Mês: maio 2014



Sobre separações conjugais

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Faz parte da nossa natureza, ainda que muitos neguem, sentir certa atração pela vida alheia. Se a pessoa for famosa então, detalhes da sua rotina nos atiçam a curiosidade.

Por isso é até natural que os casos de separação entre cantores, atores e esportistas, por exemplo, causem tanto rebuliço. As revistas de fofoca agradecem.

Mas há certas histórias que chamam atenção pelos detalhes que as tornam quase deprimentes. É o que acontece agora com o ex-casal Zilu e Zezé Di Camargo.

Tenho tanto interesse por eles quanto tenho pelo campeonato de futebol americano, mas minha alma de cronista não me permite deixar de manifestar o que pensei ao ficar sabendo de toda a confusão, que incluiu páginas amarelas na Veja, entrevista no Faustão e alfinetadas entre os dois nas redes sociais. Só para quem está por fora ter uma ideia, o cantor chegou a dizer em uma rádio que “mulher feia merece ser traída”.

Separações conjugais, de pouco ou de muito tempo, são sempre dolorosas. Mesmo que amor tenha acabado, o que acho perfeitamente possível, é de se compreender que não seja fácil viver esse momento.

As sequelas emocionais são inevitáveis.

Mas há quem queira posar de vitorioso depois de uma separação. O homem, a mulher ou ambos. Cada um querendo provar para o mundo que não está nem aí com o ex-parceiro.

Frases de elevada autoestima ou elogios rasgados à nova companhia são estratégias para convencer o mundo de que tudo corre às mil maravilhas.

Mas sabemos que nem sempre é assim.

A parte mais fácil de uma separação – seja no mundo das celebridades ou no dos reles mortais – é postar fotos alegres e frases cheias de pontos de exclamação nas redes sociais.

Difícil é explicar para o coração que tanto faz. Difícil é encarar o espelho e provar pra si mesmo que está tudo bem.

Homens e mulheres que se separam, independentemente do motivo, não deveriam ter pudor em assumir a dor que sentem. Mesmo quando tenham tomado a iniciativa.

O sofrimento humano é compreensível. E aceitável.

Fingir que ele não existe não.

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Salchicha e beicon

placa

Sábado à noite e um casal procura um carrinho de cachorro-quente. O rapaz e a moça se lembram de um que fica próximo à casa deles e vão até lá; antes de fazer o pedido, leem um cartaz, escrito com letra simples em uma cartolina amarela: “Cachorrão com salchicha e beicon”. Pergunta: os jovens desistirão do lanche? É bem possível que não, afinal, quando se está com fome, não será um erro de grafia que fará alguém desistir de um suculento cachorrão. Exemplos assim são comuns e, de fato, não interferem no resultado das vendas. De qualquer forma, essa situação é bem específica: homens e mulheres que muitas vezes mal frequentaram os bancos escolares nem sempre saberão que o correto é escrever “salsicha” e “bacon”.

Entretanto, excetuando-se esses casos, infrações à norma culta podem afetar a imagem de uma empresa. E não são apenas os problemas de grafia, acentuação, pontuação e concordância, por exemplo, que podem macular o material gráfico de uma instituição. Frases ambíguas, às vezes até chulas, ao invés de atraírem o cliente, acabam por afastá-lo. Recentemente, no Facebook, uma frase que ilustra bem isso foi compartilhada centenas de vezes. Um dentista, intitulando-se mestre em aparelhos ortodônticos invisíveis, colocou no panfleto de divulgação dos seus serviços a frase “Eu coloco por trás o que os outros colocam pela frente”. Melhor nem imaginar o que aconteceria se ele não fosse mestre.

