Mês: junho 2012



Olhar para o passado, preferir o presente

Julho de 2010

 

Julho de 2012

Quem acompanha meu trabalho sabe o quanto sou saudosista. É fato que já faz algum tempo que não posto por aqui textos que relatem episódios da minha infância e da minha adolescência, mas, mesmo assim, o sentimento de nostalgia é latente em mim.

Mas acredito que ser nostálgico não queira dizer prende-ser ao passado. As lembranças das fases da nossa história, vividas de maneiras tão singulares, podem até nos acompanhar, mas elas não podem nos impedir de seguir adiante.

E, comigo pelo menos, tem acontecido um fenômeno interessante: quando olho minhas fotos de outrora, quando me lembro de coisas que fiz em um passado nem tão distante, quando me recordo da mulher que habitava em mim tempos atrás, sinto um baita orgulho do meu presente.

Tudo que vivi foi essencial para que, hoje, eu possa ser quem sou, mas não me pego olhando para o álbum de fotografias e dizendo “Nossa… queria tanto voltar no tempo…”; pelo contrário.

Meu presente me mostra que houve uma evolução em mim, por dentro e por fora. Hoje me sinto mais madura, mais autoconfiante, mais segura, mais determinada e, sem falsa modéstia, até mais bonita.

Não sei se todas as pessoas, quando olham para trás, têm essa impressão, mas hoje senti vontade de manifestar aqui no blog que, quando olho para o meu passado, prefiro o meu presente.

Penso que o grande barato desta vida, cuja “data de validade” é desconhecida por nós, é justamente estarmos em constante mutação. Não uma mutação que nos faça perder valores, mudar o caráter, esquecer pessoas especiais.

Mas uma mutação que me garanta um futuro ainda melhor que o meu presente.

 

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As novas Amélias

Composto pelo saudoso Mário Lago em 1942, o samba “Ai que saudades da Amélia” é um clássico da música brasileira.  De acordo com o site carosouvintes.org.br, “a Amélia existiu de fato (…) era o nome de uma lavadeira que trabalhava na casa da cantora Aracy de Almeida e seu irmão, o baterista Almeidinha. Amélia era ótima pessoa, de uma dedicação sem limites. Era capaz de fazer qualquer sacrifício por sua família ou por qualquer pessoa  que a ela recorresse. Tinha bom-humor e não se aborrecia com as trapaças e dissabores da vida. Todas as vezes que o Almeidinha ficava sabendo de uma desavença amorosa no grupo, costumava dizer: —-Ai, a Amélia! Aquilo sim é que era mulher! Lavava, engomava, cozinhava, apanhava e não  reclamava”.

Há poucos dias, quando discutia com os alunos sobre o papel da mulher na sociedade contemporânea, fomos nos lembrando de propagandas, poesias,  romances e músicas que retratam a figura feminina, nas mais diferentes épocas e das mais variadas formas. E então eu pensei na “Amélia”, principalmente no verso “Amélia é que era mulher de verdade”.

E hoje, 70 depois, o que é uma “mulher de verdade”?

Considerando o período em que foi composta a canção, parece ser quase natural a definição de uma “mulher de verdade” como aquela que fazia tudo bem feito e não reclamava; não bastasse isso, até apanhava. Em pleno século XXI, infelizmente ainda há muitos exemplares da espécie masculina que gostam desse tipo de  “Amélia” em casa. Não que isso os impeça de procurar em outros leitos “mulheres de mentira”, mas, pelo menos no conforto dos seus lares, há uma esposa que faz tudo direitinho e não abre o bico para reclamar.

As conquistas femininas ao longo dos anos propiciaram a nós não apenas direitos, mas um pacote de deveres que ainda  inclui casa, comida, roupa lavada, vida profissional e disposição para a horizontal. Mesmo as que têm condições financeiras de prover diaristas, babás e afins acumulam a dupla – ou tripla? – jornada.

Há mulheres que vivem única e exclusivamente em função do marido e dos filhos, quem sabe até dos netos e de mais algum agregado. Se essa for realmente uma escolha, e não uma imposição, que sejam felizes.

Mas acredito que a alma feminina – a minha pelo menos – precise também ter sua própria história, independente de quem a rodeia. Expor essa opinião pode fazer com que alguns me rotulem como uma mãe de família desnaturada; aliás, o que mais as pessoas fazem com rapidez e precisão é justamente pôr os benditos rótulos.

