Vinte minutos, uma vida

Por Wilame Prado

O escritor paulista Daniel Galera contribuiu satisfatoriamente com a história recente do Brasil no romance “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 34,90). Como poucos na literatura contemporânea, explorou o contexto online brasileiro, do advento da internet em 1995 até janeiro de 2014, tempo vivido pelos personagens do livro, a partir do assassinato de Andrei Dukelsky, conhecido por Duque.

Na trama, Duque fora um dos criadores do fanzine digital Orangotango (inspirado no verídico Cardosonline, o qual Galera fez parte), vindo a se tornar realmente escritor. Aurora, Emiliano e Antero – amigos dele, também colaboradores do fanzine nos idos de 1999 – são os narradores em primeira pessoa de “Meia-Noite e Vinte”, todos abismados com a morte banal daquele que prometia ser um dos grandes escritores brasileiros.

Em cada capítulo, uma voz diferente. Primeiro, Aurora: doutoranda em Biologia que conheceu o pessoal do fanzine quando fazia Jornalismo e que, principalmente após a morte de Duque e após uma negativa numa apresentação acadêmica, se vê inserida na espiral do pessimismo dos tempos de agora, a qual lhe faz pensar no fim do mundo. Depois, Emiliano, jornalista freelancer mais velho, gay e que está incumbido de escrever uma biografia do amigo escritor morto. Por fim, Antero, um exótico inteligente da área de Humanas que, mais velho, casado e com filho, acaba ficando rico com o passar dos anos após fazer sucesso com a sua agência de publicidade.

Daniel Galera consegue convencer ao propor três modos diferentes de contar uma história cheia de pontos em comum, sempre direcionada à vida e obra de Duque. O contexto do romance se destaca mais que a história principal: a de três amigos que se reencontram numa Porto Alegre real e terrível – verão escabroso, fedida e cheia de greves – para um velório.

“Meia-Noite e Vinte” não é sobre amizade, porém: é sobre internet, hábitos de uma geração que começou com o ICQ e chegou ao WhatsApp e aos chats pornográficos, os perigos da literatura em meio ao que é banal e principalmente sobre o tempo que escorre das mãos, todos ficando velhos e cansados, mas ainda tão próximos e nostálgicos da época da juventude, da virada do milênio, anos 2000.

A história se aproxima do leitor porque, arrisco dizer, o leitor de Galera viveu boa parte daquilo narrado por Aurora, Emiliano e Antero. Ler “Meia-Noite e Vinte” é como ler a sua própria história recente, sentindo saudosismo e ao mesmo tempo refletindo amargamente o quanto tudo parece estar cada vez pior – ainda que com as facilidades flagrantes de uma vida pós-moderna que se esgota quase que inteiramente olhando para uma tela de smartphone.

É como se tivéssemos perdido a noção do tempo e, também, a queima de fogos tradicional da virada de ano, na meia-noite. Passaram-se vinte minutos, uma vida se passou.

ESTANTE
MEIA-NOITE E VINTE
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço sugerido: R$ 34,90

*Resenha publicada no caderno Cultura do Diário em 24 de fevereiro de 2017

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Julgamento do século na Netflix

Grande elenco em “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story”

