Mês: outubro 2013



Inauguração: fetiche dos políticos

Eu tenho fetiche por colocação pronominal. Uma ênclise bem empregada me seduz… mesóclises então… meu Deus… mexem demais comigo… se meu marido sussurrar ao pé do meu ouvido “levar-te-ei para Nova Iorque em breve” é bem capaz de eu ensaiar uma performance de pole dance pra

ele.

Acho que todo mundo tem fetiche por alguma coisa.

E a maioria dos políticos tem por inaugurações. Acho que a simples imagem daquele paninho ridículo caindo e o som dos aplausos dos puxa-sacos fazem homens e mulheres quase atingirem o clímax.

Deve ser por isso que alguns inauguram orelhões ou a tal “pedra fundamental”. O importante é juntar a galera pra soltar uns rojões e tirar uns retratos.

Talvez o fetiche por uma fita vermelha também explique inaugurações de hospitais que ainda não têm funcionários, tampouco equipamentos. Também… quem se importa com isso? Inaugurar é preciso!

Eu queria muito que se inaugurasse um novo tempo na política brasileira, em que homens e mulheres a quem confiamos o nosso voto pensassem menos em aparecer e mais em fazer.

Em que eles priorizassem ações que de fato melhorassem a vida da população e não fizessem tanta questão dos holofotes.

E acho até que isso seja possível, desde que nós, que estamos do lado de cá, inauguremos um novo tempo também.

Um tempo de cidadãos de memória sempre fresca. Um tempo de eleitores que tivessem um critério de seleção mais apurado.

Estou farta de inaugurações. Farta de tanto blá blá blá, de tanto slogan bonito , de tantas caras e bocas.

Até porque, vamos combinar, mesmo quando a inauguração se justificar, político algum merece cumprimentos apenas por fazer o óbvio: usar o NOSSO dinheiro para melhorar a nossa vida.

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Amar não é uma obrigação

 

Amor não pressupõe “obrigações”. Em uma relação afetiva, esse termo não existe.
Eu não tenho “obrigações” como esposa. Não sou obrigada a fazer nada.

Faço porque quero. Faço porque amo. Faço porque me faz bem. Faço porque faz bem a ele.

Mas não porque seja “obrigada”.

Muitas mulheres, no passado, conviviam com essa expressão: “obrigações da esposa”.

E, além de oferecer casa, comida e roupa lavada, precisavam estar sempre dispostas aos desejos do marido. Mesmo quando o corpo dizia “não”, elas se obrigavam a dizer “sim”.

Por medo, por vergonha, por receio do que o companheiro poderia pensar, do que a família poderia pensar, do que os vizinhos poderiam pensar.

Infelizmente, ainda hoje existem casos assim.

Relações afetivas, para ser intensas e duradouras, precisam da mão dupla, da reciprocidade, da vontade de estar ali, e não em outro lugar.

Abraçar por vontade, beijar por desejo, ir pra cama (ou pra outro lugar) por tesão.

E não por imposição, convenção, obrigação.

Mas o assunto não se esgota nas quatro paredes. O problema não é apenas entregar-se ao sexo porque o calendário pede isso.

É também sufocar as opiniões, abafar os sonhos, enterras os planos pessoais por medo de que o outro não aceite e vá embora.

Com inteligência, sensibilidade e amor, toda mulher pode ser livre.

Livre para ficar… livre para amar…

 

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A vida continua aos 40

Preciso confessar que vivo um momento meio narcisista na minha vida. Não que eu fique o dia todo em frente ao espelho, que tenho mais o que fazer, mas minha relação com ele tem sido boa. E hoje, ao comemorar meus 40 anos, estou feliz com os efeitos do tempo em mim. E não apenas na casca.

Chego à idade da loba com cara de 40, corpo de 40, alma de 40. E isso é maravilhoso. Não tinha a  pretensão de ter rostinho de 20 ou corpinho de 25 (até porque não tive um “corpinho” aos 25) depois de 4 décadas. O que desejei para mim é exatamente o que colho agora.

Queria me sentir bonita sim, não serei hipócrita. Mas queria ser mais segura também. Como esposa, como mãe, como profissional, enfim, como mulher, independentemente do papel social.

Ainda me importo com o que as pessoas pensam, mas não me incomodo com isso. Passei muito tempo da minha vida tentando justificar atitudes ou agradar àqueles que estavam por perto, tantas vezes sufocando minhas vontades e opiniões.

E mostrar ao mundo o que sentimos e queremos não é rebeldia; é ousadia.

É isso.

Sinto-me orgulhosa da minha história. Sou imperfeita, limitada, cheia de defeitos, mas sou uma pessoa do bem. E é disso que me orgulho.

Há quem diga que “a vida começa aos 40”.

