Mês: janeiro 2015



O provador e eu

mulheres

Poucas coisas são mais desafiadoras na vida de uma mulher que o momento de enfrentar o espelho no provador da loja. Se for pra comprar biquíni então… aí não há autoestima de madrasta de Branca de Neve que dê jeito. Difícil ter coragem de encará-lo e dizer “espelho, espelho meu…”.

Passei por isso hoje. E olhem que, depois de ter eliminado 10 quilos no ano passado, tenho conseguido manter meu peso. Mas, mesmo com a balança a meu favor, sou uma mulher que não corresponde aos cruéis padrões estéticos estabelecidos pela sociedade. Pelo menos não aos padrões das capas de revista, das passarelas e/ou das mulheres que enfeitam os programas de auditório.

Tenho estrias, resultado de duas gravidezes. Varicoses, herança da minha avó querida. Celulite, quase uma marca de nascença de 90% da mulherada. Isso sem falar nos pneuzinhos, nos efeitos da gravidade em partes estratégicas e das rugas. E não. Não escrevo isso pra ouvir de alguém “ah, que isso… você está ótima”.

Eu sou mesmo assim. Do jeitinho que descrevi acima. Por isso o confronto com o espelho é tão perturbador.

Porque funciona assim: a luz do provador parece um holofote. Já cansei de avisar para os donos de loja que eles teriam o dobro do faturamento se instalassem uma meia-luz ou algo assim. Eu sonho com a experiência de experimentar uma roupa à luz de velas.

Aquela claridade toda realça as imperfeições citadas acima. As minhas e as das minhas companheiras de espécie. Estou mentindo?

Aí a gente se olha e, em vez de reparar no biquíni, por exemplo, repara em tudo que não está muito legal.

Dá vontade de sair de lá e procurar um divã.

Mas, como acontece todos os anos – comigo, pelo menos – ao chegar à praia toda essa sensação desagradável se desfaz.

E por quê? Porque uma simples olhadinha na areia já me faz constatar que eu estou sim no padrão.

No padrão da areia. No padrão das mulheres que se cuidam, que são vaidosas, mas que têm estrias, celulites e afins.

Já escrevi muito sobre a vaidade feminina. Eu aprecio estar bem, mas tenho aprendido que há sim um limite para minhas preocupações estéticas.

Nunca terei a bunda da Juliana Paes. Nem a cinturinha de pilão da Paula Fernandes. A menos que invista em silicone, não terei os peitos da Sabrina Sato. E não… por mais Muay Thai que eu faça, não conseguirei as pernas da Ivete Sangalo.

Mas posso me sentir bonita. Posso estar bonita.

Pra mim. Para o homem que eu amo.

É isso.

Hoje eu passei pelo dilema do provador.

Mas, aos 41 anos, acho que finalmente aprendi que ele apenas me prova uma coisa: sou uma mulher normal. E feliz.

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Eu não sou Charlie Hebdo

jesus

Queridos, não costumo fazer isto, mas, devido à grande repercussão do texto de hoje da minha coluna “Francamente”, publicadas às quartas-feiras na edição impressa do jornal O Diário, decidi postar o artigo aqui no blog também. Aguardo comentários para fomentar o debate. Obrigada!

“É bem possível que muitos leitores torçam o nariz para este texto. Quem sabe alguns até desistam desta colunista, decepcionados. Corro inclusive o risco de perder a segunda visita daqueles que hoje me leem pela primeira vez. Fazer o quê… pago um preço por escrever o que penso. Além do mais, se meu único objetivo fosse agradar, eu publicaria receitas de bolo de chocolate. Certamente meu modesto fã-clube teria mais de meia dúzia de membros.

Perdoem-me o amargor. O cinismo. Mas estou usufruindo da minha liberdade de expressão. A tão falada liberdade de expressão. A tão aclamada liberdade de expressão. A mesma que os cartunistas franceses usaram – e outros continuarão usando – para justificar suas sátiras às religiões.

E este é justamente o ponto que fará muitos não gostarem deste artigo: a reflexão da semana não é sobre o terrorismo e suas terríveis consequências. É sobre outro viés que, para mim, pelo menos, surgiu no meio de toda a discussão sobre a tragédia francesa. Afinal, há limite para a sátira? Para a ironia? Em nome de um suposto humor é permitida toda ofensa ao que é sagrado para o outro?

