Mês: novembro 2010



Sonho que se vive sobre duas rodas*

Muitas pessoas vivem correndo atrás dos seus sonhos. Outros conseguem reálizá-los e, a partir de então, continuam a correr também, só que sobre duas rodas. Para quem se tornou um legítimo PHD (Proprietário de Harley-Davidson), este sonho se torna realidade a partir do momento em que, pela primeira vez, liga a máquina, acelera e, enquanto sente a pressão na cara contra o vento, ouve, em um estado de torpor, o ronco do motor.

Privilegiado. Esta é a palavra para melhor definir um harleyro, que, sobre duas rodas, pilota com serenidade, paz e tranquilidade justamente por saber que o caminho percorrido em si é o que importa e não aonde se irá chegar.

Não de hoje, já são 107 anos de história envolvendo homens e mulheres que veem nas HDs mais do que uma moto e sim um estilo de vida, o símbolo maior do sonho e da liberdade americana. Este modo de encarar a vida, montado em uma máquina que leva muitos inclusive rumo à felicidade, ultrapassou qualquer tipo de fronteira. Afinal, nada consegue parar uma Harley-Davidson – uma máquina apreciada nos quatro cantos do mundo.

Os harleyros de Maringá

A “arte em aço, aço cromado com vida e voz de trovão, onde o plástico não tem vez”. É assim como denominam a Harley- Davidson, que também chegou a Maringá. Com certeza, ainda que escondidos e talvez ocupados por demais em seguir outros grupos de harleyros pelo Brasil afora, maringaenses já deveriam estar sonhando acordados sobre duas rodas há muito tempo.

Mas era preciso unir forças e compartilhar as experiências vividas em cima de uma HD; era preciso confraternizar e brindar uma vida que, mesmo com as eventuais adversidades, era completada graças à sensação abençoada de se estar contatenado com o mundo por meio da velocidade, ronco do motor e pneus comendo as eternas estradas de asfaltos que se perdem por aí.

Em março deste ano, ficou provado por estas bandas do nosso interior do Paraná que, definitivamente, melhor do que uma Harley-Davidson só várias delas juntas em um mesmo local. Nos dias 12, 13 e 14 de março (período em que foi organizado o 1º Encontro de Harleyros de Maringá), as estradas da região ficaram mais bonitas e o verde de Maringá deu um contraste perfeito com o aço das HDs que reluziam sob um sol forte.

Uma das 120 Harleys que invadiram Maringá no encontro era do advogado maringaense Joel Azevedo de Oliveira. Para ele, o motociclismo em si já é um verdadeiro remédio contra o estresse. Com os benefícios de se pilotar uma Harley, então, agora ele se mostra tranquilo e parece ter concretizado seu sonho top sobre duas rodas.

“A gente se sente bem, é um mito de motocicleta, é poder viajar durante um mês sabendo que não vai dar problema. Para quem pilota motos custom, ter uma Harley é a realização de um sonho. Agora estou sossegado”, diz o advogado, harleyro há pouco mais de um ano.

Para o empresário Luis Carlos Americano Caseiro, organizador do Encontro de Harleyros de Maringá, o mundo fica até mais bonito quando se está pilotando uma Harley- Davidson. “Não há como descrever em palavras essa sensação. O vento no rosto e o ronco do motor fazem o coração bater em cadência diferente. As estradas ficam mais bonitas”, declara-se.

Eles se casaram com uma Harley

Quando o casal de empresários Luis Carlos Americano Caseiro e Renata Martins Caseiro (organizadores do 1º Encontro de Harleyros de Maringá) fez uma viagem a Campo Grande-MS e viram uma impecável Harley-Davidson preta, foi paixão à primeira vista.

Logo casaram-se: os dois com a moto. “De capacete emprestado e de tênis! O Luis mais parecia uma criança que acabara de ganhar a sua primeira bicicleta”, relembra-se Renata, comentando sobre a primeira viagem feita com a HD.

Na época, ela afirma que sentia medo de pilotar motos, mas não demorou muito para ser conquistada pela Harley e pelos “brindes” que vêm com ela.

