Mês: dezembro 2013



A mulher e o espelho

 

Olhava tanto pela janela que se esquecia de olhar para o espelho.

Via a felicidade dos outros, os problemas dos outros. Preocupava-se com os dramas alheios, às vezes até sentia vontade de viver a história alheia.

Não olhava para si mesma. Não se enfrentava.

Um dia, a janela estava fechada e ficou com preguiça de abrir.

Então encontrou o espelho. E se viu. E nem se reconheceu.

Quem era aquela mulher?

Não se lembrava mais…

Não se lembrava de quais eram seus gostos, suas expectativas, seus desejos…

Passara a vida pensando nos outros, buscando respostas nos outros…

Mas a resposta estava diante de si mesma.

Abriu a janela. Mas não para ver a vida alheia, e sim para apreciar a paisagem.

E nunca mais fugiu do espelho.

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Sharon Stone no shopping

 

 

Era uma vez uma mulher. Uma mulher que estava com a autoestima nas alturas. Um dia, olhou-se no espelho e pensou “nossa, sou tão gostosa”. Era um desperdício não mostrar aquele corpo para todo mundo. Mas já não bastavam as fotos tiradas em frente ao espelho e postadas no Facebook. Até porque seu estoque de frases poéticas e filosóficas havia acabado e ela não sabia mais o que escrever para justificar as postagens.

Não era comum ter ideias, mas naquele dia teve uma. Reparou mais uma vez no corpo voluptuoso e constatou que era mesmo um baita desperdício mantê-lo sob a roupa. Precisava mostrar.

Chamou uma amiga para explicar o plano. No início houve espanto, mas, depois, ela topou participar.

Então colocou seu vestido mais curto e justo e foi.  Foram, na verdade. Ela e a amiga. Sem lingerie, que esse detalhe fazia parte da estratégia.

Não queria esperar anoitecer. Poderia até ser mais seguro, mas qual seria a graça com a escuridão lhe escondendo as formas? Queria mostrar. Precisava mostrar.

Primeiro fez a foto dentro do shopping, o local escolhido como cenário para seu desejo devasso. Sentou-se em um banco do corredor central e, como um Sharon Stone falsificada, abriu as pernas, deixando à mostra aquilo que representava seu jeito de ganhar a vida.

A amiga se posicionou para a foto e, rapidamente, mas com precisão, registrou o momento.

Depois foram para o estacionamento. Em um gesto rápido, de uma mulher que estava acostumada a isso, subiu o vestido e posicionou-se para a amiga eternizar o seu bumbum.

Pronto. Estava feito. Estava satisfeita com o resultado. Não mostrou o rosto nas fotos, até porque ele não era grandes coisas.

Postou-as nas redes sociais. Fez sucesso. Polemizou.

Ficou feliz.

Chegou a se imaginar dando entrevistas. Quem sabe fosse convidada para posar nua, quem sabe pudesse escrever um livro, quem sabe pudesse ser apresentadora, quem sabe fosse chamada para ser rainha de bateria.

Sabia que isso seria possível. Estava no Brasil.

Mas, depois de um tempo, a desinibida foi esquecida. Uma outra fez topless enquanto escolhia tomates no supermercado e abalou sua fama.

Teve que voltar para o espelho e para o Facebook.

F I M

Moral da história: nenhuma mulher deve ser tratada como objeto sexual, a menos que se comporte como um.

 

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Minha fanpage

Há pouco mais de um mês, crie no Facebook uma página para postar exclusivamente minhas frases, poemas e pensamentos.

Estou contente com o resultado atual (866 fãs e centenas de visualizações por postagem), mas acredito na força da internet para conquistar mais leitores.

Por isso decidi usar o blog como um recurso para divulgar esse trabalho.

Deixarei alguns textos por aqui  e também o link da página.

Aguardo vocês. Obrigada!

“Cumplicidade. Eis o segredo de um bom relacionamento.”

Pelo menos é que muitos falam. Eu nem acredito em segredo, a não ser se tiver um cofre na história. Relacionamentos duradouros não têm segredos.  Tem amor, desejo, paciência. E, é claro, a tal cumplicidade. Mas não em forma de receita, que esta só dá certo em bolo. E cumplicidade não é pensar pelo outro. É pensar no outro. Não é escolher pelo parceiro. É escolher pensando no parceiro. Cumplicidade não é ser só um. É ser cada um, mas com a vontade de andar a dois. Um homem e uma mulher cúmplices.

Cúmplices no crime de amar.

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Há dois tipos de sofrimento: o inevitável e o que escolhemos.

Sofrer, por exemplo, por quem partiu para sempre é o tipo de sofrimento inevitável. Como julgar alguém que chora pela morte do ente querido? Como evitar as lágrimas quando quem amamos se torna apenas uma lembrança? Mas o sofrimento por quem não vale a pena é uma opção.

Chorar, consumir-se, martirizar-se, enfim, deixar de viver por uma pessoa que explicitamente foi embora porque quis é uma escolha que pode deixar sequelas. Emocionais e até físicas. Não é fácil aprender a lidar com perdas, principalmente quando se trata de relações afetivas especiais.

