Mês: agosto 2010



Louco e cansado coração*

Muitas pessoas são boas, mas acabam fazendo besteiras nos infinitos corredores e pátios desta vida porque, na verdade, têm uma enfermidade grave no peito, têm um coração muito doente, têm a loucura real contaminante da veia aorta, são pessoas que têm um coração louco. Todos temos um coração louco, analisando friamente o quanto somos capazes de, pelo menos uma vez na vida, agir pela emoção insana ditada pelas coisas do coração e não pela razão fria, calculista e objetiva do nosso bendito cérebro.

Estamos sempre andando na corda bamba que separa a loucura da lucidez, balançando na ponte que vai se destruindo atrás da gente, obrigando-nos a correr contra o tempo, sem, no entanto, deixar de analisar cuidadosamente onde estamos pisando, para não cairmos lá embaixo. O pior é que, não raramente, esquecemos dos cuidados, não olhamos as pedras do caminho, furamos os pés e, sim, caímos de cabeça no buraco profundo da desilusão.

Quantas vezes, caro leitor, o senhor ou a senhora só foi pensar com a cabeça, e não com o coração louco, depois do ato já consumado? Depois de, por exemplo, ter se declarado para aquele amor que jamais na vida vai ser teu? Depois de, vamos supor, ter despejado um balde de lamúrias, traduzidas em ofensas verbais, justamente naquela pessoa em que merecia somente, e nada mais, palavras bonitas, talvez até poesias declamadas?

É isso o que acontece com a gente e nossos loucos e cansados corações. Depois, vem a dor, o arrependimento, a vontade de sair desse corpo que desejaríamos não nos pertencer. Nessas horas, todos almejamos acreditar em coisas inexistentes, como naquelas máquinas de teletransporte, que nos levaria, quiçá, para uma ilha deserta, sem constrangimentos, sem burradas, sem socos em pontas de facas, sem tropeço no cadarço, sem paulada com a cabeça no muro.

As pessoas que possuem essa enfermidade, que, aliás, costuma arder no peito, algo como uma panela cheia de água fervente jogada nas costas, essas pessoas, caro leitor um pouco mais racional do que eu, agem por um impulso e, quase sempre, só querem ajudar. Mas, geralmente, não conseguem nem mesmo sequer ajudar a elas próprias.

Algo parecido como quando o velho e bom guitarrista country decide parar um pouco com as noctívagas atitudes de sempre – subida ao palco bêbado, canções cuspidas ao público também bêbado e, por fim, desmaio alcoolizado mesclando sexo e repulsa em uma cama de hotel, com qualquer uma daquelas vadias que nem espera direito a música terminar para te oferecer carne sedenta pela companhia de um tomador de uísque e fazedor de belas canções sobre solidão, vícios e poucas virtudes.

O velho, conhecido também por Bad Blake, quer parar um pouco com essa vida extremamente desleixada, uma vida de quem tem um coração louco, porém, cansado por demais. É quando, por meio de suas entranhas que querem lhe escapar em mais uma jorrada de vômito na lata de lixo, ele sente saudades dos tempos em que ainda tinha uma certa paz na alma para conseguir compor canções e emprestá-las (afinal, todos precisam de dinheiro) aos cantores da moda e que já não necessitam mais percorrer com sua camionete 400 km e chegar a um xexelento boliche caindo aos pedaços para tocar o decaído repertório e agradar meia dúzia de idosos nostálgicos.

Não parece, mas o velho também ama. Afinal de contas, ele também tem, ainda que extremamente esgotado, um coração louco e, incrivelmente, sentiu-o renascer por meio de um calor incalculável, acometido no momento em que viu aquela jornalista, de sorriso largo e uns trinta anos mais nova do que ele, entrar naquele sujo quarto de hotel para entrevistar uma das lendas vivas, porém fadada ao esquecimento, do bom country norte-americano. O resto dessa história, para aqueles que, assim como eu, sofrem de loucura de coração, o caro leitor encontra assistindo ao bom filme “Coração Louco” (2009), vencedor do Oscar de melhor ator para o protagonista Jeff Bridges.

