Mês: outubro 2010



Observador*

O celular tocou. Era um colega me convidando para ir a algum bar. Ele queria me expor suas idéias sobre uma palestra que realizaria daqui alguns dias. Mas, na verdade, no bar, nem tocamos neste assunto. Antes de ir ao bar, no apartamento, não resisti e tomei um cálice de vinho e duas cervejas long-necks. O clima era agradável, típico de um outono ameno.

Saí. Quase dez horas. Confesso que o frio já não era problema, pois o álcool circulava perfeitamente nas veias. De quinta-feira, tinha apenas duas aulas na faculdade, mas fui diretamente ao bar onde o colega me esperava. Havia mais dois na mesa do bar: um estudante de farmácia e um biólogo desempregado.

A partir de então, comecei a observar. Tenho esse costume de olhar tudo ao redor e tentar entender a vida de outra forma. O contexto do local era de alguns jovens desregrados fora da faculdade, simples apreciadores de mesa de bar, “filhinhos de papai” e “patricinhas” se preparando para irem ao desejado “tuchi-tuchi” e os integrantes da periferia, que são a roda da engrenagem de toda noite rodeada por drogas, álcool e prostituição, disfarçada de azaração.

Eu não sou hipócrita, apenas observador. A noite continuava tão bela! Devia ser a grande lua estampada no céu. Ou quem sabe aquele copão de cerveja ingerido em poucos minutos? Apesar de todas as sensações sentidas naquela noite, não deixei de observar, afinal, esse era o objetivo do momento e de todas as vezes em que me deparo com o mundo. Eu preciso observar para poder registrar.

Observei, também, a função que o meu colega fazia naquele momento. Interação de pessoas, junção de mundos diferentes e criação de vínculo enorme de cidadãos com ideais distintos, mas que, de alguma forma, se combinam e se auxiliam para o bem de todos. Ele é um articulador e também se beneficia com isso.

Todos daquela noite precisavam jogar sinuca; precisavam beber cerveja e vodka; precisavam vender e comprar; precisavam fumar, e não só nicotina; precisavam se mostrar másculos para as fêmeas e vice-versa; precisavam se fazer de amigos para terem amigos; precisavam rir alto e ainda gritar; precisavam falar sério de assuntos sérios mesmo estando embriagados e chapados; precisavam gastar petróleo, pneu e poluir o ar; precisavam agredir os decibéis permitidos para mostrarem que são fora da lei e são ouvintes do seu equipamento moderno de som; precisavam divulgar a balada de amanhã para amanhã continuarem precisando e assim eternamente vão as noites dos integrantes da corriqueira e exótica vida noturna. E eu não sou hipócrita, mas estava só observando.

O Flamengo ganhou e ia para a final da Copa do Brasil. Alguns fanáticos realmente tiveram coragem de comemorar e gritar, no meio do bar, mesmo eles sendo solitários na sua paixão esportiva, afinal estavam no Norte do Paraná e os times do Rio não tem agradado faz tempo.

A noite está quase ao seu fim, pelo menos para mim. As fêmeas já foram para não sei onde. Elas sempre somem e isso é difícil observar, elas são ligeiras. O articulador me possibilitou alguns contatos diferenciados: integrantes do hip-hop, tatuador barateiro, promoter de festa funk, circuladores de baseados, intelectuais inconformados, entre outros. Para mim, a observação vai se concluindo junto com os gostos, as luzes e as sensações. O frio agora já incomoda um pouco, mas eu moro perto. O articulador vai embora de carona e eu pego uma carona com os meus pensamentos, que já tentam tirar uma conclusão de toda observação feita naquela noite. Acho melhor fazê-la amanhã, depois de um café preto. A única coisa que não consigo parar de pensar no momento é se alguém me observou, mesmo eu não sendo hipócrita.

*Crônica feita em um mês de maio gelado e solitário de Maringá, em 2006. Também publicada em A Poltrona.

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Crônica falada no RUC Revista

Há algumas semanas, voltei a participar do programa RUC Revista, da rádio Cesumar (94,3 FM). No programa, que vai ao ar todas as sextas-feiras, às 11h, o nobre ouvinte pode conferir a leitura que faço de minhas crônicas. Além disso, confere entrevistas, reportagens e sempre uma atração musical, geralmente vinda de Maringá e região.

Iniciado pela professora Ana Paula Machado Velho, e hoje coordenado pelo professor Vinicius Dorne, o programa RUC Revista é um excelente exercício para os estudantes de Jornalismo do Cesumar, que têm a oportunidade de entender a dinâmica de um programa de rádio ao vivo e que tem por objetivo não somente transmitir a notícia, como também entreter o ouvinte, com curiosidades, serviços, música e, ainda bem, literatura.

Não deixe de ouvir o programa de hoje, lembrando, a partir das 11h. Se não há um radinho perto dos seus ouvidos, acompanhe o RUC Revista pela internet e o siga pelo twitter.