Pois bem. Primeiramente, preciso ratificar por aqui – porque já discuti o tema nas redes sociais – que também fiquei sensibilizada com a morte daqueles que foram vítimas do terrorismo. A maneira como o grupo age é covarde e “guerra santa” é o mais perfeito exemplo de paradoxo. Se é guerra, não pode ser santa. Se é santa, não pode ser guerra. Qualquer atitude insana – matar ou morrer – em nome de Deus é coisa de gente que busca razões para justificar o injustificável. Aliás, é até meio óbvio falar que somos contra os terroristas. Quem é a favor? Só eles mesmos.

Entretanto, em meio ao clima de comoção e de revolta gerado por esse recente episódio, inquietou-me perceber que os cartunistas mortos começaram a ser tratados como mártires. Heróis. Afinal, eram artistas e apenas usavam os traços para manifestar sua opinião. Assim, como eu, sendo escritora, uso as palavras para expressar a minha.
Nada, absolutamente nada justifica a barbárie, a violência, a atrocidade cometida com os franceses, mas, por favor, não me obriguem a aceitar a ideia de que desrespeitar a fé alheia é um tipo de arte que mereça aplausos. O conceito de sagrado é subjetivo, mas merece respeito.

Em uma das charges mais provocativas, há a representação da Santíssima Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo. Somente para os cristãos isso é sagrado. Não posso cobrar de um ateu, de um budista ou de um judeu que vejam simbologia nessa imagem. E o que fizeram os tais artistas então? Desenharam Jesus transando com Deus, só para usar uma descrição não muita chula (ao contrário do desenho). O que os hinduístas achariam se vissem um desenho de algum deus indiano transando com uma vaca, sagrada para eles? Como ficariam os espíritas ao ver uma caricatura de Chico Xavier mantendo relações sexuais com alguém enquanto psicografa uma carta?

Imaginem se eu fizesse um poema satírico falando da mãe de alguém. Da mãe de um cartunista qualquer, por exemplo. Versos que denegrissem, que humilhassem, que ironizassem. Versos que tivessem palavras de baixo calão. Seguindo a teoria da liberdade de expressão, ele teria que ficar quieto. Afinal, a mãe dele é sagrada para ele, não para mim.

É isso que me incomoda. Escrevi quase 1000 textos nos últimos 5 anos e jamais fiz qualquer tipo de ironia que tenha relação com algo que seja sagrado para alguém. Mesmo quando não é sagrado para mim.
Não creio em astrologia, nem em reencarnação, tampouco em simpatias e afins. Jamais oferecerei um presente pra Iemanjá. Mas nunca escreverei qualquer coisa que seja para ironizar quem tem crenças diferentes da minha, afinal, cada pessoa tem direito à escolha da sua religião. Tem direito inclusive de não ter uma.

Por isso eu não sou Charlie Hebdo. Liberdade de expressão tem limite sim. E isso não é censura. É respeito e bom senso.” (Coluna “Francamente” – Jornal O Diário – 14/01/15)

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Razão X emoção. Quem ganha?

emocao

De todas as batalhas que travamos nesta vida, talvez uma das mais difíceis seja aquela em quem razão e emoção entram em cena.

Uma querendo dominar a outra. Querendo mostrar ser mais forte.

E quando o assunto são as relações afetivas… hum… aí a briga é feia mesmo.

A razão tem como arma a cabeça. Pensar, refletir, ponderar. E só depois agir. Só depois tomar decisões.

Ela não aceita impulsos. Não incentiva atos insanos.

A razão é assim: equilibrada.

Mas do outro lado do ringue está a emoção. A danada da emoção.

Qual a sua principal arma? O coração. E o coração, vamos combinar, não pensa.

Ele só pulsa. Dispara às vezes.

A emoção não quer pensar em nada. Quer apenas se entregar. De corpo e alma.

E pior: a emoção tem um trunfo: a pele, uma aliada e tanto.

Quando existe química no contato das peles, é quase certo que a razão sai de fininho, sabendo que perdeu.

É isso pode ser perigoso, é claro.

O melhor a fazer é buscar o equilíbrio. O bendito equilíbrio. Dá um trabalhão, mas o resultado compensa.

Quem se entrega aos apelos do coração pode se dar mal. Pode se decepcionar, pode se frustrar. Quem não consulta a cabeça tem grandes chances de quebrar a cara.

Por outro lado, quem tem ouvidos apenas para a razão pode perder a oportunidade de viver uma grande história. Quem se faz de surdo para a emoção às vezes só sobrevive. Mas não vive.

Bom mesmo é se entregar sabendo o que se faz.

Bom mesmo é quando emoção e razão se encontram e, ao invés de brigarem, dão uma piscadinha uma pra outra e dizem “agora sim”.

É isso.

O corpo e a mente podem viver em sintonia.

É só querer.

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