Mês: maio 2012



Aberta para balanço

Bonitinhos, acabei de levar um baita puxão de orelha do Adriano, no comentário da postagem anterior, e creio que ele tenha razão.

Tenho ficado ausente do blog nos últimos dias e não seria justo atribuir a responsabilidade disso apenas ao relógio. Devo confessar que, em alguns momentos, até sobrou tempo, mas faltou vontade.

E se falta vontade de escrever… Deus do céu… é sinal de que preciso mesmo discutir a relação, não com os outros, mas comigo mesma.

Até do Face, rede social em que me viciei há alguns meses, estou afastada. Mas nada que um bom divã virtual não dê conta.

Creio que todos nós, de vez em quando, tenhamos o direito de nos recolher um tantinho. E nem sempre esse recolhimento acontece por opção, é claro.

Vivo um momento meio Clarice Lispector na minha vida e isso tem mexido bastante comigo. Vasculhar a nossa alma é uma aventura fascinante, mas o que podemos encontrar nessa viagem é perturbador.

Tudo que vem à tona quando passamos a enxergar novos horizontes e a viver novas experiências requer maturidade; agir no calor da hora ou ao sabor das emoções pode ser um risco.

Não tentem me entender… somente Deus e eu podemos fazer isso.

Só não desistam da nossa varanda, ok? Viajarei amanhã com os homens da minha vida, mas prometo que, a partir da próxima segunda, estarei mais presente por aqui, tanto nas postagens quanto nas respostas dos comentários.

Este blog não é um diário pessoal e quem acompanha o meu trabalho há mais de 450 textos sabe disso.

Mas hoje me dei ao direito de abrir o coração para vocês. É isso.

Beijo da “prô”.

 

 

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A flor nossa de cada dia

As plantas e eu temos uma relação, digamos assim, tumultuada. Há cerca de 3 meses, quanto ainda morava em uma casa, tinha um pequeno jardim, dois vasos de folhagens e quatro de samambaias. Confesso que precisava deixar um aviso na porta da geladeira para me lembrar de regá-los. Agora, morando em apartamento, um vasinho de violeta na cozinha é o máximo que adorna o meu lar.

Admiro quem tenha essa afinidade com o universo verde, mas não é da minha natureza; não é da minha natureza esse envolvimento com a natureza, entendem? E não me sinto nenhuma vilã de desenho animado por causa desse meu desapego. Mas por que estou falando disso mesmo?

Ah, é verdade. A flor. Hoje quero falar sobre a flor. E por que alguém que não curte cuidar de plantas e afins escreveria sobre esse tema?

Por que quero refletir sobre a flor nossa de cada dia.

A flor nossa de cada dia nasce em meio às dificuldades que enfrentamos; meio piegas afirmar isso… eu sei. Mas é impossível negar: quando estamos vivendo períodos difíceis, em que quase nada consegue nos animar, achar uma flor que nasceu em meio às pedras pode ser acalentador.

Essa flor não tem cheiro, não tem pétalas, nem espinhos; essa flor não germina em jardins, nem enfeita vasos. Essa flor está nas coisas que acontecem na nossa vida quando quase estávamos jogando a toalha. Essa flor se manifesta em palavras amigas, em atitudes de carinho, em gestos de afeto. A flor nossa de cada dia é aquela notícia que demora para chegar, mas que chega em boa hora.

O nascimento de uma criança em uma família que viveu uma perda recente; a promoção no emprego de quem tinha sido demitido recentemente; a volta de alguém que tinha ido embora da nossa vida; a reconciliação dos irmãos que há tempos não conversavam…

Entendo de jardinagem tanto quanto entendo de aramaico, mas imagino que a maioria das plantas precise ter condições ideais para vingar: terra adubada, água e sol na medida certa. Há até quem defenda que as pessoas precisam conversar com elas, afinal, um bom papo pode animar a plantinha.

Por isso é tão bonito ver a flor nascendo em terra seca; é prova de que, mesmo em meio às intempéries da nossa história, um sopro de vida nos mostrará um caminho.

