Mês: julho 2014



Os horrores da guerra

guerra

Podem reparar: o olhar de uma criança é o mais puro retrato da sinceridade. Ao contrário de nós, adultos, elas não disfarçam sentimentos. Podem ser desobedientes, mas não são dissimuladas. Choram e riem com a mesma facilidade. E intensidade. Não se preocupam com a imagem social. Não estão nem aí para o que os outros pensam. Ignoram a opinião alheia sobre suas travessuras. E, quando olham para alguém, transmitem o que de fato sentem.

Afeto, gratidão, admiração. Solidão, tristeza, abandono.

E se há um olhar infantil que choca e nos provoca talvez a maior das compaixões é o daquela criança que vive em meio aos horrores da guerra. Aquela menina ou menino que ainda não foi alvo de nenhuma bomba, que ainda não teve um braço ou perna amputados por causa de um campo minado, que ainda têm seu pai ou sua mãe por perto, mas que, dia após dia, vai agonizando no cenário que mistura armas, prédios destruídos, gritos, sangue e sofrimento.

Crianças que perdem a parte mais incrível da vida porque adultos covardes são escravos de suas próprias obsessões.
Crianças que são vítimas da busca desenfreada – e estúpida – pelo poder.
Crianças que padecem porque povos passam a vida disputando um pedaço de terra.
Crianças que são obrigadas a crer que conflitos armados se justificam por motivos religiosos.

Às vezes, vendo as imagens chocantes das guerras, em especial a que atualmente ocorre entre israelenses e palestinos, penso nos meus filhos.

Vejo-os tão protegidos dentro da nossa casa. Alimentados, aquecidos, vestidos. E, principalmente, amados.

Se estão seguros? Claro que não. A nossa guerra acontece também todos os dias, afinal, a probabilidade de um míssil nos atingir é remota, mas a de sermos escolhidos por uma bala perdida é grande.

Também sofremos com o medo das drogas, da violência urbana. Também corremos o risco de perder a vida no trânsito ou com alguma doença grave.

Mas, ainda assim, creio alternamos momentos bons e ruins. Temos as tribulações, mas vivemos tanta coisa boa.

E aquelas crianças? As crianças da guerra?

Acaso conseguem brincar em meio aos sons das armas? Tem disposição para inventar histórias sabendo que seus parentes estão mortos? Sobra tempo para pensar no futuro quando o presente lhes é arrancado das mãos?

E a nós, que estamos tão longe, só nos resta pedir em oração pela vida delas.

Só nos resta pedir que seus olhares possam voltar ter brilho.

Um brilho que foi ocultado pelos horrores da guerra.

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Rugas e maturidade

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Não sei se, conforme diz o ditado, o tempo seja mesmo um “santo remédio”.

Só posso afirmar que ele pode fazer um bem danado pra gente.

Traz rugas? Sim. Mas também uma maturidade que compensa as linhas de expressão.

Maturidade que se traduz em uma maneira mais leve de ver a vida. De viver a vida.

Os problemas continuam a nos espreitar e, a qualquer momento, a nos atingir. Não tem jeito.

Mas o passar dos anos nos permite encará-los com mais sensatez. E, apesar da vitalidade da juventude ter ficado no álbum de fotos, ter mais força para resolvê-los.

Ou talvez saber lidar com eles quando a resolução não dependa apenas de nós.

E o tempo também pode nos proporcionar o efeito que causa nos vinhos.

Homens e mulheres-vinho melhoram com a idade.

Melhoram por dentro e por fora.

Corpo e alma mais bonitos.

Não sei se o tempo cura.

Mas ele, de alguma forma, restaura. Revigora.

Principalmente a vontade de viver…

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Pessoas necessárias

necessárias

Há pessoas que são necessárias.
Necessárias pra sermos mais felizes.

Não que precisemos delas pra viver.
Assim, feito oxigênio.

Conseguimos respirar na sua ausência.
Mas é mais difícil. O peito dói.

Pessoas necessárias nos fazem rir.
E sorrir.

E, caso choremos, estão por perto.

Pra enxugar as lágrimas.
Pra explicar o motivo delas.

Ou quem sabe pra nos dizer que elas
não têm motivo.

Pessoas necessárias nos fazem bem.
Sua simples presença nos encoraja.

Não dizem o que queremos ouvir.
Mas o que precisamos.

Pessoas necessárias têm a palavra certa,
na hora certa. E sabem falar.

E ouvir.

Pessoas necessárias nem sempre têm
o mesmo sangue da gente.

Às vezes são aquelas que conhecemos
durante o caminho. E que tornam a caminhada
mais amena. Mais alegre.

Pessoas necessárias são assim.

Necessárias.

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Astros ou atletas?

eliminação

Daqui a uns 3 ou 4 dias, talvez menos, as notícias e debates sobre a Copa irão perder força. Mas, até que isso aconteça, ainda vale a pena refletir sobre o tema.

