Mês: julho 2011



Manual de sobrevivência para uso do transporte coletivo

Faz pouco tempo, em uma manhã chuvosa, comentei com alunos que fico feliz em dias de chuva, ao contrário de algumas pessoas que até se deprimem em dias cinzentos.

Um deles, o qual tinha vindo de bicicleta pra escola e estava relativamente encharcado, virou-se para mim e, com olhos de fúria, disse que eu gostava de chuva porque ia de carro trabalhar.

De fato, ter um carro em dias assim facilita a rotina, mesmo com o caos do trânsito, mas tratei de explicar a ele que dependi do transporte público por muitos anos na minha vida; não queria ficar com a imagem de uma professora “patricinha”.

Quando fui a “rainha da borracha” (quem não entender, leia Minha primeira vez, postada em  03/11/2010) pegava oito circulares por dia.

Pena que ainda não tinha descoberto minha alma de cronista naquela época; escreveria um livro por mês, possivelmente com o título Histórias de um coletivo.

Pois bem.

E neste ano chegou a vez do meu primogênito fazer sua “estreia” no universo dos ônibus urbanos. Não que jamais tivesse andado, mas até então haviam sido apenas pequenos passeios, sempre com algum adulto por perto.  Continue lendo

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Setembrina – Capítulo 35

— Oi, Setembrina…

Ah, aquela voz… em qualquer situação, a qualquer momento, ouvir a voz de Ronnie sempre mexia com Setembrina.

Ela ainda tentava disfarçar seu contentamento quando isso acontecia, mas estava cada vez mais difícil esconder aquele sentimento que invadira seu coração.

— Oi, Ronnie… – esboçou um sorriso discreto, mas ele percebeu que sua presença era bem-vinda.

— Sei que está ocupada; não quero te atrapalhar. É que… bem… queria te fazer um convite.

A jovem deixou os produtos de limpeza no chão e olhou para ele.  Não achava correto ficar conversando com o Ronnie durante o trabalho, mas era impossível não lhe dispensar atenção.

— Convite?

— É… bom… eu sei que sábado é o seu aniversário…

— Sabe? Como? Eu nunca te falei nada sobre o meu aniversário…

— É que a Lúcia contou sua história pro seu Alberto, lembra? Já te falei que ele acabou contando pra mim…

— É verdade…. a Lúcia…

— Pois é… eu pensei que a gente podia ir ao cinema no sábado pra comemorar …

Setembrina assustou-se. É verdade que até tinha se lembrado da data fazia alguns dias, mas como seu nascimento nunca fora celebrado de verdade, não havia pensado em nada especial para o sábado.

— Mas no sábado a gente trabalha o dia todo, Ronnie.

— Eu sei… mas é que eu pensei que a gente podia ir à noite.

— À noite?

—É.  Meus amigos me disseram que está passando um filme muito bonito chamado “A Lagoa Azul”; tem uma sessão às oito e… Continue lendo

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300 postagens depois…

 

Segundo uma tradição italiana,  todo dia 29 de cada mês é o dia do “Nhoque da Fartura”. Dizem que é preciso colocar dinheiro embaixo do prato e comer os primeiros sete pedacinhos em pé para que se tenha muita fartura.

Eu sou descendente de italianos, mas não farei nhoque hoje; primeiro porque não acredito em superstições e também porque minha sexta-feira, repleta de compromissos domésticos, terá um almoço composto por um cardápio mais rápido e simples.

Mas por que causa, motivo, razão ou circunstância estou falando de nhoque?

Na verdade, esse saboroso prato italiano não será tema desta postagem, embora um glutona como eu tenha relativo prazer em escrever sobre comida e afins.