Por Wilame Prado

A série estreante mais assistida de 2016 chegou semana passada na Netflix. “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story” (do canal pago FX) narra, em dez capítulos, aquele que foi intitulado pela mídia como o julgamento do século.
O ano era o de 1994 e o caso é do ex-jogador de futebol americano Orenthal James Simpson, acusado de ser o responsável pelo brutal assassinato da ex-mulher e de um amigo dela.
Composta por atores brilhantes – como Cuba Gooding Jr., Sarah Paulson, Courtney B. Vance e John Travolta –, a série surpreende pela capacidade de dinamismo. Em meio a incontáveis cenas de tribunal, em capítulos longos, com cerca de uma hora, em nenhum momento leva quem está assistindo ao tédio.
A típica série em que não se consegue parar de ver até o desfecho.
Com a proposta de narrar casos reais e famosos no mundo todo, os criadores de “American Crime Story” corria um grande risco: afastar o público em razão dos spoilers. Pelo menos nesta primeira temporada, isso não ocorreu: talvez tirando os espectadores mais jovens, muita gente ainda se lembra do desfecho do julgamento de Simpson, concluído apenas em 1995, após mais de 350 dias de julgamento. No entanto, não é o fim que importa e sim o desenrolar dos fatos, além dos fascinantes bastidores do poder.
Direito e mídia
Assistir a esta primeira temporada é exercício para se tecer sérias reflexões sobre o Direito, o Jornalismo, a “espetacularização” dos julgamentos e a criação de heróis envoltos à fama alcançada pelos esportes e pela televisão.
Além disso, “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story” relembra o racismo contra negros nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, a força da coletividade da comunidade negra daquele país. Enfim, série muita bem produzida e que trata de assuntos importantes da história recente mundial.
A série recebeu 22 indicações no Emmy, levando cinco estatuetas na premiação. No Globo de Ouro, foi indicada cinco vezes, vindo a faturar dois prêmios. Outras três temporadas de “American Crime Story” estão garantidas pelos produtores.
O segundo ano da série vai focar nos acontecimentos do furação Katrina, o qual gerou quase duas mil mortes em Nova Orleans e no sul da Flórida em 2005. A terceira temporada focará em Gianni Versace, estilista da alta costura italiana que foi assassinado pelo gigolô Andrew Cunanan em 15 de julho de 1997. E a quarta temporada contará a famosa história do escândalo envolvendo o ex-presidente dos EUA Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky.

*Texto publicado em 10 de fevereiro no caderno Cultura, do Diário

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‘O leitor é um grande mistério’, diz Hatoum

Estreia segunda-feira (9) a minissérie da Globo “Dois Irmãos”, inspirada em romance homônimo de Milton Hatoum. Um dos autores em atividade mais respeitados do País respondeu três perguntas sobre a série, o livro e leitores:

Por que “Dois Irmãos” tem atraído tantos projetos artísticos que extrapolam as páginas do livro?
Não sei dizer o que motivou adaptações para o teatro, HQ e minissérie, mas deve ter algo a ver com a trama do romance, o modo de narrar e a linguagem. Um drama familiar em contraponto com a decadência de Manaus num período de brutalidade da história brasileira recente. O mais relevante numa ficção é a forma de narrar. E o narrador do “Dois irmãos” não pertence à família de imigrantes libaneses. Nael é um agregado, um personagem que veio de baixo, filho de uma empregada, uma índia que trabalha para sobreviver. Ele consegue estudar graças ao avô (Halim) e os estudos dão a ele a capacidade de refletir e escrever sobre o passado. O narrador não sabe quem é seu pai. Talvez esse drama moral, a paixão de Zana (mãe dos dois irmãos) por um dos filhos e outros conflitos tenham atraído a atenção dos leitores. Mas o leitor é também um grande mistério.

Essas possibilidades que cercam a literatura aproximam as pessoas dos livros?
Acho que aproximam. Sei que vários leitores da adaptação do Fábio Moon e do Gabriel Bá leram também o “Dois irmãos”. Certamente isso está acontecendo ou vai acontecer com os espectadores da minissérie.

Como o senhor se sente quando vê a sua obra sendo utilizada em outras artes, como a dos quadrinhos e da teledramaturgia?
Foi um golpe de sorte ou uma feliz fatalidade. Os artistas gráficos são excelentes, assim como a direção de Luiz Fernando Carvalho, o roteiro da Maria Camargo, os atores, figurinistas e toda a equipe da minissérie. Fico contente em compartilhar com esses artistas a história e a linguagem de um romance a que dediquei quase dez anos da minha vida. Na verdade, eles não adaptaram, e sim recriaram a essência do romance em outra linguagem. Penso que meus leitores gostaram dos quadrinhos e vão apreciar a beleza visual da minissérie.

