Mês: outubro 2012



Não entre que a casa não é sua…

Manchete do jornal O Diário de hoje, a ocupação de 18 casas no Conjunto Atenas  chama atenção não apenas para o problema social da falta de moradia, mas para outra questão igualmente séria: transgredir as regras é a forma mais eficaz de o cidadão exigir seus direitos?

Desde quando o MST começou a ganhar corpo – e terras -, esse tipo de ação divide opiniões. Há os que vejam nela a única forma de o pobre, fruto de uma sociedade excludente, oferecer algum tipo de dignidade a si mesmo e à sua família. Como o Estado não dá conta de lhe garantir o direito à habitação, não sobraria outra alternativa a não ser invadir a propriedade  alheia.

Vejo controvérsias nesse pensamento. Quem ler este texto pode até me rotular como uma burguesinha metida a besta, que nunca viveu o drama de não ter onde morar. Faz sentido. Não a parte de eu ser burguesa, talvez a da metida a besta. E, de fato, sempre tive onde morar.

Entretanto, não consigo ver nessa invasão uma medida aceitável, apesar de os argumentos dados pelos invasores beirarem a comoção. Imaginar uma mulher grávida, com mais dois filhos pequenos e sem o marido, perambulando por aí realmente nos sensibiliza, mas isso não a autoriza a se apropriar de uma casa que, por direito, é de outra pessoa, igualmente necessitada.

E até posso imaginar a cena: quando a Justiça os tirar de lá, não faltarão os que, levantando a bandeira dos fracos e oprimidos, bradarão aos quatro ventos sua indignação e revolta. Só queria saber quantos, dentre esses, um dia fizeram algo em prol dos desfavorecidos.

Não há dúvidas de que as autoridades, nem sempre competentes, precisam ser cobradas quanto ao seu papel. E é papel delas dar condições para que aqueles que habitam a base da pirâmide possam, finalmente, subir alguns degraus e ter um lugar digno para viver. A Constituição prevê o direito à habitação e a teoria precisa entrar em prática. Mas a incompetência dos políticos não pode ser argumento para justificar ações de invasão.

As famílias que ocuparam as casas no Conjunto Atenas precisam receber atenção do Estado. Apenas tirá-las de lá não vai resolver a questão. Mas tornar certa uma atitude errada não vai contribuir em nada para o nosso país.

 

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Eu tenho a força… os candidatos não…

Esta postagem não é uma homenagem ao mocinho da imagem, o do corte de cabelo ridículo, até porque nunca senti uma firmeza nele e em muitos episódios torci para o Esqueleto. É que hoje, dia da tal “festa da democracia”, vou votar consciente.

Consciente de que, no fim das contas, nenhum deles, nem o da capa azul nem o da vermelha, será um super-herói que vai me livrar das forças do mal.

Consciente de que ambos são humanos, passíveis de erros, e de que representam forças políticas que podem ter propósitos bons ou nefastos.

Consciente de que nenhum deles, mesmo sob essa roupagem de bons moços, de homens que amam o povo e adoram beijar crianças, têm a força. Eles não têm a força. Nem o He-Man tem a força.

Eu tenho consciência de que a força está comigo. Amanhã, independente do resultado, precisarei trabalhar para ganhar o pão com nutella de cada dia.

Amanhã, amanheça o dia com tons azulados ou avermelhados, precisarei lavar minha roupa, cuidar os meus filhos, preparar o almoço, corrigir minhas provas, escrever meus textos, dar meus socos e pontapés na aula de Muay Thai.

Mudanças poderão acontecer, é claro. Boas, inclusive. É bem provável que alguém nessa cidade usufrua de bons projetos. É quase certo que alguma coisa a população vá ganhar depois de tanto blá blá blá.

Mas não sejamos tão ingênuos. O nosso tempo de desenho animado já passou. Político algum, mesmo o de boa intenção, consegue operar milagres.

O milagre está na batalha do dia a dia.

E nem acho que minha força esteja no voto. Minha força está na cobrança que farei depois, quando o da capa azul ou o da capa vermelha estiver ocupando o “castelo de Grayskull”.

Quando um deles estiver trabalhando para mim, também quero ser cumprimentada com sorriso no rosto e um belo aperto de mão.

