Mês: abril 2014



Crônica de um passeio pelo shopping

Stanford Shopping Center, Palo Alto, CA

Devo confessar que, ao contrário de muitas da minha espécie, não curto shopping. Quer dizer, até vou de vez em quando, mas com um ou mais objetivos. Ir ao cinema, comer, levar os filhos para ver algo ou comprar um produto especifico.

Mas passear apenas, ver vitrines, andar sem rumo pelos corredores… Deus me livre… acho um tédio.

E, justamente por precisar fazer umas comprinhas em companhia dos meus homens , dediquei algumas horas do meu sábado para essa aventura.

Um aluno me disse dia desses que não se sente bem no shopping por causa do apelo consumista. E perguntou como eu me sinto quando vou lá. Respondi que me sinto fresca por causa do ar-condicionado, talvez uma das únicas vantagens desse lugar.

Bom, o fato é que um dos pontos altos do meu programa foi a hora do provador. Como sempre, aquela luz de holofote, intensificando minhas rugas, deixou-me meio deprimida. Além disso, precisei me conter para não xingar ao experimentar uma calça jeans que coube na minha bunda (posso escrever “bunda””, né?), mas que era feita para as pernas da Ana Hickmann.

Depois das modestas compras, a hora de enfrentar a praça de alimentação, que hoje, especialmente, estava mais concorrida que o vestibular de medicina da UEM. Calculei 70% de Maringá dentro do Catuaí.

Para conseguir um lugar, precisamos nos dividir em 3 equipes: meu marido foi para o norte e meu primogênito, para o sul. E meu caçula e eu fizemos uma varredura no leste e no oeste.

Ao avistarmos um família apenas fazendo menção de levantar, corri com meu salto 15 em direção à mesa. Mais deselegante, impossível.

E ficamos felizes como se tivéssemos ganhado na loteria. Ou como se tivéssemos conseguido uma vaga para estacionar no centro. Sem flanelinha.

Aliás, acho não vai demorar muito e os flanelinhas irão invadir as praças de alimentação pra querer cuidar das mesas. Eu mesma pensei em vender a nossa para dois grupos que olhavam para nós como predadores olhando para as presas. Fecharia negócio com quem pagasse mais. Mas desisti da ideia porque tenho uma imagem a zelar.

É isso.

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Novos tempos, novos leitores

jovens

Não posso afirmar que esta sensação seja generalizada, mas imagino que a geração de homens e mulheres que tem 40 anos, como eu, deva se recordar com carinho das visitas à biblioteca nos primeiros anos de escola. Em um tempo quando nem sonhávamos com computadores e que a grande tecnologia das nossas casas era uma TV em cores, os livros exerciam sobre nós um fascínio quase indescritível. Apesar de algumas bibliotecárias – com suas caras amarradas – nem sempre nos ajudarem muito nisto, estar na biblioteca para ler ou para escolher livros para empréstimo era um momento prazeroso.

Quem viveu essa experiência costuma dizer que se incomoda ao constatar que as crianças e os adolescentes da geração atual não veem a leitura com todo esse entusiasmo. Sobre esse tema, algumas considerações são importantes para não rotularmos a meninada; não é correto – nem justo – afirmar categoricamente que nossos filhos e alunos não gostam de ler. A questão é: que significado a leitura tem para eles?

Uma primeira reflexão pode ser o espaço das bibliotecas. Cada escola – pública ou privada – tem o seu, com organização e características próprias, mas em geral esse ambiente, que deveria ser um convite ao prazer da leitura, torna-se quase um lugar de tortura. É muito comum que os alunos indisciplinados, ao serem retirados da sala de aula, precisem ficar na biblioteca fazendo suas atividades. Não há problema nisso, até porque nem sempre as instituições têm outras salas, muito menos funcionários disponíveis para ficar com eles, mas, na cabeça da maioria, estar lá por ter infringido alguma regra soa como castigo. Difícil despertar algum prazer assim.

Outro ponto importante sobre a leitura – na escola e fora dela – é a crença de que conseguiremos despertar o gosto pelos livros em crianças e adolescentes apenas cobrando leituras bimestrais – ou mensais – e pedindo para que “vomitem”, em provas e trabalhos, o que leram. Perdoem-me o termo chulo, mas é isso mesmo que fazemos às vezes. Eles precisam “engolir” as histórias e devolvê-las para nós. Precisam provar que leram e então iremos mensurar quanto valerá essa atividade. Ledo engano pensar que estaremos criando jovens leitores usando somente essa estratégia. É claro que o sistema escolar exige um valor numérico para representar a habilidade do aluno com a leitura, mas será que não há outras maneiras de aguçar a curiosidade pelas páginas de um livro? Ler – com paixão – trechos de histórias em sala e nos informarmos sobre títulos e autores que estão em alta no universo infanto-juvenil podem ser estratégias nesse processo de “sedução”.

