Mês: julho 2015



O homem do avesso

homem

Mais um dia. Mais um dia como tantos outros. Ao som do despertador, abriu os olhos, assustado. Não, não estava atrasado. Mas era aquele barulho. Aquele barulho não era apenas o prenúncio de que de novo faria as mesmas coisas, viria as mesmas pessoas, andaria pelos mesmos lugares. Aquele barulho era a prova de que a sua vida era comum demais, previsível demais. E isso o assustava. Assustava aquele homem de grande porte, de voz imponente, mas de vida vazia.

Depois do banho, vestiu-se como de costume. Ao se olhar no espelho, percebeu que havia colocado a camiseta do avesso. Não fez o gesto automático de tirá-la e vesti-la corretamente. Começo a observar melhor as marcas que identificavam o avesso. E gostou. E decidiu. Daquele dia em diante, seria um homem do avesso.

No elevador, a senhora de rosto fechado apenas fixou os olhos na roupa, mas não disse nada. No trabalho, os amigos riram dele. Na fila do banco, percebeu os olhares oblíquos, mas que reparavam nas marcas do seu avesso. E gostou. E decidiu. Seria mesmo um homem do avesso.

Então abandonou seu lado direito. Enterrou-o e colocou uma placa com os dizeres “Aqui jaz meu lado direito”. E por que raios o avesso não era direito? Ele era muito direito sim. Era o lado certo para ele. Era bom viver do avesso.

Continuava se importando com as pessoas que amava. Continuava buscando o melhor caminho para sua vida. Continuava pensando antes de fazer suas escolhas.

Mas não era mais o lado direito que comandava sua vida. Aliás, ele nem mais existia. Era o avesso que mandava. Era bom ser um homem do avesso.

Sentiu-se mais livre ao não sofrer com as cobranças alheias. Sentiu-se melhor por não se cobrar para corresponder às expectativas dos outros. Sentiu-se mais leve por andar na rua de outra maneira. Ele andava do avesso. E assim, sendo do avesso, começou a ser feliz.

Nem todos entenderam seu jeito avesso. Muitos só tinham explorado o lado direito a vida toda e qualquer um que fosse do avesso era quase um perigo. Mas era um preço que estava decidido a pagar.

O som do despertador continuava o mesmo. Mas já era mais o prenúncio de um dia previsível. Pessoas do avesso não têm dias previsíveis. Pessoas do avesso escrevem a sua história.

E o homem do avesso estava escrevendo a sua.

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Prefira sapos a príncipes

sapos

Prefira sapos a príncipes.

Acredite: os contos de fadas só
atrasam sua vida. Não à toa a gente
conta para as crianças dormirem.

Eles dão sono mesmo.

Sapos podem ser infinitamente
mais interessantes.

Príncipes são previsíveis.

Insossos.

E, é claro, procuram por princesas.

De preferência bem dóceis e bobinhas.

Daquelas que se derretem só com uma
bitoca e um convite pra andar a cavalo
pela floresta.

É isso.

Se você encontrar um príncipe, evite-o.

Se encontrar um sapo, vá em frente.

E, ao beijá-lo, não espere pela transformação.

Curta o sapo.

Vai valer a pena…

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“Por que Deus me abandonou”?

balanço

Não são poucas as vezes em que, mesmo não admitindo, questionamos Deus.

Se Ele é tão poderoso, por que não atende aos nossos pedidos? Por que não age em nossa vida da maneira pela qual tanto clamamos?

E eu acho que, por conhecer tão bem a nossa fragilidade, a nossa humanidade, Deus releva esse tipo de questionamento.

Ele é Poderoso sim. É Onipotente e Onipresente. Mas nos concedeu o livre arbítrio. Concedeu-nos o divino – e humano – direito à escolha.

E escolhas têm consequências. Sabemos disso. Mas nos esquecemos disso.

Então, quando a vida toma rumos estranhos, quando essas consequências batem à porta, brota em nossos corações um sentimento de revolta. Um sensação de que fomos enganados.

“Por que Deus me abandonou?”.

Mas Ele não abandona. Aliás, está conosco desde quando éramos apenas um projeto no Seu coração de Pai.

Dizem – e eu acredito – que a porta do coração só tem maçaneta pelo lado de dentro.

Deus, mesmo com todo o Seu poder, não arromba essa porta. Não invade. Às vezes Ele até bate, faz um “toc toc”.

E às vezes não.

Há momentos em que fica quietinho, à espera de que abramos a porta e digamos “seja bem-vindo”.

É isso.

Antes de questionar é bom refletir. E sentir. E crer.

Porque Deus é fiel.

Nós é que nem sempre somos…

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