Mês: novembro 2012



Tratado sobre a estupidez

A juventude envelhece, a embriaguez passa, a burrice se educa, mas a estupidez é eterna. (Aristóteles)

Segundo o dicionário Houaiss, “estupidez” significa “tolice”, “asneira”, “indelicadeza”, “grosseria”. Eu acho que essas palavras não contemplam de forma ampla o significado desse substantivo. Aliás, quando Aristóteles afirmou que a estupidez é eterna, certamente ele não estava se referindo a uma simples tolice, a uma mera indelicadeza,  a uma situação específica de grosseria.

A estupidez a que o filósofo se referiu é característica dos que se recusam a evoluir.  E isso não tem a ver com grau de instrução, com títulos acadêmicos. Tem a ver com pessoas que são estúpidas, mesmo sendo inteligentes.

E como isso é possível?

O conhecimento enciclopédico, aquele que se aprende na escola e também na vida, por meio de fontes variadas, é importante e pode ser o grande diferencial na ascensão profissional, social e financeira de alguém. Uma pessoa com vasto conhecimento assim é inteligente.

Mas mesmo os inteligentes podem ser estúpidos. E eles serão sempre que se recusarem a mudar de ideia por pura teimosia. Pessoas inteligentes serão estúpidas quando não fizerem reflexões sobre o mundo que as cerca e apenas vomitarem teorias e notas de rodapé. Pessoas inteligentes provarão que são estúpidas quando se julgarem melhores que os outros por causa dos diplomas que guardam nas gavetas.

O jovem pode rever seus conceitos sobre a vida quando chegar à maturidade. O bêbado pode voltar à sobriedade depois de um bom sono e uns goles de café. O ignorante pode buscar fontes de informação e sanar suas dúvidas. Mas o estúpido, ah, o estúpido jamais admitirá  sua estupidez. Ele está ocupado demais pensando em si mesmo.

O estúpido não se sensibiliza com a dor do próximo, não é generoso. O estúpido apega-se a coisas, e não a pessoas. Ele não sugere, mas é ótimo para reclamar. Abre a boca para denegrir, jamais para elogiar. Ironiza a fé alheia, mas, quando conveniente, é hipócrita o suficiente para ler a Bíblia e chorar.

Estúpidos não têm bom humor e são ranzinzas. Homens estúpidos tratam a mulher como um pedaço de carne. Mulheres estúpidas se consideram meros pedaços de carne.

A estupidez cega, ensurdece, emudece. O estúpido não enxerga ao longe simplesmente porque não se esforça para isso; não ouve nada além do que lhe seja oportuno; não dá opinião quando necessário.

Pessoas estúpidas acham que o dinheiro lhes tornam melhores que os outros. Acreditam piamente que são auto-suficientes. Rotulam como ruins a piada que não entenderam e o livro que nunca leram.

Estúpidos são chatos, quase insuportáveis, entretanto é preciso conviver com eles. Mas não eternamente. Bom mesmo é mandar o estúpido passear.

Comecei com Aristóteles. Terminarei com Einstein: Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.

 

 

6 Comentários


A mentira do rei

Nem estava nos meus planos trazer a discussão para o blog, mas postei um comentário no Face e, devido à repercussão, achei que seria interessante abordá-lo por aqui também.

Fãs do Roberto Carlos, por favor, não me processem. Não furem o pneu do meu carro, não pichem o meu prédio, não me enviem maçãs, não tirem as minhas férias.  Não tenho culpa. Eu também aprecio as canções dele. A verdade dói, mas é sempre a melhor opção. E a verdade é que o rei está mentindo.

Minha tese está fundamentada na música “Esse cara sou eu”, que está tocando muito nas rádios, principalmente porque é trilha sonora do casal protagonista da novela “Salve Jorge”. Um casalzinho bem sem graça, só para registrar.

A letra da música já ganhou versões cômicas nas redes sociais e muitos homens estão insistindo em dizer que veem o tal cara sempre que se olham no espelho. Mas é mentira. Esse cara não existe.

Uma amiga me disse “mas o Roberto deve ser assim”. Eu não acredito. Desse jeitinho? Conversa… E querem saber? É ótimo saber que não existem exemplares assim.

No período da paixão, quando as pessoas nem sempre convivem, mas apenas se relacionam, é até possível que haja homens como o personagem da música, que vive em função da mulher amada. Ele conta os segundos para vê-la, abre a porta do carro, enxuga as lágrimas, não enxerga os defeitos, enfim, vive o período do sentimento que inebria os sentidos e impede que qualquer pensamento racional possa surgir e atrapalhar tudo.