E a geração atual lê sim; mas talvez não o que nós adultos idealizemos. Mesmo como professora de literatura, nunca exigi que meus alunos tivessem por Machado de Assis, por exemplo, a mesma admiração que tenho. Eles não precisam gostar do escritor. Minha missão em sala de aula é oferecer aos adolescentes doses generosas da sua vasta obra; é “transportá-los” ao tempo em que Machado viveu; é fazê-los perceber que precisam respeitá-lo por causa do que representa para a literatura brasileira. Se, mesmo assim, não apreciarem a escrita do autor e souberem justificar essa posição, irei aceitar a opinião deles.

Qual então o nosso papel na formação desses novos leitores? Penso que, além de mostrarmos a eles que gostamos de ler – o exemplo será terá peso nesse processo -, precisamos nos libertar da “mania” de querer comparar as gerações. A leitura de uma boa história não exerce sobre os nossos filhos e sobre nossos alunos o mesmo fascínio que exerceu sobre nós simplesmente porque os tempos são outros. E ponto. Mas isso não quer dizer que devamos nos conformar com a falta de interesse da meninada por uma ida à biblioteca ou à livraria. Significa apenas que devemos mudar as estratégias antes de convidá-los a saborear as páginas de um livro.

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Quando o excesso prejudica

O ditado diz que “o que abunda não prejudica”. Tenho minhas dúvidas. É claro que, dependendo da circunstância, o excesso pode ser bem-vindo, como no caso dos cuidados com a nossa segurança, por exemplo. Melhor caprichar na altura do muro, na cerca elétrica e fechar bem portas e janelas. Se houver um cachorro bravo então…

Mas, pelo menos nas relações afetivas, o exagero pode prejudicar sim. E muito.

Por mais espanto que isso possa causar, penso que amor em excesso sufoca. Querer estar perto sempre sufoca. Pensar pelo outro sufoca. Esquecer-se de si mesmo sufoca quem está ao lado.

Aliás, se sufoca, nem é amor. É obsessão, capricho, maluquice até. Mas não amor. Amor é sentimento libertador, que faz bem para o corpo, para a alma e para o espírito. Quem ama não aprisiona.

Ciúme, por exemplo. Em suaves pitadas, como tempero, pode até incrementar uma história a dois.  Mas, assim como o sal, além da conta estraga tudo. Aí é preciso jogar o prato fora. Ou o relacionamento.

Também há quem sufoque o parceiro por excesso de cuidados. Ligações e mensagens o tempo todo, demonstrações de afeto em público exageradas. Deixa-se de viver para viver pelo outro. Perde-se a identidade.

Ou então é abundante a cobrança por atenção. Uma abundância desnecessária. Chata mesmo. Pessoas com essa característica deixam a felicidade se esvair pelos dedos porque se comportam de maneira infantilizada. São aqueles homens e mulheres adultos, mas que, como se fossem crianças, choram ao mínimo gesto que lhes pareça falta de atenção.

E… vamos combinar? Atenção não se cobra. Ela vem naturalmente em uma relação. E na dose certa. Sim, porque é preciso manter distância também. Como diz a música, “quem foi que disse que pra tá junto precisa tá perto?”. Casais que vivem “colados” acabam enjoando um do outro. Um tantinho de saudade e de individualidade fazem um bem danado.

É isso. Relações afetivas não precisam de comportamentos passionais.

Na dose certa, amar é uma delícia.

 

 

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Inveja

Que me perdoem as feministas, mas mulher é um ser invejoso.
No trabalho, nas relações de amizade, nas histórias familiares.

Não sei se começou com Eva, mas o fato é que a espécie tem especial habilidade em nutrir no seu coração esse sentimento negativo. E o pior é a sua incrível – e perigosa – habilidade de disfarçá-lo.

Há exceções, é claro, mas a tese se aplica a muitas.

Por isso a convivência entre mulheres é mais complicada. No ambiente profissional, por exemplo, os atritos decorrentes da inveja – velada ou escancarada – são constantes.

Essas palavras, vindas de um exemplar feminino, possivelmente causem espanto, indignação… Talvez até queiram me queimar em praça pública, como fizeram com os sutiãs.

Mas é o que penso. É isso que muitos pensam.

Mas eu escrevo. Torno público.

E quem sabe isso cause inveja…

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