Mês: abril 2013



Adeus, vesícula

Da série “Ninguém perguntou, mas eu quero contar”:

Hoje começou a contagem regressiva para despedida da minha vesícula. Amanhã, caso o médico seja mesmo tão britânico quanto eu, às 7h30 ela sairá deste corpo que não mais lhe pertencerá.

Devo confessar que estou um pouco tensa com essa história. Tá bom. Muito tensa. É que, nestes meus quase 40 anos, nunca precisei tomar anestesia geral. Enfrentei com louvor dois partos normais justamente porque queria fugir de anestesias e cirurgias.

Mas… fazer o quê? O mestre Drummond já havia nos alertado sobre a bendita pedra no meio do caminho… A minha está no meio da vesícula.

É estranho imaginar a partida dela. Sei lá… tadinha… nasceu comigo e vai embora antes.

Cheguei a pensar em fazer um poema em sua homenagem, mas achei que seria um tantinho de exagero.

O fato é que o domingão será de preparativos para o “evento”. Tenho que organizar a rotina dos meus homens para minha ausência de 24 horas (um tempão pra eles…rs) e deixar algumas atividades profissionais encaminhadas.

Queria que torcessem por mim. Parece bobagem, já que é um cirurgia relativamente simples, mas orações são sempre bem-vindas.

Só espero que ninguém ouse tirar um “retrato” quando eu estiver com aquela roupinha ridícula e sem salto alto e sem batom vermelho.

É isso, bonitinhos.

Se quiserem deixar uma mensagem de despedida pra minha vesícula, algo como “foi bom enquanto durou”, fiquem à vontade.

Abençoado domingo para todos nós.

P.S.: por isso sou tão apaixonada pelas palavras. Já me sinto bem melhor…

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Errar é humano; negligenciar é desumano

Há menos de um mês, em Maringá, a morte da pequenina Alhandra, de apenas 10 meses, dilacerou o coração dos seus familiares e comoveu os que souberam da notícia. Sendo mãe, imagino o calvário pelo qual seus pais estão passando. Quer dizer, nem consigo imaginar. Só quem vive o sofrimento  pela perda de um filho pode imaginar.

Se a morte de quem amamos já é suficientemente dolorosa, a ideia de que a negligência possa ter sido o fator principal para isso deve ser ainda mais terrível. E, pelo que tudo indica, foi o que aconteceu com esse bebê.

Segundo relato dos pais, a falta de atendimento adequado, pelo sistema público de saúde, fez com que o quadro dela piorasse em poucos dias, o que culminou com seu falecimento.

Ao tomar conhecimento dos detalhes dessa triste história, não resisti e entrei na página da família no Facebook. Ver as fotos e vídeos da criança em momentos triviais (dando gargalhadas por causa das brincadeiras de um adulto) ou especiais (seu batizado) é comovente.

Alhandra só tinha 10 meses, mas certamente era amada por sua família há mais tempo. Com raras exceções, um homem e uma mulher, depois de pegar o resultado do teste de gravidez, já amam tresloucadamente seu filho. É um sentimento avassalador, por um ser que nem se conhece ainda.

Seus pais são jovens e certamente tinham muitos planos para a filha. Planos que se esvaíram no momento em que alguém lhes deu a fatídica notícia.

A família, com toda razão, clama por justiça. É claro que agora haverá as investigações cabíveis, fora todo  blá blá blá das autoridades, nem sempre competentes.

Não se pode generalizar: há bons profissionais da saúde, tanto no setor privado quando no público,mas é sabido que, infelizmente, a negligência médica ainda existe em muitos postos de atendimento e hospitais.

“Sua filha não foi a primeira, nem será a última a morrer por falta de atendimento adequado”, disse uma médica.

Alhandra entrará para as estatísticas. Será mais um número. É até capaz de algum político inescrupuloso da oposição se aproveitar do ocorrido apenas com o intuito de criticar a administração e ganhar votos.

Tenho compaixão desses pais. Tenho repulsa por qualquer profissional que eventualmente  tenha visto essa criança com descaso. Tenho nojo de todo político corrupto.

