Há vida debaixo do cobertor

“Maldito frio!”

Esse foi o primeiro pensamento que lhe invadiu a mente assim que acordou.

A vontade que tinha era de jogar o despertador na parede, virar de lado e esquecer que era segunda-feira.

Mas não podia. Dormira tão pouco… mas já era hora de levantar.

Sobre ela, dois macios edredons, mais uma coberta. Protegendo seu corpo, um pijama de flanela.

“Maldito frio!”

Com a cara amarrada, saiu da cama; de braços cruzados, caminhou até o banheiro, com a coluna curvada, como se essa posição lhe conferisse algum calor.

“Maldito frio!”

Olhou para o chuveiro, mas não teve coragem de encará-lo. Escovou os dentes, arrumou os cabelos; escolheu uma calça de veludo, um belo par de botas, uma blusa de lã; por fim, um grande casaco, touca e luvas.

“Maldito frio!”

Desceu para a cozinha, de onde já vinha um agradável cheiro de café. Pães fresquinhos, buscados pelo pai, que acordara mais cedo, complementavam a refeição.

Sentou-se à mesa, ainda com a cara amarrada. Nem os elogios do pai, achando-a especialmente bonita naquela manhã, desfizeram sua fisionomia carrancuda.

“Maldito frio!”

Comeu em silêncio; voltou ao banheiro, escovou os dentes, passou batom. Pegou a bolsa, foi para a garagem.

O carro demorou pra pegar.

“Maldito frio!”

As ruas estavam quase vazias; poucos corajosos enfrentavam o vento para cumprir a rotina da caminhada; alguns estudantes, com o rosto tão sisudo quanto o dela, iam para a escola como quem vai para a forca.

“Maldito frio!”

Ligou o rádio; a previsão do tempo garantia temperaturas baixas durante todo o dia; durante toda a semana. “Melhor se prevenir”, alertava o locutor.

“Maldito frio!”

Quase chegando ao escritório onde trabalhava, parou em um semáforo. Olhou para o lado, em um gesto automático, e viu a cena.

Uma praça, um banco, uma árvore. Um homem, um papelão, um cobertor surrado.

Abriu o vidro e sentiu o vento cortando  sua face.

Em uma fração de segundos, lembrou-se da cama quentinha, do pijama de flanela, do café, do pão buscado com carinho pelo pai, das roupas que vestia, do carro que a abrigava.

Antes do sinal abrir, ainda pôde ver um movimento por baixo daquela coberta puída. Era um sinal de vida; um sinal de que ali havia uma vida.

“Maldito egoísmo!”

 

29 comentários sobre “Há vida debaixo do cobertor

  1. Dr Rivaldo Ribeiro 6 de julho de 2011 08:08

    A vida suspira e lamenta
    entre um gemido e um grito
    O tiro sibila pelo ar
    Era uma vida, era uma chance…

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:31

      Rivaldo e seus poemas… Ei! Mas poderia conversar um pouquinho comigo, hein? O que acha???

  2. Sergio 6 de julho de 2011 08:09

    Bom dia Lu.

    Respondendo a pergunta de ontem.
    Na segunda feira passada, de noite, o Sidnei, pelo que entendi, você estaria disponobilizando à comercialização (?) e autografando no dia 11/07 o seu livro nas dependências daIgreja Divino Espírito Santo, por volta das 21h.15min.

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 08:14

      Nossa, verdade, Sérgio! Me perdoe! Não liguei a data ao dia! Ficarei feliz em conhecê-lo então! Abraço!

  3. Adrianopdu 6 de julho de 2011 08:30

    Good Morning, Esse texto é brilhante, eles nos traz uma reflexão de como nosso egoismo acaba falando alto demais dentro de nós, mais o que o nosso egoismo não contava era com a comoção,emoção e solidariedade, sentimento puro capaz despertar até o mais frio dos corações, por isso, duvido a pessoa que não se sinta mal, quando está a caminho do seu lar onde lhe espera, banho quente, refeição e cama quentinha, pelo menos isso acontece comigo. Muitas vezes o medo nos impede de ajudar essas pessoas, porque a sociedade descriminalizou essas pessoas como marginais e acaba para nós até sendo difícil de falar desse assunto. Unica coisa que peço é quem tem condição financeira ou roupas de frio sobrando, entregue aos albergues da cidade que eles sabem melhor que nós o que fazer.

