Mês: fevereiro 2012



Desta vida, nada se leva… mas tudo se deixa.

A expressão “caixão não tem gavetas” geralmente é usada por quem quer alfinetar algum mão-de-vaca que só pensa em acumular riquezas; como não cogita a hipótese de dividir seu rico dinheirinho, o sovina precisa ser lembrado de que, quando partir desta para melhor – ou para pior, dependendo do caso – não levará consigo seus bens materiais.

E, mesmo sendo uma frase absolutamente desgastada – e nada original -, “caixão não tem gavetas” traz em suas palavras uma verdade incontestável: apenas o nosso corpinho gélido e algumas flores “rechearão” nosso “paletó de madeira”.

Cruzes… que assunto mórbido…

Mas não quero escrever sobre morte nesta postagem; não porque ache que traga azar tratar desse tema; não sou mulher de acreditar em sorte ou azar.

Hoje quero escrever sobre a vida, mas não sobre a que pulsa dentro de nós enquanto nosso coração bate.

Quero refletir sobre as marcas que deixaremos assim que formos “convocados” a nos retirar do “palco”; quero imaginar como seremos lembrados pelas pessoas com as quais convivemos durante o período em que estivemos por “aqui”.   Continue lendo

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Geração do “kkkkkkkk”

Entre tantas provas de que sou de outra planeta, está o fato de que, nas redes sociais, não me rendi ao “internetês”. Aliás, não consigo nem abreviar a palavra “beijo” em mensagem de celular; coisa de gente que espera pela nave-mãe mesmo.

E sei que, no mundo virtual, nada mais comum que usar códigos específicos, sejam eles para economizar tempo e espaço ou para descrever emoções e afins.

Minhas únicas exceções são o “rsrsrsrs”, onomatopeia que geralmente uso para ilustrar minhas ironias – senão corro o risco de muitos acharem que falo sério -, e o bendito “kkkkkk”, que é uma forma interessante de mostrar aos interlocutores que quase caímos da cadeira de tanto rir de determinada foto, vídeo ou frase.

Entretanto, ando meio preocupada com a geração do “kkkkkk”, que é composta por adolescentes – e adultos também, infelizmente – que não conseguem externar nas redes sociais nada além dessa “fileirinha” de letras “k”.  Continue lendo

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Eu existo longe de você

A música “Fico assim sem você”, da cantora e compositora Adriana Calcanhoto, tornou-se um grande sucesso nos anos 90 nas vozes da Claudinho e Buchecha. De fato, a canção é bonitinha e, não me perguntem por que, lembrei-me dela há poucos dias.

Cantarolando pela casa, uma frase em especial me chamou a atenção: “eu não existo longe de você”. E é claro que, por se tratar de uma letra passional, nada mais natural que as frases “exalarem” um aroma romântico.

Já tratei deste tema aqui no blog na postagem “Você se morde de ciúme?”: na minha concepção, por mais lindo que isso possa parecer, não acho seguro entregar as rédeas da nossa história a uma pessoa.

Como assim “eu não vivo longe de você”?

Assumir essa dependência – seja do parceiro, dos filhos, dos pais, dos amigos, das pessoas do vínculo profissional – é assumir que a nossa existência precisa do outro para fazer sentido. Continue lendo

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Tesão é tudo!

O substantivo “tesão”, quando dito perto de uma criança, pode fazer um pai mais conservador tapar os ouvidos do filho, afinal, ele pode soar como um palavrão de porta de banheiro público.

Bobagem.

Gosto muito dessa palavra; não que a use indiscriminadamente aqui em casa, mas meu marido e eu não temos pudor em dizê-la perto dos nossos rebentos.

Não com uma conotação sexual, é claro, embora senti-lo entre quatro paredes seja ingrediente básico para uma vida na horizontal satisfatória.

Mas como sinônimo de algo que nos proporcione prazer.

Eu tenho tesão pelo tablado; se não fosse assim, não estaria há 14 anos vestindo o jaleco e indo para a sala de aula com a certeza de que sou professora em minha essência.

Também tenho tesão pela língua portuguesa, pelas palavras, pela escrita; por isso escolhi ser blogueira e escritora.  Continue lendo

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Desafios do tablado

Neste ano completo 14 anos de tablado; 14 anos ensinando e aprendendo com meus alunos.

Não tenho mais o idealismo que me contagiava a alma no início da carreira; não carrego no peito a ilusão de que conseguirei mudar o mundo por ser professora.

Entretanto, ao contrário do que possa sugerir, isso não é ruim.

Ter consciência das minhas limitações como educadora pode ser uma ferramenta eficaz no trabalho que faço em sala de aula.

O jaleco não me confere superpoderes; não tenho condições de interferir de maneira decisiva no destino dos adolescentes que cruzam o meu caminho em meio a cadernos e afins; não tenho o dever – e talvez nem o direito – de desempenhar o papel que cabe exclusivamente aos pais.

Mas sei que tenho uma missão; sei que posso, a cada dia, a cada aula, contribuir um “tantinho” para que meus alunos se tornem pessoas melhores do que já são, independente da disciplina que eu ministre.

Meu coração quis “falar” sobre isso porque nesta semana comecei um novo ano letivo na minha trajetória docente. Serão mais 200 dias em que terei como compromisso “ser” professora, e não apenas “estar” professora. Continue lendo

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Vamos cuidar da “faísca”

Se há uma cena que me mexe comigo é a de um homem e uma mulher que estão juntos em um restaurante, mas não se olham, muito menos conversam.

Os gestos mecânicos para degustar a comida, a olhadinha para o lado de vez em quando, a conferida no horário, um suspiro profundo, como se alguém precisasse dizer “socorro”.

