefeito e onde nasceu o atual, teve o primeiro distrito industrial, o mais importante estádio da era de ouro do futebol amador, onde aconteceu a primeira partida noturna, foi o único bairro a ter um cinema e foi cenário de um filme. Também na operária foram criadas as primeiras escolas de samba, que competiam entre si nos carnavais maringaenses, teve a sede da Guarda Urbana, que equivalia ao quartel da Polícia Militar, tem um dos maiores e mais antigos hospitais da cidade e o principal jornal do noroeste paranaense. Mas um dos motivos para orgulho é a transformação que o bairro está vivendo. O bairro que nasceu para ser operário, habitado pela camada mais pobre do período da colonização, é o que vive no momento a maior corrida imobiliária, com dezenas de prédios em construção ao mesmo tempo e a valorização dos terrenos.

“Quando decidi montar uma imobiliária na Vila Operária, era forte o preconceito contra esta área de Maringá, muitos amigos me desaconselharam e houve até quem achasse que eu estava fazendo uma loucura”, diz o empresário Daroille Aparecido Huergo, proprietário da Imobiliária Daros, a primeira imobiliária da Vila, em frente a outras duas que chegaram mais tarde. “Na época, 30 anos atrás, a Operária era periferia, ficava ‘longe’ do Centro, era um bairro pobre e com má fama. Hoje, 30 anos depois, é a bola da vez, é a região da cidade em que mais se está construindo edifícios residenciais, alguns de alto padrão, a valorização imobiliária é evidente e esta agitação toda vai fazer da Operária um dos melhores bairros de Maringá”.

O corretor Hemilson Correia Gomes, da Cofibra Imóveis, confirma as previsões de Daros. “Para qualquer lado que se olhe, vê-se dezenas de prédios em construção”. Isto, segundo os dois profissionais do ramo imobiliário, está valorizando os terrenos, mesmo aqueles com casas velhas, de madeira. “Mesmo com a crise, que fez os preços recuarem, os terrenos estão de R$ 700 mil para cima, dependendo da localização”, diz Gomes, lembrando que quando o negócio é feito para a construção de prédios, há permuta e aí o valor da terra sobe ainda mais, podendo passar de R$ 2 milhões.

Filme e jogo noturno

Cine Horizonte, no início dos anos 60, ainda na Avenida Brasil

A Operária tem orgulho de seu pioneirismo em várias áreas. A Avenida Mauá, paralela à Brasil, foi o primeiro parque industrial da cidade, sediando fábricas de carroças, caldeirarias, dezenas de ferros velhos, oficinas mecânicas, seis fábricas de bebidas, fábricas de móveis e várias máquinas de beneficiamento de café, entre elas a que pertencia à Companhia Melhoramentos.

O Cine Horizonte, que inicialmente funcionava em um prédio de madeira na Avenida Brasil – onde hoje é o Supermercado Bom Dia – era o único cinema fora do Centro, que inovou na forma de divulgar seus filmes, tanto por meio de cartazes gigantescos, feitos em compensado e pintados à mão, quanto por um serviço ambulante de alto-falantes e gingle nas rádios.

O proprietário do Horizonte, o pioneiro Antonio Del Grossi, era um sonhador e empreendedor. Na década de 1950, ele comprou uma câmera, juntou seus filhos e um grupo de amigos e filmou, com ele próprio escrevendo roteiro e dirigindo, um filme no estilo Tarzan, com cenas feitas em matagais que ainda existiam na vila.

O campo de futebol, que juntava os moradores do bairro nos domingos e ainda não se chamava Brinco da Vila, protagonizou outro fato histórico. Foi lá que aconteceu a primeira partida de futebol noturna de Maringá, talvez do Paraná e uma das primeiras do Brasil. Foi no início da década de 50, quando Maringá ainda nem tinha luz elétrica.

O pioneiro Iracy Mochi, proprietário da Imobiliária Paiaguás, ainda era menino quando testemunhou o fim de semana em que o time da vila recebeu o São Paulo de Londrina em seu campo de terra batida. “Sempre tem algum maluco capaz de colocar em prática ideias mirabolantes”, conta rindo. “Foram instalados os refletores, mas vale destacar que na época a cidade ainda não tinha energia elétrica confiável”, lembra. A luz era produzida por grupos geradores e as lâmpadas eram fraquíssimas, “não clareavam nada”, tanto que na época eram chamadas de ‘tomates’.

“Pegaram umas folhas de zinco, daquele de fazer calhas, fizeram uns tubos, instalaram lâmpadas por dentro e colocaram no alto de estacas”, lembra.

A partida de inauguração da iluminação foi em um sábado à noite, o campo estava cheio de gente – “não sei se foram ver o jogo ou a iluminação” – .