“Eu me apaixonei também, não só pela máquina, mas pelo conjunto que ela traz consigo, um infinito número de amigos, uma cumplicidade sem igual”.

O sonho continua

O 2º Encontro de Harleyros de Maringá ocorre entre os dias 18 e 20 de março de 2011. São aguardados 350 amantes da máquina.

*Reportagem publicada no Caderno Automotor, de O Diário do Norte do Paraná. Confira essa e outras reportagens do Caderno Automotor.

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A literatura possível de Rogério Pereira

Mais um belo texto de Eliane Brum relata a impressionante história do editor e fundador do jornal literário Rascunho, Rogério Pereira. Fiquei feliz por ler uma história em que, mesmo sendo um tanto quanto quixotesca, mostra que ainda é possível sonhar com uma vida regada à literatura. Mais feliz ainda fiquei por saber que, em fevereiro de 2011, Pereira lança seu primeiro romance, “Na escuridão, amanhã”. Gosto muito das crônicas dele e também da Eliane, que o leitor encontra no Vida Breve – um site de crônicas e ilustrações diárias.

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Um palmeirense feliz*

Em um tempo muito distante, Brunão, ainda criança, vibrava com os títulos que o Palmeiras, time de seu coração, conquistava regularmente. Mas, talvez pela má administração da diretoria, aliada a uma possível macumba jogada pela nação corintiana, o alviverde paulista perdurou por anos na amargura, no breu da vitrine futebolística, sem ganhar campeonatos, e inclusive caindo para a segunda divisão.

Mas, com a conquista do Campeonato Paulista deste ano pelo Palmeiras (isso foi em 2008), ocorrida graças, principalmente, à contratação do técnico, professor, empresário, pivô de escândalos sexuais e Mestre dos Magos (um deles sendo o Valdívia) Vanderlei Luxemburgo, Brunão (já não mais criança e com espessas costeletas e saliência abdominal) hoje sorri.

Com a cara, coragem e vestindo uma camisa verde-limão apertadinha beirando ao ridículo, ele não titubeou e entrou em um ônibus fretado até São Paulo para assistir ao jogo da final entre Palmeiras e Ponte Preta. Mesmo sem o ingresso nas mãos, seu amor ao clube deu-lhe força suficiente para não ter medo de ficar um domingo inteiro do lado de fora do Palestra Itália, apenas ouvindo os gritos da torcida.

O risco valeu à pena. Conseguiu o ingresso (dez vezes mais caro, diga-se de passagem) e assistiu à goleada por cinco a zero do Palmeiras, com direito a golaço de Valdívia e a três gols do artilheiro do campeonato, Alex Mineiro. O que, infelizmente, Brunão não pôde ver das arquibancadas foi a emocionante entrevista concedida pelo goleiro Marcos ao canal televisivo, chorando e declarando mais uma vez amor eterno ao alviverde paulista. Hoje, poucos torcedores vêem em seus times pessoas como o Marcos, que veste a camisa por amor ao clube.

O fanático Brunão, que teve insônia ao passar madrugadas contando as horas para assistir à final no Palestra Itália, também acabou perdendo a festa palmeirense em Maringá, com direito a orquestra de buzinas, fogos e gritos de “poorco” em casas, prédios e bares. Ele, que sempre reclamou do alto índice de torcedores são-paulinos que exibem suas camisas tricolores pela cidade, ficaria feliz de ver que o Palmeiras também tem força e expressivo número de torcedores por aqui.

Embora seja eu um torcedor do Santos Futebol Clube (um dos grandes rivais do Palmeiras e melhor time do mundo), fiquei feliz pela conquista do título alviverde. Na verdade, até agradeci por este feito, pois, caso isso não tivesse acontecido, nem sei o que seria de Brunão – um torcedor doente que, dia desses, resumiu o que deseja para sua vida em apenas uma frase: “Continuar ouvindo meu rock´n roll, contar sempre com a companhia de um videogame e ter grana suficiente para tomar minha cerveja e assistir aos jogos do Verdão”.

