Pálida de Neve e os 7 bobões

Aconteceu assim: em um reino tão tão distante, em um castelo cheio de pontas com bandeiras de símbolos esquisitos, vivia um rei, o que é não é de se admirar, considerando que lá era um reino.

O rei vivia apenas com sua sem graça filha, chamada Pálida de Neve. A rainha havia dado um chute no traseiro de Sua majestade e fugido com o personal trainer. Também havia os súditos do palácio, que nem sabiam direito para que serviam na história, mas, como bons coadjuvantes, falavam meia dúzia de frases de vez em quando.

Um dia, o rei conheceu uma bela moça no baile do Porco no Tacho, que nem ficava tão tão distante assim do reino. Ela era solteira e estava doida para dar o golpe do baú. Um passinho de forró pra cá, outro pra lá, e… pronto! O rei já estava apaixonado. Três dias depois estavam na capa da revista Caras, celebrando a nova fase.

Pálida de Neve não gostou muito da novidade, mas, com era meio tonta, ficou quieta e aceitou passivamente a madrasta.

A nova rainha era muito má, o que fez os súditos pularem miudinho, principalmente quando a bonita estava de TPM. Houve uma vez que a soberana até cortou as orelhas de uma conselheira a qual sugeriu que ela estivesse acima do peso. As orelhas foram parar em uma feijoada e servida para a plebe, que preferia feijão preto a brioches.

Pois bem.

Dentre todas as maldades da madrasta de Pálida de Neve, uma das piores foi mandar o rei ver se estava na esquina. Como no reino não havia esquinas, ele nunca mais voltou e era isso mesmo que ela queria: ficar livre, leve e solta.

Livre, leve  e solta???

Mas ainda havia a insossa da Pálida de Neve, aquela adolescente que tinha menos expressão facial que a protagonista do filme Crepúsculo. Para dominar todo o reino, a rainha precisava se livrar dela.

Então o caçador foi chamado ao quarto da realeza. Lá ela contratou seus serviços, que eram muito caros e foram pagos em 6x no cartão. A madrasta ordenou que ele levasse a garota para onde Judas havia perdido as botas. A história de arrancar o coração era coisa de contos de fadas ultrapassado.

O homem, que não caçava nem mais ratos na sua própria casa, achou a tarefa uma moleza; a princesa era meio passada das ideias e convencê-la a lhe acompanhar seria fácil, mesmo ele sendo mais feio que o cão chupando manga.

Em um sábado à noite, o caçador convidou Pálida de Neve para comer pizza em um pastelaria da floresta. Ela estranhou o convite, afinal, todos do reino sabiam que ela estava de regime. Mas, tontinha que era, aceitou.

Quando se afastaram do palácio, o homem perguntou à garota de pele mais branca que folha sulfite se ela sabia onde Judas havia perdido as botas. A jovem disse que não e se ofereceu para procurar, tanto Judas quanto as botas.

E foi nessa procura, por Judas e pelas botas, que Pálida de Neve se perdeu em meio à floresta Amazônica… ops!… em meio à floresta Nada Encantada.

Só então percebeu que tudo não passara de um plano maquiavélico da sua madrasta, possivelmente porque queria ficar com todas as suas bijuterias da 25 de Março.

Começou a chorar e, como seu rímel não era à prova d’água, logo sua maquiagem veio abaixo. Isso foi até bom para tirar um pouco da palidez da sua face. Cansada e com fome, pensando na pizza que deixara de comer na pastelaria, adormeceu em meio à relva.

Na manhã de domingo, foi acordada por uma cantoria ridícula de passarinhos que amargavam uma fossa. Ela até tentou cantar como eles, mas sua voz era ainda pior.

Caminhou por alguns metros, cambaleando como da vez em que havia enchido a cara na festa da Cinderela. Foi quando avistou uma casinha de sapê… menor que as casas populares que seu pai havia feito para ludibriar  o povo.

Foi chegando perto e, mesmo sendo bem maior que a porta, conseguiu entrar. Reparou que tudo lá era pequeno, tão pequeno quanto o salário que os funcionários do palácio recebiam.