O nhoque foi só uma desculpa, uma maneira de começar a interagir com vocês. Sabem aquela conversa de elevador, quando precisamos inventar algum assunto? Pois é…

Hoje estou especialmente feliz não pelo “Dia da Fartura”, mas porque está é a minha postagem de número 300. Continue lendo

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“Porque sim” não é resposta! (e “porque não” também…)

Sempre que levo temas polêmicos para a sala de aula, procuro fazer com que meus alunos, adolescentes que têm entre 14 e 17 anos, desenvolvam, na oralidade e na escrita, habilidades de argumentação e persuasão.

Costumo explicar que, por exemplo, quando os pais não permitem que façam algo, é natural que perguntem: “Mas por quê?” Se do outro lado vier a resposta “Porque sim” ou “Porque não“, é bem provável que eles queriam argumentos que justifiquem essa decisão.

E isso acontece o tempo todo na nossa vida, não apenas na relação entre pais e filhos.

Por isso, como estratégia para fomentar discussões e fazê-los argumentar de forma coerente, uso uma atividade que funciona bem para esse objetivo: apresento uma relação de temas que costumam dividir opiniões e peço para que se posicionem de forma contrária ou favorável.

Depois, separo a turma em duplas, de maneira que alunos de posicionamentos diferentes se “enfrentem” em um debate.

É claro que conduzir essa atividade com 30 ou 40 adolescentes não é tarefa das mais fáceis, mas o resultado é recompensador. É senso comum dizer que o “jovem não pensa”. Ele precisa de estímulo para pensar. E, muitas vezes, seu raciocínio é surpreendente.  Continue lendo

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Histórias de “magrelas”

Meu colega Luiz Fernando Cardoso, do blog Café com Jornalista, postou uma frase ontem no Face que me inspirou para esta postagem. Pedi permissão a ele para usá-la, afinal, não é educado – nem ético – apropriar-se de ideias alheias.

Pensa num cara com o sorriso na orelha: peguei hoje ao meio-dia minha Caloi 10! À noite vou pedalar um 15 km pra sentir a magrela (ainda não batizei). “

Até achei que a “magrela” estivesse no conserto, mas ele me explicou que a “bike” é  novinha. E não deixa de ser interessante ver um adulto ficando tão feliz por causa de uma bicicleta.

Eu entendo bem o meu amigo blogueiro. Ganhei a primeira há exatos 3 anos, a poucos meses de completar 35.  Continue lendo

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Homens e mulheres em (des)equilíbrio

Na última sexta-feira, quando trouxe o tema bullying aqui para o blog, alguns leitores, em seus comentários, fizeram questão de usar a palavra “equilíbrio”, afinal, uma linha tênue pode separar uma discussão séria e relevante de um modismo sem propósito.

E  “equilíbrio” é  mesmo uma palavra-chave para muitas situações na nossa vida… senão para todas.

Na educação dos filhos, por exemplo. “Misturar” Piaget e Pinochet na dose certa não é fácil, mas necessário. Rigidez sem diálogo não funciona, mas fazer o papel de melhor amigo do filho pode ser um tiro no pé.

A alimentação, outra questão importante,  também exige de nós uma escolha acertada, afinal, comidas e bebidas não têm asas e só entram na nossa boca porque queremos.

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Para todas as “Pietás”…

A Pietá do Vaticano, famosa obra de Michelangelo, esculpida em mármore e datada de 1499, é certamente uma das mais perfeitas representações do drama materno.

Mesmo para os que não compartilham da fé cristã, a imagem da Virgem Maria com Jesus morto nos braços transmite a maior dor a que uma mulher pode ser submetida: a perda de um filho.

É claro que essa dor também atinge os homens, afinal, todos os dias pais enterram seus filhos e enfrentam o mesmo sofrimento.

Mas hoje quero dedicar a postagem especialmente às mulheres que já passaram por esse calvário.

É natural que quando alguém próximo a nós passa por essa terrível experiência digamos “eu imagino o que você deva estar sentindo“.