Tentarei, sempre que conseguir, postar aqui no blog também algumas crônicas em arquivo de áudio, inaugurando, assim, a coluna “Crônica Falada”. Hoje, ouça, portanto, a crônica “Os cronistas são chatos”, que foi ao ar há algumas semanas.

[podcast]http://www.culturamaringa.com.br/banner/oscronistassaochatos.mp3[/podcast].

Crônicas
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Jair Naves e suas canções tristes

Araguari é o primeiro e bem triste EP do compositor e cantor Jair Naves. Abaixo, conheça a música Araguari II (Meus Dias de Vândalo) e leia o que Rogério Duarte escreveu sobre ela. VÊ!

“…Mas é em Araguari II(Meus Dias de Vândalo) que desponta largamente a entoação vocal de Jair Naves, equilibrando-se entre a canção e a declamação poética, para fazer perceber o ser sensível que está por trás da voz que canta. A letra retoma a sensação subjetiva do desajuste e da inaptidão, além da falência da relação amorosa que vimos nascer inusitada na canção anterior. E a conclusão não poderia ser diferente, já que a cidade que dá título ao trabalho parece ocupar todos os espaços e todos os tempos, ainda que de forma implícita: “Talvez fosse preferível / que eu nunca tivesse saído / de onde eu nasci, / de Araguari”, em que a cidade mineira da infância, ainda que distante, serve mais uma vez de ponto de fuga ou de perspectiva, delimitando as impressões no presente urbano do já decênio século vinte e um.”

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Sobre paixão e memórias silenciosas*

“Um erro emocional”, de Tezza, é um livro sobre paixão e sobre como nos portamos quando estamos frente a frente com a pessoa pela qual estamos apaixonados

“Um erro emocional”, novo romance de Cristovão Tezza, é silencioso; nas quase 200 páginas do livro, o casal de personagens pensa mais do que conversa, e a memória das lembranças da vida dita a prosa

Wilame Prado

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Após o estrondoso sucesso do livro “O filho eterno”, lançado em 2008, Cristovão Tezza volta a publicar. O romance “Um erro emocional” (Editora Record, 192 páginas) saiu há pouco da gráfica e já está disponível nas livrarias do Brasil. Para os fãs do catarinense radicado em Curitiba, é mais um grande livro a ser consumido de maneira voraz e rápida – o texto bem elaborado do autor faz com que o leitor não queira parar de ler enquanto não descobre o desfecho da história (eu, por exemplo, acompanhado de um tereré, o li de uma tacada só, deitado no sofá, em uma madrugada maringaense tranquila).

Não por acaso, a fluidez impressionante em “Um erro emocional” é explicada pelo próprio Tezza, em uma entrevista respondida por email, enquanto o autor saía de Pampulha, em Minas Gerais, rumando ao Rio de Janeiro, para, mais tarde, retornar à fria Curitiba. Segundo ele, o seu novo livro, na verdade, foi idealizado primeiramente como conto. Mas, no decorrer de dois anos, reunindo fragmentos, acabou transformando-se em romance.

Ao contrário do que acontece em “O filho eterno”, Tezza não tem uma surpreendente e comovente história para contar em “Um erro emocional”. Não há muitas descrições de lugares, de situações e de conflitos pessoais. No eleito melhor romance do ano de 2008, o escritor, misturando realidade e ficção, narra uma história densa, que começa com o nascimento de seu filho, o Felipe, tem um grande clímax quando ele descobre que o piá nasceu com Síndrome de Down, se desenrola com o processo de aceitação desta situação e se finaliza com o pleno crescimento e desenvolvimento do filho.

Já em “Um erro emocional”, Tezza simples e belamente narra um fato isolado: a ida do escritor renomado Paulo Donetti (vencedor de Jabuti e tudo) ao apartamento da sua leitora número um, Beatriz, para dizer que havia cometido o “erro emocional” de ter se apaixonado por ela. E também, mas isso parece ser apenas uma desculpa, para que ela fizesse uma edição e digitasse em um computador seus escritos reunidos em amarelecidas folhas de manuscritos.

E para aqueles que imaginam se tratar de outro romance autobiográfico, já que o personagem principal é um escritor conhecido como ele, Tezza faz questão de afirmar que a sua cota como narrador de fatos reais já se encerrou. “O único livro autobiográfico da minha vida foi ‘O filho eterno’. Com ele, esgotei o poço! O resto é literatura. O personagem Donetti já aparece no ‘Ensaio da Paixão’, de 85 – eu já esboçava um personagem escritor (com o mesmo sobrenome). E a Beatriz nasceu de uma série de contos, muitos já publicados”, revela, em outro email, já em Curitiba, um dos maiores romancistas vivos do Brasil.

Paixão, memórias e o não dito

“Um erro emocional” é um livro sobre paixão e sobre como nos portamos quando estamos frente a frente com a pessoa pela qual estamos apaixonados. Quem está apaixonado, logo se identifica com a prosa, que transmite muito bem a sensação de pavor sentida nesse momento, a vontade de querer impressionar o outro e a linha tênue que separa o que pensamos, o que almejamos dizer e o que de fato falamos para a outra pessoa.