Somos todos falíveis. O erro faz parte da nossa natureza. Errar, como diz o ditado, é mesmo humano. Mas negligenciar é desumano.

 

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Receita para estragar um relacionamento

A pergunta é clássica nas revistas de celebridades: dois famosos estão juntos há uns bons anos e alguém lhes pede o “segredo” para a feliz união. Ou quem sabe possa acontecer com anônimos: na festa das Bodas de Ouro, o neto pergunta aos avós a “receita” para um casamento durar 50 anos. Parece que, de alguma forma, estamos sempre ávidos por uma solução Tabajara para nossas relações afetivas: “faça isso, aquilo e aquilo outro que seus problemas acabarão”.

Talvez esse desejo por entender como um homem e uma mulher possam conviver tanto tempo sob o mesmo teto e sob os mesmos lençóis parta do fato de que hoje as relações efêmeras sejam muito comuns. Uma relação efêmera não é aquela em que o sentimento deixou de existir e que, sendo assim, a separação se torna inevitável. Uma relação efêmera, que pode durar meses ou poucos anos, é aquela em que, por causa da frustração com as atitudes do parceiro, a expectativa do relacionamento se desfaz.

E por que isso acontece? Por que muitos casais terminam de forma abrupta uma história que mal começou a ser escrita?

Penso que um dos motivos seja a equivocada ideia da perfeição alheia. E esse fenômeno é natural quando a paixão toma conta. No período em que se vive o sentimento, intenso e avassalador, perde-se até capacidade de observação. Aos olhos e ouvidos dos apaixonados, o parceiro não tem defeitos; pelo contrário. É praticamente colocado em um altar. Mas a convivência revela as imperfeições, que fazem parte da natureza humana. Quando não se sabe lidar com isso, em vez de se colocar apenas uma vírgula e continuar, parece que fica mais fácil pôr um ponto final.

Apostar todas as suas fichas no outro, acreditar que ele jamais irá decepcioná-lo, crer piamente na perfeição no ser amado, deixar de pensar em si mesmo para viver em função do parceiro: eis a receita infalível para estragar um relacionamento.

Vamos deixar as receitas para os livros de culinária e os segredos, para os cofres. Enxergar quem amamos com um olhar mais realista nos permitirá ser mais tolerantes e isso sim é fundamental para relações saudáveis.

 

 

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Campanha “Parem com as campanhas”

Acho que meu tempo neste planeta está expirando. Sinto isso a cada dia. Sei lá… conviver com os terráqueos está se tornando uma tarefa muito difícil. Estou ansiosa pelo contato da minha nave-mãe.

Tenho um colega que sempre me diz “Lu, tenho dificuldade de adaptação”. Eu o compreendo. Por vezes me sinto assim: nem melhor, nem pior, apenas diferente.

E essa vontade de não seguir a multidão acaba fazendo com que eu pareça arrogante. Não é o meu desejo, mas é a imagem que acabo passando.

Estou escrevendo isso porque ando inquieta com o festival de campanhas que têm tomado conta das redes sociais, em especial do Facebook.

Entendo que a maioria das pessoas que as promovem tem boas intenções. As que promovem, as que compartilham, as que curtem, as que comentam.

É campanha contra um determinado tipo de música, campanha contra religiões, campanha a favor de Fulano ou Beltrano, companha contra o político A, B e C, campanha pelas formigas desvalidas, campanha pela preservação dos raios solares, campanha pelas pulgas indefesas, campanha para quem gosta de vestir roupa alaranjada, campanha para quem gosta de fazer campanhas.

É campanha de mais e atitudes de menos. Muita frase bonita, discurso cheio de empolgação, texto repleto de rimas, fotos chocantes, imagens impressionantes. 

Mas, no fim das contas, às vezes as pessoas nem sabe direito por que estão pensando dessa ou daquela maneira. Seguem o que chamam por aí de “efeito manada”.

Todos nós temos direito a expressar o que ocupa nossa cabeça e nosso coração, como faço agora, neste espaço virtual pelo qual tenho tanto apreço.

Mas pensar um tantinho, antes de apenas pegar lugar na fila, faria a vida neste planeta ter mais sentido.

 

 

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