Mas, nada deu certo. “Só na hora do jogo é que fomos descobrir que a iluminação não clareava nada, os jogadores não viam onde estava a bola e a torcida acho que não via nem os jogadores, de tão escuro que estava”. Iracy da Paiaguás ri ao lembrar que choveu muito naquela noite e os respingos da chuva faziam queimar as lâmpadas quentes, além disto, como o campo era de terra, e a terra roxa de Maringá gruda mesmo, as chuteiras ficavam pesadas de tanto barro e a bola virava uma bola de barro. “O João Segura, que era o presidente do time, toda hora vinha com um balde lavar a bola”.

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Abandonado, Brinco da Vila vira boca de fumo

A Guarda Municipal de Maringá iniciou uma operação noturna para afastar usuários de drogas, traficantes e ladrões que ultimamente ocuparam o Estádio Brinco da Vila, na Vila Operária, e se tornaram um problema para a vizinhança. O trabalho deve se repetir hoje, amanhã, depois de amanhã, até que o histórico espaço esportivo deixe de ser uma boca de fumo.

O Brinco da Vila é um dos últimos campos da época de ouro do futebol amador em Maringá Foto: João Paulo Santos

Segundo o coordenador da Guarda Municipal, Reginaldo Diniz, a situação do Brinco da Vila é o principal motivo de reclamações da comunidade à Guarda nas últimas semanas. “Tanto a Guarda quanto a Polícia Militar têm feito rondas constantes e vários indivíduos foram detidos naquele local, mas agora vamos realizar um trabalho mais constante e efetivo”.

O estádio da Vila Operária, que já foi sede do time que representava o bairro no Campeonato Amador e do Grêmio de Esportes Maringá nas décadas de 1970 e 1980, virou boca de fumo devido a seu estado de abandono.

Há muito tempo que isto aqui está abandonado, o mato cresceu, pedaços do muro caíram e há lixo acumulado em vários pontos”, diz uma dona de casa que mora em frente. Segundo ela, tanto no interior do espaço quando do lado de fora “não há sequer uma lâmpada funcionando, os drogados levaram sofás e passam a noite aí consumindo drogas e ameaçando quem passa na rua”.

Praticamente todas as casas vizinhas já foram furtadas ou assaltadas, algumas mais de uma vez. “Eles levam o que acham pela frente, desde tênis no quintal até celulares e outros objetos dentro de casa, sem contar que muitas pessoas são assaltadas na rua”, relata outra vizinha. “O clima é de muita insegurança, tanto para quem mora perto quanto quem tem que passar pela rua”.

Este estádio tem importância histórica para a cidade, está próximo ao centro e é um patrimônio público”, diz Carlos Alexandre de Oliveira, que também mora vizinho. “É lamentável que as autoridades tratem desta forma um espaço que poderia estar oferecendo ocupação e entretenimento a jovens e idosos”. Ele cita que, devido à presença constante de usuários de drogas, as pessoas evitam frequentar a Academia da Terceira Idade (ATI) existente no local.

Ocupar para conservar

Na prefeitura, ninguém sabe explicar a que secretaria está afeto o Estádio Brinco da Vila. “Ainda nesta semana, vou sentar com o secretário de Assistência Social e Cidadania [Ederlei Alkami] para discutirmos um aproveitamento daquele espaço”, disse o secretário de Esportes, professor Valmir Fassina.

Segundo ele, a secretaria tem planos em desenvolver atividades esportivas no local e sabe-se que a Assistêcia Social também tem um projeto para jovens.

As duas secretarias precisam de espaço para desenvolver algum tipo de trabalho e o Brinco da Vila oferece as condições ideais. Tendo atividades, a comunidade volta a frequentar o ambiente, inclusive a ATI”, diz Fassina.

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Maringá perde a pioneira Maria Shima

Pioneira Maria Shima

Em Maringá desde 1950, dona Maria Shima é considerada uma das primeiras professoras de corte e costura da cidade

Maringá perdeu na madrugada desta quarta-feira a pioneira Yutaka Shima, mais conhecida como Maria Shima, que foi proprietária da Escola de Corte e Costura Progresso, na Avenida Riachuelo, Vila Operária. Ela tinha 83 anos e morreu dormindo.

Maria Shima morava em Maringá há 63 anos e era viúva do pioneiro Goro Shima, que morreu no ano passado às vésperas de completar 90 anos.

A pioneira teve um trabalho destacado junto à Paróquia São José Operário e Igreja São Francisco Xavier por mais de 60 anos.

O corpo está sendo velado na Capela do Prever, onde às 14h30 desta quinta-feira será celebrada a missa de corpo presente. O sepultamento está previsto para as 16 horas no Cemitério Municipal.

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Antigo Cine Horizonte dá lugar a duas torres residenciais

Cine Horizonte Maringá

Em 1966, o Cine Horizonte era o mais moderno prédio da Vila Operária

O prédio do antigo Cine Horizonte, um dos endereços de referência da Vila Operária, em Maringá, vai ser demolido e em seu lugar surgirá um prédio com duas torres de 17 andares cada uma, espaço para lojas no térreo e escritórios na sobreloja.