E, diante desta situação, o escritor concentra esforços para narrar o não dito e o que as personagens estão pensando naquele momento, entre as folhas de textos inéditos de Donetti em cima da mesa, entre as intermitentes taças de vinho tomadas por ele e por Beatriz e entre um pedaço ou outro de uma pizza.

“A memória queima. Longe dela, brilha o deserto”, a frase destacada por Tezza e posta uma página antes de o romance começar traduz muito bem o que é aquela história prestes a ser lida: transcrição da memória das personagens, que extravasam sentimentos e que, por meio de lembranças (principalmente da ex-mulher dele e do ex-marido dela), influenciam sobremaneira no modo como agem naquele apartamento, localizado em Curitiba.

Mais do que traduzir em texto tudo o que Paulo e Beatriz estão pensando, Tezza vai um pouco além. Traz, com a memória de ambos, as personagens secundárias da trama, como exemplo a Doralice, melhor amiga de Beatriz, o psicanalista de Donetti, seu inimigo Cássio e também os ex-companheiros dos dois. Nesses casos, o escritor usa e abusa de parênteses para compor melhor o texto e fazer com que o leitor consiga entender o que exatamente está se passando na cabeça pensante deles.

Só quem mesmo tem o quê escrever, e sabe desenvolver com maestria esta tarefa, consegue prender um leitor durante tantas páginas em uma história que fica mais no mundo das ideias, um romance intenso, psicológico. Tezza, que afirma estar treinando este estilo narrativo há alguns anos, teve aumentado o seu poder de conseguir descrever uma história que se passa de maneira silenciosa.

Em “Um erro emocional”, os diálogos em si ficam em segundo plano para que a memória, os pensamentos, as incertezas e os constantes erros emocionais, que, de repente, podem ser evitados com o simples cálculo de pensar muito bem antes de pronunciar palavra, fiquem somente na memória, que queima e se explode nas inenarráveis lembranças de um passado recheado de situações delicadas envolvendo principalmente paixões e amor.

Não sei bem ao certo como são os critérios de avaliação na hora de se premiar os romances em prêmios como o Jabuti, por exemplo. De todo modo, “Um erro emocional”, por toda a qualidade literária reunida em mais um bom trabalho de Tezza talvez merecesse mais louros do que o querido “O filho eterno”. Porém, deve-se levar em consideração o fato de que uma história tão bela e, ao mesmo tempo, chocante, em que um pai revela a fria rejeição que sentiu pelo filho que nasceu com Síndrome de Down pode chamar muito mais a atenção, tanto de público como de crítica, do que um relato de memórias dos errantes e emotivos Paulo Donetti e Beatriz.

Vivendo de literatura – Junto a tantas premiações, inevitavelmente Cristovão Tezza ganhou também boa quantia de dinheiro com “O filho eterno”. Só o Prêmio São Paulo de Literatura, por exemplo, rendeu-lhe R$ 200 mil. Com isso, Tezza largou as aulas que lecionava na Universidade Federal do Paraná para dedicar-se exclusivamente à literatura, o que, para grande parte dos escritores brasileiros, ainda é algo impossível.

Trecho do livro “Um erro emocional”

Cometi um erro emocional, Beatriz se imaginou contando à amiga dois dias depois — foi o que ele disse assim que abri a porta, o tom de voz neutro, alguém que parecia falar de uma avaliação da Bolsa, avançando sem me olhar como se já conhecesse o apartamento, dando dois, três, quatro passos até a pequena mesa adiante em que esbarrou por acaso, depositando ali o vinho com a mão direita e a pasta de textos com a esquerda (e ela se viu desarmada no meio de três sinais contraditórios, o erro, o vinho, o texto, mais a espécie de invasão de alguém que está à vontade — o que ela havia sonhado, Beatriz teria de confessar à amiga, e ambas achariam graça da ideia — à vontade, mas não do modo correto) e Beatriz fechou a porta devagar com um sorriso de quem se vê imersa na ironia, e isso é bom; e se virou para escutar o resto, agora vendo-o com as mãos livres, a silhueta contra a luz, os braços brevemente desamparados daquele homem magro:

— Eu me apaixonei por você.

Isso acontece, ela pensou em responder, a esgrima instantânea de alguém que entra num jogo difícil mas saboroso, mas não disse, o gesto lento ainda lá atrás abrindo a porta para um erro emocional, e ela de novo sorriu defensivamente em silêncio daquele provável mal-entendido, tentando colocar o breve evento de três segundos num quadro que lhe desse um sentido seguro, mas era impossível, porque agora, como se ela não existisse, ou (corrigiu-se) como se a reação dela fosse para ele um dado completamente irrelevante nesse momento, um “não estou interessado no que você pensa a respeito disso, o problema é meu” — e ele suspirou, puxou uma cadeira, sentou-se, abriu a pasta e, alguém que não havia dito o que havia dito, de novo olhou para ela:

— Vamos conversar sobre o nosso trabalho?

