Mês: abril 2012



Nossas primeiras vezes

Em 1987, o comercial da Valisere, uma famosa marca de lingerie, tornou o slogan “O primeiro sutiã a gente nunca esquece” uma febre. Protagonizado pela atriz Patrícia Luchesi, na época uma pré-adolescente, a propaganda mostrava como a peça íntima simbolizava o rito de passagem da menina para a mulher.

Apesar da minha memória prodigiosa, sinceramente não me recordo do meu primeiro sutiã; lembro-me do meu primeiro dia na escola, da minha primeira lancheira, da primeira vez em que o telefone tocou na minha casa, da minha primeira menstruação, do meu primeiro beijo, da minha primeira viagem à praia, do meu primeiro dia de trabalho, da minha estreia no tablado, do minha primeira viagem de avião, da minha primeira bicicleta (aos 35 anos) … mas nadica de nada do primeiro sutiã.

Considerando as vacas magras que habitavam minha casa na época em que o primeiro sutiã tornou-se necessário para mim, é bem capaz que ele tenha sido uma “herança” da minha irmã mais velha. Mas nada que tenha me causado grandes traumas.

Não me perguntem por que me lembrei desse comercial. Talvez porque meu caçula esteja perdendo os primeiros dentinhos  e meu primogênito esteja ensaiando os primeiros namoricos. Esses ritos de passagem mexem com o coração e com a cabeça das mães.  Continue lendo

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Homens, mulheres e potes de sorvete

A cena é clássica, principalmente em filmes americanos: a mulher leva um fora do amado – ou o flagra nos braços e pernas de outra – e, debulhando-se em lágrimas em frente à televisão, devora um pote de sorvete.

Essa cena me veio à mente há pouco tempo, quando um amigo me relatou o término do seu namoro de sete anos e tudo que lhe invadia a alma naquela ocasião. Não que ele tenha se rendido ao pote de sorvete, mas conversamos bastante sobre a maneira como o homem encara o fim de uma relação.

Quando discutimos relacionamentos afetivos é prudente não generalizar; frases como “todo homem gosta de” ou “toda mulher valoriza isso” nos fazem cair no senso comum. Como rotular sentimentos tão intensos? Como dar um nome específico ao que as pessoas sentem quando decidem terminar uma história?  Impossível.

De qualquer forma, mesmo fugindo das generalizações, arrisco-me a dizer que a maioria dos homens sofre menos ao final de um namoro ou casamento, mesmo quando a decisão não tenha partido deles.

Como enxerga a vida de uma maneira mais prática, é comum que a espécie masculina trabalhe a ausência da amada mais facilmente. Isso não se aplica a todos os casos, é claro, mas é difícil imaginar um homem amargurado por causa de uma mulher que o deixou; pelo menos não mais que dois ou três dias.  Como bem lembrou o meu amigo, logo ele partirá para outra – ou para “outras” talvez… Continue lendo

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Quando o que falta é vontade

Há pouco tempo,  quando me mudei de uma casa para um apartamento, ouvi várias pessoas me perguntando como tive coragem para fazer isso; considerando que essa mudança foi uma opção, não precisei de coragem, mas sim de vontade.

Da mesma forma, quando relato para alguém que meus dois filhos vieram ao mundo por meio de partos normais, ouço frases de espanto, cheias de pontos de exclamação: “Nossa, que mulher corajosa!!!”.

Mas também não precisei de coragem para passar por essas experiências; precisei de vontade. Eu escolhi o parto natural justamente porque me sobrava vontade de fugir da cesárea.

De coragem eu preciso para matar uma barata ou  para dizer “não” a um flanelinha; para a maioria das coisas nesta vida, preciso mesmo é de vontade.

E o que fazer quando ela falta? O que fazer quando o problema não é a falta de coragem, mas sim de vontade? Continue lendo

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Teste de popularidade

Faz poucos meses, quando fui buscar meu caçula mais cedo na escola, ouvi dele uma frase que, como sempre acontece a quem tem alma de cronista, provocou-me grandes reflexões.

Logo que a professora o chamou para ir embora, ele olhou para os coleguinhas e disparou: “Quem vai ficar com saudade de mim levanta a mão!”.

