Mês: março 2013



Caveiras e borboletas

Olhava para um quadro esses dias, com um tipo de arte meio abstrata, cheio de borboletas. Pequenas, grandes. Coloridas e em preto e branco. Algumas somente traços, quase inacabadas. Chamou-me atenção a forma descontraída como as borboletas foram desenhadas. Não sei se borboletas são sempre descontraídas, se sorriem enquanto voam, se cantarolam feito passarinhos,mas aquelas do quadro pareciam bem felizes.

Enquanto contemplava a tela, um amigo se aproximou e eu perguntei o que aquele quadro lhe transmitia. “Hum… me lembrei da minha avó”.

Foi assim: a avó comprou uma blusa em cuja estampa havia várias borboletas. E as borboletas foram o principal estímulo para a escolha da peça.

Um dia, ao usar a roupa, a filha se aproximou e perguntou “mãe, por que você comprou uma blusa com o desenho de uma caveira?”.

“Caveira??? Como assim???”.

E então a senhora percebeu que as borboletas, juntinhas, formavam a imagem de uma caveira. Mas ela não havia percebido isso no momento da compra.

Meu amigo disse que ela ficou até meio desconcertada, afinal, se há quem compre gato por lebre, a avó havia comprado caveira por borboleta.

Quando ouvi este relato, não pude deixar de dizer a ele “sua avó não viu a caveira, porque era a borboleta que lhe interessava. Quem quer ver borboletas, não enxerga caveiras”.

Me parece que a senhora não quis mais usar a blusa depois que soube da “verdade”.

Achei a história muito interessante e simbólica. Sei que há quem curta a imagem de caveiras, inclusive em acessórios e roupas, mas,de alguma forma, o seu significado está ligado a algo mais fúnebre, enquanto o inseto, com suas cores vibrantes e seus voos delicados, denota beleza, suavidade.

Naquele tarde, o quadro e a conversa com meu amigo me fizeram refletir sobre caveiras e borboletas, sobre a minha forma de enxergar a vida e escolher o que quero ver.

E eu quero ver muitas borboletas…

 

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Quando perder é bom

Por causa do meu recente processo de emagrecimento, tenho ouvido muitas pessoas – mulheres, principalmente – me perguntarem qual a “receita” para eliminar os quilinhos indesejáveis. Depois da pergunta da tal receita, é quase certo que venha um “mas é um sofrimento, né? Ficar sem comer…”.

Bom, primeiro é bom esclarecer que quem tem segredo é cofre. Eu tenho força de vontade para comer apenas o necessário e praticar atividade física regularmente. Demorei para tomar vergonha na cara, mas, depois que decidi me tornar uma mulher magra, não há tentação gastronômica que me vença.

Em segundo lugar, sofrimento é perder alguém da família, perder um braço, perder o emprego. Perder peso é bom pra dedéu.

Por isso, aos que também desejam estar mais saudáveis e em paz com a balança, sugiro que se libertem dessa ideia de sofrimento.

A comida é mesmo um prazer, mas prazer maior é vestir a calça jeans e se sentir bonita. É abrir o guarda-roupa e saber que qualquer peça servirá. É ouvir elogios do marido, feliz com os novos contornos da esposa. É olhar para o espelho e gostar do que vê.

É  isso.

Perder, às vezes, pode ser bom demais.

 

 

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Desabafo

Sei que blog não é consultório, mas, na falta de um divã, uso o meu para compartilhar minhas inquietações. Sai mais barato e surte um bom efeito.

Há dias não passo por aqui. Começou o período de correções das redações dos meus alunos e isso tem me ocupado bastante. Mas não reclamo. Dispende tempo e esforço da minha parte, mas fui eu quem escolheu trabalhar com redação. Não há como ajudá-los a melhorar seus textos se não acompanhar o que escrevem.

E podem me acusar de muitas coisas, mas sou uma profissional dedicada. Não faço de conta que ensino, não faço de conta que estou envolvida com a aprendizagem dos adolescentes. Sei exatamente qual a minha missão em sala de aula como professora de redação.

Por isso estou tão revoltada. Essa história toda envolvendo a redação do ENEM me deixou com os nervos à flor da pele. Escrevi sobre isso para a coluna “Francamente” de hoje. Impossível não me manifestar.

Me esforço para que os alunos se empenhem da produção do texto escrito para um exame de nível nacional mostrar que os critérios de correção são absolutamente questionáveis. E o problema não foi a receita de miojo colocada no meio da dissertação sobre a política de imigração. Poderia ser de nega maluca ou de torta de sardinha.

O que indigna é constatar a falta de seriedade desse processo que, teoricamente, deveria aferir a competência linguística de quem pleiteia uma vaga na universidade.

Para piorar, o abençoado que teve a ideia da receita já está se tornando quase um ídolo. Não demora muito e escreve um livro, possivelmente com variações da receita do macarrão instantâneo.

Divulgo meu trabalho há 3 anos pela internet, sempre em busca de uma editora que aposte no meu trabalho, e sei o quanto a jornada é árdua. Escrevi mais de 500 textos, mas, como não tive a ideia do miojo, não virei “sensação”.

Em um país que cultua a idiotice, difícil conquistar espaço com algo que valha a pena ser lido.

Uma pena…

É por essas e outras que, tão logo ache o guarda-roupa, parto para Nárnia em definitivo.

Aí, quem sabe, eu seja notícia na internet. 

 

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