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Coluna Estante – Nakasato no Enem, Drummond, Assunção, Rebinski e prêmios literários

Por Wilame Prado

NAKASATO NO ENEM Quer ir bem no Enem? Leia mais! Uma das questões da prova aplicada no último fim de semana foi referente à “Nihonjin”, romance do maringaense Oscar Nakasato.

PAI O jornalista da CBN Maringá Victor Simião descobriu que a própria filha do Nakasato, a Tama, 15, fez o Enem e achou a questão envolvendo o livro do pai um tanto complexa. Na questão, havia um generoso trecho de “Nihonjin”.

DRUMMOND DEU AVAL O escritor de Londrina e radicado em São Paulo Ademir Assunção mostrou antigo cartão esta semana em seu Face. Nele, Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros, elogiava material literário de Assunção. O cartão é de 30/11/1983: relíquia.

PIG BROTHER Por falar em poesia e por falar em Ademir Assunção, o seu ótimo “Pig Brother” (Patuá) é finalista do Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Li e recomendo.

CÁLCULO POÉTICO E ainda sobre Drummond, vale a leitura da reportagem da revista piauí de outubro sobre Manolo, genro argentino do poeta que deixou livro inédito sobre as rimas e métricas drummondianas. Nos cálculos de Manolo, Drummond escreveu 38 mil versos, dos quais apenas 13,66% eram rimados.

ESTREIA O jornalista curitibano Luiz Rebinski Junior, da Biblioteca Pública do Paraná, estreará na literatura. O romance “Um Pouco Mais ao Sul” (edição própria) será lançado em Curitiba no dia 19 de novembro.

PRÊMIOS Até 30 de novembro, estão abertas as inscrições para o Prêmio Kindle de Literatura, na categoria Ficção/Romance. Vencedores receberão R$ 20 mil. Mais informações: www.amazon.com.br.

PRÊMIOS II E nas categorias Conto, Poesia e Literatura Infantojuvenil, estão abertas – até 12 de dezembro – as inscrições para o Prêmio Off Flip, que oferta aos escribas agraciados R$ 30 mil em dinheiro, além de residência literária em Paraty. Regulamento: www.premio-offflip.net.

*Coluna Estante sai às quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Coluna Estante – Sobre Tezza

Por Wilame Prado

EM ALTA Cristovão Tezza, que mora em Curitiba, está com agenda cheia. Ele tem lançado pelo País o seu mais novo romance, “A Tradutora”.PONTE AÉREA O autor do premiadíssimo “O Filho Eterno” estava ontem em SP, mas retornaria hoje a Curitiba.

E MARINGÁ? A última vez que Tezza esteve em Maringá foi em 2010, pela Semana Literária do Sesc, atração que infelizmente não foi realizada este ano na cidade.

BEATRIZ DE VOLTA Em “A Tradutora”, a personagem Beatriz está de volta. Ela é a mulher pelo qual o escritor Paulo Donetti admite que cometeu um chamado erro emocional, o de se apaixonar por ela, no romance “Um Erro Emocional”, de 2010. A personagem também já foi usada em um conto antigo do catarinense e ex-professor da Universidade Federal do Paraná.

IMAGINE NA COPA A nova história de Tezza é passada em Curitiba, onde a tradutora Beatriz topa ser intérprete de um dirigente da Fifa que chega à cidade para a Copa do Mundo de 2014. Ela também está em meio a uma tradução de um livro catalão e, claro, em contato com o persistente Donetti, que, agora, solta uma dessas: “Não me deixe, preciso da minha leitora pela última vez”.

CRÍTICA GOSTOU Ainda não li “A Tradutora”. Preciso, antes, ler “O Professor”, romance de Tezza lançado em 2014. Mas li algumas críticas, como a de Vanessa Ferrari, da Folha, que avaliou “A Tradutora” como “Bom”.

MODERNIDADE LÍQUIDA Este trecho da crítica da Vanessa me instigou ainda mais a ler “A Tradutora”: “Há no romance a modernidade líquida de que fala Zygmunt Bauman, em que tudo evapora, está fragmentado e perde o sentido muito antes de se consolidar.”

