Mês: julho 2013



À espera do fim

Eles esperavam sempre pelo fim. Ele queria o fim do dia para chegar em casa, assistir à TV e descansar; ela queria o fim de semana para dormir até mais tarde.

Ambos queriam o fim do mês para receber o salário e o fim do ano para curtir as férias.

Pressa pelo fim; pressa para que tudo terminasse; pressa, pressa, pressa…

Sempre atarefados, às vezes nem viam a hora passar; quando isso acontecia, ficavam felizes. Era tão bom perceber que os ponteiros do relógio haviam andado mais depressa…

Afinal, eles queriam o fim; o começo não lhes interessava; eles queriam mesmo era o fim.

O fim da prestação do carro: assim poderiam fazer uma outra compra; o fim da novela: queriam ver logo o vilão ser punido.

Quando liam um livro, não raramente pulavam páginas e iam direto para o final da história. O fim era bem mais interessante que o começo.

Sempre estavam à espera do fim.

E viviam assoberbados, sem tempo, negociando com o relógio os minutos do dia. Para lá, para cá; de manhã, à tarde, à noite.

Olhavam para o calendário com olhar fixo; riscar os dias que tinham ficado para trás era quase um gesto automático.

A rotina não os preocupava; só o fim tomava conta das suas mentes; mentes obsessivas pelo fim das coisas.

E de tanto pensarem no fim… e de tanto se preocuparem com o fim do dia, da semana, do mês e do ano… e de tanto colocarem o relógio como o centro de suas vidas…

O fim chegou mais cedo que se esperava. E não foi um final feliz.

A vida passara; o tempo passara; o amor passara.

Tão preocupados com o fim, esqueceram-se cultivar o sentimento que havia predominado no início de tudo.

E o fim foi inevitável.  Cada um escolheu seu caminho… só não sabiam qual seria o final daquela história.

A história de quem só se preocupa com o fim e não vê a vida passar.

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Não amem o Papa!

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NÃO AMEM O PAPA!

Não amem o Papa.

Não gostem do Papa.

Não acolham o Papa.

Não ouçam o Papa.

Não deem atenção ao Papa.

Ignorem o que ele fala.

Façam de conta que ele não existe.

Deixem o Papa pra lá.

Ou melhor, deixem-no pra cá.

Para o nosso lado.

Para o lado de quem professa a fé católica.

Ele é o líder da nossa igreja.

Nós nos entendemos bem.

E nós o amamos.

E nós gostamos dele.

E nós o acolhemos.

E nós o ouvimos.

E nós damos atenção a ele.

E nós não o ignoramos.

E sabemos que ele não é Deus.

Mas é um filho amado Dele.

Assim como eu… assim como todos…

Falível, pecador, limitado, frágil, imperfeito.

Humano.

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Escritora é vítima de terrorista durante a missa

Ontem, na missa das 18h na Catedral, aconteceu algo, no mínimo, inusitado. Pelo menos para mim.O padre Orivaldo havia começado o sermão quando um rapaz, muito bem vestido inclusive, aproximou-se do altar. Eu estava mais ao fundo da igreja e não vi bem a cena. Só depois fiquei sabendo os detalhes.

Ele trazia nas mãos uma Bíblia e, até aí, nada de incomum, considerando-se o ambiente.

Mas, ao chegar em frente ao sacerdote, colocou o livro no chão e ameaçou pegar uma caixa de fósforos.

Foi preciso uns 3 ou 4 homens intervirem e o retirarem do local. Ele saiu aos berros, gritando sabe-se lá o quê.

O padre continuou a pregação e só comentou o episódio ao final da celebração.

Sou uma mulher de fé, mas confesso que fiquei apavorada. Fiquei imaginando aquele homem voltando com um 38, uma metralhadora, uma bazuca, sei lá…

Podia até ver a manchete na primeira página “Escritora é vítima de terrorista durante a missa”.

Deus do céu…

Aí alguém iria dizer “Tadinha… tanto que queria lançar o terceiro livro…” “Tadinha… tanto que queria conhecer pessoalmente o Roupa Nova…” “Tadinha… tanto que queria ir pra Nova Iorque…” “Tadinha… tanto que queria ter mais mais 30 pares de sapato…” “Tadinha… tanto que queria mergulhar em uma piscina de bolinhas….”

E haveria um minuto de silêncio por aí… Se bem que eu preferiria um minuto só de palmas.

E quem sabe eu conseguisse reconhecimento pelo meu trabalho, já que brasileiro tem fetiche por defunto. Morreu, virou ídolo.

Mas o abençoado não voltou.

E a missa terminou. E eu voltei pra casa. E não apareci na primeira página do jornal.