Mas é preciso se lembrar de que um relacionamento é uma história escrita a dois. Quando um personagem abandona o palco, melhor fechar as cortinas e pensar em outro enredo.

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Afinal, para que servem minhas palavras? Se não as como, não as visto, não as bebo?

Qual a utilidade se não posso vendê-las? Minhas palavras servem para que eu chegue aonde meus pés não podem ir. Servem como acalento, como aconchego, como bálsamo para feridas. Servem para reflexão, para discussão, para indignação. Servem para descrever a realidade e para pintar a imaginação. Servem para que concordem e para que discordem das minhas ideias. 
Servem para que me amem ou para que me odeiem.

Mas servem sim.  Elas me servem. E eu as sirvo. O tempo todo…

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Quem gosta de migalha é passarinho. Atenção não se cobra. Afeto não se pede. Amor não se implora.

Valorize-se.

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Seja um pouco insano de vez em quando.

Vista-se do avesso. Ande de costas. Comece pelo fim. Ria sem motivo. Dance sem plateia. Lambuze-se com o sorvete. Fuja um tantinho das convenções. Não se importe tanto com os rótulos. Não se incomode demais com os julgamentos. Eles virão, mesmo contra sua vontade. Então melhor não sofrer por causa deles. Mude o caminho, a companhia. Escolha outro ritmo, prefira o diferente, experimente novas sensações. Não queira sintetizar a vida em uma fórmula matemática. Não busque receitas. Não corra atrás de segredos de felicidade.

Até porque felicidade plena, absoluta, é bem capaz de nem existir. Não nesta trajetória terrena, pelo menos. Momentos felizes podem durar minutos, horas, meses, semanas, quem sabe anos.

Mas, quando surgirem, viva-os, curta-os. Eternize-os.

Na memória e no coração.

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Não sou Rapunzel pra ficar presa na torre. Não sou Bela Adormecida pra deixar a vida passar. Não sou Branca de Neve pra gostar de maçã. Não sou Cinderela pra ter medo do relógio.

Para falar a verdade, o sapo me parece mais charmoso que o príncipe.

Final feliz é para quem quer ponto final. E eu prefiro reticências…

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Não amarre, não prenda, não segure, não enclausure. Não sufoque.

Faça da liberdade o maior motivo para alguém não querer ir embora.

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Bodas de porcelana

No próximo dia 11, quarta-feira, meu marido e eu completaremos 20 anos de casamento. Bodas de porcelana, segundo o oráculo do Google. Datas são apenas números simbólicos, mas o fato é que, de alguma forma, mexem conosco. Principalmente as que remetem a ocasiões especiais como a escolha de um alguém para dividir o colchão.

Ele e eu nos conhecemos no século passado. Era 1989 e nós, dois pirralhos com 15 e 16 anos. Em dezembro de 1993, um pouco menos pirralhos, decidimos subir ao altar, constituir família, trocar alianças, enfim, aos 20 anos, tomamos a importante decisão de fazer parte da vida um do outro de forma mais intensa.

E conviver com a mesma pessoa esse tempo todo é uma missão exigente, somente possível quando o sentimento que une o casal é forte.

Se já tivemos crises? Várias.

Dos 7 anos, dos 10 anos, dos 12 anos e dois meses, dos 17 anos, quatro meses e cinco dias etc etc etc.

Mesmo amando, às vezes dá vontade de falar para o parceiro catar coquinho. Depois de tanto tempo, certas características ainda incomodam, certas atitudes ainda irritam, certas palavras ainda magoam. E por que raios a gente fica junto?

Porque vale a pena.

Temos um combinado: jamais manteremos a nossa história apenas por causa dos nossos filhos, dos nossos familiares, de questões financeiras, da nossa religião ou do que as pessoas poderão dizer se eventualmente nos separarmos.

Tudo isso influencia, é claro. Importa também. Mas o que nos manterá no mesmo colchão é querer curtir a companhia um do outro, apesar das chatices recíprocas.

Quando as crises vêm, tento focar no que fez com que eu me apaixonasse por ele. A paixão não dura 20 anos, naturalmente. Mente a mulher que, depois de duas décadas, diz sentir o coração palpitar quando vai chegando a hora de o marido voltar para a casa no fim do dia.

Mas é preciso manter a vontade, o desejo, o tesão, ainda que  diferente dos tempos de namoro.

Vontade de fazer planos comuns, desejo de rir das mesmas piadas, tesão para trocar uns beijaços de língua na cozinha.

Incomodo-me quando ouço um homem com muito tempo de casamento dizer que a maior qualidade da esposa é ser uma boa mãe. E o contrário também me inquieta. “Amo meu marido, afinal, ele é um bom pai”.

Casais devem completar bodas não por enxergarem no outro somente um exemplo de dedicação paterna ou materna.

Devem completar bodas por enxergar no outro um bom motivo para não ir embora.

 

 

 

 

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