Uma mulher pode ser esposa e mãe, mas pode continuar alimentando seus sonhos; não sonhos como simples devaneios de alguém que só vive para os outros. Sonhos que se tornarão projetos de vida; da sua vida.

De qualquer forma, cada uma à sua maneira, somos novas “Amélias”, mas não como símbolo de uma fêmea que obedece ao macho dominante. Somos “Amélias” por sermos mulheres de verdade: buscamos o que nos preenche, almejamos o que nos torne melhores.

Uma mulher de verdade pode ser a que dedica seu sangue, suor e lágrimas para zelar pelos seus; ou a que se entrega de corpo e alma a uma brilhante carreira profissional; quem sabe a que consegue administrar as cobranças do companheiro, as necessidades das crianças, as solicitações do chefe; ou até a que cultiva flores no jardim, faz bolos no café da tarde e borda toalhinhas; por que não a que dá conta da mesa e da cama; mulher de verdade que conduz; que grita por liberdade,  que silencia seu choro no travesseiro quando o mundo não entende seus anseios.

Para os homens de 1942, uma mulher de verdade vinha com certificado de garantia; garantia de que faria tudo bem certinho e não iria reclamar. Eu não sei exatamente o que os de 2012 pensam sobre nós, mas posso lhes garantir uma coisa: a “Amélia” do Mário Lago ficou mesmo apenas nos versos da canção.

 

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A história do Chico Almeirão

Era uma vez um homem chamado Chico Almeirão. Ele tinha esse nome, pasmem vocês, porque gostava muito de almeirão. Desde bebê. Sua primeira mamadeira foi suco de almeirão; sua primeira papinha foi sopa de almeirão; seu primeiro lanche da escola foi um sanduíche de almeirão.

Chico Almeirão tinha quase 50 anos e morava sozinho em uma pacata cidade, que ficava perto de onde Judas perdeu as botas.  Ele era conhecido nas redondezas por sua habilidade em jogar dominó. Ninguém conseguia ganhar do Chico Almeirão.

Por causa disso, dessa sua destreza com as peças de dominó, Chico Almeirão resolveu que era hora de se candidatar a deputado federal. Sim, ele já se sentia preparado para assumir esse cargo, mesmo não sabendo exatamente o que precisaria fazer caso fosse eleito.

Então Chico Almeirão se filiou a um partido político. Ele escolheu a legenda mais bonitinha e rapidamente  fez tudo que precisava para ser candidato, principalmente lavar as mãos, pois tinha ouvido falar que todo candidato precisava ter as mãos limpas.

Ele vendeu sua bicicleta e uns passarinhos que tinha e mandou fazer uns panfletos. Criou uma frase muito original, fruto de sua fértil mente criativa: “Vote no Almeirão e não fique na mão“. Como seus pais já tinham partido desta para melhor e era filho único,  não podia contar com a ajuda de parentes. O jeito era caprichar na propaganda.

Com as eleições se aproximando, Chico Almeirão resolveu incrementar sua campanha.  Ele viu na TV um comercial que dizia “Envie a palavra OTÁRIO para OOOOO e receba dicas de promessas para enganar seu eleitor”. Não pensou duas vezes. Até porque já era difícil pensar uma só.

Ele saiu pela região prometendo vagas de estacionamento portáteis, perucas para carecas, kit chapinha para mulheres de cabelos rebeldes e Big Mac na merenda de todas as escolas públicas.

E não é que o Chico Almeirão se elegeu? Com grande votação, diga-se de passagem. Então, arrumou seus coisas e se mandou de onde Judas perdeu as botas para Brasília. Dizem, eu não sei, que  ele já está pensando em se candidatar a senador.

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A regularização da coisa errada

Chamou minha atenção uma reportagem do jornal O Diário do último dia 13, mas a semana passada foi especialmente triste e não senti vontade de escrever.

Com o título “Comércio ilegal segue nas ruas do centro”, o repórter Renato Oliveira mostrou a invasão da venda irregular de produtos que ocupa as calçadas do centro de Maringá.

Esse quadro não é nenhuma novidade, mas penso que seja papel da imprensa trazer à tona esse tipo de discussão, até porque, se cair no esquecimento, há o risco de a coisa errada se tornar “normal”. E a banalização dos problemas que afligem nossa sociedade é preocupante. Ver homens e mulheres vendendo produtos nas calçadas pode até ser comum, mas não deve ser uma cena encarada como parte da paisagem.

Algumas pessoas entrevistadas argumentaram que eles não estão “fazendo nada de errado” e que “é melhor fazer isso que roubar”.