*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná do dia 5 de maio de 2008, na coluna Crônico. Também em A Poltrona.

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Eu não tinha visto os seus braços

Eu não tinha visto o quanto ela está envelhecida

O seu rosto maquilado escondia as marcas do tempo

Eu não tinha visto o quanto a vida pública envelhece uma pessoa

Menos de 40, eu com certeza daria para ela

Mas é que eu não tinha visto o quanto ela está envelhecida

Jamais perceberia o tempo que passou somente com o foco do retrato

Que fecha bem naquele rosto, até bonito, até simpático

Eu não tinha visto o tempo passar para ela

É que eu não tinha visto aqueles braços nus

Com máculas, pelancudos, caídos

Ainda que muito bonitos

Divagações
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As lâmpadas dos nossos caminhos*

A vida nos obriga a sempre caminhar para frente. Sem olha para trás, de preferência, o repetido gesto de levantar da cama e viver é algo que precisamos fazer, com ou sem ânimo, com ou sem forças. A passos largos ou em ritmo de tartaruga, a rotina individual de cada um não aceita atestado médico e pouco se importa com o enterro do seu ente querido.

Sim, precisamos caminhar. Precisamos acordar, dormir, comer e trabalhar. Precisamos também nos divertir. A diversão, para uns, é ficar em casa, quietinho, assistindo a mais um filme de Woody Allen, recheado de diálogos tragicômicos e que passeia bem pelas questões filosóficas das relações humanas; um programa seguro. Para outros, diversão é se aventurar na vida noturna, ouvir som alto, dançar, liberar monstros e finalmente voltar para a casa, exausto, e novamente retomar o ritmo da vida: acordar, dormir, comer, trabalhar.

Não sei e nem quero saber o que estava fazendo às 6 horas da manhã, na Avenida Paulista, aquele rapaz que sofreu uma agressão humilhante e que, num ato totalmente insólito, levou o que ninguém jamais merece levar: uma pancada na cabeça bem dada com uma lâmpada fluorescente daquelas em que você vê no teto da sua empresa. Só de pensar nos estilhaços de uma lâmpada como aquela entrando em meu rosto, tenho vontade de ficar na cama, protegido pelos lençóis e assim retardar ao máximo o caminho que precisamos percorrer: acordar, dormir, comer, trabalhar.

Naquele momento desgraçado de sua vida, o que estaria pensando o rapaz enquanto caminhava, enquanto seguia o caminho da vida e, de repente, viu se aproximando de sua testa uma malquista lâmpada fluorescente? É como igual acontece nos desenhos: estar andando na calçada e, num estalo, sentir o peso de um piano que foi jogado do quarto andar. É como igual acontece em ‘Tudo pode dar certo”, filme lançado em 2009 por Woody Allen, quando o velho rabugento Boris é salvo de mais um suicídio por ter caído em cima de uma mulher quando se joga pela janela.

“Tudo pode dar certo” é o que o velho Boris tem para nos dizer. O mesmo que repetir o clichê “há males que vêm para o bem”. Que coisa boa estaria guardada para alguém que toma uma “lampadada” na cabeça enquanto segue o rumo da sua vida na Avenida Paulista, às 6h? Não sei e nem me interesso em saber qual a preferência sexual da vítima deste trágico episódio. Também não me instigam curiosidade os detalhes de seu trajeto, onde estava e para onde ia. O que mais me deixa perplexo é o motivo que estimula alguém a praticar tamanho ato de violência.

Parece ridículo seguir religiosamente o que nossas mães dizem. Pra que levar uma blusa se não estou com frio? Pra que ficar em casa se o que eu quero mesmo é sair, conhecer gente nova, desbravar o mundo e caminhar, caminhar e caminhar? Mas quando penso nos estilhaços de uma lâmpada fluorescente entrando no meu nariz, perfurando minha bochecha, furando meus olhos, ardendo no meu couro cabeludo, começo a repensar sobre os conselhos dos mais velhos. A segurança do lar, os lençóis que me protegem e um bom filme de Woody Allen que me estimula a acreditar nos destinos tortos da vida são coisas que, cada vez mais, estimulam-me a deixar de caminhar, caminhar e caminhar. Pelo menos por uma noite.