Sem pensar duas vezes, até porque pensar uma vez só já era difícil, assaltou a pequena geladeira. Nem se importou em comer suflê de cenoura com creme de abobrinha. Comeu tanto que, depois de arrotar, juntou as sete caminhas e repousou seu branco e flácido corpo sobre elas.

Horas depois, chegaram os donos da casa: 7 bobões que trabalhavam em uma mina, escavando sem parar sabe-se Deus para quê. Eles se assustaram, não com a presença dela, mas com a sua cara pálida. Chegaram a imaginar que ela estivesse morta, mas seu ronco provou que ainda estava viva.

Pálida de Neve acordou e, depois de soltar um gritinho patético, apresentou-se aos 7 bobões. Eles não acreditaram muito naquela conversa, que mais parecia papo de candidato a vereador, mas, como estavam precisando de uma diarista, resolveram convidá-la para ficar.

Os dias foram passando e Pálida de Neve, mesmo trabalhando feito uma louca, era feliz naquele lugar. Pelo menos não precisava aguentar os ataques de pelanca da madrasta.

Como os 7 bobões já eram bem velhos e não tinham plano de saúde, aos poucos adoeceram e bateram as botas. Pálida de Neve então ficou como legítima proprietária da casa.

A vida não era muito agitada naquelas imediações. O único som era o canto daqueles passarinhos que não davam sossego nem de madrugada. Cansada daquela rotina, resolveu voltar para casa. Escreveu “partiu palácio” no Face e foi.

Qual foi sua surpresa ao constatar que o caçador havia se casado com a bruxa nariguda, a rainha má havia sido abduzida por um O.V.N.I., seu pai ainda procurava pela esquina e  o bobo da corte havia sido eleito deputado federal.

Sem muito o que fazer, alugou uma casa e foi trabalhar como vendedora de espelhos mágicos, desses que sempre dizem que as mulheres estão lindas.

E a maçã?

Bom, como maçãs sempre estragam tudo, desde o início do mundo, melhor deixar essa fruta sem graça de fora.

Sem graça nessa história só a Pálida de Neve, que não viveu feliz para sempre, até porque para sempre é muito tempo.

F I M

 

 

 

6 comentários sobre “Pálida de Neve e os 7 bobões

  1. Isadora Prado 25 de setembro de 2012 21:00

    Diria que esse texto é uma ”pérola”! Um poço inundado de criatividade… Eu até gosto de Branca de Neve, mas peço desculpas aos diretores da Disney, porque a sua versão DEU DE 10 A 0! ”à garota de pele mais branca que folha sulfite”? Ri décadas, Muuito bom Lu! ( detalhe, ainda consegui ver uma crítica a política atual) hahaha Beijo!!!!!!!!!

  2. maso 29 de setembro de 2012 05:31

    Gostei Lu!

  3. Ana 1 de outubro de 2012 08:51

    “Baile do Porco no Tacho”…HAHAHA
    Estava inspirada, heim?
    O que te levou a escrever isso e por quê?
    Isso me lembrou aqueles filmes que tiram sarro de blockbusters…
    Manda um roteiro pra Hollywood…quem sabe?
    Beijos.

  4. Jéssica 13 de outubro de 2012 10:07

    Simplismente ADOREI!!! Paranbéns!
    O Baile do Porco no Tacho e a Rainha abduzida foi hilario auhshuahushuashahusha

  5. Humberto Exaltação 4 de dezembro de 2012 18:31

    E depois você me diz que não é romântica ? Tanto amor explicito entre o caçador e a bruxa ! Quem disse que o feio não tem vez… pelo menos em suas histórias sim. Rsssss

  6. Stella 1 de março de 2015 23:39

    Lú de todas as adaptações de Branca de Neve e os Sete anões, eu diria que esta seria a que mais me faria chorar, mas claro não pelo drama da morte ou amor eterno, mas de tanto ri kkkk. Muito bom!.

Deixe um Comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.