Ufa…

 

 

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Caos inspirador

Há quem se inspire no silêncio. Muitos artistas buscam na tranquilidade a inspiração de que precisam para fazer “nascer” suas obras.

No refúgio de suas almas, escrevem, pintam, esculpem.

Comigo é diferente.

O silêncio causa em mim efeito reverso. Fico seca.

Confusão de vozes, mistura de sons. É na eferverscência da vida que minha mente entra também em ebulição.

E aí minhas mãos são obedientes. E escrevem… e vão pintando minhas ideias… e vão esculpindo meus sentimentos…

Preciso estar em meio à multidão, mesmo quando o desejo é narrar a história de alguém que sofre com a solidão.

Preciso estar em meio ao riso, mesmo quando a vontade é traduzir em versos a dor das lágrimas.

O desequilíbrio me atrai. A normalidade me assusta.

Preciso do caos para me inspirar.

Silêncio, para mim, só nos últimos minutos do dia, quando me preparo para dormir.

Acordada, preciso de agitação, de movimentação, de inquietação.

É dessa inquietação que brotam as palavras.

Palavras que traduzem meu espírito inquieto.

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Os homens preferem as loiras?

Dizem que “os homens preferem as loiras.”
Não sei se essa tese confere com a opinião da maioria. Meu marido, quando jovenzinho, sempre teve mesmo uma queda por elas. E por mulheres mais velhas. Acabou se casando com uma morena da mesma idade.

Acho que, no fundo, os homens – os de bom gosto – preferem as mulheres que sabem cuidar do corpo e da alma.

Preferem as que sabem explorar a sua sensualidade sem que, para isso, precisem (quase) se desnudar em público.

Preferem as que sabem falar e as que sabem ouvir; as que sabem rir e as que sabem a hora de chorar.

Preferem as que têm um bom papo, as que se valorizam e têm planos para sua vida.

No fundo, acho que a cor do cabelo não é tão determinante assim.

Se quisermos, podemos ser loiras, morenas, ruivas. Com tantas opções de coloração no mercado e bons cabeleireiros por aí, não há limites para mudar o visual das nossas madeixas.

Mas não há tintura que nos faça ser especiais.

O que está por fora seduz, mas é o que se esconde que conquista.

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Filme de 36 poses

“O tempo não para”. A frase é título de uma das inúmeras composições do Cazuza, mas vamos combinar que é o cantor não fez nenhuma descoberta científica. Se há algo fácil de se constatar nessa vida é que o tempo não para.

Eu percebo que o tempo não para de muitas maneiras. Quando vejo minha data de nascimento  na cédula de identidade e faço as contas, quando me olho no espelho e reparo nos pés de galinha, quando reencontro ex-alunos já casados e com filhos, quando me lembro de que fiz curso de datilografia no Senac, quando me recordo de que tive o LP do Balão Mágico…

Mas se há algo que faz meus (quase) 40 anos ficarem bastante evidentes é o fato de eu ter pertencido a uma geração que comprou filmes para as máquinas de fotografar. De vez em quando relato estas histórias para meus alunos adolescentes, os que hoje usam e abusam do Instagram. Pela carinha que fazem, acho que nem conseguem imaginar o que era ir para uma festa e pensar vinte vezes antes de tirar uma foto só por medo de perdê-la.

Quando o dinheiro estava curto, a saída era comprar um filme com apenas 12 poses. E estar em um aniversário e poder tirar apenas 12 fotos exigia do fotógrafo amador uma baita habilidade em decidir quais pessoas,  momentos e poses mereceriam ser registrados.

Um dinheirinho a mais e comprávamos filmes de 24. Em tempos de vacas gordas, de 36! E isso era motivo para comemoração e até para ostentação. “Fiquem tranquilos… eu comprei um filme de 36”, diziam os mais esnobes.

Mas a adrenalina estava na hora de buscar as fotos reveladas. Nos anos 80, o prazo era de uma semana mais ou menos. Até lá, depois de uma viagem, por exemplo, dá-lhe habilidade em descrever as paisagens.

Era comum deixar filmes de 12 poses e, ao retirar as fotos, recebermos 13 ou 14. Nunca entendi como isso acontecia, mas o fato é que, talvez de forma sobrenatural, éramos contemplados.

Entretanto, também havia a parte do choro e do ranger de dentes. Todo o orgulho de ter levado um filme de 36 ao casamento da prima se desfazia ao percebermos que pelo menos umas 10 haviam queimado. E daí ficávamos batendo a cabeça para lembrar quais haviam sido. Às vezes, justamente o momento mais especial teria que ficar apenas na memória.