Antigo Cine Horizonte

Ilustração mostra como será o Lumière Residence Club

O prédio será o Lumière Residence Club, que além do espaço do antigo cinema, na esquina da Avenida Riachuelo com Rua Neo Alves Martins, vai ocupar também a data em que morava o fundador do Cine Horizonte, o pioneiro Antonio Del Grossi, na Neo Martins.

Durante sua existência, o Horizonte foi um dos cinemas mais frequentados de Maringá, desde os tempos em que era em um prédio de madeira da Avenida Brasil, onde hoje é o Supermercado Bom Dia, e tornou-se em um dos mais modernos do interior do Paraná quando ganhou um prédio novo e amplo na Avenida Riachuelo, em 1966.

Depois da morte do proprietário, o cinema foi se acabando – como se acabaram quase todos os cinemas da época no Brasil – e o prédio acabou alugado para a Igreja Universal, depois para outra igreja e por fim virou reduto de andarilhos, o que gerou muitas reclamações de vizinhos.

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Tereza Baldo, a carpinteira que virou compositora

Tereza Baldo, pioneira de Maringá

A religiosa Tereza Baldo é autora de hinos de municípios do Paraná e São Paulo

Da mesma forma que não planejou ser técnica em informática quando o computador ainda era novidade, Tereza Baldo também não pensava em virar compositora e poetisa. No entanto, essas acabaram sendo as principais profissões da vida dela, não sem antes ter exercido atividades pouco comuns para uma mulher. Ela já foi ajudante de carpintaria, fabricante de carroças e charretes, trabalhou na colheita de algodão, na separação de grãos de café, na extração de toras e em escritório.

Engana-se quem pensa que, depois de enfrentar uma vida de atividades tão variadas, Tereza se acomodaria ao chegar aos 60 anos. Ela vive hoje uma correria muito mais prazerosa, por dar um pouco de si para tornar melhor a vida de outros. Tereza ora ocupa cargos na associação de moradores, ora integra algum dos diversos conselhos da cidade, tendo tempo para dedicar-se também à Pastoral da Criança e outras atividades sociais da Paróquia São José, em torno da qual cresceu a Vila Operária.

Tereza tinha menos de 10 anos quando o pai, o carpinteiro Guerino Baldo, amigo de infância do pintor Cândido Portinari, trocou a região noroeste de São Paulo por Maringá, na época uma cidade que estava nascendo no norte do Paraná. O ano era 1954. “Quando chegamos, a cidade ainda estava em formação. Mas ainda me lembro bem daqueles primeiros dias, quando as casas eram de madeira, todas tinham na porta um rapador de sapatos, para tirar o barro roxo nos dias de chuva, e os caminhões tinham correntes nos pneus, para não encalhar”, lembra ela, destacando que, na época, Maringá não tinha sequer um palmo de asfalto.

A cidade que estava nascendo não oferecia muitas alternativas profissionais para as mulheres, além de cuidar da casa. Mas Tereza, desde mocinha, foi ajudar o pai na oficina de carpintaria. Naquele tempo, essas oficinas tinham funções muito variadas. Desde muito jovem, ela aprendeu a trabalhar com carrocerias de caminhões e a fabricar carroças e charretes, veículos de muita utilidade na Maringá dos primeiros anos. “Os caminhões eram poucos e as carroças faziam quase todo o serviço de cargas dentro da cidade. As charretes eram como se fossem automóveis. Em vários locais da cidade, existiam pontos de carroça e de charrete, como hoje temos os pontos de táxi.”

Quando apareceram os primeiros computadores, ela tornou-se perita na área e, com a ajuda de amigos e de livros, tornou-se programadora em cobol, uma das primeiras linguagens lógicas de programação. Por muito tempo trabalhou na Cetil, uma empresa fornecedora de tecnologia da informação e soluções para gestão pública, que foi uma das pioneiras do ramo no Brasil e tinha uma de suas principais representações em Maringá.

Olhando a cidade crescer da Vila Operária, onde mora desde que chegou, Tereza criou um elo com o bairro. Agora que tem mais tempo, pode dedicar-se a atividades para as quais mostrou talento desde a infância: fazer versos e compor melodias. Ela, que em 2002 havia criado a bandeira do bairro a pedido da associação de moradores, compôs o hino da Vila Operária em comemoração aos 60 anos do bairro.

O resultado foi muito elogiado. Logo começaram a aparecer convites para compor outros hinos. Assim, Tereza tornou-se autora dos hinos do jubileu de ouro da Paróquia São José, do Jardim Alvorada, de Sarandi e de Valparaíso, no Estado de São Paulo, município onde nasceu e que, recentemente, lhe outorgou o título de cidadã honorária.

A compositora não se limitou a criar hinos: já fez três músicas em homenagem a Maringá e 17 para a Pastoral da Criança. Agora vai ter também composições gravadas por cantores e duplas sertanejas. Tereza diz que gosta de compor hinos porque é uma forma de reforçar o espírito de cidadania nas pessoas. “Os moradores gostam de sua cidade, de sua vila, mas quando têm um hino ou uma música enaltecendo o lugar, o apego torna-se maior.”

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