Discordo. Roubar é errado e quem faz isso precisa ser punido, mas se os lojistas – grandes, médios ou pequenos – têm o dever de assumir toda a burocracia  necessária para abrir um estabelecimento e mantê-lo em atividade, esses camelôs também estão infringindo a lei ao simplesmente colocar seus produtos espalhados pelo chão e aguardar pela “visita” dos clientes.

Considerar essa atividade correta simplesmente porque se imagina que essas pessoas poderiam cometer outros crimes é um argumento sem coerência; aliás, é desculpa esfarrapada.

A desigualdade social é uma mazela brasileira e disso ninguém tem dúvidas; a burocracia e a carga tributária muitas vezes afastam os comerciantes da formalidade. Entretanto, se a lei prevê deveres e direitos para quem decidir abrir seu estabelecimento comercial, não há o que fazer senão cumpri-la. Pode-se lutar para mudá-la, mas não desrespeitá-la.

Aceitar passivamente o comércio ilegal nas calçadas – de produtos contrabandeados, charmosos artesanatos ou suculentas frutas – é sinal de que, como cidadãos, jogamos a toalha. É uma visão do “salve-se quem puder”.

Autoridades e população precisam mesmo discutir sobre esse tema, mas encarar com naturalidade o que é errado é prova de que, como sociedade, ainda temos um longo caminho a percorrer. Um caminho cheio de vendedores preferindo burlar a lei a respeitá-la.

 

 

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“Eu não tive escolha”

“Eu não tive escolha.” Tão comum ouvirmos essa frase vinda da boca dos outros; tão comum que às vezes ela saia da nossa boca.

Dependendo da besteira que fazemos, tentamos justificar a atitude com um “não tive escolha”. Mas será que não tivemos mesmo ou será que não quisemos fazer outra escolha?

À criança é dado pouco direito de escolha, a começar pelo seu nome; depois vêm as roupas, a decoração do quarto, os adultos escolhidos para apadrinhá-la, as viagens de férias de com a família. Tudo escolhido previamente, sem que sua vontade seja consultada. Entretanto, considerando que ela ainda não tem maturidade para tomar decisões, nada mais natural que ver pai e mãe escolhendo pelo filho.

Mas nós adultos temos maturidade suficiente para fazer nossas próprias escolhas – ou deveríamos ter pelo menos. Além do poder da escolha, que vem como um direito embalado para presente, também recebemos o pacote das consequências dessas escolhas, as quais nem sempre são as melhores.

Essa situação pode acontecer nas relações afetivas, quando escolhemos com quem queremos ficar e até quando; nas relações profissionais, quando temos a condição de escolher que carreira queremos seguir;  nas relações familiares, quando escolhemos o grau de intimidade de cada relação; nas relações sociais, quando decidimos as pessoas que farão parte do nosso círculo de amizade.

Sei que nem sempre é tão simples assim; às vezes somos obrigados a conviver com pessoas que nem de longe fariam parte do nossa lista de escolhidos; ou então há quem precise amargar no emprego que não o faz feliz por precisar temporariamente daquele salário.

Mas, à parte essas situações específicas, ainda acredito na nossa capacidade de escolher. Aliás, muito do que colhemos nesta vida é fruto das nossas escolhas pessoais e aí não adianta buscar um culpado pelas bobagens que fazemos.

Quem escolhe comer a recusar aquela guloseima que lhe oferecem não pode culpar o destino por estar acima do peso; quem prefere descansar no fim de semana a fazer um curso de pós-graduação, por exemplo, não pode se lamentar dia e noite sobre a falta de oportunidades na sua vida profissional; quem escolhe ser mãe precisa estar ciente do quanto essa tarefa exige da mulher.

Eu escolhi escrever o que penso; ou quase tudo o que me invade a alma, pelo menos. Se fiz essa escolha, tenho que estar preparada para críticas.

“Eu não tive escolha” não chega a ser uma desculpa esfarrapada; essa frase explica muita coisa, mas nem sempre justifica. O bom mesmo é pensar antes de escolher.

ATUALIZADO EM 13.06: Bonitinhos, ontem perdi um tio muito querido, vítima de um infarto, e não estou em condições de escrever, nem mesmo responder aos comentários, ok? Amanhã volto aqui e faço as duas coisas. Obrigada por me compreenderem. Beijo.

