“Cinquenta tons de cinza”: o sucesso da literatura erótica

Capa da revista Veja da semana passada, Cinquenta tons de cinza tem  se tornado motivo de polêmica. Classificado como “erótico” por alguns e “obsceno” por outros, o livro é o maior fenômeno literário depois de Harry Potter. De autoria da escritora britânica E. L. James, ultrapassou a marca de 100 000 exemplares vendidos no Brasil, em apenas duas semanas.

Ainda não tive a oportunidade de lê-lo na íntegra, mas muitas amigas já fizeram isso e relataram para mim suas impressões. Também li trechos pela internet e acredito ter condições de opinar sobre o porquê da história entre um jovem e rico empresário (Christian Grey) e uma estudante (Anastasia Steele) estar provocando tantas reações.

O motivo é simples: um jogo sexual dá o tom ao romance. E se tem sexo no meio, o sucesso é praticamente garantido.

Entretanto, Cinquenta tons de cinza não se assemelha ao livro da rameira que relatou orgias sexuais usando palavrões de porta de banheiro. Em O doce veneno do escorpião, a autora simplesmente narra suas ousadas peripécias no universo da prostituição. No caso da britânica, apesar da forte carga erótica, existe um enredo que vai além das quatro paredes.

Na história, o casal protagonista vive um tórrido romance e as cenas dos encontros na horizontal são descritas com riqueza de detalhes. Mas o jogo que move os dois é, no mínimo, perturbador: existe um contrato entre eles, o qual determina que Anastasia seja submissa na cama a Christian Grey, um jovem milionário. O sadomasoquismo é explorado pela autora e vem daí o motivo para tanta curiosidade entre os leitores – principalmente entre leitoras.

Muitos homens estão torcendo o nariz para o livro justamente porque ele incita a fantasia entre a classe feminina. É como se tudo aquilo que desejam fazer com mulheres fora do convívio doméstico não pudesse ser cogitado por suas esposas e/ou namoradas. Infelizmente, ainda hoje existem os que reproduzem o comportamento dos personagens da novela Gabriela: são os homens que têm um desempenho morno dentro de casa, apenas cumprindo um ritual, mas buscam em outros braços – e pernas – a realização das suas fantasias.

Excluindo os casos de encontros carnais esporádicos, desses que acontecem depois de uma noite embalada a álcool, os relacionamentos estáveis entre um homem e uma mulher, mesmo depois de muitos anos de convivência, podem ter uma vida sexual interessante. A cama não chega a ser um octógono, onde exista uma espécie de “vale tudo”, mas novas experiências, desde com consentimento mútuo, são bem-vindas.

Isso não quer dizer necessariamente que, a exemplo do livro, chicotes e algemas sejam acessórios indispensáveis. Entretanto, buscar novidades é uma atitude saudável para o casal e não deve ser motivo de escândalo. O mais importante é que haja não apenas uma química entre os corpos, mas uma sintonia entre as almas.

No livro, a submissão sexual feminina é discutida e esse é um ponto interessante. Uma mulher pode ser chamada de independente não apenas quando tiver uma vida profissional satisfatória e um bom salário. Uma mulher será independente quando não se submeter às vontades do seu companheiro na cama apenas por medo de perdê-lo. Uma mulher será independente quando não se sentir constrangida em dizer para o marido ou para o namorado que tem suas fantasias e que deseja realizá-las com ele.

Cinquenta tons de cinza mexe com o imaginário feminino. Atire a primeira lingerie a mulher que ler um trecho e não se imaginar vivendo aquilo tudo.

Mas isso não é motivo para queixos caídos, tampouco para frases como “o mundo está perdido”. Sexo, se tratado como consequência de uma história, é algo maravilhoso. O problema é quando se torna a causa de uma relação, quando é banalizado e vulgarizado. Deprimente é ver que há quem venda o corpo para ganhar o pão.

Muitas mulheres da minha geração leram romances eróticos na adolescência e ninguém se escandalizava com isso. Sabrina, Bianca e Júlia eram coleções de banca de revista que faziam a festa da nossa imaginação. A diferença é que, naquela época, não podíamos concretizar nossas fantasias.

Se a ficção contribuir para tornar a vida a dois mais interessante, em tons de cinza ou em qualquer outra cor, melhor para todos nós.