Eu acho que a vida continua aos 40… mas de forma muito mais intensa…

 

 

 

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Somos faróis

Quando estreei minha coluna no jornal O Diário, o título do primeiro artigo foi este: “Somos faróis”. A escolha foi a partir da analogia do farol, uma das mais certeiras para explicar o papel de um adulto na vida de uma criança ou na de um adolescente. Inseguros em alto mar, eles precisam de uma luz, de um direcionamento que os leve para um caminho mais seguro.

Uso a expressão novamente porque, nesta postagem, quero prestar minha homenagem aos colegas professores que, assim como eu, tentam a cada dia vencer os desafios da profissão e assumir a missão de ser farol.

Em “Primeira Impressão”, meu primeiro livro, há dois textos que talvez deixem os leitores em dúvida sobre essa minha vocação para a docência. “Ao mestre sem carinho” e “Ao mestre sem carinho – Parte II” foram escritos em 2009, quando vivi uma experiência muito desagradável em uma instituição de ensino. Movida pelo calor da hora, mergulhada no sentimento que pulsava dentro de mim na ocasião, minhas palavras estavam carregadas de decepção com a minha profissão. Cheguei, inclusive, a cogitar a hipótese de pendurar o jaleco.

Não me arrependo de tê-los escrito, afinal, era o que eu sentia na época. Mas hoje, depois de ter vencido a tempestade, posso afirmar com propriedade que ser professora é um dos meus grandes motivos de orgulho.

Em 15 anos de tablado, ensinei e aprendi. Chorei e sorri. Conheci colegas extraordinários e outros nem tanto. Tive alunos que apenas passaram por mim e outros – a maioria – que carregarei para sempre na minha memória e no meu coração.

Mais madura como mulher e como profissional, libertei-me da necessidade de ser unânime em sala de aula e sei driblar com mais habilidade os percalços que me esperam dentro e fora da escola.

Sei do meu compromisso de, como professora de língua portuguesa, estimular meus alunos à leitura e aperfeiçoar a oralidade e a escrita deles. Mas tenho consciência de que também posso fazer a diferença no tablado a partir dos meus exemplos.

Meus colegas e eu somos falíveis e talvez surjam momentos em que nós mesmos nos sintamos perdidos em alto mar. Mas é necessário reunir forças para nos lembrar de que nossos alunos precisam da nossa luz.

Aliás, gosto tanto da analogia do farol que “Somos faróis” é também o título da minha palestra direcionada aos profissionais da educação.

Uma palestra que não é apenas para convencer alguém a fazer de conta que gosta do que faz, mas sim para assumir, com afeto e responsabilidade, uma das missões mais lindas desta vida: educar.

Parabéns, professores!

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A balança e as relações afetivas

Não sejamos hipócritas: a aparência física também conta nas relações afetivas. Não me refiro aos padrões de beleza das capas de revista, das passarelas ou dos programas da televisão, mas, de alguma forma, a casca tem o seu valor para despertar o interesse no momento da atração inicial e para manter esse interesse durante o tempo em que um homem e uma mulher permanecem juntos. Vaidade e boa autoestima, na dose certa, são ingredientes que ajudam nesse sentido.

Pesando 10 quilos a menos, sinto-me mais bonita e meu marido também está mais feliz com a “nova” esposa. Ou seja: nossa relação melhorou e isso, para um casal que está para completar 20 anos de casamento, é uma maravilha.

Mas a balança que tem mais peso – perdoem-me o trocadilho desgastado – nas relações duradouras não é aquela do médico, da academia ou da farmácia. A balança que faz com que as pessoas banalizem menos seus sentimentos e invistam  mais nas suas histórias afetivas é a que mostra por que vale a pena ficar com alguém.

A nossa humanidade  nos faz nos naturalmente imperfeitos. Temos defeitos e limitações que incomodam quem convive conosco. E a recíproca é verdadeira. Às vezes nos falta paciência para tolerar certas características do outro. E aí vêm os conflitos.

Mas esses conflitos podem ser superados quando usamos a balança.

Quando nos indispomos com nosso parceiro, é natural que venha à nossa cabeça apenas o que nos incomoda. Se agirmos no calor da hora, não é difícil que façamos bobagem e coloquemos um ponto final na parte que só merecia uma vírgula, ou seja, uma pausa para refletir.

Sempre que escrevo sobre a minha própria história, não tenho pudores em revelar isto: depois de 24 anos, quase 20 de convivência diária, ainda há traços de personalidade do meu marido que me irritam. E sei que ele pensa o mesmo de mim.

E por que estamos juntos? Por que ainda investimos no nosso casamento?

Porque, apesar das nossas imperfeições, concluímos que as coisas boas que podemos oferecer um ao outro pesam mais que as ruins.

Queria escrever sobre esse tema porque me entristece um pouco os casos de homens e mulheres que, quase de forma abrupta, interrompem um relacionamento de poucos meses ou anos justificando uma “incompatibilidade de gênios”. Isso pode acontecer, é claro. Ninguém é obrigado a insistir quando o sentimento já foi pelo ralo. Mas ainda acho que a maioria não se esforça porque imagina um namoro ou casamento em que só se colham flores. Aí, quando vêm os espinhos, nem sempre se sabe lidar com eles.