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Gianecchini na minha cozinha

Compartilhei a imagem acima na minha página do Face hoje; vamos combinar que ter um empregado doméstico com esses predicativos é o sonho de consumo de qualquer dona de casa.

E reparei que, para alguns, ver uma mulher casada admitindo que seria o máximo chegar em casa e encontrar o Gianecchini lavando a louça beira a devassidão. Esse “fenômeno” chamou minha atenção porque acho perfeitamente natural que uma mulher, independente do estado civil, assuma publicamente que acha um homem, que não seja o seu, bonito. Aliás, nesse caso em especial, bonito é um adjetivo que nem dá conta do recado.

Eu duvido que meu marido não apreciasse a hipótese de ver a Paula Fernandes, com aquela cinturinha de pilão, lavando o nosso banheiro. Quem liga? Ela é linda mesmo e sei que ele admira muito mais que a sua voz.

Acho que as pessoas pensam assim porque predomina no ar a ideia de “propriedade” nas relações. É como se mulheres comprometidas não pudessem externar que outros homens lhe chamem atenção e o inverso também acontece.

E reparar em alguém não quer dizer desejar estar com essa pessoa na horizontal, não significa infidelidade.  Representa apenas algo comum nos relacionamentos, mas que quase todo mundo faz de conta que não acontece: mesmo já tendo nossos pares, outras pessoas podem nos atrair; mas não um “atrair” com uma conotação sexual. Posso achar um outro homem bonito, ou inteligente, ou engraçado. Isso não será prova de que deixei de amar o meu e nem de que ele não me satisfaça.

Homens e mulheres que estão juntos há algum tempo normalmente passam por isso, mas têm medo de revelar essas sensações, afinal, o que o mundo vai passar se eu disser que acho o Gianecchini um espetáculo mais bonito que o pôr-do-sol?

Não quero ser a Surfistinha… Deus me livre de incorporar a imagem da rameira. Mas também não quero ser a Sandy; ou pelo menos não quero carregar a imagem de mulher pudica e ilibada.

Sou uma mulher como qualquer outra, com anseios, desejos e vontades. E uma dessas vontades é ter o Gianecchini lavando a minha louça.

 

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Responsável por quem cativei

“O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, não merece ser lembrado apenas como um livro de criança ou como um título que remete a concurso de miss.  Por sob os personagens infantis, por detrás do enredo de fantasia, existem reflexões que podem ser aproveitadas por nós adultos, estranhos seres que insistem em ser complicados.

“Tu és responsável por aquilo que cativas” é um exemplo.

Lembrei-me da história porque, ao me ausentar do blog e do Face por alguns dias, constatei que houve pessoas que sentiram minha falta. Se fossem apenas as pertencentes à minha árvore genealógica, talvez essa reflexão nem fosse  adequada. Mas são amizades até recentes, algumas delas ainda virtuais.

Então fiquei pensando: “como pude abandonar, mesmo que por pouco tempo, pessoas que eu cativei?”

Penso que todos nós, ao escrever a nossa história neste plano terreno, deixemos marcas por onde passemos; também acredito piamente que, cada um a seu modo, tenhamos condições de fazer a diferença na vida do nosso próximo, mesmo quando ele nem está tão próximo assim.

Por isso, depois que cativamos alguém, não temos o direito de abandoná-lo; somos responsáveis pelo sentimento que fizemos brotar. E uma das definições para o verbo “cativar” é “obter a simpatia ou o amor”.

“Amor” é uma palavra cujo significado é muito amplo e forte, então não acho que minhas palavras cheguem tão longe, mas tenho consciência de que elas podem despertar a simpatia das pessoas.  E isso acontece aqui no blog, nas redes sociais, pelos livros que publico, pelas aulas que dou, pelas palestras que ministro; enfim, não tenho dúvida de que sou instrumento divino quando falo ou escrevo.

E por que isso acontece? Porque sou a luz? Claro que não… Às vezes não sirvo nem para ser uma mera lanterninha na vida alheia.

Esse fenômeno atinge a todos nós, de diferentes formas. Conquistamos pessoas do nosso círculo familiar, escolar, profissional, social; cativamos pelo nosso jeito de agir, pelas escolhas que fazemos, pelos valores que defendemos, pela maneira como manifestamos nossas emoções.

Nenhum de nós é unanimidade; sempre haverá quem torça o nariz para a nossa presença. Mas quando a nossa ausência é percebida – e sentida – é prova de que soubemos cativar.

E se fui capaz de cativar, serei responsável por cultivar esse sentimento.

 

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