*Crônica publicada dia 23 de novembro na coluna Crônico, no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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De Paula joga os versos na rede*

A simplicidade da vida é algo mesmo muito poético. Assim como a alma inquieta das pessoas a se alienarem tão belamente por entre o drama do viver cotidiano. Uma mistura entre coisas simples e dramáticas da vida e do viver, que lateja na cabeça do observador (todos os poetas são), é o que Antonio Roberto de Paula nos oferece em seu mais novo livro de poesias “Dispersos Versos Errantes”, disponível gratuitamente para quem quiser ler no endereço eletrônico: dispersosversoserrantes.blogspot.com

Sempre na busca por novas formas de se comunicar, De Paula, velho conhecido dos leitores de O Diário pelas suas crônicas domingueiras que publicava em sua coluna “Da Minha Janela”, inova mais uma vez ao oferecer seu livro em forma de blog, uma espécie de livro-blog. São dois os motivos que levaram o autor a escolher este formato virtual para publicar as mais de cinquenta poesias do livro: a ausência de custos e a possibilidade de oferecer para um universo maior de pessoas a sua literatura.

O leitor que reservar um tempo de sua navegação pela internet para visitar o livro-blog “Dispersos Versos Errantes” vai perceber um detalhe interessante da publicação, que une diferentes manifestações artísticas. Isso porque, todas as poesias ganharam ilustrações, feitas por jovens alunos de um amigo professor do escritor, que, justamente por sua singeleza e simplicidade juvenil, deram um toque de inocência e delicadeza para a obra.

Aliás, os jovens ilustradores foram predominantes para que De Paula resolvesse tirar de vez da gaveta as folhas manuscritas com seus “versos errantes”, literalmente amarelecidas por estarem guardadas há mais de vinte anos. O escritor maringaense conservou a sua verve poética de duas décadas concedendo apenas aos estudantes que fizeram desenhos inspirados nas poesias a honra de ler esses escritos. Estando com todo este material de ilustração e literatura em mãos, ele ainda o deixou amadurecendo durante sete anos até resolver publicar na internet o conteúdo.

“Estou aliviado. Estava há sete anos com esse material e me culpava por não publicá-los. Poxa, a meninada teve a maior boa vontade em desenhar e eu com as folhas na gaveta. As ilustrações são muito importantes, acho que valorizam os textos e mostram um olhar diferente do meu. Bem diferente em várias oportunidades. Os desenhos são um registro daqueles meninos e meninas naquela época, eles expuseram seus sentimentos por mais simples que possam parecer as ilustrações. Só tenho a agradecer”, comenta De Paula.

Os primeiros passos poéticos

Muitos já conhecem a produção literária do De Paula, autor de vários livros com suas crônicas, poesias e até uma biografia encomendada. Seu trabalho profissional como jornalista também é reconhecido em Maringá; hoje ele ocupa o cargo de assessor de imprensa da Câmara Municipal dos Vereadores, além de estar à frente da primeira televisão via web maringaense, a TV Girafa, e também de uma empresa especializada em clippings.

Poucos, no entanto, conheciam os primeiros passos na poesia do escritor, que se revelava, por meio da literatura, mais pulsante, menos comedido, deixando as palavras traduzirem mais o que o coração falava e não tanto a razão. Com “Dispersos Versos Errantes”, os leitores têm a oportunidade de conhecer esse outro lado literário do escritor, que começou suas aventuras poéticas ainda novo, com 15 anos. No entanto, como sabemos bem, nem tudo o que se produz é aceito pelo senso extremamente críticos que os autores costumam ter com seus próprios textos.