Mas a paixão… ah, a paixão… ela passa. Deus do céu… que remédio? É efêmera, não tem jeito.

E o lado positivo dessa história toda é saber que, depois desse sentimento arrebatador, quando homens e mulheres cometem loucuras pelo ser amado, vem o amor. Se não houver um chute no traseiro antes, obviamente.

O amor faz com que as pessoas ainda queiram ficar juntas e talvez até morar sob o mesmo teto, mas elas têm consciência de que existe vida fora do relacionamento. Não são grudentas, não acham que o parceiro  seja o centro da sua história. Isso não tem a ver com individualismo; tem a ver com individualidade.

A música do rei é mesmo linda. Boa pra namorar, pra trocar uns beijos, pra olhar nos olhos de quem a gente ama e curtir o momento. Mas a letra é uma farsa. Só na ficção é possível haver um cara daquele jeito. E olhe lá, que os mocinhos de novela hoje em dia são bem esquisitos.

Bom mesmo é gente que ama o outro, mas também a si mesmo. Quando pensamos assim, acreditem, a chance de uma história dar certo é bem maior.

Roberto Carlos é um poeta. E poesia é isto: palavras bonitas que nos tiram o fôlego. Mas os “caras”  da vida real são bem diferentes dos idealizados nas canções do rei.

Ainda bem.

 

 

 

 

17 Comentários


A balada do açougue

Recentemente, meu marido e eu estivemos em um evento cujo público predominante deveria ter entre 15 e 16 anos. Um casal de amigos, tão quase quarentões quanto nós, estava conosco e também se sentiu com 100 anos. Mas a diferença de idade não chegou a ser um empecilho para que aproveitássemos a noite. O que me incomodou mesmo foi ver a maioria dos adolescentes se comportando como se estivessem em um safári, ou seja, estava aberta a temporada de caça à garota mais próxima.

Trabalho com alunos do ensino médio há 15 anos e não sou uma mulher ingênua. Ouço relatos, leio matérias sobre essa faixa etária, tenho parentes próximos com essa idade. Já tinha ideia de como funcionavam os códigos do “ficar”,principalmente nas baladas,  mas confesso que não imaginava ver meninas se comportando como pedaços de carne em exposição no açougue. Era isso. Muitas delas eram pedaços de carne que andavam pra lá e pra cá, como presas fáceis, loucas para ser devoradas no jantar.

Aliás, as roupas que vestiam já traziam essa mensagem praticamente explícita: “possua-me” (só para não usar um termo mais chulo…). Toda mulher, inclusive as que deixaram a adolescência para trás faz tempo, gosta de se arrumar, de se sentir bonita, de se sentir atraente. Atire o primeiro batom a que não curte perceber que está sendo observada e admirada, tanto por outras mulheres quanto por homens. Mas penso que haja um limite para que não se caia na vulgaridade. E, infelizmente, o que vi naquela noite foram garotas que mal conseguiam se equilibrar em sapatos de salto alto com roupas tão justas e curtas que a imaginação masculina nem tinha muito trabalho.

Mas o que mais me assustou não foi a vestimenta delas. Foi o comportamento. Não havia uma etapa de seleção. Qualquer rapaz que as abordasse era aceito automaticamente e começavam os beijaços de novela das onze. Cinco minutos depois de línguas nervosas e mãos passeando pelo corpo, eles se soltavam e cada um continuava seu caminho, como se tivessem parado apenas para amarrar o calçado.

Sei que esse texto me fará receber o título de careta ou algo do gênero, mas precisava externar esse sentimento. Não quero comparar as gerações, até porque sempre houve as moças mais abusadinhas. Imaginar que essa meninada vá para a balada e fique só “paquerando”, expressão comum na nossa geração, é uma ingenuidade.

Entretanto, como mãe e educadora, preocupa-me constatar que muitos adolescentes, em especial as do sexo feminino, têm essa necessidade quase desenfreada de ter o maior número possível de parceiros em uma noite. Beijos, abraços, cheiros e amassos são uma delícia, mas ainda acho que um processo seletivo e um pouquinho de amor próprio seriam bem interessantes.

Em qualquer tempo, com qualquer idade, comportar-se como um pedaço de carne à disposição dos predadores não será uma escolha inteligente.

 

 

6 Comentários