Uma cena com um toque de teatro, ela avaliou, como quem põe uma moldura nesses três segundos, pendura-os na parede, e assim encerra o que não tem solução. Uma homenagem que ele me faz, uma homenagem gratuita, ela interpretou, quase com vergonha. Soterrada pela timidez, preferiu não dizer nada, cuidando de manter a sombra do sorriso no rosto para que ele interpretasse o seu silêncio do modo certo, isto é, não como uma reação a uma invasão agressiva de sua vida — na noite anterior acontecera apenas um jantar civilizado a três, a sincera admiração pelo bom escritor, um certo derramamento dele que ela atribuiu ao exagero do vinho, dentro da medida do aceitável, nenhum vexame, e a proposta quase casual, de fim de noite, para que ela o ajudasse em alguma coisa que Beatriz não entendeu mas aceitou imediatamente, porque seria afinal manter contato com um escritor que se admira: e de tão poucos e ralos sinais (o telefonema esquisito de manhã cedo, aquela mal disfarçada aflição de quem dormiu mal), ele agora irrompe abrupto em sua casa dizendo-se apaixonado, sem sequer olhar para ela — que ele mesmo interpretasse o silêncio dela, Beatriz seguiu planejando, enquanto procurava o saca-rolhas na gaveta da cozinha, onde desta vez não estava, não como uma recusa da paixão (e sorriu da ideia, paixões não se recusam — apenas explodem e sobrevivem independentemente da ação dos envolvidos), mas como um precavido e cuidadoso e sensato pé-atrás.

3 perguntas para Tezza – “Um erro emocional é mais intimista, concentrado”

O Diário – Para o senhor, todas as paixões são erros emocionais?

Critovão Tezza – Não, certamente não. O título é irônico – há um tom de ironia quando Donetti define sua paixão como um “erro”. É também uma espécie de “defesa prévia” de sua aproximação amorosa.

Qual é o grau de dificuldade para se escrever um livro de quase 200 páginas que, porém, se passa inteiramente em algumas horas dentro de um apartamento, com duas personagens fazendo a memória queimar e as lembranças explodirem a todo momento, dando fôlego à narrativa ligeira?

Tezza – Para ser sincero, não sei. É um livro que escrevi aos fragmentos, ao longo de dois anos, e que originalmente foi pensado como um conto. A dificuldade é não perder o fio da meada e a tensão da linguagem. Ou seja, a de sempre, para quem escreve.

Há uma evolução literária entre “O filho eterno” e “Um erro emocional” ou, assim como a crítica em geral, o senhor considera o seu trabalho de 2008 praticamente insuperável de tão bom?

Tezza – São livros diferentes, muito diferentes. Do ponto de vista técnico, “Um erro emocional” apura aspectos do ponto de vista narrativo que eu vinha desenvolvendo desde “O fotógrafo”. Em “Um erro emocional”, eu radicalizei o recurso de aproximar & distanciar o narrador da consciência dos personagens. Do ponto de vista temático, são livros com embocaduras diferentes. “O filho eterno” tem uma temática mais ampla; “Um erro emocional” é um livro intimista, concentrado.

Para ler

Título: Um erro emocional

Autor: Cristovão Tezza

Gênero: Romance brasileiro

Editora: Record

Quanto: R$ 34,90

Avaliação: Ótimo

*Resenha publicada dia 26/08 no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Pede pra sair, do cinema*

Quando entrei na sala de cinema, com dois minutos de antecedência, percebi que seria difícil conseguir encontrar um lugar para sentar. Com as luzes apagadas e com grande parte das poltronas melhores localizadas ocupadas, vi-me, ainda de pé, frustrado, perdendo as cenas iniciais de “A Tropa de Elite II – O inimigo agora é outro” – filme nacional mais aguardado por mim nos últimos tempos.

Naquele momento, embasbacado por não ter conseguido achar um bom lugar, por não ter assistido a trailers e recomendações de segurança que comumente antecedem ao filme e não entendendo o motivo de terem iniciado a apresentação antes das 21h40, horário divulgado lá fora, comecei a perceber que os meus inimigos também seriam outros. Assim como o aspira Matias, na cena final do primeiro “Tropa de Elite”, tive vontade de mandar bala em que autorizou toda essa palhaçada ocorrida no cinema.

Passaram-se poucos minutos e, incrivelmente, encontrava-me mais calmo, já acomodado em uma poltrona duvidosa, na ponta da sala, ao lado de um desconhecido mastigador de comidas e abridor de latas de refrigerante. Respirei fundo e quis deixar a sétima arte falar mais alto. Quis muito, eu juro, ter consumido intrinsecamente aquele filme e, durante os 115 minutos do longa-metragem, poder me desligar completamente da vida real, imaginando estar na pele do Capitão Nascimento, metralhando bandidos e, com estalado tapa na face do sujeito fardado, repetindo a célebre frase: “pede pra sair”.