NOITE EM CURITIBA Para fechar o papo sobre Tezza, lembro até hoje da expectativa que tinha em ler a obra mais comentada entre as catalogadas para o vestibular da UEM, o tocante “Uma Noite em Curitiba”, romance que estimulou muita gente a se interessar pelo universo literário. Valeu, Tezza!

*Coluna Estante sai às quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Coluna Estante – Cunha escritor e Temer poeta

ÓCIO CRIATIVO Na cadeia, o político Eduardo Cunha (PMDB-RJ) terá bastante tempo para finalizar o livro que disse estar escrevendo.NOVO IMORTAL? Após ter o mandato cassado por 450 votos, Cunha fez o importante comunicado ao universo literário: está escrevendo um livro sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

LETRAS DE TEMER Poucos sabem, mas o presidente Michel Temer (PMDB) tem vários livros publicados, principalmente na área do Direito. Alunos do curso da UEM, inclusive, já estudaram obras dele.

POESIA ESTÁ NO AR Temer também já se permitiu alguns versos. “Anônima Intimidade”, com poemas do presidente, saiu pela TopBooks em 2012.

IMPEDIDO Quem leu “Anônima Intimidade”, garante: apenas um dos poemas de Temer já seria motivo para o impeachment do paladino das letras.

TÔ PASSADO Tire suas próprias conclusões lendo o poema “Passou”, de Temer:
Quando parei
Para pensar
Todos os pensamentos
Já haviam acontecido.

MOMENTO DE REFLEXÃO Ou, então, o poema “Pensamento”:

Um homem sem causa
Nada causa.

O ÚLTIMO, PROMETO O poema “Saber”, do Temer, foi premonitório se relacionarmos ao episódio do impeachment da Dilma. Leia:

Eu não sabia.
Eu juro que não sabia!

SEJA UM BEST-SELLER Saiu uma pesquisa, a “The Bestseller Code”, com vários passos para escrever um livro de sucesso. Eis alguns: 1-Uma heroína jovem, forte e levemente desajustada; 2-Intimidade sim, sexo não; 3-Evite pontos de exclamação!; 4-Cachorros são melhores do que gatos; 5-Finais tristes estão liberados e são ótimas deixas para uma série. Partiu escrever?

*Coluna Estante sai às quintas no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Cinuem retorna em grande estilo

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Por Wilame Prado

Maringá volta a ter mais uma opção que oferece cinema de qualidade longe dos circuitos comerciais das redes localizadas nos shoppings. O projeto Cinuem, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM, retomou as atividades após alguns meses sem oferecer sessões de cinema dentro do campus.

Com a Mostra Cinema Brasileiro Contemporâneo: Emergências da Política, iniciada há uma semana, o Cinuem volta a exibir filmes todas as quartas-feiras, pontualmente às 19 horas, na Sala 1 do Bloco A34, na UEM, sempre com entrada franca. O projeto é aberto a toda comunidade e não apenas a estudantes universitários.

O cartaz de hoje do Cinuem é o filme brasileiro “Orestes”, dirigido pelo mineiro Rodrigo Siqueira (“Terra deu, terra come”) e vencedor do Prêmio APCA como melhor documentário de 2015.

“Orestes” combina elementos documentais e ficcionais para jogar luz a dois problemas atuais da sociedade brasileira: a memória e a herança do regime militar de 1964 e a violência policial sentida principalmente pelos pobres e pelos negros. Quando do lançamento, ano passado, a crítica relacionou o filme aos ataques ocorridos em Osasco, na grande São Paulo.

Siqueira recorre à mitologia grega – mais precisamente às peças teatrais de Ésquilo – para criar analogias no documentário. Na tragédia grega, Orestes mata a mãe para vingar a morte do pai, o rei Agamemnon, e ganha um voto de minerva após decisão do júri formado por cidadãos atenienses.