É claro que muito do que vemos na internet não passa de montagem, produzida apenas para fazer rir. Mas, infelizmente, a vida real também reserva exemplos. Em uma propaganda de TV a cabo, o slogan “A TV envadiu a realidade”. Melhor seria se tivesse ficado só na ficção. No pequeno cartaz afixado na porta de entrada, a lanchonete avisa que “no momento não está aberta porque está fechada”. Isso dá vontade de rir ou de chorar? Em lojas de roupas, muito comum a frase “confecções masculinas, femininas e infantil”. Parece que alguém faltou às aulas de concordância nominal. Pior é a que divulga “saias evangélicas”; saia por acaso tem religião? E quem sentiria vontade de ir a um restaurante cujo nome é “Herança maldita”? Parece mais título de filme do Zé do Caixão.

Independentemente se a comunicação com o cliente acontece pelo mundo virtual (redes sociais, e-mails, sites, blogs etc) ou pelo mundo real (banners, placas, faixas, cartazes, outdoors, folders, cartões de visita e afins), o responsável por escrever a mensagem que se pretende passar precisa ter os conhecimentos básicos para essa tarefa. A linguagem deve ser simples, mas isso não significa desleixo com a língua portuguesa. O respeito ao consumidor também se mostra por esse cuidado, afinal, errar é humano e desistir da compra e/ou do serviço também.

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Amor e bolo de chocolate

chocolate

Confesso em praça pública virtual: não sou, nem de longe, uma mulher romântica. Pelo menos não daquelas que adoram frases melosas e muito “nhenhenhém”. Aliás, escrevi dia desses no Face que se eu receber de presente uma almofada de coração, daquelas com braços, peço o divórcio. Nem de ganhar flores gosto muito. Prefiro vê-las no jardim. E prefiro ganhar sapatos.

Mas acredito, é claro, no amor. É ele que sustenta minha história com meu marido. História essa que já dura quase 25 anos. Só acho que esse sentimento não pode ser banalizado. Romantizado de forma piegas. Não pode ser reduzido a poemas que emocionam ou ursos de pelúcia (ursos também seriam motivo de divórcio pra mim).

Há quem creia em um amor “bolo de chocolate”. Explico: casais se conhecem e, em pouco tempo, dizem estar amando. Mas amam um ao outro como amam um pedaço de bolo de chocolate. Gostar bastante não significa amar. Gostar de algo – ou de alguém, nesse caso – que proporcione prazer não é amar. Quando alguém gosta muito de bolo, abre a geladeira na expectativa de saboreá-lo. Mas, ao perceber que acabou, fica frustrado. Diz “que pena… acabou”. Mas a frustração dura somente até que se compre o próximo na padaria.

Por isso tenho dois pés atrás com a frase “amor à primeira vista”. Acredito em encantamento à primeira vista, em atração à primeira vista. Até em paixão, que é avassaladora e nada racional.

Mas amor… assim, de supetão? Ah, me perdoem. Mas acho pouco provável. Pelo menos não de acordo com a concepção que tenho do sentimento.

Porque, no fim das contas, amar é conhecer. É conviver. É provar dos sabores doces e amargos de uma relação. Amar não é idealizar. Pelo contrário.

Amar é ver os defeitos e, mesmo assim, concluir que vale a pena investir no relacionamento. Porque as qualidades do parceiro se sobrepõem às suas fragilidades.

Mas isso não acontece à primeira vista. Nem à décima-terceira vista. Demora e exige paciência.

O amor brota. Cresce. Amadurece. E se mantém vivo se os envolvidos cuidarem desse sentimento.

E querem saber?

O amor nem é cego. Ele enxerga muito bem.

Tão bem que vê o outro como uma pessoa especial. E não como um bolo de chocolate.

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Sobre encantos e desencantos

disante

No início era o verbo. O verbo “encantar”. Primeiro se olharam. Então se aproximaram. E se apresentaram. E conversaram. E depois riram. E se olharam novamente. Mas desta vez com mais intensidade.

Mais um pouco e… se tocaram. E se abraçaram. E sentiram o aroma um do outro. E se beijaram.

E se encantaram.

Ele por ela. Ela por ele.

A voz dela o seduzia. O sorriso dele lhe tirava o chão. O bom humor dela o animava. A inteligência dele a deixava impressionada.

Com o tempo, o encanto aumentou e a distância entre os corpos incomodava. Estavam juntos, mas não permaneciam sempre juntos. E, na hora da separação, o coração pedia para que eles tomassem uma decisão.