De Paula revela que, quando começou a escrever, jogou muita poesia no lixo, fato que se arrepende um pouco. “Ao longo dos anos joguei muita coisa fora. A maior parte do que está no blog é material escrito até os 25 anos, por aí. Com o tempo fui arrumando, adaptando, cortando. Mas mantive a essência da maioria. Algumas são originais. Considero que elas são bem simples, infantis até. Mas, não quis mudar. Se mudasse, esse trabalho não seria uma espécie de retrospectiva, essa liberação de anjos e monstros criados desde a adolescência. Eu me arrependo de ter jogado fora porque se pudesse ler hoje tudo o que tinha escrito, daria uma maravilhosa volta no tempo, reavivaria a memória, sofrida ou feliz, não importa”, reflete o escritor.

De peito aberto

Coragem, revela De Paula, é o que faltou para ter viabilizado a publicação do livro anteriormente. Hoje, já conhecendo um pouco mais o público, a crítica e a si próprio, o escritor afirma que se deu o direito de mostrar os seus versos produzidos no passado. “Quando chega uma idade, em que você já escreveu tanta coisa, algumas boas, outras nem tanto, muitas sem emoção e qualidade, só ligado no automático, você se dá esse direito de mostrar o coração”.

Isso tudo não quer dizer, porém, que “Dispersos Versos Errantes” seja obra pequena, com pouca qualidade. De Paula, na apresentação do livro, insiste em se justificar para aqueles que supostamente vierem a criticar o livro como sendo um tanto quanto infantil. Toda essa defesa do escritor é compreensível, já que se trata de uma obra mais intimista e que desnuda ainda mais o que ele pensa ou pensava sobre questões delicadas da vida. Mas é desnecessária, ao mesmo tempo, já que é justamente por esse fator que a obra se engrandece e se enche de leveza, sinceridade e sabor.

A literatura de um escritor mais rebelde, crítico, desiludido com o amor e até, em certo ponto, contraditório (não por falta de sabedoria, mas por ser uma pessoa em processo de transformação) é valorosa e prova que, com as poesias de “Dispersos Versos Errantes”, De Paula, há muito tempo, já deixava sua janela aberta para ver as transformações errantes da vida e do mundo.

Entrevista – “A internet é a melhor coisa que surgiu para o escritor do interior”

O Diário – Em trecho da apresentação no livro-blog, o senhor diz que segue uma linha mestra na feitura das poesias, contos e crônicas. Qual seria essa linha e o que, na essência, quer passar com sua mensagem literária?

Antonio Roberto De Paula – A mensagem principal é mostrar para as pessoas que, por mais diferentes que elas sejam, os dramas, as ideias, os ideais, as preocupações e os sentimentos convergem para um mesmo fundamento: a busca da felicidade. Cada um conta ou faz do seu jeito. O meu é esse. Minha expressão é o texto. A linha mestra é o texto fragmentado, às vezes contraditório em função da variedade de informações que recebo e muitas vezes não consigo processar, às vezes sereno, irônico ou lúgubre. Tudo buscando compreender essa vida, as pessoas. Se minhas poesias, crônicas ou contos podem ser chamados de literatura, muito bem. O que eu pretendo é que seja sempre uma mensagem.

Este ano o senhor concluiu o “Diário Dos Meus Domingos” em forma de e-book e, agora, o “Dispersos Versos Errantes” em forma de blog. Perdeu a esperança no impresso? Crê que a literatura será transferida de vez para o meio virtual?

“O Diário Dos Meus Domingos” está pronto, mas não publicado. A internet é a melhor coisa que surgiu para o escritor do interior, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e influentes (com licença do Belchior). Prefiro ler no impresso, folhear, assim como as pessoas da minha geração. Agora, a internet possibilita que você leia e seja lido além das fronteiras. Aliás, é o fim das fronteiras. A internet encorajou todo mundo e deu condições para que todos mostrem a cara.

Ainda com relação ao impresso, parou também de publicar crônicas no jornal O Diário do Norte do Paraná. Vai ficar, agora, mais na poesia, ainda escreve crônicas ou já está viabilizando aquele projeto (revelado em outra entrevista) de escrever novelas populares, para atrair um público maior de leitores?

