prosa poetica



INVERNO INTERNO

 

A nevasca que se instala na soleira,

bem se assemelha ao que sinto.

Há inverno no coração mal cicatrizado,

saudades gritando pelas frestas:
quente por fora e fria por dentro.

Ouço ecos diferentes do que as paredes

de nossa alcova outrora presenciaram.
A loucura é fiel companheira,
nos momentos que clamo companhia.

Afinal como viver daquelas ilusões,

no contraste do pragmatismo velado?

Se daquele cego êxtase que vivemos,

restaram apenas alguns sonhos,

prefiro condená-los  à lareira,

destruindo o que abrasava em lava.

Penso.
Escrevo.
Apago.
Sonho e reescrevo só no pensamento,

tudo já foi dito anteriormente,

minhas palavras também anoiteceram,

desistidas de esperar que voltasse.
Alguns me chamam de guerreira,

hoje seria um ótimo dia para se desistir!

Culpariam a tempestade de neve,

ou a lareira acesa e descuidada.

Não imaginariam que eu me lancei,

entremeada às Cartas de Evita em chamas,

indo ao encontro do soldadinho
que sorrindo me acenava.

Flor Bela, não Eu
(livro no prelo)

 

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Minha história de Leitora

Brotei de uma família humilde, na infância não tive acesso aos livros.
Cresci na prática com bola e brinquedos de menino na rua sem asfalto, rodeada de casas de madeira.
Com o passar do tempo, os gibis chegavam em minhas mãos depois as revistas e finalmente os livros.
A mãe de cultura imensa, mas semianalfabeta, já tinha decorado a frase: “que tanto estuda, essa menina? O que tem que fazer é casar logo, igual todas da família”.
Com o tempo eu percebi nas leituras que eu não era igual a todo mundo, e desde então casei com os livros. Neles encontrei principalmente as perguntas que me deixam no desassossego. Chego a dizer que as letras me salvaram do terapeuta e das armadilhas do mundo lá fora. Nas viagens nas entrelinhas, eu me penso no subliminar e escapo num viés de poesia.
Afinal, quem garante que o livro que escrevo, não é minha vida escrita por Deus e a realidade um mundo transcendental?
Das metas que tenho, só não andei de bicicleta nas muralhas da China e nem abracei um panda, mas eu chego lá!
Mas a neve que eu tanto queria sentir, caiu na pele e dela quase fiz uma raspadinha.
Sou leitora formada na vida e na faculdade, os livros descansam no criado mudo – que de mudo não tem nada. Sei mais dos personagens do que da vida real, de tanto ler vários livros ao mesmo tempo, não me recordo ao certo quem disse, quando, nem onde, mas a mensagem! Essas eu sei e transmito a quem quiser ouvir.
Sou hoje leitora transcendental com a função de semear sonhos e formar escritores.

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Molhados de chuva

 

As horas não passam.
Além da janela,
vejo sua imagem máscula
que se aconchega nos braços dela.
Daquela mulher escolhida,
dentre tantas,
e que deixou de ser a chamada de ” a outra”.
Ela é a matriz e motriz dos beijos dele!
Dona e senhora de seus desejos.
Agora assina seu sobrenome
e coloca as cartas na mesa.
Dormem enleados feito caracol,
ausentes ao barulho da chuva no telhado.
Sou apenas uma narradora
daquela história de amor,
que pelo Sim foi concretizado.
Fecho a janela do livro deles
porém,
a chuva continua…
Assistindo os corpos deles molhados.

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Mulher não chora

 

Larga o pranto pelo caminho,
pois jamais mostraste a dor.
Levanta a cabeça e lembra,
do grande amor que passou.
Pior do que perder a guerra
é a dor de ele ter esquecido,
aquela que tanto o amou.

Vai em frente mulher forte,
mostre a ele sua indiferença.
Levanta a cabeça e sorria,
se o encontrar pela frente.
Retira o languido olhar e haja,
como se não o reconhecesse.

Depois ao chegar a casa chora
tudo o que escondeste lá fora,
pois homem algum merece ver
todo o estrago que fez na gente.
Na verdade mulher chora, chora,
tudo que o homem não sente.

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