    Tem um filme da Atriz Sandra Bullock que se chama Um sonhos Possível, que conta mais ou menos uma história de um jovem que foi adotado na rua e se tornou um dos maiores jogadores de futebol americano, o filme é emocionante e comovente, ele faz a mesma coisa com nós que o texto da Lu fez hoje, refletir como somos egoístas.

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:32

      Oi, querido! Obrigada pelo elogio e pelo comentário! Assisti ao filme que você citou; é simplesmente maravilhoso!

  4. Gabriel Lucas 6 de julho de 2011 09:06

    Bom Dia Lú!!

    Às vezes reclamamos de barriga cheia não é? Eu digo por mim mesmo, quando vejo alguem na rua passando frio, até penso em ajudar, maso medo me atrapalha, o receio toma conta de mim, e acabo passando batido. Nós tememos por nossa propria segurança.
    É como eu disse em postagens passadas: todo sistema gea lixo, mendigos, andarilhos, drogados, são todos lixos di sistema jogados nas ruas.
    Somos egoistas sim, lú. As vezes esquecemos que sempre vai existir alguem que está em situação pior que a nossa.
    Seu texto foi muito bem elaborado, desperta a nossa consciencia para refletir nossos atos. mas, eis a pergunta mais polêmica:
    “DEVEMOS AJUDAR A TODOS QUE VEMOS, OU OS QUE MAIS NECESSITAM? DOAMOS ROUPAS PARA O ALBERGUE OU DIRETAMENTE AO NECESSITADO? DEVEMOS AJUDAR O MENDIGO QUE BATE NA PORTA DE NOSSA CASA PEDINDO DINHEIRO OU COMIDA OU AS CRIANCINHAS DOS HOSPITAIS QUE VIVEM DE DOAÇÕES?

    pergunta difícil, Lú, tem tanta gente para ser ajudada, que esquecemos de quem mais precisa de ajuda, nós mesmos!!

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:34

      Olá, Gabriel! A situação é mesmo delicada; acho que você ainda não leu, mas meses atrás fiz uma postagem que trata deste tema: o medo nos impede de ser solidários (“A mulher e o lenço; meu medo e eu”). Estaria sendo muito hipócrita se dissesse que, ao ver uma cena como a que descrevi no texto, chego perto e tenho uma atitude concreta. Penso que haja outras maneiras de ajudar. Mas parar com a “síndrome do reclamão” pode ser um começo, concorda? Abraço!

  5. Junior Vilela 6 de julho de 2011 11:02

    Bom dia, Lu

    Mais um belo texto, carregado de reflexão. Desde o momento de se levantar até o seu fim.
    Levantamos reclamando, não valorizamos o que temos (mesmo que seja pouco, mas temos), quantas vezes como nesse texto, nossos pais estavam nos esperando com o café pronto e não agradecemos (nem pelo café, nem por que tínhamos alguém que se preocupava e também nos cuidava). Saímos de casa reclamando, por termos que ir para o trabalho, ou seja lá o que for, basta sairmos da nossa zona de conforto e pronto reclamamos.
    Machucamos quem está perto, e isso tenho por teoria porque somos “espertos”, pois sabemos que as pessoas mais próximas aguentam e perdoam.
    E aí esbarramos com uma cena que nos choca, mas que não é tão chocante quanto a falta de carinho que às vezes demonstramos com nossos pais, nossa esposa, nossos filhos.
    A falta de calor do coberto também pode ser estendida como a falta de calor humano que não dispomos com um sorriso, com um carinho, com um simples escutar. E as duas no meu entender fazem muita falta. Só que a falta de calor humano faz mais, muito mais.
    Hoje ela sente frio, mas mesmo no calor essas pessoas sentem falta de calor humano.
    Desculpe se fugi do texto, mas acho que faz muita falta o alimento, o cobertor e principalmente o alimento da alma !

    Fique com Deus

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:35

      Olá, meu querido! Sua reflexão é coerente. Às vezes o “próximo” está BEM próximo mesmo, somente a alguns passos de nós. Sempre é bom pensar nisso também. Grande abraço!

  6. Aletér 6 de julho de 2011 11:13

    bom diaa Lú!!