Mas, desta vez, quem realmente “pediu pra sair” foi o responsável pela exibição daquele filme. Nem de tapa precisava. Inclusive vi algumas pessoas abandonando a difícil missão, que talvez nem o Bope conseguisse resolver, que foi a de assistir aquele filme naquelas condições. Não bastassem os fatos de ter perdido o início do filme e de ter sentado em um local desprivilegiado, quase tive um treco quando notei que o som da voz dos personagens, que compete deslealmente com barulhos de tiros, gritos e outros efeitos, estava baixo, praticamente inaudível.

Que bela decepção. Esperar tanto por uma exibição e não poder entender metade do discurso proferido pelo Capitão Nascimento durante o filme todo por causa de um som mal regulado. E quem já pôde assistir o longa sabe que, talvez até desnecessariamente em diversas cenas, o personagem principal passa o filme todo explicando os ocorridos, contando a história, encaixando as peças do quebra-cabeça fílmico por meio daquele sotaque irritante de carioca malandrão.

Não costumo ir muito ao cinema e, pela falta de qualidade apresentada em algumas salas de exibição de Maringá, prevejo estar cada vez mais distante das grandes telas. Isso sem falar no preço do ingresso que, quando somado aos outros eventuais gastos do programa, como estacionamento e tentações alimentícias, acaba por tornar o cineminha em um evento não muito barato.

Bom. Então é isso. Sentado no judiado sofá laranja lá de casa, com o som no último da TV, comendo pipoca caseira que é 800% mais barata do que a vendida no shopping, assistirei ao “Tropa de Elite II” quando sair em DVD. “O sistema é foda”, diz Capitão Nascimento em uma das poucas frases que entendi no filme. Pois eu digo: o cinema de Maringá é que é foda.

*Crônica publicada hoje, dia 26/10, na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Ronaldo, aquele caixa d´água

Ontem, tive o desprazer de assistir ao jogo entre Corinthians e Palmeiras ao lado de um levemente alcoolizado e extremamente desagradável palmeirense. Ele jurava ter uma camisa oficial do Palmeiras com autógrafos do Diego Souza e do Obina, conquistados em jogo realizado em Barueri. Quando disse a ele que o Grêmio Barueri tinha virado Grêmio Prudente e que, talvez por isso, ele teria se equivocado e, assim, conseguido a camisa lá no Prudentão, o palmeirense ficou bravo, chamando-me de teimoso. Enfim. Entre outras pérolas, o cara ficava questionando tudo e todos, dizendo que o árbitro tinha roubado aquele pênalti para o Corinthians sendo que a bola estava no meio de campo. É o famoso corneteiro, aquele palmeirense, que, a bem da verdade, preocupou-se mais em ficar provocando o público presente naquele posto de gasolina. Entretanto, pelo menos uma coisa, naquele mar de besteiras disparadas pelo palmeirense, foi muito, mas muito engraçado. De cinco em cinco minutos ele diziam assim: “cadê o Ronaldo, aquele caixa d´água”. O que seria uma pessoa “caixa d´água”?

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Carteiro alienado*

Carlão resolveu prestar concurso para trabalhar nos Correios. Foi aprovado, mas quatorze posições abaixo do candidato que conquistou a última vaga. Algum tempo se passou e ele já tinha até se esquecido disso quando chegou em sua casa uma pequena correspondência. Era a convocação para o cargo de carteiro. Depois de ser aprovado no teste físico, pediu as contas no escritório, onde era office-boy, e ainda teve uma semana de folga antes de entrar nos Correios.

Passou as tardes desses dias contando nuvens no céu, só imaginando aventuras mil que teria como carteiro: brisa na cara ao pedalar pelas ruas; mulheres solitárias que, ao receberem cartas, o paqueraria e o convidaria para tomar café; jovens felizes por receberem suas revistas mensais; ou nerds eufóricos com a entrega de futilidades compradas pela internet. Mas o ingênuo recém funcionário público se esqueceu de pequenos detalhes que acabam dificultando a vida de um pobre carteiro. Enfrentar cachorros raivosos, chuvas torrenciais nas costas ou sol rachando no rosto só não era pior do que seu mirrado salário.

Arrependeu-se de não ter lido o edital do concurso. Por todos esses descontentamentos, ele quase chorou de emoção quando ficou sabendo da greve da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Poder ficar pelo menos um dia em casa, sem pedalar, sem se queimar, sem se molhar, mereceu almoço especial e suco de caixinha à vontade. Na verdade, Carlão nem sabia ao certo quais eram as reivindicações que os carteiros e os sindicalistas tanto almejavam. Foi lendo o jornal impresso que descobriu que o reajuste deveria ser pago em razão dos diversos riscos que os carteiros sofrem diariamente, como atropelamentos, tombos e as intermitentes mordidas de cães.