*Crônica publicada dia 31 de agosto na coluna Crônico, no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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O jeito insuportável de ser de William Waack

Sem entrar em qualquer discussão ideológica entre preferência por partido a ou b, candidato c ou d, eu, e isso faz alguns anos, não suporto assistir ao Jornal da Globo por causa do jeito como o jornalista William Waack tenta criticar o governo atual de maneira agressiva, arrogante e, sem sucesso, disfarçando o seu pronunciamento opinativo com suposta linguagem jornalística global.

O ódio que sente pelo PT, Lula & Cia é perceptível pelo fogo dos seus olhos, que, invariavelmente, estão presenteados com olheiras duvidosas, as quais, nem mesmo a melhor maquilagem da emissora consegue disfarçar. Depois do memorável episódio, campeão de acessos no youtube, em que o jornalista William Waack troca o sobrenome de uma repórter pela palavra “merda”, dessa vez, sem querer querendo, supõe-se, por meio do áudio vazado no link da TV, que o estranho Waack mandou a presidenciável Dilma Rousseff calar a boca.

A discussão já está rolando solta: alguns dizem que não teria sido Waack o dono do voz; outros, que o cala boca teria sido um presente para alguém da produção jornalística. Assistam e tirem suas conclusões!

http://www.youtube.com/watch?v=XqYtmQfnzww&feature=player_embedded
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Charutos*

Acho que a grande maioria dos garotos que atinge certa idade começa a desejar algumas coisas que, em certo ponto, é por influência de filmes norte-americanos. Foi unanimidade quando tocaram no assunto de charutos. Estava combinado de que seria naquela noite linda de sexta-feira, onde a negritude que esmagava nossas cabeças se entrosava com a brisa amena e deliciosa que esvoaçava os cabelos compridos de nós. Eu, Flávio e Caetano.

Em frente ao estádio, num bar, ou melhor, num boteco de esquina, foi que experimentei pela primeira vez um charuto. Eu achava que todos que estavam naquele ambiente boêmio iria olhar para mim de um jeito diferente; senti-me mais importante, mais mal, mais Fidel, mais jogador de pôquer, mais Juan Carlos Onetti, mesmo sem saber se ele fuma charuto. Caetano também estava no auge de um orgasmo “charutual”, porém não tomava tanta cerveja como eu. E Flávio, coitado, não se dava ao deleite de experimentar essa sensação de grandeza, sendo que, para mim, era o que mais merecia, pois era um cara humilde, que tinha todo direito de pelo menos uma vez se sentir mais do que os outros.

Apesar de não sabermos se o charuto era de boa qualidade, fizemos um ritual e tanto, pois, de fato, merecia. Caetano mordeu a ponta, pois qualquer bom fumante de charuto sabe que, se cortar com a tesoura afeta o sabor (eu não sabia). Depois, tratamos logo de arrumar uma caixa de fósforos. Recusamos o isqueiro da velha do bar e perguntei para a senhora se ela estava de brincadeira comigo, pois uma dona de um bar deveria saber que acender charutos com isqueiro corrompe o sabor original do nobre fazedor de fumaça (eu também não sabia, quem me falou foi o Caetano). Percebia que estava mais esnobe, mais norte-americano, mais desgraçado.

Acho que é por isso que existem tantas pessoas más e ridículas neste mundo. Não por causa de uma simples merda de um charuto, mas de pequenas coisas materiais que sobem nas cabeças das pessoas, corrompendo a dignidade, até então, original de cada ser. Vou explicar melhor: as pessoas são outras depois de conseguirem algo que tanto almejam e que provavelmente tem um status maior do que de outro grupo de pessoas. Você seria a mesma pessoa depois de virar um presidente de um país, de um movimento estudantil ou de qualquer presidência? É óbvio que agora você fala que seria a mesma pessoa, mas é aí que está a questão. Não é por querer. É um mal de todo ser humano. É inevitável.