Sorte do meu pequeno que pelo menos uns 4 ou 5 fizeram isso; sorte dele ou minha, que economizei o valor de uma consulta ao divã em um futuro não muito distante; afinal, já imaginaram o trauma se nenhuma das crianças manifestasse que sentiria sua falta?

Brincadeiras e gracejos à parte, ver meu filho, do “alto” da sua meia dúzia de anos, testar a sua popularidade na escola me fez pensar em como às vezes estamos mesmo preocupados em ser notados.

No meu tempo de escola, embora não houvesse este rótulo, sempre fui uma aluna “popular”. E o que era ser popular nos anos 80 e 90?  Naquela época, tirar boas notas e ser disciplinada em sala de aula já me conferiam esse título. E é claro que eu me orgulhava disso.  Continue lendo

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Quero mesmo mudar?

Não sei todos os meus leitores assistiram a Shrek 2, animação do ano de 2004 e que, como tudo que se refere ao famoso ogro, fez um grande sucesso.

Na história, o protagonista, angustiado por imaginar  não ser o parceiro com que sua amada sempre sonhara, sai em busca de uma solução que o transforme em humano. Com a ajuda do seu inseparável amigo Burro, ele consegue uma poção mágica e, aparentemente, resolve seu problema. Mas… ledo engano do monstro verde. A transformação acarreta uma série de confusões e, no fim das contas – e do filme -, ele acaba percebendo que a princesa Fiona, que já havia assumido seu lado “ogra”, amava-o da forma como ele era.

Animações como Shrek – e tantas outras – podem parecer apenas histórias cujo objetivo maior é entreter, mas trazem mensagens que servem para que façamos importantes reflexões sobre a nossa vida, a qual está longe de ser uma ficção com final feliz garantido.

Mudar para fazer o outro feliz pode até ser uma atitude louvável, mas não sei até que ponto pode ser saudável para uma relação. Há uma frase que diz “nada muda se eu não mudar”, ou seja, pensando assim,  se o relacionamento não vai bem, um dos envolvidos precisaria mudar para reverter a situação.

No caso da história hollywoodiana, houve um erro de interpretação do personagem principal, o qual julgou que precisava ser diferente para continuar sendo amado. Entretanto, na vida que se passa fora da telona, às vezes somos “convidados” por quem amamos a mudar.

Penso que seja sempre benéfico para as relações humanas – sejam elas quais forem -, que as partes reflitam sobre as suas atitudes, sobre as suas escolhas, sobre a maneira como veem o mundo. É possível mesmo que, depois dessa reflexão, alguém perceba que precise mudar.

Mas será que sempre vale a pena investirmos em mudanças por causa de alguém? Continue lendo

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Em harmonia comigo mesma

Se a presença de um colega de trabalho me incomoda, é bem possível que eu consiga evitá-lo; se a companhia de um familiar não me agrada em determinada situação, posso optar por dispensá-la; se estar perto de uma pessoa não for da minha vontade, sempre há meios para eu tentar me desvencilhar dela.

Não desejar ter alguém por perto, às vezes, é natural e não há por que nos sentirmos culpados por conta disso.

Entretanto, há uma companhia da qual jamais conseguiremos “fugir”: a nossa. E, por mais que pareça ser fácil conviver com o nosso “eu”, às vezes a relação com o espelho é bastante conflituosa.

Não estou me referindo apenas ao espelho que reflete a minha imagem e me mostra sem dó nem piedade minhas imperfeições físicas; mas também a um espelho metafórico, aquele que insiste em me jogar na cara as imperfeições da minha alma.

O relacionamento que tenho comigo mesma varia constantemente. Há dias em que adoro estar perto de mim, em que me admiro, em que acho ótimo desfrutar da minha companhia; são os dias em que penso “Puxa, Lu, tenho orgulho de você!”.

Mas também há os momentos em que acontecem grandes discussões entre mim e meu ego, o qual tem uma tendência a se inflar ao ouvir elogios. Eu vivo dizendo a ele que, mesmo com os olhos voltados para o céu, precisamos ter os pés no chão.  Continue lendo

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