Mês: dezembro 2015



Um (des)conto de Natal

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Um (des)conto de Natal

Já passava das 19h quando João Ninguém atendeu o último cliente. Estava cansado, muito cansado, mas sabia que o dia ainda estava longe de terminar. Depois de um ano de bastante trabalho, ele, o João Ninguém, finalmente tinha conseguido juntar um dinheirinho para comprar um presente de Natal para seu filho. E O calendário em cima da pequenina mesa de madeira lembrava aquele homem de mãos calejadas que, apesar do cansaço, teria que enfrentar o movimento do centro da cidade. Já era 23 de dezembro e, se bobeasse, talvez seu pequeno ficasse sem a bicicleta.

Sim, porque esse era o presente tão sonhado por aquela criança de 10 anos: sua primeira bicicleta. João Ninguém ficou feliz quando o menino, meio envergonhado até, fez-lhe esse pedido. Imaginava que, assim como outros coleguinhas da sua idade, fosse pedir um aparelho eletrônico qualquer, desses que quase conversam com a meninada. Mas não. O seu herdeiro queria uma bicicleta, assim como ele, o João Ninguém, também desejara na sua tenra infância.

Mas a diferença é que, ao contrário daquele homem que ganhava a vida fazendo mesas e cadeiras, o filho ganharia o presente. Tinha conseguido poupar o suficiente para comprar uma boa, dessas que aparecem nos folhetos das lojas.
Nem foi para casa tomar banho. Temia que o menino, vendo o pai sair, quisesse ir junto. E sonhava com a carinha de surpresa dele ao receber o presente na noite de Natal. Aquela mesma carinha de olhos miúdos que lhe disse, em um abraço apertado, “vou entender se você não puder comprar, tá, pai?”.

Sentia tanto orgulho disso. De o filho amá-lo independentemente do que pudesse oferecer. Sua esposa e ele batalhavam muito para cuidar dos três filhos com dignidade, mas o fato é que a família passava muitas vontades. Não necessidades, mas vontades mesmo, como de comprar aquele chocolate no dia da compra do supermercado ou de viajar para praia e, finalmente, conhecer o mar.

Por isso aquele era um momento especial. João Ninguém, com o dinheiro no bolso, tinha como missão comprar a bicicleta para seu filho mais velho. Os outros dois teriam que se contentar com um carrinho de madeira e uma boneca de plástico, brinquedos bem simples. Um dia chegaria a vez deles.
Nas ruas, as luzes e as músicas natalinas tentavam garantir o clima da época, mas a agitação das calçadas e do comércio e as pessoas segurando sacolas reforçavam o espírito que predominava no coração da maioria: o do consumismo desenfreado.

Mas João Ninguém não queria sacolas. Nem muitas compras. Ele só queria a bicicleta do seu primogênito. Já imaginava aquela caixa grande embalada em papel colorido, que com muito custo carregaria dentro do ônibus, na volta para casa. “Eles desmontam pra você”, tinha garantido um colega de trabalho.

Finalmente chegou à loja onde já havia feito uma pesquisa de preço. Procurou o vendedor com quem havia falado, mas ele não estava. Com voz mansa e jeito modesto, conversou com um outro rapaz, um alto e com cara de poucos amigos, que não parecia muito disposto a atendê-lo. Seus olhos procuraram com ansiedade pela bicicleta azul, uma que tinha visto na propaganda da tevê, cobiçada pelo pai e aguardada pela criança.

Qual não foi sua surpresa quando, ao chegar perto dela, viu uma placa com um valor superior ao anunciado. “Mas eu vi na tevê na semana passada… faz tão pouco tempo, moço… não dá pra fazer um desconto?”.
O vendedor dizia “sentir muito”, mas João Ninguém sabia que aquele homem de cara feia não sentia nada. Quem sentia naquele momento era ele. Colocou a mão no bolso, contou as cédulas. O dinheiro não era suficiente. Pensou no filho.

Recordou-se da carinha dele. “Eu vou entender se não der pra comprar, pai”.

Foi então que aconteceu: um anjo sem asas olhou para João Ninguém e se sensibilizou em ver lágrimas rolando em um rosto barbado. Alguém olhou de verdade para João Ninguém. E se apiedou. E conversou. E entendeu o que estava acontecendo. E disse “Não precisa de desconto. Eu pago a diferença”.

Um sorriso. Um abraço. Um agradecimento. A volta para casa com o coração em festa. Uma criança sorrindo. Um homem feliz.

Um milagre de Natal.

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