Mas, voltando a descrição daquela linda noite, onde nada poderia evitar a bebedeira, nem a tristeza ou alegria contida em nossos corações, pois, afinal de contas, além de ser sexta-feira, ainda era a primeira vez que eu e meu amigo Flávio bebíamos juntos. A primeira de várias bebedeiras. Logo em seguida, depois de tomar um pouco no boteco ao lado do estádio, fomos em direção aos nossos humildes lares, onde talvez um banho quente estaria nos esperando ou até uma pilha de louças para lavar, visto que é atividade normal do cotidiano de moradores de repúblicas. Refleti bem e lembrei que havia oitenta por cento de chances de ter uma louça me esperando e ainda um banheiro para lavar. Juntando isso com certo grau de excitação que a cerveja e o magnífico instrumento de elevação moral – o charuto – haviam provocado, insisti aos amigos para que não deixássemos a tão linda noite boêmia se encerrar tão cedo.

Então fomos para outro boteco, ou melhor, fomos para uma lanchonete fazedora de lanches, ao lado do bosque que continha blocos humildes e paupérrimos, a Universidade Estadual de Maringá. Lá, tomamos cerveja para valer. No meio da jornada de morticínio de neurônios chegou um amigo meu da província e um amigo de curso do Flávio, que também era meu amigo de trabalho. Eles perceberam meu ponto de excitação alcoólica, deixando-me irado. Esse motim durou dois minutos até que, como uma fórmula mágica,vejo Dasy, amiga nossa de trampo, passando dentro de uma circular.

Devido a vários fatores que já mencionei, dei meu primeiro fiasco da noite: quase parei a circular só para dar um oi à nossa companheira. Porém, devido ao seu alto grau de reflexo, vendo rapidamente que existia um copo de cerveja em minha mão, ela me esnobou. Isso me deixou muito triste, pois, até então, pensava que ninguém tinha coragem de rejeitar Fidel Castro, o fumante de charutos.

Bebemos bastante ainda, mas já não era a mesma coisa. Ainda aconteceram coisas incríveis, como exemplo outra circular passando na rua com outra amiga nossa. Tentei me animar, mas pensava seriamente em desistir de ser o chefe de Estado de um país socialista.

Ora. A vida, nesse dia, deu-me um golpe. Logo percebi – com o passar das bebedeiras, com o passar dos anos, com o passar dos acontecimentos – que a vida é essa. Um golpe. A felicidade são todas ilusões muito bem detalhadas, umas duram mais do que as outras. Uns se enganam a vida inteira achando que são felizes, mas todos, sem exceção de ninguém, percebem que a felicidade plena não existe. Assim como Santo Agostinho a denominava como o conhecimento de Deus, assim como um milhão de românticos acham que felicidade é quando se encontra alma gêmea, assim como Flávio acha que felicidade é poder saber tudo de Gabriel García Márquez e ser seu discípulo, eu, naquela sexta-feira linda, achava que tinha encontrado a felicidade naquela merda de charuto.

Volto para casa. Já é tarde, ou cedo, dependendo do ponto de vista. Lembrei-me de que teria de trabalhar no outro dia, ou melhor, daqui algumas horas. Isso me fez perceber que a ressaca estava começando. O gosto de charuto na boca me deixou de mal-humor. Percebo definitivamente que não gosto de charutos, nem de me sentir melhor do que ninguém. Percebo que o bom e velho humilde que sou, volta ao meu corpo. Cheguei atrasado ao serviço. Levei bronca, e isso é deprimente. Será que minha chefe fuma charutos?

*O primeiro conto escrito por mim, em 2004. Também publicado em A Poltrona.

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Em Santa Fé

Nada como rever os velhos e bons parentes e amigos, em Santa Fé.