Um caminho que certamente esconderá novas pedras e tropeços; mas um caminho que tem uma flor.

A flor nossa de cada dia.

 

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Entrevista de emprego para vereador

Uma sala de espera, uma vaga, 16 pessoas. Homens e mulheres dispostos a ganhar a preciosa cadeira que renderia R$ 12.000,00 mensais. Praticamente a solução Tabajara de suas vidas. “Meus problemas acabaram”, pensavam todos eles, já imaginando como investiriam tão gordo salário, ops!, tão gordo subsídio; a ansiedade pela entrevista os dominava e eles tentavam disfarçar o nervosismo, afinal, quem não conseguisse a vaga teria que se conformar em trabalhar por mais quatro anos.

Candidato 01:

— Muito bem, me diga por que o senhor quer ser vereador.

— Bom, meu pai foi pioneiro aqui na cidade e tem uma rua com o nome dele.

— Hum… interessante… é um bom currículo. Vamos avaliar. PRÓXIMO!

Candidato 02:

— Vejo que o senhor está um pouco nervoso; me diga: por que quer ser vereador?

— É que eu tenho muitas dívidas com um agiota e não vejo outra solução para pagá-las.

— É um bom argumento; vamos avaliar. PRÓXIMO!

Candidato 3:

— De forma sucinta, me responda: por que o senhor quer ser vereador?

— Sei lá… meu pai pediu para eu vir aqui porque o amigo dele é amigo não sei de quem, que tem influência não sei onde, e talvez possa me ajudar a ganhar as eleições.

— Um bom raciocínio, meu rapaz. Influência sempre ajuda… vamos avaliar. PRÓXIMO!

Candidato 4:

— O senhor também quer ser vereador; acha que está preparado para assumir essa importante função?

— Bom, eu acho que sim… já fui síndico do meu prédio várias vezes.

—Síndico? Uma ótima formação para o cargo; vamos avaliar. PRÓXIMO! Continue lendo

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A mulher de outrora

Procurou no armário e encontrou, embaixo dos cobertores e das roupas de inverno, o álbum de fotografias. Olhou com atenção aquelas  imagens: eram rostos do passado, sorrisos do passado, lugares do passado. Quase tudo que  vivera estava ali, registrado em centenas de fotos.

Conforme folheava, recorda-se de como era há 30, há 20, há 10 anos. A mulher que via  era mais jovem, menos experiente, às vezes até mais sorridente, mas não se parecia com ela. Demorou  a se reconhecer, demorou a admitir que aquele passado tinha mesmo feito parte da sua vida. Mas tinha… e era passado.  O passado que não voltaria mais, o passado que tinha ficado apenas no álbum de fotografias.

Era uma nova mulher, por dentro e por fora. Sentia-se mais bonita, mais viva, com mais vontade de tornar realidade seus sonhos, antes apenas guardados no coração, como se fossem velhos retratos.

A mudança causava estranheza aos olhos e ouvidos alheios, como se estivesse predestinada a passar a vida sendo do mesmo jeito. E ela não queria mais ser do mesmo jeito.

De um jeito morno, meio apagado, de um jeito em que seus desejos e anseios ficavam sufocados, esperando pela oportunidade de virem à tona. Não queria ser a mulher do “tudo bem”, “por mim”, “tanto faz”, “você que sabe”, “pode ser”.

Queria ter vez, queria ter voz. Não para se exibir, mas apenas para deixar sua essência falar mais alto, exalar pelos poros, saltar pelos olhos.

Seus valores ainda estavam lá e ecoavam fundo na sua alma; não tinha a intenção de abandoná-los, mas precisava dar um novo tom aos seus dias, um novo sabor à sua história.

Olhou de novo para o álbum de fotografia; olhou-se no espelho. Definitivamente, a mulher de outrora havia ficado por lá.