    Seu texto reflete perfeitamente o nosso egoísmo, reclamamos e muito pouco fazemos pelo próximo…
    Falta-nos compaixão!!!
    bjsss,

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:39

      Olá, minha querida amiga por enquanto virtual! Acredite: este texto também pega no meu calo! Não por reclamar do frio, porque adoro, mas de outras “cositas” sem tanta importância. Beijo!

  7. Everson Cavalheiro 6 de julho de 2011 11:34

    Bom Dia Lu!
    Somos muitos egoístas mesmo… Esse texto vem abrir a nossa mente quanto a isso… Belo post!

    Eu, particularmente, amo o frio e desejo o frio, claro que aquele frio mais gostoso não a geada… rsrs.
    Mais acabo de ver que é um egoísmo da minha parte desejar algo que trará desconforto à outros, pois tenho cama e cobertor, mais e os que não têm?
    Vivendo&Apredendo!
    Ah, muito obrigado pelas palavras do comentário de ontem!
    Deus Te Abençoe, Abraços!

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:41

      Olá, Everson! Por mais que tentemos, penso que todos nós, de vez em quando, acabamos sendo um pouquinho egoístas. O importante é ficarmos atentos para, acima de tudo, agradecermos pelo que temos e olharmos para quem precisa. Abraço!

  8. Juliana 6 de julho de 2011 12:06

    Lu …otimo texto p/ refletirmos!!Muitas vezes nos tornamos cegos diantes de certas situaçoes ,pessoas.E acabamos virando robozinhos onde nao damos valor ao que temos esquecendo de agradecer a Deus por nossa vida e no que nela ha!!!Vivendo as situaçoes diarias de forma mecanizada e esquecendo que existe pessoas passando por situaçoes bem dificieis!!

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:42

      Oi, amiga! Está aparecendo pouco por aqui, hein? Faça o favor!!! Não reclame se ficar pra recuperação no final do ano!!! Obrigada pelo comentário! Beijo, querida!

      • Juliana 6 de julho de 2011 20:07

        kkkkkkkk,verdade estou com media baixa,mais vou recuperar,…kkkk bjos

  9. Roginer 6 de julho de 2011 12:23

    Bom dia.

    O jornal mostrou outro dia duas pessoas levando cobertor e sopa quente aos sem teto, …duas tentando ajudar dezenas, isso é injusto… você leitor desse blog, que ainda não fez sua caridade, vai ficar ai parado!?

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:45

      Olá, meu amado cunhado! Sempre bom receber você por aqui! Valeu o “puxão de orelha”!!!
      Abraço!

  10. Thaise Roth 6 de julho de 2011 16:11

    É o chicote da Lu pegando fogo hoje ehehehhe.

    Adoro esses textos que dão um “tapa” na nossa cara. Achei engraçado esses dias de muito, minha falou “menina cuidado, tá frio, fica andando de moto por ai”. AI falei para ela está bom assim, antes frio do que chuva.

    Ai o que que vem?! 5 Dias de chuva sem parar, então andei na chuva e frio e de moto. Claro que não fico com um sorriso na cara.

    Aqui em casa reclamamos também e tals. Mas não ficamos com a cara fechada não eheheh. Sempre nos policiamos para não ficar reclamando á toa sabe?!.

    E geralmente pensamos, ainda temos como nos locomover sem necessitar do serviço “maravilhoso” de transporte público “oferecido” pela prefeitura.

    Lembro de em dias de tempestades, muitas pessoas no “ponto” de parada de ônibus que em muitos locais é um pedaço de madeira pintado. E elas continuam ali, com a sombrinha esperando para ir trabalhar.

    Bom nem vou continuar o resto do pensamento, imaginar o que muitas pessoas passam por ai para sobreviver, não é fácil!

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:51

      “Chicote da Lu”??? Hum… soa até um pouco erótico… mas gostei! Quem sabe use esse termo em uma próxima postagem. Como título, causaria, no mínimo, certa curiosidade nos leitores. Mas, brincadeiras à parte, não é minha intenção pisar no calo de vocês; minha intenção é pisar no nosso!!! Beijo, amiga!