Ele, então, começou a refletir ao olhar as cicatrizes que ganhou nas pernas graças às mordidas incontidas de um poodle raivoso e de um pinscher enlouquecido. Lembrou-se de quando ficou mais de um mês com o nariz escorrendo por ter entregado cartas em meio às águas de março e lamentou não ter providenciado um atestado médico sequer. Enraiveceu-se. Tacou o copo com suco na parede quando finalmente acordou da alienação e passou a enxergar o verdadeiro valor de seu nobre trabalho – o de entregar correspondências.

Vestiu seu uniforme amarelo e azul e se comparou aos craques da Seleção Brasileira na hora em que estão sussurrando o Hino Nacional antes dos jogos; calçou as botas pretas e se imaginou um soldado do Exército; ajeitou o boné, tomou mais um gole de suco e foi à luta. Propôs aos amigos carteiros de Maringá que também lavassem a entrada dos Correios da avenida XV de Novembro, imitando o protesto ocorrido na sede da empresa, em Curitiba. Mas Carlão acabou sendo motivo de piadas, pois só ele ainda não sabia que a greve já havia se encerrado. Seu salário, que já era pequeno, ficou ainda menor com o desconto de um dia que faltou por ter ficado em casa tomando suco de caixinha.

*Crônica publicada na coluna Crônico em 8 de abril de 2008 e no blog A Poltrona.

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Jornalista pede demissão ao vivo

Que coragem do colega jornalista Paulo Beringhs! Alegando estar sob censura na emissora TV Brasil Central, pouco antes de encerrar o “Jornal Brasil Central” da última quarta-feira (20), pediu demissão e relatou o que ocorreu nos bastidores. A última frase dita por ele no jornal é genial: “garanta seu emprego que eu garanto a minha dignidade”! VÊ!

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A voz forte daquela mulher

Então, pela primeira vez na vida, ela resolveu me ligar. Empapuçadas suas palavras, saindo de uma garganta que já teve de gritar muito e, por meio do som alto da sua voz, conter ânimos, bradando sempre em busca de paz. Mesmo com tantas dificuldades na vida, aquela mulher nunca se abalou. É forte, e consegue até sorrir, ainda que percebendo um monstro depressivo tentando, no dia a dia, e no dia após dia, consumir suas entranhas, chupar teu sangue, comer suas vísceras. Dor. Sofrimento. Solidão. E ela resolveu me ligar. E fez questão, talvez com a ardência e loucura de uma febre que nunca mais vai passar, de cantar versos rimados, ensaiados, compostos por ela e muito bem interpretados. A voz daquela mulher é linda. É forte, ainda. É tradução de lamentação, mas que aquece a alma e aquieta o coração. Naquele domingo, completamente bêbado de sono, ouvi a sua voz. O relógio marcava 8h17.

Então, pela primeira vez na vida, ela resolveu me ligar. Empapuçadas suas palavras, saindo de uma garganta que já teve de gritar muito e, por meio do som alto da sua voz, conter ânimos, bradando sempre em busca de paz. Mesmo com tantas dificuldades na vida, aquela mulher nunca se abalou. É forte, e consegue até sorrir, ainda que percebendo um monstro depressivo tentando, no dia a dia, e no dia após dia, consumir suas entranhas, chupar teu sangue, comer suas vísceras. Dor. Sofrimento. Solidão. E ela resolveu me ligar. E fez questão, talvez com a ardência e loucura de uma febre que nunca mais vai passar, de cantar versos rimados, ensaiados, compostos por ela e muito bem interpretados. A voz daquela mulher é linda. É forte, ainda. É tradução de lamentação, mas que aquece a alma e aquieta o coração. Naquele domingo, completamente bêbado de sono, ouvi a sua voz. O relógio marcava 8h17.

Contos
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Louros para Gabriela*

Antes de se adentrar nas primeiras páginas do livro “Prosa de Papagaio” (Editora Record, 176 páginas, R$ 29,90), o leitor preconceituoso que conferir a idade da escritora Gabriela Guimarães Gazzinelli, de apenas 28 anos, ou mesmo a sinopse da obra, que pode corroborar com a desconfiança por informar que o romance é narrado por um papagaio, provavelmente se precipitará dizendo que tudo isso não passa de literatura barata.

Pois eu faço um desafio a esses que simplesmente abandonam um livro considerando a idade do autor ou o quê a sinopse traz: insista na leitura, atinja um determinado número de páginas lidas e, boquiaberto, confesse que, pelo menos em “Prosa de Papagaio”, foi surpreendido com um material literário muito diferenciado.

A jovem Gabriela produziu um romance interessante, bem escrito e, acima de tudo, um tanto quanto inovador, pelo menos quando comparado às temáticas suburbanas atuais. Ou quem aí se lembra de um livro cujo um papagaio erudito relata um drama interno de uma família também erudita e exótica, com crianças gêmeas geniosas e inteligentes, pai que é professor universitário e mãe que é uma sensível poeta?

No discurso que a autora produziu para dar voz a um papagaio tagarela, o humor deu o tom, mas a erudição deu a base para um texto que, inquestionavelmente, mostra uma jovem autora que sabe desenvolver uma prosa rica em seu vocabulário, porém acessível ao leitor, justamente pela leveza e pelo constante diálogo que procura traçar com ele.