Nada como visitar a casa da tia e da avó, em Santa Fé.

Nada como dar uma volta com um primo, que é praticamente um irmão, indo em direção a um sítio, em Santa Fé.

Nada como saber, por meio de uma risada da sua mãe, que as coisas andam bem na sua vida, em Santa Fé.

Nada como ouvir seus padrinhos contando para outros parentes que eu sou jornalista em Maringá e, mesmo sem eu entender porquê, ficarem todos cheios, em Santa Fé.

Nada como ver as sobrinhas crescerem a cada dia e, a cada dia, ficarem mais bonitas, em Santa Fé.

Nada como almoçar no Pesqueiro do Longas, em Santa Fé.

Nada como visitar o sogro e assistir a um jogo de futebol na tv a cabo que ele colocou recentemente em sua casa, em Santa Fé.

Nada como ir em algum bar qualquer, de preferência no Bar do Vargas, mas pode ser no Leite, no Romanatto ou no Japonês, puxar papo e descobrir que aquele cara conheceu meu pai e que o achava sensacional, em Santa Fé.

Nada como buscar um frango do Carlo Dutra e da Luzia, lá na Casa de Carnes União, e devorá-lo em mais um almoço de domingo na casa da sogra, em Santa Fé.

Nada como ficar torrando o etanol do seu carro andando bem devagar e olhando as pessoas passarem, em Santa Fé.

Nada como tomar um tereré em roda de amigos, acompanhar a rodada do Brasileirão e ficar tirando sarro do comentarista Neto, em Santa Fé.

Nada como tomar cerveja e comer porção no Postão, em Santa Fé.

Nada como beijar sua garota ao som de Oswaldo Montenegro, em Santa Fé.

Nada como olhar para uma porção de gente que você conhece e cumprimentar a todos com aquele assovio maroto, em Santa Fé.

Nada como voltar a Santa Fé vez ou outra e conferir de perto que, mesmo com as corriqueiras dificuldades, a sua família e amigos vão levando a vida, tocando o barco, e tentando até sorrir, naquela pequenina cidadezinha do interior, que, desde sexta-feira passada, é oficialmente a Capital da Fotografia do Paraná, a minha Santa Fé!

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Tô Frito ainda não me convenceu

Entre uma pescada e outra de sono, com uma baita dor de cabeça, assisti trechos do seriado brasileiro “Tô frito”, que estreou na Band, na última segunda-feira (23). Para quem não assistiu, faço um resumo da história vivida pelo personagem principal Vítor, interpretado pelo ator Ian Ramil: o cara, com seus 21 anos, sai do seio familiar no interior do Rio Grande do Sul para se aventurar na grande São Paulo, tentando a sorte como desenhista, isso sem ao menos conseguir fazer uma omelete decente.

Eu gostei da trilha sonora da série, como também gostei de alguns lances diferenciados de imagens, com cenas criativas mesclando o real e o que está correndo solto na cabeça de Vítor, como exemplo quando ele pensa em voz alta na pizza com borda recheada de “Catu-cheddar” e aparece na cena uma imagem meio subjetiva de uma marca tradicional de queijo catupiry.

Outro ponto a destacar é o bem feito cenário do mini apartamento onde Vítor se instala em São Paulo, extremamente pequeno, bagunçado e com eletrodomésticos envelhecidos. Como todos os jovens, o personagem é salvo pela inseparável companhia de seu notebook (até mesmo quando tenta, sem sucesso, fazer uma omelete na cozinha, ele leva o note para ler a receita em algum site), máquina que o permite conversar com sua mãe pela webcam e vê-la querer desligar logo porque está achando que o interurbano ficará caro.

Estava indo tudo muito bem na série até quando Vítor se encanta por uma estudante de Gastronomia, que entra no armazém localizado no térreo do seu prédio. A partir disso, ele começa a correr atrás da moça e, como na maioria das produções televisivas, começa a ficar chato de assistir. Vou acompanhar mais um capítulo, torcendo para que a série “Tô frito” não se assemelhe com a novelinha teen Malhação, da Rede Globo.

