INVERNO INTERNO

 

A nevasca que se instala na soleira,

bem se assemelha ao que sinto.

Há inverno no coração mal cicatrizado,

saudades gritando pelas frestas:
quente por fora e fria por dentro.

Ouço ecos diferentes do que as paredes

de nossa alcova outrora presenciaram.
A loucura é fiel companheira,
nos momentos que clamo companhia.

Afinal como viver daquelas ilusões,

no contraste do pragmatismo velado?

Se daquele cego êxtase que vivemos,

restaram apenas alguns sonhos,

prefiro condená-los  à lareira,

destruindo o que abrasava em lava.

Penso.
Escrevo.
Apago.
Sonho e reescrevo só no pensamento,

tudo já foi dito anteriormente,

minhas palavras também anoiteceram,

desistidas de esperar que voltasse.
Alguns me chamam de guerreira,

hoje seria um ótimo dia para se desistir!

Culpariam a tempestade de neve,

ou a lareira acesa e descuidada.

Não imaginariam que eu me lancei,

entremeada às Cartas de Evita em chamas,

indo ao encontro do soldadinho
que sorrindo me acenava.

Flor Bela, não Eu
(livro no prelo)

 

prosa poetica
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NÃO VENHA, AINDA

Não venha, ainda! Não há esperanças para recomeçar,
as portas estão enferrujadas e janelas cerradas para amar.
Não ative seus desejos, o sorriso do retrato é montagem,
um adesivo à venda na banca da vida para ludibriar.

Não venha, ainda! A seiva que era doce em fel transmudou,
nem sei nem se há reversão nas veias dilatadas de tanta dor.
Melhor não ficar à espreita com esperanças de habitar,
coração abarrotado de tantas decepções, amarguras e bolor.

Minh’alma ingênua merecia teus afagos verdadeiros,
não aquele alçapão de amarguras e engodo.
Não venhas, ainda! Da eminente tragédia devo alertá-lo.
Mude o trajeto dos sonhos, pois os meus já debandaram.

Procure alguém que acredite no seu pobre vocabulário,
porque em mim só encontrará o niilismo embrutecido.
De presente, eis minha sinceridade, nada mais há comigo.
Restou-me apenas o embuste da matéria sem atrativos!

Não venha ainda!  É ilusória a imagem nobre Poeta,
Há Sodoma no meu corpo com o fascínio de Gomorra.
Venha no portal da aurora na colheita do orvalho,
pronto para colher com as mãos as Cartas em Flor,
para dá-las aos pedintes de Amor que as saibam ler.

Do 3º livro no prelo, tributo a Florbela Espanca.
FLOR BELA, NÃO EU

homenagem
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Minha história de Leitora

Brotei de uma família humilde, na infância não tive acesso aos livros.
Cresci na prática com bola e brinquedos de menino na rua sem asfalto, rodeada de casas de madeira.
Com o passar do tempo, os gibis chegavam em minhas mãos depois as revistas e finalmente os livros.
A mãe de cultura imensa, mas semianalfabeta, já tinha decorado a frase: “que tanto estuda, essa menina? O que tem que fazer é casar logo, igual todas da família”.
Com o tempo eu percebi nas leituras que eu não era igual a todo mundo, e desde então casei com os livros. Neles encontrei principalmente as perguntas que me deixam no desassossego. Chego a dizer que as letras me salvaram do terapeuta e das armadilhas do mundo lá fora. Nas viagens nas entrelinhas, eu me penso no subliminar e escapo num viés de poesia.
Afinal, quem garante que o livro que escrevo, não é minha vida escrita por Deus e a realidade um mundo transcendental?
Das metas que tenho, só não andei de bicicleta nas muralhas da China e nem abracei um panda, mas eu chego lá!
Mas a neve que eu tanto queria sentir, caiu na pele e dela quase fiz uma raspadinha.
Sou leitora formada na vida e na faculdade, os livros descansam no criado mudo – que de mudo não tem nada. Sei mais dos personagens do que da vida real, de tanto ler vários livros ao mesmo tempo, não me recordo ao certo quem disse, quando, nem onde, mas a mensagem! Essas eu sei e transmito a quem quiser ouvir.
Sou hoje leitora transcendental com a função de semear sonhos e formar escritores.

prosa poetica
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Homenagem às Mulheres de Sarandi.

 

No momento em que a mulher supostamente fez menção de acordar de seu coma existencial eu não estava lá. Contudo, posso imaginar o homem dominador estupefato! Na impotência de ser independente ainda, a mulher se abastecia lendo e provavelmente escrevendo escondido. Sim, no meu ponto de vista, ela deixou de hibernar ao passo que lia e relia tudo que aparecia. A literatura por si só liberta, retira as vendas dos olhos e mostra a saída da Caverna de Platão. Infelizmente, eu não estava lá no momento do insight e perdi o brilho no olhar das mulheres que viveram além de seu tempo. Porém eu tive a oportunidade de neste século, no Dia Internacional da Mulher em Sarandi, ver germinar a semente de liberdade de expressão da nossa classe de guerreiras, daquelas que lutam no dia-a-dia por condições melhores para sua família, muitas vezes com tripla jornada. Neste contemporâneo em que vivo, as mulheres sarandienses saíram pacificamente pelas ruas, e eu senti-me orgulhosa por estar acompanhando este levante cultural e representando Maringá.  Eu presenciei centenas de mulheres caminhando e cantando pacificamente, sem necessidade de gritos. Eu me reconheci em tantas Lúcias, Elenas, Marianas, Elianas e tantas outras que se emocionavam  em coro. Pensem no meu orgulho… Eu estava lá naquela passeata pacífica,mostrando que nós existimos, ora como protagonistas ora como figurantes, empunhando a bandeira da igualdade. E é tão pouco o que almejamos: apenas o reconhecimento das várias mulheres que há em nós, não apenas no nosso dia.Tentaram nos incutir que por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Ledo engano que foi visto a olhos nus nas ruas:Grandes mulheres estavam lado a lado com os homens, fazendo-os se encherem de orgulho deste dia designado a todas nós Mulheres com M maiúsculo. Ah, parabéns aos homens que estiveram conosco!

Avante!

Railda Masson
Mulher, Professora, escritora, poeta.
Atualmente com Oficina de Literatura em Sarandi.

 

 

homenagem
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