O barulho da criança bagunceira pelo estabelecimento, as vozes que se misturam no ambiente, a música de fundo… tudo serve para tornar o momento menos constrangedor.

É triste quando um casal convive há anos, mas não tem mais papo na hora de almoçar ou jantar.

E penso que todos que assumem uma relação estável passem por essa experiência. O problema é quando a falta de assunto não é só por causa de uma discussão, de um “climinha” ruim, de algo bem específico.

O sinal vermelho acende quando a falta de intimidade – e não estou me referindo às quatro paredes – domina a relação. Não existe mais  interesse em saber como foi o dia do outro, não existe mais paciência para ouvir o que inquieta o parceiro, não existem mais elogios, nem brincadeiras, tampouco sorrisos ou risos.

Para mim, um dos termômetros de um relacionamento é a capacidade que temos de rir, juntos, das coisas. Não rir dos outros, na conotação de ironizar a vida alheia.  Mas rir das trapalhadas que fazemos, das bobagens que falamos, daquela piada que ouvimos na rádio, daquela frase que lemos no Face.

Quando um  homem e uma mulher estão frente a frente e mal se enxergam é prova de que faltou esforço para não deixar minar o sentimento que os unia no início.  Continue lendo

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Piscina de bolinhas e Nova Iorque

É muito triste imaginar que alguém possa passar esta vida sem conseguir realizar seus sonhos. E não estou me referindo somente a grandes projetos, aqueles que necessitem de vultosas quantias de dinheiro.

Coincidentemente, conversei com duas pessoas neste final de semana que passaram pela mesma experiência: a primeira viagem de avião.

Duas senhoras, com quase 60 anos, que há anos vinham acalentando esse sonho.

Foi até emocionante ouvir o relato das duas. O brilho no olhar, a descrição da viagem, as palavras escolhidas a dedo no momento de externarem a emoção de terem visto, finalmente, as nuvens bem de pertinho.

Mesmo sem se conhecerem, essas mulheres, cada uma da sua maneira, contaram-me com um entusiasmo quase pueril como foi a viagem que fez a diferença em suas vidas.

Certamente elas jamais se esquecerão da sensação que as levou às alturas (literalmente). Continue lendo

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Vida “quase” normal

Adorei as hipóteses que o engraçadinho do Adriano lançou sobre o meu chá de sumiço, feitas no comentário da postagem anterior.

Ele disse que eu poderia ter sido abduzida, caído em um pote de Nutella ou simplesmente ter abandonado o blog.

Bem, já externei diversas vezes que espero ansiosa pela volta da minha nave-mãe; cheguei até a pensar em construir uma, diante da demora da que me deixou aqui há 38 anos, mas decidi conviver mais algum tempo com os terráqueos. Primeira hipótese descartada.

Segunda hipótese: o mergulho em um pote de Nutella. Infelizmente, não tive o prazer de viver essa experiência que, certamente, seria inebriante; mas faço votos de que, um dia, possa nadar de braçadas em um “potão” deste creme de avelã que me tira a razão.

Por fim, a terceira hipótese, a que fechou com chave de ouro o comentário dele: o abandono da dona da casa. Continue lendo

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Retratos do óbvio

Acho que todos vocês, um dia, assistiram a uma palestra de alguém que, por duas horas, em meio a historinhas, piadinhas e uma performance quase circense, proferiu dezenas de afirmações óbvias, como “o futuro está em suas mãos”, por exemplo.

Mesmo crendo em Deus, sei que o futuro está em minhas mãos. Ora, se eu não tomar atitudes, não conseguirei o que quero; se eu não mudar comportamentos, não haverá milagre que dê jeito. Para mim, isso é bem óbvio.

E esses palestrantes fazem sucesso porque, além do talento para a oratória e do conteúdo que transmitem, despertam em nós aquela sensação de que não estamos fazendo o óbvio; por isso, quase creditamos a eles um dom divino.

“Esse cara sabe das coisas”.

Mas há certas obviedades que não precisariam ser “anunciadas” em palestras; há atitudes óbvias que são os próprios pais que ensinam, na tenra infância, aos filhos; ou deveriam ensinar, pelo menos.

Refleti sobre isso no sábado, ao assistir pela primeira vez na TV à “Marcha do Xixi”,  uma campanha patética que pretende fazer com o que os foliões não façam xixi na rua.

Uma porção de cantores famosos entoam uma musiquinha ridícula, a qual quer “ensinar” o óbvio: não é educado, nem higiênico, fazer em público o que se deve fazer no banheiro. Continue lendo

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Você “vai estar lendo” este texto?

Eu nem sei por que as pessoas PRECISAM ESTAR ENTENDENDO a  língua portuguesa.

É tão fácil ESTAR FALANDO ou ESTAR ESCREVENDO o nosso idioma sem dominar as regras da norma-culta.

Desejar ESTAR CONVENCENDO alguém de que é necessário ESTAR ESTUDANDO um pouco mais o idioma para ESTAR COMUNICANDO com mais eficácia é quase uma perda de tempo.

Qual o problema se a moça de voz doce  liga para sua casa e diz “A gente ESTÁ LIGANDO pra senhora ESTAR PASSANDO  aqui pra ESTAR PEGANDO seu documento”?

Para falar a verdade, quando ouço esse tipo de “pérola”, tenho vontade de ESTAR SURRANDO a dita cuja, principalmente porque sei que ela VAI ESTAR FALANDO ao telefone com os clientes, que não deveriam ESTAR SENDO OBRIGADOS a ESTAR OUVINDO esse festival de gerúndio.  Continue lendo

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