A série é patrocinada pela Nestlé e, segundo matéria do site UOL, é a primeira “experiência em dramaturgia na televisão de Flavia Moraes, uma publicitária brasileira que, junto com o texto do casal Letícia Wierzchowski Marcelo Pires, desenvolveu um produto televisivo de olho em um mercado que cresce a cada dia: o de adultos entre 20 e 35 anos”.

“Tô Frito” tem oito capítulos e, a partir do segundo episódio, que será exibido na próxima segunda-feira, terá apenas 15 minutos de duração.

Quer assistir “TÔ FRITO”?

Onde: Band e MTV

Quando: Na Band: segundas-feiras, a 0h; Na MTV: domingos, às 19h

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Não somos uma lata de lixo*

Tudo bem que, aqui no Brasil, a frase célebre do Batoré é levado à risca por muita gente, que, erroneamente, pensa que é bonito ser feio. Aqui no Brasil, é bonito passar os outros para trás, furar fila, dar uma rasteira no sócio da empresa, jogar sorrateiramente o papel de bala no chão e – por que não? – sempre dar um jeitinho brasileiro para conseguir as coisas mais facilmente. Mesmo com tudo isso, não senhor, caros alemães, não somos uma lata de lixo.

Tudo bem que, aqui no Brasil, graças aos esforços para se combater a fome e a miséria, muita gente se aproveita dos programas assistencialistas, achando que tem o direito de receber assistência para sempre e, sendo assim, não procurar emprego mais, não procurar qualificações profissionais mais e só viver na custa das verbas públicas. Mesmo assim, não senhor, caros alemães, não somos uma lata de lixo.

Tudo bem que, aqui no Brasil, não são um nem dois nem três supostos pais de famílias que sempre arrumam um jeitinho para garantir a bebedeira no bar da esquina e o litro de pinga na dispensa de casa, mas que, quando o assunto é o leite ou o caderno das crianças, nem sempre se esforça para conseguir esse direito aos pequenos. Mesmo assim, não senhor, caros alemães, não somos uma lata de lixo.

Tudo bem que, aqui no Brasil, ainda existem muitas pessoas que matam com requintes de crueldade, que estupram pobres moças que andam sozinhas pelas ruas, que jogam seus filhos pela janela do quinto andar ou ainda aqueles que mantêm escrupulosas relações sexuais com filhas menores de idade e indefesas a ponto de torná-las, que tristeza, mães de filhos que têm como pai o avô. Mesmo assim, não senhor, caros alemães, não somos uma lata de lixo.

Tudo bem que, aqui no Brasil, ainda têm meia dúzia de grandes chefões que não sabem mais onde enfiar tanto dinheiro, enquanto que, bem do lado de mais um prédio deles construído, há uma favela com um monte de gente que não sabe o que é ter um “deizão” no bolso há muito tempo. Mesmo assim, não senhor, caros alemães, não somos uma lata de lixo.

O nosso País, caros alemães, tem muitos problemas, é verdade. Desigualdade social, pobreza, lacunas evidentes nos sistemas educacionais e de saúde, o maníaco da Fossa, o maníaco do Parque, o maníaco da Moto e um milhão de Batorés boçais circulando pelos mais diferentes cantos deste enorme Brasil.

Mas, evidentemente, não somos uma lata de lixo, temos também muitas coisas boas a oferecer, temos um povo trabalhador, temos a Dona Maria que acorda cedo para limpar a casa e temos o João que, já pela madrugada, está plantando na terra onde, se Deus quiser, vai dar o quê comer, inclusive alimento para vocês, alemães.