É isso. Só precisava desabafar.

Eu nunca botei muita fé no He-Man… e boto muito menos em pessoas tão falíveis quanto eu…

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Dores da alma

Só quem já passou por uma crise nervosa e precisou de atendimento hospitalar vai me entender. Aos olhos e ouvidos de muitos, inclusive de profissionais da saúde, as dores emocionais não passam de frescura. Parece que só as feridas do corpo são tratadas  com atenção. As da alma são negligenciadas.

É triste saber que isso ainda acontece, apesar de toda a informação que se tem sobre a depressão e a síndrome do pânico, por exemplo. Quando o descaso vem de alguém que estudou para cuidar da saúde das pessoas, a questão torna-se mais grave.

No passado, muitos padeceram dessas doenças e certamente não tiveram, nem da família nem dos médicos, o respeito necessário ao seu drama. Hoje a situação é diferente, até porque existem diversos tratamentos para combater esses males, mas ainda percebo certo desdém quando o assunto são os problemas emocionais.

E devo confessar que as dores da alma me assustam mais, talvez porque sejam mais difíceis de ser diagnosticadas. Aliás, para que o diagnóstico aconteça, é preciso buscar ajuda e há quem ainda sinta certo constrangimento em, por exemplo, marcar uma consulta com um psiquiatra ou admitir que necessita de uma remédio tarja preta. Penso que em toda família exista pelo menos um caso de alguém que viva a experiência de ter um corpo saudável, mas uma alma doente.

O primeiro passo é reconhecer que a ajuda é necessária e o segundo é buscá-la, seja na religião, na medicina, nas relações afetivas, no trabalho, nas atividades físicas.

De qualquer forma, mesmo nos casos em que as feridas forem muito profundas, é possível encontrar bálsamos que as cicatrizem. Mas isso vai ser difícil enquanto houver alguém que ainda veja a dor da alma como frescura.

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Um altar para quinze…

O tema mexeu comigo desde o dia em que vi, no jornal O Diário, há quase uma semana, os perfis dos eleitos para ocupar a Câmara dos Vereadores de Maringá a partir de 2013, mas somente hoje consegui tempo para escrever. No questionário, um dos itens era “defeito”, ou seja, os nobres precisariam externar alguma imperfeição.

E me incomodou perceber a dificuldade que eles tiveram em assumir a sua pior característica, possivelmente por saberem que isso seria amplamente divulgado.

O defeito mais “grave” foi teimosia. Figuraram outros como “chocólatra”, “coração mole”, “perfeccionista” e “confiar demais nas pessoas”. Aliás, nas revistas de celebridades, o que mais se lê quando a pergunta pede um defeito é justamente esse tal “perfeccionismo”. Parece impressionar assumir que a busca pela perfeição é o que de pior se tem.

Não entendo essa dificuldade que a maioria das pessoas tem em reconhecer seus defeitos. Parece que, ao expor sua pobreza , sua miséria, elas estarão perdendo pontos com os outros. Eu acho justamente o contrário. Acredito ser uma prova de nobreza de caráter a exposição das limitações.

Posso fazer uma lista das minhas: sou preguiçosa, desorganizada, desastrada, esquecida, sedentária, glutona. Leio menos do que deveria. Poderia brincar mais com meus filhos. Detesto cozinhar. Falo demais, às vezes sou vaidosa além da conta. Nem sempre tenho foco nas minhas atividades rotineiras e isso me traz prejuízo, financeiro inclusive. Às vezes minto, às vezes finjo, às vezes disfarço sentimentos para minha conveniência. Todo mundo faz isso. Um tantinho que seja. E pronto. E ponto.

Não quero um santo me representando no legislativo. A Câmara é um lugar onde há uma tribuna, não um altar. Não me sentiria decepcionada se o candidato em que votei dissesse que seu pior defeito é a chatice, a arrogância ou a preguiça.

Mas, por favor, não me venham com essa conversa fiada de que confiar demais nas pessoas ou ter coração mole sejam defeitos.

Se a intenção deles foi causar boa impressão, para mim, pelo menos, o efeito foi contrário.

 

 

 

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“Tudo bem com você?”