Dá-se a impressão de que Gabriela percebe quando o seu texto está se distanciando do leitor e que, para puxá-lo de volta à trama, faz questão de simplificar, de conversar com ele, de até transformar o romance em diversas crônicas que se interligam até formar o livro todo. Capítulos curtos e deliciosos levam a quem abre o “Prosa de Papagaio” a uma leitura que flui, que aguça e que logo resulta em derradeiro e, em certa medida, inesperado desfecho final.

Ainda para tentar traduzir minhas observações referentes à narração, utilizo-me de um adjetivo que o escritor Luiz Ruffato encaixou muito bem na contracapa do livro: elegante. Diria mais do que elegante, Gabriela soube produzir um romance charmoso, um tanto quanto inalcançável pela sua originalidade e que cheira a pesquisa e a estudos referentes a alguns assuntos que não poderiam ter simplesmente brotado da mente da jovem. Um deles, por exemplo, diz respeito ao histórico das citações do mundo das aves (mais precisamente dos papagaios) na literatura universal, muito bem distribuído pelo romance todo.

Em entrevista respondida por email, Gabriela me comprova algumas suspeitas que tive logo depois de terminar a leitura de “Prosa de Papagaio” (confira trechos da entrevista abaixo). Durante os dois anos que ela diz ter demorado para finalizar o romance, afirma que realizou uma série de pesquisas sobre aves e papagaios. “Alguns episódios, já conhecia. Outros, topei com eles enquanto escrevia. Anotava tudo que achava interessante e muitas dessas histórias encontraram um caminho pro texto. Uma ou outra tinha rascunhado mesmo antes de pensar no romance, episódios pitorescos de aves, sobre os quais queria escrever”, afirma a autora.

Vencedora do Sesc de Literatura

Com a possibilidade que hoje muitos têm de saírem publicando seus textos por aí na internet, o número dos que se dizem escritores, mesmo sendo ainda jovens, parece ter aumentado. Ainda assim, não é raro encontrar autores já consagrados de livros aconselhando aos ainda imaturos com as letras a não se precipitarem tanto na hora de saírem divulgando seus textos, muitas vezes primários e ruins.

Ainda assim, alguns concursos literários funcionam como uma espécie de peneira literária. Exemplo disso é o Prêmio Sesc de Literatura, que, em sua sétima edição, vem demonstrando, por meio dos bons materiais produzidos pelos vencedores nas categorias romance e conto, que alguns autores brasileiros, até então inéditos, nadam contra a corrente da pouca qualidade de produção literária no País.

O prêmio para esses bravos que vencem o Sesc de Literatura não poderia ser melhor: ganham o direito de, pela primeira vez, verem seus escritos serem transformados em livros publicados por uma das maiores editoras do Brasil, no caso a Record. E foi graças ao prêmio que a jovem Gabriela teve o seu “Prosa de papagaio” distribuído em grandes livrarias para, assim, quem sabe, iniciar uma carreira promissora como escritora. Após ultrapassar outros 666 trabalhos inscritos, com muito mérito ela é a vencedora da última edição do prêmio na categoria romance, acompanhada do escritor Sérgio Tavarez, que, com seu livro “Cavala”, venceu na categoria de contos.

Aos jovens que se depararem com “Prosa de papagaio” e, assim como eu, sentirem que o texto de Gabriela parece ser insuperável e parecendo que não foi escrito por uma estreante, a autora recomenda persistência. “Antes de publicar o ‘Prosa’, participei de vários concursos, submeti alguma coisa às editoras. Fiz oficinas literárias. Como a maior parte dos autores jovens, tive muitas recusas. Mas não devemos nos deixar desencorajar por essas recusas. É preciso passar por elas. Podem nos ajudar a melhorar nossa escrita e, às vezes, dizem mais das práticas editoriais que da obra submetida”.

Entrevista – “Publicar é um fim, mas não é o fim. O fim é escrever”

Você tem ou já teve um papagaio? Descreva como foi sua relação com esse bicho proseador.
Gabriela Guimarães Gazzinelli –
Nunca tive um papagaio. Os papagaios com quem convivi mais de perto voejavam num viveiro do colégio. Eles gostavam muito de gritar “frei-careca, frei-careca” (o diretor do colégio era um frei franciscano). O papagaio é uma ave que faz parte do imaginário brasileiro. Uma ave esperta, veraz, às vezes inconveniente, licenciosa… E acho que foi por isso que escolhi narrar essas histórias pela voz do Louro.

