Mês: março 2015



Síndrome do cobrador

cobrança

Poucas coisas podem ser mais nocivas a um relacionamento que a “síndrome do cobrador”.

E o que um cobrador faz? Cobra. Todo dia. Toda hora.

Isso vale para diversas relações afetivas. Entre namorados e ou casados. Entre pais e filhos, amigos. Entre irmãos.

O cobrador não age de má fé. Não age intencionalmente. Mas, justamente por que não percebe, carrega na tinta. Exagera na dose. E aí vem a cobrança.

Cobra atenção. Cobra carinho. Cobra amor. Cobra uma ligação telefônica. Cobra a visita. Cobra o presente.

O cobrador praticamente usa sua energia para, ao invés de amar, cobrar.

Mas quem ama não cobra?
Claro que sim. Faz parte de qualquer história. De vez em quando surge a necessidade da conversa franca, surge a vontade a gente abrir o coração. Não há problema em revelar ao outro que sentimos falta de alguma coisa.

Mas, quando essa cobrança é constante – diária, quem sabe – é difícil quem suporte.

Porque quem ama e se sente amado precisa exercitar a tolerância de aceitar o outro. Não se conformar. Mas compreender seu jeito de amar.

Porque amor, por favor, não se cobra.

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A lição do potinho

paiefilho

Da série “pequenas coisas, grandes lições”:

Por dois dias consecutivos, nosso caçula chegou da escola com o potinho de plástico em que leva o lanche quebrado. Dois dias, dois potinhos para o lixo.

Na primeira vez, ao questioná-lo sobre o ocorrido, ouvi um “não sei o que aconteceu… não foi minha culpa…”.

Na segunda, fiquei admirada e fiz de novo a pergunta. “Por que isso está acontecendo?”

“Não sei… não foi minha culpa…”.

Mas meu marido e eu sabemos bem o que acontece.

No afã de brincar enquanto nos espera, certamente deixa a lancheira em qualquer lugar e algum colega deve ter pisado.

Então o pai interveio e disse “agora você vai usar seu dinheiro pra comprar outro potinho”.

“O quê??? Mas não foi minha culpa… alguém pisou e…”.

Nessas horas, a gente vai de Piaget a Pinochet aqui em casa.

Colocamos fim à discussão lembrando o pequeno de que a culpa era dele sim.

Cuidar do seu material pessoal enquanto ele está na escola não é tarefa do professor nem dos amigos.

É apenas responsabilidade dele.

Como pais, não vamos exigir que crianças vejam uma lancheira no chão e digam “ó, céus, eu devo desviar para não quebrar o potinho…”.

Mas podemos exigir que o dono a deixe em um local mais seguro, afastado dos pezinhos dos colegas.

Ele fez cara feia, mas ficou quieto. E eu tenho medo de barata, não de cara feia de criança.

Ontem à noite, quando fui ao supermercado, pedi o dinheiro, conforme o combinado. A madrinha de vez em quando faz um cofrinho para o afilhado e ele está juntando uns trocados.

“Quanto, mãe?”

“Acho que uns R$ 4,00…” (não acham que eu compraria Tupperware, né???)

Resumo da ópera: potinho novo, comprado com o dinheiro que era para outro fim. Mas eu duvido de que hoje ele se esqueça de cuidar da lancheira.

É isso.

Educar não tem receita, fórmula ou milagre.

Educar exige atitude.

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“Disque-amizade” – Você se lembra?

Em meados da década de 80, quando nem sonhávamos com essa “tal” internet, nosso círculo de amizades era composto basicamente por parentes, vizinhos e amigos da escola.

Então o “145” surgiu como uma possibilidade de conhecer novas pessoas. Naquela época o fascínio que o “disque-amizade”  exercia sobre nós era imenso.

Fui uma adolescente “básica”. Achava-me bonita e feia no mesmo dia, morria de chorar por causa de um “primeiro amor”, mas sempre fui uma aluna dedicada e uma filha obediente.

Entretanto, o “145” foi responsável por uma mácula no meu currículo juvenil.

Quando meus colegas do colégio começaram a falar sobre isso, fiquei curiosa. Um dia, mesmo temendo que meus pais não aprovassem tal atitude, dei um jeitinho de fechar  porta do quarto onde ficava um dos aparelhos e liguei.

Devia ter uns 13 ou 14 anos.

Eu não falava; apenas ouvia. De vez em quando, alguma baixaria rolava, mas não era algo muito comum.

Quando dei por mim, estava “viciada”. Chegava da escola e, na primeira oportunidade, ia para o quarto cumprir meu “ritual”.

Lembro-me de que uma vez quando cheguei até a conversar com um rapaz e peguei o telefone da casa dele. Se minha mãe descobrisse, eu estaria frita. Graças a Deus, nunca levei adiante o seu plano, que era se encontrar comigo no centro da cidade.

Pois bem.

Um dia, ao abrir a conta do telefone, meu pai quase enfartou. Era uma cifra astronômica para os padrões que vinha todo mês. Mas não eram os interurbanos que chamavam a atenção, e sim a quantidade de pulsos.

Ele ficou muuuuuito bravo e queria saber quem é que estava ficando pendurada no telefone. Minhas irmãs ficaram assustadas e eu fiz uma cara de “não fui eu”.

Mas então meu querido pai disse que iria até a Telepar para verificar por que a conta estava tão alta. Nessa hora, imaginei-o descobrindo a quantidade de ligações que eu havia feito para o “145” e não tive outra escolha: comecei a chorar e confessei meu crime.

Não cheguei a apanhar, mas o sermão foi longo e a bronca, imensurável.

Com razão. Agi por impulso… Aliás, agi por causa de um pulso.

Daquele dia em diante, nunca mais ousei pegar o telefone para conseguir “novas amizades”.

Preferi ficar com as do colégio mesmo… Elas saíam mais em conta.

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