No Brasil contemporâneo do diretor mineiro, Orestes é um personagem fictício que mata o pai – um torturador brasileiro anistiado em 1979 e assassino da mãe do seu filho – e que será submetido a um julgamento simulado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Entre os casos reais citados em “Orestes”, algumas vítimas da ditadura militar são entrevistadas, como Ñasaindy Barrett Araújo, filha da guerrilheira comunista Soledad Barrett Viedma que foi assassinada em 1973 após emboscada tramada por José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, ex-companheira de Soledad.

A crítica de cinema Eleonora de Lucena descreveu “Orestes” como um filme original e provocativo. “Mesclando documentário, psicodrama e encenação, o diretor mexe com a plateia: cria tensão, incômodo”, escreveu ela, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2015.

Retomada
A retomada do Cinuem sempre foi desejo da PEC da UEM, mas estava parado desde que a professora Fátima Neves havia se desligado do projeto, no ano passado. Com a chegada da professora Cristiane Lima à universidade, o Cinuem ganhou sobrevida.

Ela, que veio de Belo Horizonte (MG), chegou como professora colaboradora para lecionar no curso de Comunicação e Multimeios. Com mestrado e doutorado na área de Cinema, definiu com o setor cultural da UEM o retorno do projeto.

Cristiane diz pretender aproximar o Cinuem dos alunos do curso de Comunicação e Multimeios. “A ideia é que eu coordene um grupo de curadoria, composto por alunos e ex-alunos do curso, para definir a programação dos filmes no projeto e também colaborar durante os encontros com explanações acerca das obras apresentadas”, diz ela.

Outro desafio será conseguir os filmes para as exibições, já que, agora, a proposta do Cinuem é levar ao público filmes recentes e premiados. Para isso, Cristiane se utilizará de seus contatos, amigos e conhecidos da área.

“Nesta primeira mostra de filmes brasileiros, consegui autorização dos próprios diretores para conseguir o filme ou então baixá-los”, conta ela, que finaliza: “O Cinuem permite essa abertura da universidade para a comunidade externa, e a gente acha que, desta maneira, promovemos a cultura no âmbito da cidade de Maringá.”

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (25) no caderno Cultura, do Diário

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Os sertões de ‘Outros Cantos’

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Por Wilame Prado

A escritora santista radicada em João Pessoa Maria Valéria Rezende, 73 anos, demonstra domínio da linguagem e um olhar diferenciado para com os excluídos do sertão brasileiro no livro “Outros Cantos” (Alfaguara, 152 páginas, R$ 29,90). A publicação se deu graças ao patrocínio da Petrobras Cultural.

Ela, que, além de escritora é também freira, volta a publicar após ter vencido, ano passado, o Prêmio Jabuti na categoria Romance e Melhor Livro de Ficção do Ano com “Quarenta Dias”.

Em “Outros Cantos”, a personagem Maria – deflagradamente inspirada na vida da própria autora – está dentro de um ônibus leito retornando à cidade fictícia de Olho d´Água, no Nordeste brasileiro.

Junto dela, nada além de reminiscências que transportam a história para décadas atrás, quando a personagem foi para o sertão graças ao programa Mobral disposta a auxiliar na alfabetização de um povo que não tinha quase nada, especialmente educação formal.

O relato se dá única e exclusivamente pelo olhar de Maria, ora no presente – com o sacolejar de um ônibus velho e percebendo que o sertão dos tempos de agora mudou radicalmente, como percebido no trecho instigante do livro: “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. Fecho os olhos e minha memória recupera e estiliza a beleza despojada daquele meu outro sertão. Desde quando, sem que eu me desse conta, as casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d ´Água?”; ora no passado, descrevendo as suas lembranças que permitem ao leitor imaginar o cotidiano de pessoas simples, que viviam em uma intensa luta de sobrevivência – para comer, beber água e em meio às rezas e festejos para santos pedindo chuva para plantar e colher.

Ela permite que o leitor só aos poucos consiga construir em seu imaginário quem realmente é Maria. Uma simples e jovem professora idealista e disposta a mudar o mundo com suas próprias mãos? Não somente. Há também as lembranças das andanças da personagem pelo mundo, na Argélia e no México, por exemplo, conhecendo povos, costumes e outros tipos de sertões.