Como explicar uma garota que nasceu em 1982, ou seja, pelos meus cálculos, e com todo o respeito, ter nem 30 anos, conseguir desenvolver uma prosa tão rica? Quando aprendeu a ler? Seus pais te forçavam a ler tratados filosóficos com 5 anos de idade?
Gabriela –
Aprendi a ler na mesma idade que qualquer criança, tinha uns seis anos. Gostava muito de histórias, e a leitura tornou-se logo um hábito diário e constante. A leitura de literatura infantil, não de tratados filosóficos (risos)! Angela Lago, Monteiro Lobato, Ziraldo, Júlio Verne, C.S.Lewis. As obras infantis do Drummond, da Clarice, do Faulkner. Minha mãe, que é filósofa, orientava essas leituras. Nosso programa de sábado era visitar a biblioteca ou livrarias, onde ela me mostrava autores de gêneros diferentes para que eu encontrasse aqueles que me interessavam. Talvez, por influência dela, seja uma leitora tão eclética: leio muito os clássicos, mas também gosto de ficção científica, revistas em quadrinho, romances policiais. Atualmente, tenho procurado ler mais literatura contemporânea, em especial novos autores de língua portuguesa, do Brasil e de outros países lusófonos, e estou encontrando coisas fantásticas. A filosofia veio mais tarde. Formei-me em Letras Clássicas pela UFMG. Depois, fiz o mestrado em filosofia antiga. Tive excelentes professores na Letras e na Filosofia, que me marcaram muito. Como se não bastasse, meu marido também é filósofo. Das leituras do Louro – que tem uma ligação com as clássicas por viver na casa de um professor de poesia latina – muitas são leituras que fiz nesses anos de universidade.

Seu livro premiado pelo Sesc demonstrou ser regado por traços de ironia, mas também muito humor. Pretende seguir essa linha em sua carreira literária? Aliás, escrever livros é carreira, hobby ou necessidade das entranhas, já que, tranquila que imagino deva estar, financeiramente falando, com sua profissão de diplomata?
Gabriela –
É bem provável que o próximo romance também tenha certo humor. Estou ainda brincando com algumas ideias, procurando as personagens, pensando na trama… Vamos ver no que vai dar. Não diria que, para mim, escrever é carreira, hobby ou necessidade. Escrever é um jeito delicioso de viver. A respeito da diplomacia, me dei conta de algo interessante. Como no dia a dia estou muito voltada para o que anda acontecendo no nosso país com relação ao resto do mundo, acho que adquiri uma consciência da “brasilidade”, digamos, que antes era mais difusa. Desde uns tempos, quero, pela escrita, expressar o sentimento de afeto pelo Brasil.

Não te achei em redes sociais. Não curte? O que acha daqueles papos de fim do impresso e do livro? Gosta mais de abrir um livro, ler mais um capítulo dele ou de ligar o pc e conferir o que a galera vem “filosofando” no twitter?
Gabriela –
A internet favorece as trocas literárias. Quando era adolescente, participei de uma lista de email, a Lista Contos. Nela, escritores de todo o país trocavam contos, poemas, crônicas. Havia também um canal da lista no IRC onde conversávamos sobre literatura madrugada adentro. Por lá, de vez em quando, escrevíamos contos coletivos. Nela surgiram uns RPGs jogados por email, que eram um exercício imaginário muito divertido. A Lista Contos teve, assim, um papel importante na minha formação. E foi uma experiência indissociável das novas tecnologias. Mas quanto às redes sociais, é … de fato, não sou muito ativa nelas. Sobre o livro impresso, eu gosto muito do barulhinho das páginas virando. Mas não sou avessa às novas tecnologias. Pelo contrário, leio muito no computador e agora também num leitor digital. E o que é mais importante, penso que a digitalização da literatura tem consequências interessantes, como a democratização do acesso ao livro. Assim como houve a passagem da pedra para o papiro, do papiro para o pergaminho, do pergaminho para o papel, me arrisco a dizer que vai haver a passagem do livro impresso para o livro eletrônico. No meio tempo (e provavelmente por muitas décadas ainda), ambos os suportes vão conviver.

Por fim, cara Gabriela, o que dizer para essa leva de novos escritores que vem surgindo sempre e sempre, no que diz respeito à falta de otimismo quando o assunto é publicação? Digo isso porque, quando lemos muitos livros premiados no Sesc Literatura, principalmente o teu, sentimos uma distância muito grande de um texto de um novo autor. Seu romance é insuperável e, sinceramente falando, não parece ser de um autor de estreia.
Gabriela –
Gostaria de ser muito franca e direta. Os autores que estão começando, entre os quais me incluo, fazem bem em percorrer mais de um caminho até os leitores. Podem publicar seus escritos em jornais, revistas, blogs, sites literários. Podem praticar terrorismo poético. Podem fabricar livros independentes do mercado editorial, como o fizeram os poetas marginais da geração mimeógrafo. Podem encontrar formas alternativas, e mesmo contraculturais, de distribuir seus escritos, como na poesia de cordel. Podem submeter seus textos a editoras. Podem participar de concursos literários. Considero importante guardar a distinção entre literatura e mercado editorial. O mercado editorial é elusivo para quem está começando. Há escritores maravilhosos que não foram publicados. Isso não diminui em nada o valor literário do que escrevem. Devemos sempre lembrar que publicar é um fim, mas não é o fim. O fim é escrever.

*Resenha e entrevista publicada dia 19/10 no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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