 

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Não quero ser sombra

Dizem que os planos em comum podem ser um dos ingredientes para se manter uma relação afetiva em harmonia. Quando o casal une esforços, a possibilidade da concretização dos objetivos é maior. Conheço casos de homens e mulheres que, inclusive, tiveram uma ascensão financeira depois de juntarem as escovas de dente, justamente porque planejaram juntos suas conquistas.

E isso não vale apenas para as questões financeiras; o plano de ter filhos, de fazer uma viagem, de montar um negócio, de fazer um concurso público, de pintar o muro de verde, de andar de bicicleta no final da tarde… vai saber.

Planejar a dois pode ser muito bom.

Entretanto, incomoda minha alma inquieta perceber que, às vezes, as pessoas deixam de ter planos individuais. Não acho que seja saudável para a relação que o marido e a esposa, ou o noivo e a noiva, o namorado e a namorada, tenham apenas sonhos em conjunto.

Manter a individualidade na relação é importante; muitas vezes, inclusive, é o que pode salvar a história.

Individualidade é diferente de individualismo. Não defendo a tese de ambos apenas dividirem o teto e cada um cuidar dos seus afazeres, mas não tenho dúvidas de que, sem ter vida própria, acabamos sendo anulados, virando meras sombras um do outro. Continue lendo

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Ai se eu te pego, garota de Ipanema…

Eu não entendo porque as pessoas insistem tanto em querer comparar, por exemplo, Vinícius de Moraes e Michel Teló. Citar versos de “Garota de Ipanema” e de “Ai seu eu te pego” e fazer comparações entre as músicas é pura perda de tempo. Sabem por quê? Simplesmente porque há um abismo entre elas e, nesse sentido, não há o que comparar.

Michel Teló não é poeta; é um cantor que entoa músicas contagiantes, com letras ora chulas, ora sem pé nem cabeça, ora curiosas, mas que são ótimas para dançar. Ninguém que deseja poesia vai “beber” em Michel Teló.

Quem procura poesia vai procurar o fonte do Vinícius de Moraes. Vamos combinar que o Vinícius desejava pegar a garota de Ipanema tanto quanto a rapaziada de hoje quer pegar ao som do “Ai se eu te pego”, mas é claro que os versos da canção da MPB são  infinitamente mais bonitos.

Comparar Moraes e Teló é como comparar Renato Russo e Gustavo Lima, Flávio Cavalcanti e Rodrigo Faro, Chico Anysio e Vesgo, do Pânico, Clarice Lispector e Bruna Surfistinha. Não dá e por um motivo muito simples: cada um deles, a seu modo,tinha/tem um objetivo na vida. A rameira que vendeu milhares de livros não é uma escritora; é só uma (ex)garota de programa que relatou orgias sexuais usando palavrões de porta de banheiro. Gustavo Lima não é nenhum representante das angústias sociais da sua geração; é mais um cantor topetudo que faz sucesso em shows, nas rádios e está com o bolso cheio. Rodrigo Faro está preocupado com a audiência e isso significa um vale-tudo de atrações, custe o que custar. O tal Vesgo não é um humorista; é apenas um rapaz que faz parte de uma trupe de homens e mulheres que protagonizam quadros bizarros, dos quais a meninada gosta. Continue lendo

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Quem liga?

“Disseram que você ….” ; “Falaram que você…”; “Tem gente comentando que você…”; “Estão achando que você…”

Durante muito tempo, frases como essas me incomodavam demais. Não chegavam a me tirar o sono, muito menos o apetite, mas me tiravam o sossego. Imaginar que alguém pudesse estar com uma ideia equivocada a meu respeito me perturbava e eu me sentia na obrigação de esclarecer rumores, de justificar atitudes, de explicar decisões.

Mas a vida, que não possui um manual de instruções para nos livrar das enrascadas, tem me ensinado que não preciso investir meu tempo nessa busca insana de agradar às pessoas, tampouco preciso me descabelar para fazê-las entender o que se passa pela minha alma inquieta.

Seria muita hipocrisia da minha parte dizer que não me preocupo mais com o que as pessoas pensam. Acho que todos nós, de vez em quando, fazemos algo – ou deixamos de fazer – pensando exclusivamente na opinião alheia, até em detrimento à nossa.