Na verdade, é só uma frase mecânica, dita com boa intenção, mas jamais alguém que não perdeu um filho conseguirá dimensionar esse martírio; imaginamos mesmo que seja uma dor dilacerante, mas só quem viveu sabe do que estou falando.  Continue lendo

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Setembrina – Capítulo 34

Os dias seguintes à morte do pai e à visita de Ronnie ao seu apartamento foram significativos na vida de Setembrina.

Ela ainda chorava à noite, na hora de dormir, como era quase um costume seu. A única foto da mãe, os perfumes de Lúcia, a lembrança da voz fraca do pai… tudo era motivo para as lágrimas banharem seu rosto.

Mas, de alguma forma, sentia que um ciclo se fechara em sua sofrida trajetória. Era como se sentisse no seu coração que havia chegado a hora de pensar em si mesma.

E isso incluía não apenas Ronnie, mas também sua vida profissional, afinal, era muito jovem para se contentar com a função de zeladora de um prédio.

Falou sobre isso com seu Alberto. Queria um conselho, uma orientação sobre o que fazer para continuar os estudos e conseguir um trabalho melhor. Não era só o dinheiro que lhe interessava; estava longe de ser uma mulher apegada a bens materiais.

Era o desejo de  ser feliz fazendo algo que fosse bom pra ela e para os outros. Continue lendo

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Quem se lembra do Tonico?

Manhê,  sabe o que me aconteceu? / Manhê, o Tonico me bateu / Roubou meu saco de pipoca / O pirulito e o picolé  / E depois ainda por cima, mamãezinha / Deu uma pisada no meu pé/  Ai, ai, ai. (…)

Quem se lembra desta música diga “Eu!!!!” Não vale se envergonhar do fato de ela fazer parte do disco do Balão Mágico de 1983; de repente serviu com fundo musical no berçário da maternidade, sei lá…

Mas esta postagem não será sobre o meu baú de recordações. Lembrei-me desta singela canção por acaso e me veio à mente a seguinte reflexão:  há exatos 28 anos, o Balão Mágico já nos alertava sobre o bullying, mas parece que, naquela época, esse tema não tinha o “status” que têm hoje.

Foi preciso um estrangeirismo para que as pessoas começassem a colocar esse assunto na pauta de discussões, afinal, nada como um termo em inglês para agregar importância a alguma coisa.

Às vezes me incomoda essa característica da sociedade brasileira de trazer à tona certos problemas para depois, com relativa naturalidade, guardá-los novamente na gaveta.

A tragédia de Realengo já não ocupa nem mesmo as notas de rodapé dos jornais e revistas, mas serviu para que até uma lei sobre o tema fosse criada, numa atitude bem “oportuna” das autoridades, conforme já escrevi aqui no blog (“Papo Cabeça” – 27/06/11).

Esses dias um aluno me perguntou “Professora, você nunca foi vítima de bullying?”.  Continue lendo

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Histórias de amor fraterno

Imagino que, com exceção dos “filhos únicos” que visitam este blog, os outros leitores tenham muitas histórias pra contar sobre sua relação com os irmãos – de sangue e/ou de coração.

Escrever sobre laços familiares é sempre muito delicado, afinal, cada um de nós tem viveu – e vive – situações muito peculiares. Jamais se pode generalizar Algumas mais emocionantes, talvez até tristes. Outras engraçadas, por vezes constrangedoras.

Há os que foram muito próximos durante a infância e adolescência, mas depois se distanciaram; às vezes a distância física é o grande empecilho – como aqueles casos em que os irmãos moram em cidades, estados e até em países diferentes -,  mas, infelizmente, às vezes existe a proximidade do corpo, mas uma distância infinita das almas.

Difícil julgar as famosas – e tristes – brigas fraternais.  Como avaliar quem está – ou estava – com a razão? A disputa pelo brinquedo, pelo maior bife, pela garota bonita da rua, pela atenção dos pais, pela herança… tanto faz.

Quem não tem uma história de desentendimentos pra contar levante a mão. Continue lendo

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