Então, por quê acham que somos uma lata de lixo para exportar 22 toneladas do seu lixo para cá, que foram interceptadas pela Polícia Federal no dia 3 de agosto, em um porto do Rio Grande do Sul? Lixo sujo, escroto, sem utilidade alguma. Fraldas usadas, embalagens de sabão em pó, de estrume de cavalo e de batatas fritas, entre outros, mas que, felizmente, no final de semana que passou, tomou o caminho de volta para a casa, para um porto de Hamburgo, para quem fez esse lixo, para os senhores, meus caros alemães.

*Crônica publicada dia 24 de agosto na coluna Crônico, no caderno D, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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O Brasileirão voltou

Penso que o Campeonato Brasileiro finalmente começou. Chega de copa. Chega de transferências. Chega de Felipão vindo, de Valdívia chegando, de Hernanes saindo, de Chelsea paquerando Neymar, de Inter dipustando a Libertadores e de Santos conquistando a Copa do Brasil. A única espera mesmo é pelo emagrecimento do Ronaldo e a sua anunciada volta por cima.

O Brasileirão voltou. O Deco voltou. O Fred renovou. O Keirrison estreou. O Neymar ficou. O Kleber já cotovelou. O Mago Valdívia já se mascarou. E o Felipão já gritou. E o Elias marcou, como sempre, gols no Rogério Ceni. É, meu caro amigo leitor: o Brasileirão voltou.

Maracanã cheio. Pacaembu cheio. E a Vila, como sempre, meio vazia, mas cheia, porém, de felicidade por parte dos santistas, com os dois títulos no ano e a esperança de que o time jogue um bom campeonato nacional, já que alguns craques permaneceram no elenco.

O Brasileirão voltou, mas os palmeirenses não conseguiram entender porque seu time jogou tão mal contra o Guarani e, dias antes, jogou tão bem contra o Vitória. É o que sempre digo: os palmeirenses são otimistas demais e com uma simples vitória já acham que vão ganhar tudo no ano. Percebo isso há uns dez anos, período em que praticamente o Palmeiras não ganhou nada.

O Brasileirão voltou e, não sei se repararam, mas, pelas ruas, já é visível a diminuição de pessoas vestindo orgulhosamente a camiseta do São Paulo Futebol Clube. É esquisito. Os torcedores desse time se transformam em verdadeiras trupes em períodos gloriosos do tricolor paulista, o que foi uma realidade nos últimos anos. Mas, estranhamente, quando o São Paulo começa a perder, quando se dá a impressão de que aquela fase boa acabou, parece que os torcedores ficam tão amuados, talvez acostumados demais com as vitórias, que, protestantes, desdenham do clube.

Isso jamais aconteceu com o Corinthians. É praticamente impossível, em qualquer circunstância, não ver alguém pelas ruas vestindo uma camiseta do clube de Parque São Jorge. Quem torce para o Corinthians vê no clube algo mais sagrado do que tudo, é uma torcida realmente fiel.

E os santistas, como sempre, humildes, podem ganhar campeonatos, podem manter uma boa sequência de conquistas desde 2002, com a ascensão de Robinho, Diego e companhia, ou podem simplesmente perder todos os jogos. Sua atitude será sempre a mesma: torcerá tranquilamente pelo seu clube, não se importará tanto com os adversários e sempre terá uma esperança de que tempos melhores virão e que, mais dias menos dias, uma nova geração de meninos da vila despontará no time profissional.

O importante mesmo para nós, brasileiros, é que o Brasileirão recomeçou. E, mesmo com a diferença de pontos entre o Fluminense e o Corinthians para os demais times, creio que ainda não podemos dizer quem será o campeão deste ano. Muitos ainda têm chance, tirando o fraquíssimo Atlético-GO, que parece já estar desistindo da elite do futebol brasileiro.

Os números comprovam isso: a diferença de pontos do Ceará, quarto colocado, com 24 pontos e último do G4, é de apenas 9 pontos do Prudente, décimo sexto colocado, com 15 pontos e encostado na zona de rebaixamento. Isso lembrando que faltam ainda 23 rodadas ou 69 pontos a serem disputados. É, amigo: o Brasileirão voltou!

