Mês: fevereiro 2013



As fendas da lei

“Uma determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) feito ao Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) fez com que o julgamento do caso do ex-deputado Luiz Fernando Ribas Carli Filho, marcado para o dia 26 de março de 2013, fosse cancelado nesta quinta-feira (21). O STJ pediu para que um exame de alcoolemia seja julgado pelo TJPR antes de ser realizado o julgamento do caso. (…)”  (www.bonde.com.br)

Sempre que leio alguma notícia sobre o caso envolvendo o ex-deputado Carli Filho, sinto uma vontade imensa de arrancar a venda que cobre os olhos da deusa Têmis. Muitas pessoas pensam  o contrário, mas acredito piamente que o grande problema da (in)justiça do Brasil é essa cegueira. Como cidadã, desejaria ver o Poder Judiciário enxergando melhor.

A morte dos dois jovens curitibanos completará 4 anos em maio. Impossível não imaginar o sofrimento das famílias desses rapazes. Além de conviver dia após dia com a dor da perda, precisam lidar com a quase certeza da impunidade.

Um ex-aluno, já advogado, disse no Face que, por mais que a história pareça um exemplo emblemático de injustiça, é preciso concordar com a decisão do STJ. Segundo ele, “se hoje chancelarmos uma afronta ao direito à ampla defesa do acusado, talvez no futuro não possamos nos insurgir do mesmo ato contra qualquer um de nós.”

Entendo do Código Penal como entendo de aramaico, mas compreendo o que seja esse tal “amplo direito à defesa”. O que não entra na minha cabeça é essa demora toda para que haja um julgamento, esse show de recursos e adiamentos. Sou humana demais para compreender isso. Sei  que o ex-deputado é apenas acusado e que, portanto, não pode ser tratado como culpado. Inocente até que se prove o contrário, não é isso?

Mas a pergunta que inquieta meu coração é “seria a mesma coisa com o Zé das Couves?”. Tenho minhas dúvidas.

Dependendo da situação, as leis brasileiras não têm brechas. Têm fendas. E são essas fendas, mais a bendita venda nos olhos na deusa Têmis, que fazem a dor daqueles que perderam seus familiares ser ainda mais dilacerante.

Como parte do povo, não posso mudar esse quadro diretamente. Ou será que tenho o direito de  passar um corretivo em certos artigo do Código Penal? Claro que não.

Eu elejo representantes para isso. E é aí que mora o perigo.

 

 

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Sexo Miojo

Sexo é um assunto que atrai olhos e ouvidos. A maioria das pessoas, um dia ou outro, contou no meio dos colegas uma piada “forte”, como dizem. Quem sabe não tenha resistido a abrir o e-mail com fotos obscenas ou tenha compartilhado na rede social a música com letra de grande apelo erótico.

Já escrevi sobre isso aqui no blog. Quer concordemos ou não, se um dos ingredientes for sexo o sucesso do produto é quase certo. Novelas, filmes, músicas, propagandas, livros, revistas, blogs, sites, enfim, independentemente do veículo, o fascínio que questões relacionadas à vida na horizontal  exerce é impressionante.

Não é diferente na conversa do salão de beleza. Não pensem vocês que apenas os homens conversam sobre isso em meio a uma rodada de cerveja e futebol. Mulheres também gostam de trocar figurinhas. Acho que a diferença é que a maior parte de nós costuma ser mais sincera quando expõe para a amiga sua intimidade. Os homens às vezes costumam exagerar um pouquinho nas descrições, que é para manter a imagem do “macho dominante”.

E escrever sobre sexo é um risco, ainda mais quando se é casada. Meu pai mesmo torceu um pouco o nariz quando leu alguns textos no meu segundo livro. Sei lá… acho que sou de uma geração cujos pais nos viam praticamente como seres assexuados.

Mas acredito que discussões inteligentes sobre a nossa vida sexual sejam sempre bem-vindas. Inteligentes e necessárias. Muitos casais  preferem esconder a sujeira embaixo do tapete e ignoram o problema que bate à porta. Quando veem, estão vivendo como irmãos, apenas compartilhando o mesmo ambiente.

Cada um sabe do valor que dá à sua intimidade e do peso que essa questão tem na sua vida conjugal. Estou me referindo a casais com um relacionamento mais estável, que vivam juntos há algum tempo.

E nesses bate-papos de salão, entre escovas, esmaltes e afins, umas colegas e eu começamos a debater sobre as vantagens e desvantagens do que batizei de “sexo miojo”.

Não sei se a regra vale para toda a espécie, mas muitos homens às vezes buscam na famosa “rapidinha” apenas a realização do seu desejo físico mais instintivo. A parceira, nesse caso, funciona quase como uma companhia para que ele não realize o ato sozinho.

E nem todos, depois de terminar,  têm coragem de fazer a pergunta clássica “foi bom pra você?”, até porque já imaginam a resposta.

Sexo miojo pode ser bom, desde que seja uma vontade comum. O que discutimos é que é muito chato essa história de “vem cá, minha nega” depois de, por exemplo, um dia inteiro de discussões. Para a espécie masculina é mais fácil lidar com isso, mas, para nós, é quase impossível nos entregar de corpo, alma, coração e mente quando a vida fora do quarto não está legal.

Se o homem precisa ter a sensibilidade de perceber que às vezes a mulher quer apenas colo, e não cama, cabe a ela também fazer sua parte para a vida sexual do casal não se torne uma manutenção apressada, feita  para cumprir um cronograma.

