Mês: agosto 2012



Compre um milagre, leve dois

Dizem que para bom entendedor um pingo é uma letra e que meia palavra basta. Pois é. Para quem tem alma de cronista, uma frase também basta. Foi o que aconteceu ontem, quando vi a frase “Venha buscar o seu milagre” estampada em uma faixa, adornando a fachada de uma igreja.

Seria muito leviano da minha parte julgar – e condenar – as pessoas que comandam essa igreja. Jamais saberei as verdadeiras intenções de quem convida os fiéis a “buscar” o seu milagre. Elas podem ser as melhores possíveis, inclusive. De qualquer forma, inquieta-me essa maneira que alguns filhos de Deus têm de se relacionar com Ele: tudo funciona à base de troca.

“Ore que as bênçãos virão em breve”, “Reze bastante que a graça não tarda a chegar”; “Pague o dízimo que o milagre será entregue em domicílio”.

Já escrevi sobre o tema aqui no blog. O texto está no “Primeira Impressão”, meu primeiro livro. Em “Religião Tabajara”, faço uma reflexão sobre as religiões que prometem o fim dos problemas.

Eu creio em milagres. Acredito piamente que alguém com câncer possa ser curado com a intervenção divina. Na medicina, não faltam casos em que os próprios médicos não encontraram explicação científica. Há até os que creditam mesmo a Deus a cura.

Mas, por mais que seja uma mulher de fé, não me iludo de minhas orações me tornarão imune aos percalços desta vida. Mesmo rezando e entregando meus projetos a Ele, sei que passarei por momentos difíceis, sei que o sofrimento é uma condição da minha humanidade, sei que nem sempre o milagre pelo qual espero acontecerá.

Isso não é conformismo; é uma constatação natural da nossa trajetória terrena. Não creio em felicidade plena por aqui; creio apenas em momentos felizes.

E, infelizmente, muita gente por aí, de denominações religiosas diversas, às vezes usam e abusam da fé alheia em proveito próprio. Autointitulam-se procuradores divinos, falando em nome do Todo-poderoso.

Deus não é obrigado a funcionar como um caixa eletrônico na nossa vida. Nossa relação com Ele precisa ser de amor, e não de interesse.

Quando entendermos isso, não precisaremos frequentar nenhuma feira de milagres.

 

 

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Quando derrubarmos o vaso…

Imaginem a cena: uma criança, ao correr pela sala de casa, derruba o vaso que adornava a mesinha de centro (ainda existem mesinhas de centro?). Apavorada, começa a chorar, pensando no que a sociedade irá pensar dela. “Ó, céus, o que vão dizer de mim?”.

Logicamente, isso é surreal. Não a parte do vaso quebrado e do choro, mas no máximo o motivo das lágrimas seria o receio de levar uma bronca – ou umas palmadas – da mãe.

Na tenra infância, a opinião alheia é quase descartável. A sinceridade é natural. Se a criança não gosta de alguém, não faz a mínima questão de disfarçar. Ao contrário, quando sente afeto faz demonstrações admiráveis.

Da mesma maneira, meninas e meninas dessa faixa etária não perdem o sono com medo do rótulo que levarão por conta de terem dito à tia que ela está gorda ou ao namorado da irmã que ele tem mau hálito, tampouco vão pedir perdão ao vizinho de apartamento por terem gritado depois das 22h ou ficar apavorados com a ideia de não ter o mesmo corpo da criança da revista.

Crianças pensam e falam, sem censura; crianças fazem coisas erradas, mas estão pouco preocupadas com o julgamento social.

Depois de um tempo, ao entrar na adolescência e depois na fase adulta, essa sinceridade e essa despreocupação vão perdendo espaço para as conveniências e para a necessidade de corresponder a padrões estabelecidos.

Seria o caos se o tempo passasse e nosso comportamento continuasse infantil. Não seria nada adequado pouco nos importar com os outros, afinal, conviver é estar o tempo todo exercitando a difícil arte de se relacionar.

Mas, às vezes, analiso a sinceridade do meu caçula, do alto da sua meia dúzia de anos, e penso que algum resquício dessa marca deva permanecer em nós.

No mundo dos adultos, falar tudo que pensamos é um risco, mas anular nossos pensamentos sempre em busca de aprovação causa sofrimento. Da mesma forma, dar menos valor ao que dizem por aí sobre nós pode ser uma maneira de sermos mais felizes.

Amadurecer é necessário, mas perder a sinceridade não. Conveniências são necessárias, manter a nossa essência também.

Vamos nos lembrar disso da próxima vez que derrubarmos um vaso da mesinha de centro…

 

 

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A mulher independente

A mulher independente não precisa ser feminista, mas tem que ser feminina; não precisa se parecer com a gostosa da capa da revista, mas tem que se olhar no espelho e gostar do que vê.

A mulher independente não precisa ser uma executiva e ganhar mais que o marido, mas precisa ter opção entre trabalhar só em casa ou ter dupla jornada.