Idealizar uma relação perfeita é prova de ingenuidade.

Olhar para o outro e pensar mais nas suas qualidades é prova de maturidade.

 

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A mulher independente

A mulher independente não precisa ser feminista, mas tem que ser feminina; não precisa se parecer com a gostosa da capa da revista, mas tem que se olhar no espelho e gostar do que vê.

A mulher independente não precisa ser uma executiva e ganhar mais que o marido, mas precisa ter opção entre trabalhar só em casa ou ter dupla jornada.

A mulher independente pode ter filhos, mas tem que entender que precisa de um tempo só para ela de vez em quando.

A mulher independente não faz a sua vontade prevalecer sempre, mas faz seus desejos e anseios serem conhecidos.

A mulher independente não quer anular seu companheiro, mas também não se torna uma mera sombra do seu homem.

A mulher independente desempenha com amor suas funções de mãe, esposa e dona de casa, mas também sabe que é uma pessoa com história própria.

A mulher independente não precisa ser um vulcão em erupção na cama todos os dias e sabe dizer “não” quando seu corpo e sua mente não querem sexo.

A mulher independente às vezes precisa de colo e não tem pudor em pedir.

A mulher independente precisa dos outros para sua vida  ter mais sabor, mas continua sua trajetória mesmo quando alguém vai embora.

A mulher independente não diz “sim” quando seu coração deseja um “não”.

A mulher independente, no fim das contas, depende mais de si mesma para ser feliz.

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“A pessoa mais velha que eu conheço”

A frase acima, que serve de título para esta postagem, foi dita em sala de aula por um aluno de 7ª série, no ano de 2010.

Explicarei o contexto: pedi à turma, como trabalho bimestral, que fosse feita uma biografia. Levei para os alunos modelos de textos biográficos: de pessoas ilustres e também uma que fiz em homenagem ao meu pai.

A instrução era de que fosse escolhido alguém do círculo pessoal deles, afinal, se eu deixasse à vontade, choveriam cópias da internet.

Também argumentei: “Evitem escolher um adolescente como vocêsafinal, já que a biografia vai relatar toda a história de vida, a idade pode influenciar.”

Pois foi nesse momento que o dito cujo, do alto dos seus 13 anos, bradou: “Então eu vou fazer sobre você, professora… você é a pessoa mais velha que eu conheço!”

Hein???

E ele não falou em tom de brincadeira! Falou sério!

E sabem o que é, no mínimo, engraçado? Para quem tem 13 anos, uma pessoa com mais de 30 é praticamente uma anciã.

Lembrei-me desse episódio porque hoje, 1º de outubro, comemora-se o “dia do idoso”.

Mesmo adolescente, sempre apreciei conversar com pessoas mais velhas; beeeem mais velhas, diga-se de passagem.

Sabem aquele senhor que trabalha como porteiro na escola, ou aquela senhora que vende doces de porta em porta?

Pois é… a diferença de idade que existia entre mim e meu interlocutor nunca me impediu de ter boas e proveitosas conversas. Pelo contrário.

Mas nem sempre é fácil fazer a criança ou o adolescente entenderem que pessoas mais velhas que eles – a professora de (quase) 40 anos, que seja… –  podem ser uma boa companhia e precisam ser respeitadas.

É claro que a frase do meu aluno não foi um desrespeito; possivelmente a mãe dele fosse mais jovem que eu e ele não convivesse com os avós… vai saber.

Mas é interessante como eles se espantam, por exemplo, quando contamos algo que tenha acontecido 20 anos atrás. Para eles, é antigo demais! Já pensaram a dureza em se trabalhar literatura? Falar sobre histórias que se passaram há 100, 200, 300 anos? Um “senhor” desafio, só para fazer um trocadilho.

Procuro ensinar meus filhos a não usarem a expressão “velho” ou “velha“;  a conotação é meio pejorativa. Digo a eles para usarem “senhor” ou “senhora”. É mais educado e respeitoso.

Mas não concordo com a tese de que “todo idoso seja sábio”. Penso que haja muitos “integrantes” da terceira idade por aí que não mereçam esse “título”.  Exceções, naturalmente.

Já visitei os asilos de Maringá várias vezes, em algumas delas acompanhada por alunos adolescentes. É impressionante como isso mexe com eles.

E quando visitamos um local assim, nem precisamos falar muita coisa. Só o fato de estarmos ali para ouvir aquelas histórias intermináveis, algumas até sem nexo, já faz uma grande diferença na vida das senhores e daquelas senhoras.

Hoje eu posso ser jovem perto de quem tem 70 anos; posso parecer uma anciã para um aluno que tem 13 anos.

Essa matemática da vida não importa muito.

O importante é sabermos que os que vieram antes de nós abriram caminhos e, só por isso, já merecem nossa gratidão e respeito.

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