Entretanto, estou conseguindo, aos poucos, libertar-me dessa sensação de que preciso ser um modelo de mulher, de esposa, de mãe. Estou encarando com naturalidade o fato de as pessoas se assustarem com algumas coisas que escrevo. Estou ouvindo com mais tranquilidade as críticas sobre o meu trabalho em sala de aula. Não sou mesmo unanimidade, nem quero ser.

Quem liga?

“Quem liga?” é uma expressão que define bem essa minha nova fase. Estou pensando até em fazer uns adesivos para colocar nos carros, pelo menos no meu e nos dos meus amigos que já aderiram à essa “filosofia”.  Continue lendo

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Vacas magras

Já usei diversas vezes por aqui a expressão “vacas magras”. A lembrança de uma vaca magra não é muito agradável, é verdade. Imaginar esse mamífero ruminante no pasto, com aquela cara de dó e com as costelas em evidência é, no mínimo, incômodo.

Mas a expressão serve bem quando queremos nos referir aos tempos em que as condições financeiras não eram as melhores; ou seja: tempos de vacas magras são aqueles períodos em que a dureza tomava conta da nossa vida.

E não tenho o mínimo pudor em relatar essas recordações; pelo contrário. Acho até que elas servem para que eu valorize minha condição atual, a qual não me alçou ao topo da pirâmide social, mas me permite ter uma vida com mais conforto.

Essa reflexão surgiu há poucos dias, em um bate-papo com colegas de trabalho, quando falávamos sobre o inverno.

Eu gosto demais dessa estação, mas confesso que me sinto meio egoísta por isso, afinal, muitas pessoas padecem nesse período, justamente por conta das vacas magras. É claro que dezenas de campanhas arrecadam agasalhos e cobertores nos meses em que a temperatura cai, mas é inevitável pensar naqueles que não têm o suficiente para se aquecer.

Pois bem.

Meus familiares e eu nunca passamos frio, nunca batemos os dentes por falta de roupas e cobertores, mas há algumas lembranças que merecem ser relatadas, embora minha mãe sempre me puxe a orelha por conta disso. “Precisa contar tudo nesse blog, menina?”  Continue lendo

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Quando as câmeras registram – quase – tudo…

Celulares com câmeras nem de longe são uma novidade no mundo da tecnologia. Não sei precisar há quantos anos é possível registrar tudo que nos rodeia com o aparelho, mas se tornou muito comum usá-lo para essa função.

De fato, há cenas que merecem ficar registradas e, nessas horas,  tê-lo por perto ajuda a não perder a oportunidade. Seja por necessidade – um flagrante de violência, por exemplo – ou por curiosidade – alguma peripécia de um animal de estimação -, filmar pessoas e situações é uma forma de ajudar a memória no processo de armazenamento da nossa história.

Entretanto, ao ler uma reportagem sobre o show do cantor Paulo McCartney em Florianópolis, uma inquietação que já me ocupava a mente há algum tempo tomou corpo. De acordo com o repórter, os milhares de fãs que lotaram o estádio do Avaí permaneceram praticamente o tempo todo com os braços levantados, mas não com o intuito de ovacionar o ídolo, mas sim de posicionar suas câmeras.

Então, o que era para ser um momento singular, para ser vivido e curtido, tornou-se uma preocupação quase obsessiva: o melhor ângulo, o zoom na dose certa, a necessidade do enquadramento.  E qual seria o objetivo de um fã do ex-Beatle ao desejar quase insanamente filmar todo o show? Guardar para a posteridade? Mostrar para os filhos e netos? Pode até ser, mas imagino que o motivo desse “momento cinegrafista amador” que tomou conta das pessoas tenha sido provar para os amigos que elas estiveram no show do Paul McCartney.

E é uma pena que isso seja assim, principalmente quando o fenômeno acontece não em um show, mas em apresentações da escola, por exemplo, quando os pais disputam quase no tapa o melhor lugar para filmar seus rebentos.  Continue lendo

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