Depois de um tempo de relacionamento, quando não só existe intimidade, mas também familiaridade, o risco da mesmice entre 4 paredes é imenso. Isso não quer dizer que precisemos fazer Pole Dance ou nos vestir de colegial ou enfermeira. Até as maiores fantasias vão perder a graça caso se tornem banalizadas ou forçadas.

Só quer dizer que precisamos olhar para o parceiro e sentir vontade de estar com ele. Vontade do seu gosto, do seu cheiro. Não aquela vontade do tempo de namoro, é claro, quando buscávamos alternativas para burlar as regras, afinal, a adrenalina do proibido era mesmo um ingrediente interessante. Mas uma vontade que me estimule a ser uma mulher interessante para o meu companheiro.

E, vamos combinar? Dormir todas noites com o pijaminha com estampa de urso que já está fazendo aniversário ou com a camiseta mais larga possível não vai ajudar muito. 

Durando 3 minutos,  meia hora ou uma madrugada inteira, sexo pode ser bom e prazeroso para os dois. Mas isso só vai acontecer se houver muita sintonia entre o casal. Na cama e fora dela.

 

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Eu uso máscaras

Eu uso, tu usas, ele usa, nós usamos, vós usais, eles usam. Não adianta querer ser a exceção da regra. Não tem jeito. Todos nós, vez ou outra, usamos máscaras para conviver socialmente. E isso não quer dizer que sejamos falsos.

Machado de Assis, grande nome da literatura brasileira, escreveu muito sobre esse tema em suas crônicas, contos e romances. É impressionante como ele, um escritor representativo do século XIX, retratou em sua vasta obra situações que vivemos ainda hoje. E isso tem uma explicação: Machado não escrevia apenas sobre o homem daquele século, mas sobre a condição humana. E o ser humano precisa, às vezes, fazer uso das máscaras para sobreviver socialmente.

Muitos se gabam dizendo ser sempre sinceros. Outros tantos levantam a bandeira contra quem tem um comportamento familiar diferente do assumido no trabalho. Mas a verdade é que algumas situações exigem que usemos máscaras.

Somos realmente verdadeiros quando estamos no mundo virtual? Aquele “que linda!” que escrevemos na foto da rede social representa mesmo o que pensamos? Ou é só uma frase para fazer um afago em alguém?  Nos comportamos na sala de reuniões da empresa como se estivéssemos na sala de tevê da nossa casa? Conversamos com os vizinhos que encontramos somente no elevador com a mesma espontaneidade com que conversamos com os amigos de infância? A jovem com poucos meses de namoro fala para o namorado tudo que a esposa com vinte anos de casamento fala para o marido?

As respostas para essas perguntas fundamentam a minha tese.

Em casa, sou mãe, esposa, dona de casa. No colégio, sou professora. Quando vou a uma loja, comporto-me como cliente. Em companhia de pessoas com quem não tenho afinidade, mas com quem sou obrigada a conviver, faço de conta que está tudo bem.

Vão me dizer que não usamos máscaras? Claro que usamos. Por necessidade, por conveniência, por sobrevivência.

Penso que a falsidade vá além. O falso arquiteta um plano para, a partir do seu teatro, prejudicar alguém. A falsidade pressupõe um toque de maldade.

Estar sempre de cara limpa seria uma ótima opção. Mas desde que ninguém saia prejudicado, uma máscara aqui outra acolá não nos torna indignos de confiança.

Aliás, eu tenho medo é de quem diz que nunca usou uma.

 

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Meu coração e eu: companheiros de viagem

Exercitar os músculos faz bem  à saúde do corpo e até da alma. Às portas do 40 anos, descobri recentemente o que é sentir prazer por uma atividade física. As aulas de Muay Thai têm me feito um bem danado. Quem foge da academia ou da pista de caminhada a vida toda mais cedo ou mais tarde sentirá na pele – literalmente, inclusive – as consequências dessa fuga.

Mas acredito que, muito mais difícil que lidar com os músculos das pernas e dos braços, por exemplo, é lidar com nosso coração, um órgão muscular involuntário e teimoso, que  insiste em desobedecer aos nossos comandos.

Reza a lenda que, em momentos delicados,  precisamos ouvir a sua voz. Às vezes, porém, a audição deve ser seletiva. Nem sempre o que ele sussurra – ou esbraveja – aos nossos ouvidos merece ser colocado em prática.

E equilibrar razão e emoção é um dos grandes desafios desta vida. Até me arrisco a dizer que não conheço quem consiga fazer isso sem passar por algum tipo de sofrimento.

Não me refiro apenas às relações afetivas, entre um homem e uma mulher, por exemplo. O equilíbrio dos nossos sentimentos passa pelo relacionamento que temos com filhos, amigos, colegas de trabalho, professores, alunos, vizinhos etc. Conviver é fascinante e desafiador e, justamente por isso, exige que não deixemos o coração tomar as rédeas.

Entretanto, isso não quer dizer que devamos resumir a nossa história a uma fórmula matemática. Administrar os afetos não significa fazer uma planilha com o nome das pessoas com quem convivemos e as possíveis reações que devamos ter.

Um tantinho de desatino de vez em quando pode fazer bem, o suficiente para dar mais sabor aos nossos relacionamentos. Um pouco de insanidade na normalidade pode ser recompensador.

De qualquer forma, apesar dos desafios,  vejo meu coração como um companheiro de viagem. Ora pulsando mais, ora pulsando menos. Ora querendo sair pela boca, ora tímido, sossegado.

Incontáveis são os poetas e compositores que usam a palavra “coração” em seus versos. Em parte talvez porque seja um vocábulo de rima fácil, é verdade.

Mas ainda acho que usam porque ele é o mais perfeito símbolo do que vale a pena nesta vida.

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