Gracinhas e gracejos à parte – e fiz muitos nesse período – o fato é que nossos jogadores são tratados como celebridades hollywoodianas, não como atletas.

É claro que, ao nos representarem, merecem um tratamento diferenciado, mas isso não quer dizer tapete vermelho e holofotes o tempo todo.

Eles vestem a camisa verde-amarela por opção e ganham muito bem para isso. Merecem aplausos, não reverências, como se fossem deuses.

E podem perder. A derrota caminha lado a lado com a vitória. Mas, no final, uma chega primeiro. Isso vale pra tudo na vida.

O problema não é perder. É deixar de lutar. É não dar no momento mais importante tudo de si. É não fazer valer a confiança e o apoio de milhões. É encarar um jogo decisivo com um jeito de “tanto faz”.

É isso.

Honrar a camisa é muito mais que entoar o hino com lágrimas nos olhos.

É entrar em campo como um atleta, não como um astro.

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Sobre pessoas e repolhos

repolho

Confesso nunca ter pensado nesta analogia, mas uma amiga recentemente me chamou atenção: há pessoas que são como repolhos. Elas nascem abertas, mas, durante a vida, fecham-se. A diferença é que a verdura, quando fechada, ainda mantém seu sabor. Já as pessoas…

Quem se comporta como repolho rejeita qualquer possibilidade de mudança. Nega-se a pelo menos refletir. Apega-se a verdades absolutas e foge de discussões. Quando decide entrar em algum debate, finge-se de surdo e ignora a opinião alheia.

Pessoas-repolho desperdiçam oportunidades porque acham que já sabem tudo. Passam a vida fazendo as mesmas coisas, pensando do mesmo jeito, tendo as mesmas escolhas.

E é bom estar aberto. A novas experiências, a novos caminhos, a novos sabores, a novas companhias.

Fechar-se é perder o melhor da vida.

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Minhas férias

avós

Quando assumi a docência, prometi a mim mesma que não faria meus alunos passarem certos constrangimentos pelos quais passei quando estava nos bancos escolares. E uma dessas promessas se referia à famigerada redação “Minhas férias”. Até hoje, mais de 15 anos depois, mantenho-me firme nesse propósito.

Não que eu tenha desenvolvido algum trauma por causa dessa atividade, mas a lembrança não é das melhores. No retorno das férias de julho, a professora de português, do alto da sua falta de criatividade, não pensava meia vez antes de nos entregar uma folha com linhas sedentas para ser preenchidas. Eu, entretanto, não estava nem um pouco sedenta para escrever , afinal, depois de passar um mês apenas assistindo à televisão e brincando com minhas irmãs no quintal, não tinha muita motivação para descrever meus dias de descanso.

Entretanto, mexer no meu baú de recordações, no capítulo “férias de julho”, também me provoca boas lembranças quando vêm à minha cabeça os dias que eu passava na casa dos meus avós. Para quem conheceu o mar com 17 anos, a casa de parentes foi a grande opção “turística” na infância e na adolescência.

A cidade onde meus avós maternos moravam na época fica a duas horas de Maringá. E um dia, quando completei 13 anos, meu pais decidiram que eu já estava pronta para viajar sozinha de ônibus. Lembro-me com riqueza de detalhes de como aquele decisão mexeu comigo. “Sozinha? De ônibus?”. Para uma adolescente bobinha, aquele era quase o rito de passagem para a vida adulta.

Na rodoviária de Maringá, o motorista deve ter imaginado que eu sofria de algum distúrbio e pensado seriamente na hipótese de me amarrar na poltrona depois da lista de recomendações do meu pai, que, apesar de já me conceder essa emancipação, morria de medo de que eu descesse na cidade errada. Antes de rotulá-lo como exagerado, é bom lembrar que estou falando de 1987, quando nem sonhávamos com celulares.

Mas eu cheguei, sã e salva, para passar meus dias de descanso na casa daquele homem e daquela mulher de rostos marcados pela idade, de mãos calejadas pelo trabalho e de corações repletos de amor pelos netos. Às vezes havia um ou mais primos dividindo a atenção deles – e os colchões também -, mas, mesmo em meio à balbúrdia, era bom demais estar lá.

Aprendi a fazer arroz e feijão com minha saudosa avó Amélia. É claro que jamais consegui imitar o seu tempero, o mesmo cujo gosto agora faz minha memória gustativa machucar meu coração de saudade, mas me sentia orgulhosa de chegar em casa e mostrar para mim mãe que eu quase podia casar.

Era tudo tão simples… o cardápio, a casa, os programas, as conversas… mas tudo que vivi ao lado dos meus avós tem para mim valor inestimável. Nesta vida, podem tirar tudo de nós, mas jamais alguém poderá nos usurpar o prazer que as boas lembranças proporcionam.

E sabem que agora, chegando aos 41 e há mais de 10 sem desfrutar da companhia deles, vejo que havia muito o que contar naquelas linhas que a professora me oferecia no retorno às aulas. Era só eu descrever os detalhes de uma linda história de amor de avós e netos.

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