O discurso raso de uma modernização mandrake

A REFORMA TRABALHISTA E A DESONESTIDADE DE UMA NARRATIVA SACANA

Impressiona a desfaçatez das lideranças políticas que apoiam a reforma trabalhista e o comportamento parcial, para não dizer sacana, da mídia, em relação ao tema. Ouvi hoje cedo o relator do projeto no Senado, senador capixaba Ricardo Ferraço, dizer que a reforma moderniza as relações trabalhistas , criando empregos e tirando da informalidade milhões de trabalhadores. Isso foi logo ali pelas sete e pouco, quando eu passava o cafezinho aqui em casa e, ainda de estômago vazio, não cheguei a sentir náusea.

O discurso, muito raso diga-se de passagem, é o de que a CLT está ultrapassada, que impede o desenvolvimento econômico. Quanta sandice! Até parece que o desemprego está nesse patamar de 14% por obra e arte da Consolidação das Leis Trabalhistas e não por causa dos juros que o tesouro paga da dívida pública, da remuneração absurda dos rentistas, bancos à frente e da incapacidade do governo promover o aquecimento da economia.

Até parece que os grandes devedores e sonegadores de tributos não têm nada a ver com esta sangria. É revoltante saber que o governo e o empresariado transformam o trabalhador e a legislação protetiva em pode expiatório. E com total apoio da mídia regada a generosas verbas publicitárias, prepara o espírito da população brasileira para que ela absorva com tranqüilidade a retirada de direitos básicos dos trabalhadores.

É abominável o comportamento de grandes veículos de comunicação, na abordagem tanto da reforma trabalhista quanto da previdenciária, só ouvindo um lado. Pode prestar atenção nos noticiários das redes de televisão, que você não verá entrevista de nenhum especialista no assunto que se contraponha a essas reformas . Não há contraponto no noticiário da TV, nem do rádio e nem dos jornais impressos. Alguém, por acaso, já viu os telejornais colocarem no ar a posição da Anamatra – Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho? São cerca de 5 mil juízes a questionarem duramente (e com fortes argumentos) a reforma trabalhista. Contra esse projeto usurpador de direitos se contrapõe também 60% dos ministros do TST, a mais alta corte da justiça do trabalho no país.
Some-se às manifestações de tantos magistrados, posicionamentos explicitados por economistas, sociólogos, sindicalistas, deputados e senadores de oposição ao governo moribundo de Michel Temer. Tudo isso é ignorado no debate midiático, que parece considerar otários todos os que sentam-se à frente de um aparelho de televisão, para se “informar” , principalmente via Jornal Nacional.

Falta ao empresariado, que acha equivocadamente que se beneficiará da reforma trabalhista, compreender que o alto custo da mão-de-obra não está no direito trabalhista mas sim, na capacidade que o governo tem de cobrar impostos onde não deve. Por que ao invés de questionar os custos que a CLT gera para empregar, os empresários não se enchem de coragem e pressionam o Executivo e o Legislativo pela redução de encargos sobre as folhas de pagamento? É bem mais fácil bater em quem menos poder de reação possui, não é assim? Me poupem.

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