E há ainda no romance uma curiosa característica da protagonista: sonhadora em seus pensamentos, ela no fundo busca sempre um olhar perdido de um homem que cruza com ela em diferentes momentos da história. Sempre atenta ao olhar deste ser masculino, ela enxerga os olhos dele em vários lugares, em várias situações. No fim, ao levar em consideração também a própria história de vida da autora, abre-se uma margem para se pensar que, talvez, aquele olhar é a figura de uma entidade protetora para Maria, onde quer que ela esteja, talvez os olhos de Deus.

“Outros Cantos”, conclui-se, é maduro, de uma autora madura e esclarecida quanto à estilística textual, ortografia e gênero. Maria Valéria Rezende emociona, denuncia e propõe reflexões acerca de uma região brasileira, a vibração de gente que ainda sonha com o poder transformador do ensino e também de um período histórico: mais para o fim da trama, percebe-se claramente algo que a autora quer mesmo eternizar com a proposta literária, que é uma relação histórica com os rompantes vividos em meio à ditadura militar no País e movimentos importantes na luta contra a opressão, isso em regiões praticamente esquecidas pela grande mídia, cinema, História e afins.

OutrosCantos_570OUTROS CANTOS
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
Número de páginas: 152
Preço sugerido: R$ 29,90
Avaliação: ótimo

*Comentário publicado quarta-feira (11) no caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Cultura que se constrói com êxitos

O jornalista Rogério Recco e o escritor Laurentino Gomes durante a Flim do ano passado: festa reflete o bom momento cultural da cidade

O jornalista Rogério Recco e o escritor Laurentino Gomes durante a Flim do ano passado: festa reflete o bom momento cultural da cidade (Foto: Divulgação)

Por Wilame Prado

Quando chegam a uma nova localidade, pioneiros planejam construir casa, igreja e armazém. Ruas, avenidas, praças e bosques. Mas nem sempre se lembram da cultura, dos teatros, dos cinemas e de locais em que pessoas compartilham a arte e o lazer para, simplesmente, serem mais feliz.

Maringá nasceu planejada, principalmente urbanisticamente falando. Com a cultura não foi assim. Aliás, com a cultura geralmente não é assim. Cultura é intrínseca ao ser humano e as manifestações culturais certamente acontecem em sociedades organizadas.

“Maringá nasceu calcada no espírito do trabalho e do labor. Muitos vieram em busca de fazer fortuna, trabalhar para crescer. Não havia um planejamento cultural e artístico. Mas o homem não é só trabalho. Ele precisa de algo para cultuar, ter os seus momentos de contemplação”, diz o historiador João Laércio Lopes Leal, da Gerência de Patrimônio Histórico de Maringá.

Em razão disso, fez-se, então, a cultura em Maringá, desde os primórdios. Como exemplo, cita-se o livro de autoria do próprio Leal, o recém-lançado “História Artística e Cultural de Maringá”, que começa a sua narrativa apontando acontecimentos datados já de 1939, quando Maringá era apenas um distrito de Londrina.

No começo eram apenas quermesses, bailes na roça, festinhas na cidade e os pequenos circos mambembes.

Depois, veio o primeiro cinema, que chegou já em 1947; as fotografias de Shizuma Kubota, Tutumo Sanuki e Kenji Ueta; e um talentoso Edgar Werner Ostenrroht dando seus primeiros traços nos anos 1950 e dando à historiografia um olhar a mais por meio da pintura.

Havia ainda um inquieto artista chamado Calil Haddad fazendo a cena dramatúrgica acontecer na cidade com a criação do Teatro Maringaense de Comédia (TMC); e também um exímio músico e maestro Aniceto Matti garantindo a sonoridade na Rádio Cultura, tocando piano ao vivo e ainda propiciando formação musical para várias gerações.

Após meses empenhado no livro que busca seis décadas e meia de cultura na cidade, Leal encontra uma definição para tudo isso: “é a história de uma cidade em que a cultura esteve presente de forma intensa, só que não de maneira prioritária.”