Imaginem  a seguinte situação: dois amigos  se encontram no corredor do supermercado. Aí vem a pergunta básica “tudo bem com você?”. Ou então um liga para o outro e diz “tudo bem com você?” Quem sabe a situação aconteça no mundo virtual, quando um colega chama outro pelo bate-papo do Face: “tudo bem com você?”.

A pergunta é clássica, protocolar. É claro que pode haver um interesse mútuo entre dois amigos quando eles perguntam se “está tudo bem”, mas a frase é dita quase automaticamente.

E se a pergunta é automática, a resposta também sai pronta: “tudo bem”, “tudo ótimo”, “tudo tranquilo”.

Não posso arriscar o percentual, mas é fato que, em boa parte das vezes em que ouvimos a pergunta “tudo bem com você?”, a vontade é dizer “Tudo péssimo. E com você?”.

Mas ninguém tem coragem de externar esse sentimento. Mesmo que estejamos passando por uma situação difícil ou que simplesmente estejamos em um dia ruim, quando batemos o dedão no pé da cama logo cedo, não parece ser educado ou conveniente que sejamos sinceros.

Essa reflexão se encaixa no caso das pessoas que se candidataram a uma cadeira no legislativo na última eleição e não conseguiram se eleger. Algumas até se assustaram com o desempenho pífio nas urnas, mas fica mais bonito escrever nas redes sociais “agradeço aos que confiaram em mim” ou “me sinto um vitorioso”.

No fundo, bem no fundo, há uma sensação de dever não cumprido, de frustração. Isso é normal, Deus do céu. Qual o problema em se admitir isso? Mas me parece que, ao reconhecer que não estão bem, as pessoas estarão passando um atestado de que são fracas ou algo assim.

Não defendo a tese de que devamos contar tudo que enche o nosso coração e povoa o nosso pensamento aos quatro ventos. Se estivermos passando por dificuldades, nem sempre quem nos rodeia precisa ficar sabendo.

Mas me inquieta ver que estamos mascarando sentimentos em nome de uma imagem social.

Talvez fosse o caso de, às vezes, não respondermos “tudo bem”. Talvez fosse o caso de, às vezes, reconhecer que nem sempre as coisas estão do jeito que gostaríamos. E isso não é nenhum pecado.

 

 

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Interessante, mas distante

A frase que serve de título para esta postagem veio de uma jovem aluna. Ela me pediu alguma sugestão de leitura e, depois de ter lido o que recomendei, disse “O texto é interessante, prô, mas distante…”. Fiquei comovida com o espírito crítico e com a sinceridade dela. Do alto dos seus 16 anos, a adolescente, mesmo sem perceber, me deu uma lição de vida.

Quando sugeri a leitura, não pensei nela. Pensei em mim. Por isso não houve a aproximação entre a mensagem do texto e quem a lia. Ignorei sua idade, ignorei que a sua faixa  etária tem inquietações diferentes das que vivo.

E então pensei que, na vida, muitas vezes agimos assim. É a “síndrome do umbigo”. Focamos nos nossos desejos, mas não contemplamos o que o outro quer. Buscamos ardentemente realizar nossas vontades, mas desconsideramos a voz de quem está ao nosso lado.

Tenho defendido nas minhas mais recentes reflexões – aqui, no Face, nos livros, na coluna, no quadro da tevê – que a individualidade faz um bem danado aos relacionamentos. Preciso gostar de mim primeiro, antes de me afeiçoar às pessoas.  Preciso me (re)descobrir para encontrar alguém.

Entretanto, isso não significa pensar apenas nas minhas realizações.

Um filme pode ser interessante para mim e inclusive para meus filhos, mas talvez seja distante da realidade deles. Uma música pode ser interessante, mas nem sempre tocará todos os corações. Uma aula pode ter recursos interessantes, mas não transmitir conhecimento aos alunos. Uma pessoa pode parecer até interessante, mas, quem sabe, nem seja a ponto de estabelecer um contato próximo com quem a cerca. Ou seja: interessante, mas distante.

Eu tive boa intenção quando sugeri a leitura à minha aluna. E ela jamais imaginou que do seu desabafo brotaria uma crônica. Mas brotou.

Não sei se minhas palavras agora são interessantes, mas tomara que não sejam distantes.