A mulher independente pode ter filhos, mas tem que entender que precisa de um tempo só para ela de vez em quando.

A mulher independente não faz a sua vontade prevalecer sempre, mas faz seus desejos e anseios serem conhecidos.

A mulher independente não quer anular seu companheiro, mas também não se torna uma mera sombra do seu homem.

A mulher independente desempenha com amor suas funções de mãe, esposa e dona de casa, mas também sabe que é uma pessoa com história própria.

A mulher independente não precisa ser um vulcão em erupção na cama todos os dias e sabe dizer “não” quando seu corpo e sua mente não querem sexo.

A mulher independente às vezes precisa de colo e não tem pudor em pedir.

A mulher independente precisa dos outros para sua vida  ter mais sabor, mas continua sua trajetória mesmo quando alguém vai embora.

A mulher independente não diz “sim” quando seu coração deseja um “não”.

A mulher independente, no fim das contas, depende mais de si mesma para ser feliz.

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A lição do tigre

Assisti ao filme “A era do gelo – 4” em companhia do meu marido e dos meus filhos no último fim de semana. No máximo uma dúzia de pessoas e nós ocupamos a sala do cinema, já que a continuação estreou no início do mês de julho e talvez fôssemos uma das poucas famílias que ainda não havíamos visto mais esse sucesso do diretor brasileiro Carlos Saldanha.

Achei o filme menos engraçado que o terceiro, mas gostei muito da mensagem. Não sei se meus pequenos, entre uma pipoca e um gole de refrigerante, ficaram atentos a isso, mas fiquei mexida principalmente com um dos diálogos, quando o tigre Diego argumenta por que deixou sua alcateia para viver em bando. “No bando a gente cuida um do outro”.

Então refleti sobre a ideia de coletividade e de cumplicidade.

Quando vivemos em coletividade – na família, na vizinhança, no ambiente de trabalho, na sala de aula – podemos estar próximos uns dos outros, mas nem sempre estamos juntos. Juntos para o que der e vier, como acontece com os personagens do filme.

O coletivo implica ocupar o mesmo espaço, dividir tarefas, às vezes até suportar a presença de alguém com quem não tenhamos afinidade. A coletividade é fria, mecânica, sem graça, apenas uma obrigação.

E a cumplicidade é muito melhor, tem muito mais gosto Quando somos cúmplices, somos parceiros, somos ligados, estamos perto não apenas fisicamente, mas há um encontro de almas. Juntos para o que der e vier.

Não sei dos números de “A era do gelo -4”. Não sei como foi a bilheteria, se ganhou ou ganhará prêmios, mas é claro que a animação já deixou sua marca na história do cinema.

Mas, para mim, a grande marca foi a lição do tigre. E eu também quero viver em bando.

 

 

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Retratos da (in)gratidão

Penso que dentre tantos sentimentos que um ser humano possa nutrir dentro do seu coração, um dos  mais bonitos seja a gratidão. Reconhecer a ajuda alheia e valorizá-la é típico de quem tem nobreza de caráter.

Conviver significa estar com o outro e, em inúmeras situações, precisar dele. Tenho escrito muito sobre o quanto julgo importante para as relações – afetivas, profissionais, sociais – que mantenhamos nossa individualidade, mas isso não significa ser individualista, não quer dizer que eu viva sem meu próximo. O apoio de quem está ao nosso redor é fundamental para que alcancemos nossas metas.

É certo que nem sempre ajudamos alguém por causa dos laços afetivos. Às vezes fazemos isso por conveniência mesmo, talvez até porque estejamos vislumbrando que, em um futuro não muito distante, o favor possa ser retribuído. Essa atitude não é nobre, mas faz parte da nossa fragilidade humana e não chega a macular nosso currículo. Mas é muito triste, quase revoltante, quando percebemos que certas pessoas, depois de alcançar seus objetivos, viram as costas para quem lhes ajudou.

Além de ser ingratos, há aqueles que pioram as coisas ao não fazer pelos outros o que um dia alguém fez por eles. Quando se está em uma situação confortável, é fácil olhar para quem ainda tenta seu lugar ao sol e pensar “se vire”.

Não se esquecer da ajuda recebida é digno das pessoas do bem; ser generoso com quem um dia pode precisar de nós também.

Estou sendo genérica em minhas observações, mas creio que todos nós estamos nos lembrando de  uma situação específica, em que a ingratidão foi a protagonista. Resta saber se, nessa cena da vida, não fomos nós os ingratos.

Ingratos com quem nos ajudou no início da nossa vida profissional; ingratos com homens e mulheres que cuidaram de nós desde pequenos; ingratos com amigos que só queriam ajudar; ingratos com aquela pessoa que fez tudo que podia para nos dar uma força; ingratos com quem ficou ao nosso lado quando os demais foram embora.

Precisar do outro não é vergonhoso, mas ser ingrato sim.

 

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