O historiador, que trabalha este ano com um segundo volume para registrar a cultura maringaense, dessa vez entre 1991 e 2015, comemora a evolução permanente: “O que era intenso finalmente se consolidou. A partir dos anos noventa, a cultura maringaense se solidifica, se institucionaliza e se fortalece. Prova disso é que haverá o mesmo número de páginas em um livro que retrata muito menos tempo histórico.”

E se é para se pensar em cultura de maneira organizada – em uma nova, mas sempre muito planejada cidade –, pode-se citar algumas datas marcantes, como o ano de 1969, quando se instituiu a Secretaria Municipal de Cultura, ou então o ano de 1996, quando o Teatro Calil Haddad foi inaugurado no dia 30 de dezembro para extrapolar qualquer questão que remetesse a cartão-postal, sendo, hoje, um verdadeiro centro cultural que recebe manifestações do teatro, dança, artes plásticas e patrimônio histórico.

“No caso da Secretaria de Cultura, foi instituída na gestão do Adriano Valente. Temos uma secretaria de Cultura de 49 anos e cada vez mais atuante. Prova disso, dentre tantos eventos que Maringá já recebeu do poder público, é a Festa Literária de Maringá (Flim), evento marcante, que vai para o seu terceiro ano e que se destaca pela enorme capacidade de reunir escritores locais, nacionais e internacionais, além de chamar um público de respeito durante uma semana de evento”, considera.

Arte o ano todo
Atualmente, Maringá assiste a um cenário cultural pujante. Há mais de uma década a Secretaria Municipal de Cultura garante opções gratuitas e com qualidade por meio dos chamados Convites: Convite à Dança, Música, Teatro, Cinema e Artes Visuais.

Espalhados por diferentes bairros, hoje os teatros (Calil Haddad, Reviver, Barracão, Oficina da UEM, CEU em Iguatemi e Casa Cultural Jardim Alvorada) são locais para organização de eventos e espetáculos dos mais diferentes gêneros e estilos. Há, ainda, casas de shows, centros culturais, bibliotecas e, o mais importante: gente disposta a fazer e até viver da arte.

Só se faz aumentar os números envolvendo projetos culturais viabilizados por meio da Lei Rouanet, que permite aos artistas e produtores culturais captarem recursos financeiros com empresas que utilizam mecanismos de isenção fiscal para tal.

A jornalista e produtora Rachel Coelho é um dos que vivem intensamente a cultura local. Há vinte anos ela está, de uma maneira ou de outra, relacionando-se com a arte maringaense, escrevendo, produzindo, fazendo.

Formada em Jornalismo e História, ela passou a limpo a história do tradicionalíssimo Festival de Música Cidade Canção no livro “Canção Para Uma Cidade: a História do Femucic”, publicado em 2003. Ainda assim, o seu negócio mesmo é o teatro. Hoje ela assessora grupos teatrais, faz produção em montagens e tenta emplacar projetos próprios por meio da Lei Rouanet.

Rachel tem o perfil do que hoje podemos considerar um cidadão da cultura de Maringá. E ela comemora não somente o êxito de seus projetos ou a agenda local que se faz ininterrupta em praticamente todos os meses do ano na cidade. Ela vibra mesmo é com o horizonte que se mostra cada vez mais favorável em Maringá porque, aos poucos, cultura não é somente sinônimo de coisa que chega de cima para baixo, com artistas sempre dependentes à boa vontade do poder público.

Ela cita as conquistas das pré-conferências do Conselho de Cultura, os esforços da recém-inaugurada Maringá Cultural Cooperativismo (Macuco), o fomento visível do Instituto Cultural Ingá e as várias opções de formação cultural na cidade por meio de cursos universitários nas Artes Cênicas, Visuais e Musicais.

“O cenário é feito justamente de pessoas inquietas que não podem viver sem estar fazendo arte. Sou uma otimista. Estou aqui porque acredito nessa cidade. Então, não tenho como não comemorar tudo isso”, diz Rachel.

*Reportagem publicada no caderno especial de aniversário dos 69 anos de Maringá, encartado em 8 de maio no Diário

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