E tomaram.

Decidiram que dois corpos poderiam ocupar o mesmo lugar. Viveriam sob o mesmo teto. Dormiriam sobre o mesmo colchão.

“Felizes para sempre”, dizia ele.

“Até que a morte nos separe”, dizia ela.

Mas o tempo, o mesmo que os incentivou a selar a união, também se encarregou de, aos poucos, fazer o encanto perder a força.

Na verdade, não foi culpa do tempo. Ele até podia agir em favor dessa história.

A culpa foi deles. Somente deles.

Aos poucos, ela parou de se perfumar pra ele. Aos poucos, ele parou de elogiá-la.

Sem perceber, ela ia preferindo a companhia dos outros à dele. Sem perceber, ele arrumava programas em que ela não estava incluída.

Estavam juntos. Todo dia. Mas começaram a ficar distantes.

Colavam as peles, trocavam beijos e abraços, mas não diziam “eu te amo”. Nada mais era como antes.

E a culpa foi deles. Somente deles.

Um dia, o encanto deu lugar ao desencanto. E aquela história bonita ficou sem graça.

No fim era o verbo. O verbo desencantar.

E a culpa foi deles. Somente deles.

Do casal que não soube conjugar o verbo “amar”.

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Uma “senhora” cidade!



Por mais que minhas raízes estejam na capital do Paraná, Maringá é a cidade onde escrevi a minha história. Sou curitibana de nascimento e maringaense de coração.

Por isso, no dia em que essa elegante senhora faz aniversário, julguei ser interessante abrir meu baú e relembrar a época em que ela era uma “mulher balzaquiana”.

A primeira imagem que me veio à cabeça foi o viaduto do Café. Os mais novinhos precisam de uma explicação: no trecho da Av. São Paulo, entre a Av. Tamandaré e a Bento Munhoz, havia um viaduto que passava por debaixo da linha férrea.  Era a nossa montanha-russa urbana! Passar por lá a pé era um sacrifício, por causa da subida íngreme, mas de carro ou de ônibus era uma delícia (pelo menos para uma criança de 7 anos!).

E ali pertinho, muito antes de nós sonharmos com shopping-center, ficava o prédio do Ceasa, que atualmente fica na saída para Campo Mourão. Dezenas de caminhões ocupavam a área, mas naquela época o trânsito ainda não era caótico.

Também não havia o terminal; as praças Raposo Tavares e Napoleão Moreira da Silva eram os lugares onde uma aglomeração esperava pelas circulares, em um tempo quando os ônibus só tinham cobrador, duas portas (todos entravam pela de trás) e bancos alaranjados (almofadados!).

E o chafariz da catedral? Na verdade, chafarizes. Quando íamos para o centro, torcíamos para que estivessem ligados. Eles davam um “toque” especial ao já famoso ponto turístico.

Da antiga rodoviária a lembrança mais marcante é o insuportável cheiro dos banheiros. Não que eu os “visitasse” com frequência, mas as poucas vezes em que fui obrigada a adentrá-los foram suficientes para causar grande impacto na minha memória olfativa. Aliás, que me desculpem os defensores daquele “finado” lugar, mas nunca consegui vê-lo como um patrimônio histórico; pelo menos não nas condições em que se encontrava.

Na década de 80 também não havia flanelinhas e nem malabaristas em semáforos. Bons tempos…

Bem, que tal vocês me ajudarem agora? Pode ser um lugar, um evento, uma situação, uma figura histórica…

O importante é que nós, filhos naturais ou adotivos desta cidade, deixemos registrado que ela faz parte, de alguma forma, da nossa história de vida.

Afinal, Maringá é uma “senhora” cidade!

 

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A história do Chico Almeirão

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Era uma vez um homem chamado Chico Almeirão. Ele tinha esse nome, pasmem vocês, porque gostava muito de almeirão. Desde bebê. Sua primeira mamadeira foi suco de almeirão; sua primeira papinha foi sopa de almeirão; seu primeiro lanche da escola foi um sanduíche de almeirão.