  11. Julie 6 de julho de 2011 17:15

    Olá Lu, lindas palavras, me fez refletir muito, e por estes minutos lendo este belo e triste texto senti muita pena das pessoas que encontram-se nessa situação nos dias frios. Porem após acabar de ler me veio outra reflexão. Das muitas pessoas que estão ali debaixo do cobertor no friu intenso, na maioria são jovens e gozando de perfeita saude, dependentes de drogas, mais com saude. Será que se eles não tivessem um pouquinho de voltade de mudar, sair dessa situação alguem não os ajudariam? Será que eles estão ai por causa do governo? dos pais deles? Da sociedade? Depois de ler isto que eu escrevi vc vai me achar uma egoista não? Mais esses dias me aconteceu algo que me fez pansar assim. Depois de uma confraternização na empresa onde pedimos varias pizza, sobrou 2 pizzas grandes, onde nem chegamos abrir a caixa, passando entre a 19 de dezembro e e a mandacaru paramos do semafaro onde um jovem nos abordou pedindo dinheiro alegando que estava com fone, imediatamente ofereci uma das pizza inteira, pois bem ele a recusou e ainda saiu falando palavroes. Será que eu consigo sentir pena de um ser desses? Não consigo!! Tenho pena de um monte de animais que são abandonados todos os dias nas ruas que passam friu e fome. Fora o dinheiro que o governo já tira de mim para ajudar essas pessoas, fora as moedas que dou para os flanelinhas por medo que ele risque meu carro, eu não dou mais nenhuma ajuda!! Vou ajudar esses animais que estão nas ruas, e para aqueles que já jogaram um animal na rua, e que maltratam esses seres inocentes, que Deus coloquem eles no lugar que eles merecem!!

    • Lu Oliveira 6 de julho de 2011 19:54

      Oi, Ju! Sua reflexão, assim como a do Júnior, também é coerente. De fato, muitas pessoas por aí padecem por pura opção. Meu principal objetivo com o texto foi nos fazer pensar em como é importante agradecer em vez de reclamar. Mas fico feliz quando minhas palavras provocam nos leitores diferentes leituras e opiniões. Isso é bom demais! Beijo, querida!

  12. Luciane Baratela 6 de julho de 2011 21:45

    Lu, é impossível esquecer de quem passa estes dias de muito frio nas ruas, expondo sua carne nas noites geladas, todavia como bem lembrou o Roger, o que de prático realmente fazemos? Doamos cobertores e roupas, providenciamos sopa e leite quentes ou pelo menos doamos para que alguém faça algo? Se muitos estão nas ruas por “opção” é para uma outra reflexão, agora que é mais fácil reclamar do “maldito frio” debaixo de um bom edredon, ninguém duvida, não é verdade?
    Ótimo texto. Sequência narrativa perfeita. Criatividade para trabalhar o tema. Mais um “modelo” para saborear com os alunos; eles nem sentem mais falta do Luís Fernando Veríssimo… mas também para quem tem Lu Oliveira…

    • Lu Oliveira 7 de julho de 2011 08:45

      Oi, Nani! Como já escrevi em outra resposta, dizer que eu iria tomar uma atitude concreta no momento em que visse uma cena assim seria hipocrisia. Mas concordo com você: parar de reclamar já é uma boa atitude. E, mais uma vez, obrigada pelos elogios, pelo incentivo. Eles são importantes para mim! Amo você!

  13. rogerio 7 de julho de 2011 18:41

    Boa noite , Lu

    Nós somos muito egoísta, porque tendo uma casa quentinha, cobertor, cama, e roupas quentes, nós reclamamos muito, assim remos que olhar para outras pessoas que não tem nada e parar de reclamar demais e sim agradecer por tudo que temos.

    • Lu Oliveira 8 de julho de 2011 08:30

      Verdade, Rogério! Sempre bom olhar para os lados um pouquinho… Abraço!

  14. Jose 27 de maio de 2014 08:51

    Maldito frio! A cabeça dói, os pés congelam, as mãos não obedecem ao controle da mente. A coluna retorcida, a chuveiro que não esquenta, as meias engrossando a canela. Frio só é bom para o jovem, que não fica quieto um minuto. Procuro o calor gostoso do fogão a lenha, pensando na hora de ter que sair para a rua. Maldito frio! Que não tem pena de quem nada tem. Essa é a época para se fazer alguma coisa pelos mais necessitados na vida. Um agasalho, um cobertor, um prato de sopa. Não precisa procurar muito, logo ali na esquina tem alguém esperando uma ajuda. Ainda bem que tem gente preocupada com o frio. Dela e dos outros..

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