 

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“Cinquenta tons de cinza”: o sucesso da literatura erótica

Capa da revista Veja da semana passada, Cinquenta tons de cinza tem  se tornado motivo de polêmica. Classificado como “erótico” por alguns e “obsceno” por outros, o livro é o maior fenômeno literário depois de Harry Potter. De autoria da escritora britânica E. L. James, ultrapassou a marca de 100 000 exemplares vendidos no Brasil, em apenas duas semanas.

Ainda não tive a oportunidade de lê-lo na íntegra, mas muitas amigas já fizeram isso e relataram para mim suas impressões. Também li trechos pela internet e acredito ter condições de opinar sobre o porquê da história entre um jovem e rico empresário (Christian Grey) e uma estudante (Anastasia Steele) estar provocando tantas reações.

O motivo é simples: um jogo sexual dá o tom ao romance. E se tem sexo no meio, o sucesso é praticamente garantido.

Entretanto, Cinquenta tons de cinza não se assemelha ao livro da rameira que relatou orgias sexuais usando palavrões de porta de banheiro. Em O doce veneno do escorpião, a autora simplesmente narra suas ousadas peripécias no universo da prostituição. No caso da britânica, apesar da forte carga erótica, existe um enredo que vai além das quatro paredes.

Na história, o casal protagonista vive um tórrido romance e as cenas dos encontros na horizontal são descritas com riqueza de detalhes. Mas o jogo que move os dois é, no mínimo, perturbador: existe um contrato entre eles, o qual determina que Anastasia seja submissa na cama a Christian Grey, um jovem milionário. O sadomasoquismo é explorado pela autora e vem daí o motivo para tanta curiosidade entre os leitores – principalmente entre leitoras.

Muitos homens estão torcendo o nariz para o livro justamente porque ele incita a fantasia entre a classe feminina. É como se tudo aquilo que desejam fazer com mulheres fora do convívio doméstico não pudesse ser cogitado por suas esposas e/ou namoradas. Infelizmente, ainda hoje existem os que reproduzem o comportamento dos personagens da novela Gabriela: são os homens que têm um desempenho morno dentro de casa, apenas cumprindo um ritual, mas buscam em outros braços – e pernas – a realização das suas fantasias.

Excluindo os casos de encontros carnais esporádicos, desses que acontecem depois de uma noite embalada a álcool, os relacionamentos estáveis entre um homem e uma mulher, mesmo depois de muitos anos de convivência, podem ter uma vida sexual interessante. A cama não chega a ser um octógono, onde exista uma espécie de “vale tudo”, mas novas experiências, desde com consentimento mútuo, são bem-vindas.

Isso não quer dizer necessariamente que, a exemplo do livro, chicotes e algemas sejam acessórios indispensáveis. Entretanto, buscar novidades é uma atitude saudável para o casal e não deve ser motivo de escândalo. O mais importante é que haja não apenas uma química entre os corpos, mas uma sintonia entre as almas.

No livro, a submissão sexual feminina é discutida e esse é um ponto interessante. Uma mulher pode ser chamada de independente não apenas quando tiver uma vida profissional satisfatória e um bom salário. Uma mulher será independente quando não se submeter às vontades do seu companheiro na cama apenas por medo de perdê-lo. Uma mulher será independente quando não se sentir constrangida em dizer para o marido ou para o namorado que tem suas fantasias e que deseja realizá-las com ele.

Cinquenta tons de cinza mexe com o imaginário feminino. Atire a primeira lingerie a mulher que ler um trecho e não se imaginar vivendo aquilo tudo.

Mas isso não é motivo para queixos caídos, tampouco para frases como “o mundo está perdido”. Sexo, se tratado como consequência de uma história, é algo maravilhoso. O problema é quando se torna a causa de uma relação, quando é banalizado e vulgarizado. Deprimente é ver que há quem venda o corpo para ganhar o pão.

Muitas mulheres da minha geração leram romances eróticos na adolescência e ninguém se escandalizava com isso. Sabrina, Bianca e Júlia eram coleções de banca de revista que faziam a festa da nossa imaginação. A diferença é que, naquela época, não podíamos concretizar nossas fantasias.

Se a ficção contribuir para tornar a vida a dois mais interessante, em tons de cinza ou em qualquer outra cor, melhor para todos nós.

 

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