Chico Almeirão tinha quase 50 anos e morava sozinho em uma pacata cidade, que ficava perto de onde Judas perdeu as botas. Ele era conhecido nas redondezas por sua habilidade em jogar dominó. Ninguém conseguia ganhar do Chico Almeirão.

Por causa disso, dessa sua destreza com as peças de dominó, Chico Almeirão resolveu que era hora de se candidatar a deputado federal. Sim, ele já se sentia preparado para assumir esse cargo, mesmo não sabendo exatamente o que precisaria fazer caso fosse eleito.

Então Chico Almeirão se filiou a um partido político. Ele escolheu a legenda mais bonitinha e rapidamente fez tudo que precisava para ser candidato, principalmente lavar as mãos, pois tinha ouvido falar que todo candidato precisava ter as mãos limpas.

Ele vendeu sua bicicleta e uns passarinhos que tinha e mandou fazer uns panfletos. Criou uma frase muito original, fruto de sua fértil mente criativa: “Vote no Almeirão e não fique na mão“. Como seus pais já tinham partido desta para melhor e era filho único, não podia contar com a ajuda de parentes. O jeito era caprichar na propaganda.

Com as eleições se aproximando, Chico Almeirão resolveu incrementar sua campanha. Ele viu na TV um comercial que dizia “Envie a palavra OTÁRIO para OOOOO e receba dicas de promessas para enganar seu eleitor”. Não pensou duas vezes. Até porque já era difícil pensar uma só.

Ele saiu pela região prometendo vagas de estacionamento portáteis, perucas para carecas, kit chapinha para mulheres de cabelos rebeldes e Big Mac na merenda de todas as escolas públicas.

E não é que o Chico Almeirão se elegeu? Com grande votação, diga-se de passagem. Então, arrumou seus coisas e se mandou de onde Judas perdeu as botas para Brasília.

Dizem, eu não sei, que ele já está pensando em se candidatar a senador.

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Senna nunca saiu de cena

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Como esquecer aquele domingo? Primeiro de maio de 1994 ficou eternizado como uma das manhãs mais tristes da história do Brasil. E do mundo.

Lembro-me com riqueza de detalhes. Meu marido e eu éramos recém-casados. Sem filhos, dormíamos até meio-dia aos domingos. Ainda preparávamos nosso café quando ligamos a tevê e nos demos conta de que o Senna, o nosso Senna, tinha sofrido um acidente fatal.

Ficamos perplexos. Tristes. Inconformados.

Aos 20 anos, eu não era uma fã incondicional da Fórmula I, mas tinha extrema admiração por ele. Por isso não foram poucas as vezes em que me animei a acompanhar as provas.

Quem viveu isso sabe exatamente a que me refiro.

A emoção de ver Ayrton exibir a bandeira do Brasil, ouvir o seu tema… meu Deus… como era bom.

Não era um patriotismo de fachada, uma coisa piegas. Era orgulho mesmo. Dele. Do nosso país. Da gente.

Meu marido e eu choramos muito. Eu mais que ele, é claro. Minha sensibilidade feminina fez com que eu sentisse um pesar como se tivesse perdido alguém próximo.

Mas acho que o Senna era mesmo próximo. Ele não era apenas um ídolo do esporte, um grande piloto.

Ayrton era uma pessoa especial. Não um santo. Nem alguém perfeito. Longe disso. Mas era um ser humano admirável.

Pela sua conduta profissional, pela sua busca por ser sempre melhor, pela sua fé, pelo seu amor pelo povo brasileiro.

Agora há pouco, enquanto tomávamos café da manhã, contamos para nossos filhos esses detalhes. Já tínhamos comentado antes com eles sobre o fatídico domingo e sobre a carreira dele, mas hoje a emoção pela lembrança dos 20 anos da sua morte nos motivou a homenageá-lo novamente.

É isso.

Senna nunca saiu de cena. E por quê?

Porque ele estará para sempre nas nossas lembranças e no nosso coração.

Ayrton Senna da Silva.
Ayrton Senna do Brasil.

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