Gostaria de viver escrevendo crônicas, folhetins, fazendo composições, produzindo documentários. Ganhando por isso. Tenho fé que vou conseguir. Enquanto esse tempo não chega, vou escrevendo no tempo que sobra. Atualmente estou concentrado numa novela, pretensamente divertida. Parei de escrever há um ano em O Diário e os meus queridos leitores (mãe, esposa, madrinha, irmãos, primos e cunhados) vivem me perguntando quando vou voltar. Isso é gratificante. O bom é que deixei as portas abertas.

Uma poesia do De Paula

Vivos e belos

Quem nos vê assim tão vivos

Não sabe o que corre além das veias

Quem nos vê assim tão belos

Não sabe o que vai nas cabeças

Quem nos olha não nos vê

Quem nos toca não nos sente

E nas nossas faces sorridentes

O bem e o mal se dão bem

Refletidos diante do espelho

Calamos para não denunciar

Nossos medos e culpas

Ou nossas forças e poderes

Diante desta vida temerosa e atrevida

Vemos passar o nosso filme impróprio

Estampado nas faces e gestos

Destes homens tão vivos e belos

Vivos e belos – (versão 2)

Quem me vê assim tão vivo

Não sabe o que corre além das veias

Dos músculos, órgãos e massas

Quem me vê assim tão belo e plácido

Não sabe o que está por trás deste sorriso torto

Destes olhos míopes e destas palavras soltas

Quem me olha não me vê

Quem me toca não me sente

Nesta face sorridente

O bem e o mal se dão bem

Para bens, para males

O pensamento é um bicho solto

De possibilidades enormes

A vida é um sorriso torto

Visto por olhos disformes

Em mim tudo vive, nada é morto

Tudo pulsa,nada dorme

*Reportagem publicada dia 23 de novembro no Caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Para combater a dor, apaixone-se*

O Ministério do Amor informa: apaixonar-se faz bem para a saúde e pode até dispensar os analgésicos contra a dor. Situações metafóricas à parte, o que se pode afirmar, de acordo com os resultados obtidos em um estudo recente feito por cientistas da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, é que o surgimento de uma nova paixão pode funcionar como um potente remédio, já que o ato de estar apaixonado estimula o mecanismo de compensação do cérebro.

Feito por uma equipe que estuda as causas e os efeitos da dor, a pesquisa conseguiu provar que a paixão ameniza a dor, graças a testes realizados com pessoas que disseram ter se apaixonado há pouco tempo. Nesse teste, especialistas determinaram que os apaixonados sentiram menos dor quando foram feridos enquanto contemplavam uma foto do amado.

O apaixonado não sente nada

Para provocar dores moderadas, os estudiosos tocaram a pele dos voluntários com vara quente. O teste ocorreu em duas situações: com o voluntário olhando uma imagem da pessoa por quem está apaixonada; ou então era distraído com perguntas diversas.

Nas duas ocasiões, a sensação de dor foi consideravelmente amenizada. Além disso, quando os voluntários vislumbravam a foto da pessoa por quem estão apaixonados, houve saltos na atividade do circuito mental de compensação do cérebro.

Embora os estudiosos reconheçam que a paixão tem data de validade, e que por isso o “remédio” não teria efeito para a vida toda, a dica passada por um dos cientistas é bem-vinda aos casais de longa data e que já transformaram aquela paixão de outrora em duradouro amor: reinventar a paixão fazendo algo novo ou inesperado com o parceiro (a) e, assim, evitar as desagradáveis dores sem o uso de aspirinas.

O amor também cura

Dona Antonieta Baradel Mendes, 72 anos, e seo Edivardes José Vieira, 78, há onze anos formam um lindo casal. Para eles, o resultado da pesquisa divulgada recentemente não é nenhuma novidade. Eles sabem, na prática, que a paixão têm o poder de curar a dor e até doenças.

Do dia em que se conheceram, em um baile dançante, até hoje simplesmente se esqueçeram dos sofrimentos. Preferem o amor, as viagens e as danças, que garantem a diversão do casal em todos os finais de semana.

