Mês: agosto 2013



O dia em que o noivo não foi ao seu casamento

Encontrei esta foto há poucos dias, naquelas caixas de sapato que guardam retratos e histórias, e não resisti em publicá-la por aqui. A noiva era minha catequista na época. O ano, 1983 ou 1984, e eu estava com 10 ou 11.

Mas o casamento era para ter acontecido um ano antes. Ela me chamou para ser madrinha de aliança e fiquei toda feliz. Minha mãe fez um belo vestido e comprou os acessórios necessários ao momento.

O noivo era caminhoneiro. Em meados da década de 80, a comunicação era apenas por telefone fixo e nem todos tinham um aparelho em casa. De fato, não era fácil mandar notícias.

Pois bem.

Chegou o sábado tão esperado. Por ela e até por mim, que iria estrear na função de madrinha de aliança.

Mas, pasmem vocês, o noivo não apareceu. Simplesmente sumiu!

Ela não chegou a ir à igreja, mas vestiu-se e ficou esperando até o último minuto.

Lembro-me com riqueza de detalhes da cena: como tudo já estava organizado, a festa aconteceu. A casa era simples e pequena. Um encerado preto fazia as vezes de varanda e o pó de serra servia como amenizar a poeira. Dentro de grandes latões, gelo, cerveja e refrigerante. Bolo, churrasco, até sanfoneiros.

E a minha catequista no quarto, chorando. E eu também me debulhando em lágrimas, quase tão frustrada quanto ela.

Após alguns dias, ele apareceu. Não me recordo da justificativa para a ausência. Só sei que ela o perdoou.

Exatamente um ano depois, em um sábado pela manhã, minha catequista foi até a nossa casa e disse que iria se casar na igreja naquele dia. E perguntou se ainda poderia ser a madrinha.

Foi uma correria. Minha mãe improvisou com meu vestido da primeira comunhão e lá fui eu, cumprir a minha missão.

E eles se casaram mesmo, mas sem festa. E tiveram filhos. Só não sei da parte “felizes para sempre”.

Em 1985 me mudei para outro bairro e nunca mais tive notícias.

Mas a história é, no mínimo, curiosa.

4 Comentários


Entre pedras e páginas

O dia amanhecera lindo. O azul do céu parecia pintado com delicadeza por algum artista. Os raios solares já tocavam a paisagem, mas, mesmo assim, não davam conta de esquentar os corpos.

Era um  frio cortante e a sensação térmica congelante piorava com a ação do vento.

Mesmo assim, era preciso pegar sua bicicleta, companheira de tantos anos, e enfrentar o inverno e o trânsito para chegar ao seu destino.

“… o pão nosso de cada dia nos dai hoje…”.

Rezava em silêncio, enquanto seguia para o trabalho.

O pão da família vinha do suor do seu trabalho como pedreiro. Unia sua força física e suas habilidades com cimento, cal, tijolos e afins para erguer paredes que abrigariam outras famílias.

E, naquele dia tão bonito, chegou mais cedo. Olhou para o relógio, fez as contas e percebeu que ainda tinha 30 minutos antes de iniciar a labuta.

Procurou um lugar com sol, mas não havia por perto. Sentou-se à sombra mesmo. Abriu sua mochila e, ao lado da pequena vasilha com o modesto almoço, tirou o livro. Ganhara do filho dois dias antes.

Os colegas estranharam a cena e um até fez uma piada. A maioria estava de braços cruzados, conversando sobre futebol, sobre o frio, sobre o patrão, sobre como seria morar numa casa daquele tamanho.

Mas ele não se importou.

O livro o seduzira intensamente. Com quase 30 anos, passara menos de cinco na escola, mas foi tempo suficiente para que as palavras pudessem fazer sentido e bailar suavemente em sua frente.

E ficou lá, encantando-se com uma história tão diferente da sua, com experiências tão distantes do seu mundo.

Mas era justamente isso que o fascinava. E devorou páginas e páginas antes de enfrentar as pedras.

O pedreiro que gostava de páginas era um sonhador.

Um sonhador…

 

4 Comentários


mas livrai-nos das Magdas. Amém!

 

O tema não é inédito aqui no blog. Em 2010, escrevi sobre como algumas pessoas têm a incrível capacidade de falar bobagem nos momentos mais inapropriados. Se é que existe um momento apropriado para que bobagens sejam ditas. A postagem “Cala a boca, Magda”, inclusive, faz parte do meu primeiro livro. A personagem ficou famosa nos anos 90 por causa do seriado “Sai de Baixo” e esse bordão tornou-se uma referência para quando sentimos vontade de fazer alguém ficar quieto.

Inspirei-me novamente para essa reflexão por causa do desabafo de uma amiga no Face. O marido e ela têm uma filhinha de 6 anos e não aguentam mais a pergunta “não terão outro filho?”.  Por mais que não haja má intenção no questionamento, esse é o tipo de pergunta “Magda”. Se um casal não tem um segundo filho por alguma questão de saúde ou se não tem porque quer somente um ninguém tem nada a ver com isso.

Funciona mais ou menos assim: na visão das Magdas, quem não namora precisa namorar. Quem namora precisa ficar noivo. Quem está noivo precisa casar. Quem casa precisa ter um filho. Quem tem um precisa ter o segundo. E o que é pior: as Magdas não só se incomodam com a vida alheia, mas sentem uma extrema necessidade de externar uma opinião absolutamente dispensável.

Quando fiquei grávida pela segunda vez, houve uma relativa torcida para que fosse uma menina, já que, segundo a lenda e as Magdas, é preciso ter um casal de filhos para sermos felizes.

Eu sinceramente nunca nutri qualquer tipo de preferência. Para mim, filho é anjo e anjo não tem sexo. É claro que 90% das Magdas que cruzaram meu caminho nunca acreditaram nisso. Depois que soube que seria outro menino, fui obrigada a ouvir expressões quase desconsoladas: “ah… que pena… depois vocês tentam uma menina…”.

Como assim “tentam”? Meu marido e eu desejávamos um segundo filho, não estávamos jogando bingo para tentar novamente.

Magdas estão por toda parte e posso até dizer que todos nós, vocês e eu, de vez em quando abrimos a nossa boca apenas para dizer algo que poderia ter ficado apenas na nossa cabeça ou no nosso coração.

Para evitar ser Magda, a grande recomendação é pensar antes de falar, é refletir antes de tornar público um pensamento.

Para não encontrar uma Magda pelo caminho, só com muita sorte.

 

 

 

 

 

Comente aqui