 

8 comentários sobre ““Cinquenta tons de cinza”: o sucesso da literatura erótica

  1. RAHEG 1 de outubro de 2012 15:38

    A verdade é que desde que o mundo é mundo, tanto homens como mulheres tem guardado dentro de si, fantasias sexuais que sonham realizar um dia. Em função de nossa sociedade machista, apenas os homens (e nem sempre) as põe em prática, ficando a mulher na maioria das vezes, apenas com aquele desejo povoando seus pensamentos.
    Eu, penso da seguinte forma: Se os dois se gostam, se amam, ou simplesmente se dão bem na cama, tudo é valido e aceito. Óbvio respeitando os limites imposto pela parceira ou parceiro, o importante é que ambos consigam atingir o máximo prazer.

  2. Marco Hruschka 1 de outubro de 2012 16:37

    Parabéns pela matéria, Lu. Realmente esse livro está dando o que falar. O erotismo na literatura passou por um grande período de tabu e hoje ganha o seu espaço. Entretanto, muitos ainda confundem sensualidade com obscenidade. O sexo faz parte das nossas vidas. Praticamos diariamente (ou quase, rsrs), mas quando vamos colocar no papel corre o risco de se tornar vulgar. Discordo, em partes. A literatura é uma arte. Isso significa que uma descrição de uma cena sexual, explícita, sem contornos, sem subjetividade, sem criatividade, sem encanto, não é nada mais do que isso mesmo, uma descrição. Mas uma cena bem descrita, merece toda a atenção e o respeito. Deixo aqui, minha cena de amor favorita, na literatura, claro está: “Em profunda escuridão se procuraram, nus, sôfrego entrou nela, ela o recebeu ansiosa, depois a sofreguidão dela, a ânsia dele, enfim os corpos encontrados, os movimentos, a voz que vem do ser profundo, aquele que não tem voz, o grito nascido, prolongado, interrompido, o soluço seco, a lágrima inesperada, e a máquina a tremer, a vibrar, porventura não está já na terra, rasgou a cortina de silvas e enleios, pairou no alto da noite, entre as nuvens, pesa o corpo dele sobre o dela, e ambos pesam sobre a terra, afinal estão aqui, foram e voltaram.” José Saramago (Memorial do Convento). Lerei o livro para tirar minhas conclusões. Abraços

  3. Verônica 1 de outubro de 2012 21:24

    E porque não dizer que a mulher também independente quando puder ser: a tal da “rameira”!!!

  4. Amanda Siqueira 3 de outubro de 2012 22:46

    Procure no google: LIVRO CIBERCÉLULAS. Este livro irá te surpreender!!

  5. Raiane Guimarães 25 de outubro de 2012 23:06

    Sinceramente, não sei por que o alarde de um livro como este fazer sucesso, a história não é só sexo, e quem já leu toda a trilogia sabe do que falo, a história te prende e cada segundo é intenso, tão intenso que li a trilogia completa em uma semana, No final da história até podia estar escrito ”E eles viveram felizes para sempre”, a história é perfeita e revela desejos que muitos têm mas não coragem de expor por um falso pudor que reina nestes tempos de suposta liberdade de expressão. Mas o delicioso é perceber que por contas das pesquisas que indicam que 99,9% dos leitores são leitoras confundiu ainda mais os homens sobre o que de fato nós mulheres queremos. Por enquanto nada de coleção de 50 tons na estante para mim, meu teria um infarto se descobrisse que o li, mas para compensar a autora por ter baixado o livro sem que ela ganhasse nada, compra-lo-ei qundo tiver idade para isso, afinal ela merece todos os créditos por escrever minha segunda saga predileta(a primeira é a As crônicas de Gelo e Fogo) e acho que para alegria dos leitores ela deveria continuar a escrever livros assim !

  6. ruthcosta 5 de novembro de 2012 09:48

    adorei os livros,é como se estivessemos vivendo aquela cena,adoro o romantismo que a historia tras,cheguei a chorar em algumas cenas.

  7. juliano cesar de oliveira 9 de abril de 2014 18:37

    Adorei esse livro, mas vc já leu o livro “reverso” escrito pelo autor Darlei…apesar de não ser tão conhecido, se destaca por marcar a história, pois coloca em cheque, as leis que governam o nosso universo, e ainda por cima desafia os principais dogmas religiosos, nossas principais crenças são postas em dilemas cruciais, enfim se trata de um livro arrebatador, esse é o link do livro na livraria cultura.
    Abraços..
    .

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