Isso sem contar aquelas em que só metade da família  aparecia no enquadramento e a parede ganhava mais destaque que as pessoas. Ou todos ficavam com os olhos fechados. Ou quem sabe uma luz semelhante a do filme Ghost simplesmente ofuscava o semblante do aniversariante.

Frustrações à parte, colocávamos as fotos cuidadosamente nos pequeninos álbuns, que eram uma espécie de brinde. Lembro-me de que minha irmã mais velha não permitia que víssemos as fotos antes de elas estarem acomodadas nos plásticos para evitar que marcas de dedos estragassem a nossa relíquia. As melhores eram escolhidas para enfeitar a estante da sala em modestos porta-retratos de madeira.

Quem é da minha geração certamente tem caixas e mais caixas de sapato repletas com esses álbuns. Hoje há muitos que revelam as fotos também, mas o grande barato é mostrá-las nas redes sociais.

Minha mãe se incomoda com isso e quase nos suplica para que revelemos as fotos.  No alto dos seus 72 anos, ela não acha muita graça em só vê-las na tela do computador ou na do celular e faz questão de ter a estante repleta com registros da família. E isso é mesmo o que importa: tirando 36 fotos ou 500 em uma festa de aniversário,  o bacana é que elas registrem a nossa história.

Afinal, já que o tempo não para, que nos seja possível guardar, em álbuns e em nossos corações, pessoas e momentos especiais.

 

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Redação “Minhas Férias”

 

Quando assumi a docência, prometi a mim mesma que não faria meus alunos passarem certos constrangimentos pelos quais passei quando estava nos bancos escolares. E uma dessas promessas se referia à famigerada redação “Minhas férias”. Até hoje, mais de 15 anos depois, mantenho-me firme nesse propósito.

Não que eu tenha desenvolvido algum trauma por causa dessa atividade, mas a lembrança não é das melhores. No retorno das férias de julho, a professora de português, do alto da sua falta de criatividade, não pensava meia vez antes de nos entregar uma folha com  linhas sedentas para ser preenchidas. Eu, entretanto, não estava nem um pouco sedenta para escrever , afinal, depois de passar um mês apenas assistindo à televisão e brincando com minhas irmãs no quintal, não tinha muita motivação para descrever meus dias de descanso.

Entretanto, mexer no meu baú de recordações, no capítulo “férias de julho”, também me provoca boas lembranças quando vêm à minha cabeça os dias que eu passava na casa dos meus avós. Para quem conheceu o mar com 17 anos, a casa de parentes  foi a grande opção “turística” na infância e na adolescência.

A cidade onde  meus avós maternos moravam na época fica a duas horas de Maringá. E um dia, quando completei 13 anos, meu pais decidiram que eu já estava pronta para viajar sozinha de ônibus. Lembro-me com riqueza de detalhes de como aquele decisão mexeu comigo. “Sozinha? De ônibus?”. Para uma adolescente bobinha, aquele era quase o rito de passagem para a vida adulta.

Na rodoviária de Maringá, o motorista deve ter imaginado que eu sofria de algum distúrbio e pensado seriamente na hipótese de me amarrar na poltrona depois da lista de recomendações do meu pai, que, apesar de já me conceder essa emancipação, morria de medo de que eu descesse na cidade errada. Antes de rotulá-lo como exagerado, é bom lembrar que estou falando de 1987, quando nem sonhávamos com celulares.

Mas eu cheguei, sã e salva, para passar meus dias de descanso na casa daquele homem e daquela mulher de rostos marcados pela idade, de mãos calejadas pelo trabalho e de corações repletos de amor pelos netos. Às vezes havia um ou mais primos dividindo a atenção deles – e os colchões também -, mas, mesmo em meio à balbúrdia, era bom demais estar lá.

Aprendi a fazer arroz e feijão com minha saudosa avó Amélia. É claro que jamais consegui imitar o seu tempero, o mesmo cujo gosto agora faz minha memória gustativa machucar meu coração de saudade, mas me sentia orgulhosa de chegar em casa e mostrar para mim mãe que eu quase podia casar.

Era tudo tão simples… o cardápio, a casa, os programas, as conversas… mas tudo que vivi ao lado dos meus avós tem para mim valor inestimável. Nesta vida, podem tirar tudo de nós, mas jamais alguém poderá nos usurpar o prazer que as boas lembranças proporcionam.

E sabem que agora, chegando aos 40 e há mais de 10 sem desfrutar da companhia deles, vejo que havia muito o que contar naquelas linhas que a professora me oferecia no retorno às aulas. Era só eu descrever os detalhes de uma linda história de amor de avós e netos.

 

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