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Visite as pessoas que te amam

Hoje não consegui fazer a coluna “Eu recomendo” porque passei o dia todo em casa de parentes e amigos, lá em Santa Fé. E, pela noite, eu a patroa fizemos uma geral aqui no escritório de casa, jogamos velharias no lixo, colocamos revistas e alguns livros de Direito em nosso novo baú (feito com muito carinho pela minha segunda sogra, a atual mulher do meu sogro) e, finalmente, com muita alegria, pude dispor os meus livros que já chegaram da Coleção Clássicos da Abril de maneira organizada na estante de livros. Todos que visitam meu ap são intimidados a darem uma olhada nessa estante, humilde, com poucos e bons livros, mas muito limpinha e que venho conquistando a cava livro. Bom, enfim. Mais um dia se foi e, já que não fiz a recomendação de nenhum blog bacana, deixo aqui uma dica: visite seus familiares queridos e descubra o quanto essas pessoas te amam, mesmo com todos os seus defeitos. Isso pode salvar seu dia e estimular um começo de semana mais feliz.

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Um filho que, graças a Deus, gosta do seu pai*

Parecia que tudo estava dando errado na viagem de volta para casa, depois de mais um dia normal de trabalho. O percurso de Mandaguari a Maringá, que faço por meio das famosas amarelinhas, normalmente era completado em uma hora. Nesse dia, a impressão era que tinha passado uma dúzia a mais de horas.

Logo na entrada da circular, o dinheiro miúdo que é sempre tão atuante em minha carteira, dessa vez faltou, dando espaço para notas graúdas que o cobrador não poderia trocar para mim. Tinha acabado de receber o 13º salário.

Indo ao fundo do fantástico transporte coletivo, o qual mais parece um corredor proletariado, uma grande surpresa ocorreu às narinas, que não aguentaram um cheiro fétido e escroto como aquele. “Cagaram aqui no fundo, vou pra frente”, dizia um tio falador. Nem no dia em que uma grávida vomitara próximo aos meus pés, eu tinha sentido tanto nojo, mas eu não ficaria em pé, pois as pernas latejavam – fruto de um dia inteiro fazendo reportagens e fotografias. Sacrifiquei o meu nariz batatão.

No banco ao lado, um rapaz de seus 30 e poucos anos de idade, com uma filha adorável. Ele tinha uma escrupulosa cicatriz na cabeça, que, contrastada com a cabeça grotescamente raspada, dava a aparência de recém acidentado. Tinha voz de bobo e levava uma bomba de veneno, daquelas estilo mochila, novinha.

Quando a circular chegou na metade do caminho, exatamente em Marialva, metros antes da rodoviária se ouvia uns temíveis gritos, que mais pareciam latidos de uma bicho em sofrimento. E realmente havia um cão no colo da esposa do rapaz da cicatriz na cabeça, que o esperava. Mas, curiosamente, os barulhos, até de certo ponto horripilantes, que todos da circular ouviam, eram de seu filho, de uns 3 anos, que, do lado da mãe, pulava e se desesperava para que o pai descesse logo da amarelinha.

O pai não tinha chocolates na mão, nem brinquedos. O moleque, creio eu, não deve querer utilizar uma bomba de passar veneno. Então, como explicar uma alegria sem limites pelo simples fato da chegada de um pai, que, muito provavelmente, estaria chegando apenas de mais um dia de serviço?

Ainda saindo da circular, meio sem jeito, o pai já foi logo avisando a todos que o filho não tinha problemas mentais não, e que era o jeito dele mesmo. Os sorrisos eram unânimes de todos os semblantes no transporte público inteiro. Todos se emocionaram e se surpreenderam. Um homem que carregava uma bíblia debaixo do braço olhou para mim e, todo pomposo, disse: “Graças a Deus”.

*Com alterações e edições, crônica publicada em 12 de fevereiro de 2008 no blog A Poltrona.

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