“É claro que sentimos uma dorzinha de vez em quando, mas a gente se encontra, um ajuda o outro, ele é meu companheiro e o companheirismo ajuda muito. A gente vai passear e esquece tudo. Quando a gente vai viajar, nem precisa levar remédio. Depressão eu nunca tive, procurei passar por cima”, revela dona Antonieta.

Informada sobre a pesquisa que aponta a paixão como remédio para a dor, ela diz acreditar nesse poder todo e chama a atenção para o fato de que o amor e a vida a dois com alguém querido também pode espantar outros males.

“Depois que encontrei o meu amor, parece que o mundo mudou e ficou mais lindo, que a música é linda, que o ar é mais puro, que o céu é mais azul e que tudo ficou mais lindo. Estamos sempre bem de saúde por causa disso”, declara-se dona Antonieta, talvez se recordando daquela primeira valsa dançada com seo Edivardes e das flores e caixa de bombons presenteadas por ele logo após a arrebatadora paixão à primeira vista, certo de que achou um grande amor e a cura para todos os males da sua vida.

Eu me amo, tu me amas, eles me..

Para a psicóloga Eliane Maio não há como haver paixão e, consequentemente, dores amenizadas, se também não houver amor próprio.

“Geralmente os relacionamentos amorosos têm a ver com a autoestima da pessoa. Há um linguajar comum que diz: se eu me amo, os outros me amam também. Assim, se a pessoa não estiver bem, provavelmente terá dificuldades pessoais, consequentemente, amorosas”, comenta.

Na situação inversa, no desamor, na partilha, no rompimento, a psicóloga diz que é preciso saber perder, mesmo com o inevitável sofrimento. Eliane afirma que, por fazer parte da vida, é preciso saber lidar com o luto para, com o tempo, superá-lo.

E é nesse momento de superação que, ao retornar às sessões de psicoterapia, as pessoas demonstram para a psicóloga que, sim, uma paixão ou a descoberta do grande amor pode fazer muito bem para a alma.

“Isso também é muito individual. Cada pessoa reage de maneiras diferentes. Mas, a maioria mostra-se mais satisfeita consigo e com sensação de bem-estar”, revela Eliane.

*Reportagem publicada no Caderno de Saúde do mês de novembro, do jornal O Diário do Norte do Paraná. Leia essa e outras reportagens sobre saúde aqui.

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Nem tudo está perdido*

Eu poderia escrever sobre minhas indagações e opiniões sobre o caso Isabella. Poderia também citar neste texto a verdadeira chuva de limões de gelo, ocorrida em Maringá no feriado de Tiradentes. Poderia, quem sabe, até escrever sobre os poucos mais de cinco segundos de tremores em alguns Estados brasileiros, assunto este que salvou as pautas dos telejornais na terça-feira passada. Escrever sobre o padre voador, que foi transportado para o céu por diversos balões coloridos, talvez desse uma boa homenagem. Mas acho melhor não.

E para quem quer ler estes assuntos citados acima, que procure outras páginas de jornal ou assista aos infinitos plantões de telejornais na tevê. Afinal, que mal tem em escrever sobre o perfume de uma rosa? Ou ainda sobre a sensação de receber um abraço da pessoa amada? Dizem por aí que as pessoas gostam de ler, ouvir e ver sangue, crimes e barbaridades nas notícias diárias. E os meios de comunicação, que não querem sair perdendo, proporcionam tudo isso, e com cobertura vinte e quatro horas.

Mas, nesta terça-feira, neste exato momento em que você está lendo mais um texto da coluna Crônico, existem pessoas sorrindo em Maringá, cidade habitada por pessoas felizes, segundo pesquisas. Eu sei que, a qualquer momento, estará você em uma avenida da cidade e verá mais um motoqueiro estirado no chão. E que também achará o cúmulo mais uma árvore de cem anos, sem mais nem menos, sendo cortada para privilegiar a visão de um outdoor ou de uma loja.

Sei também que, sendo humano, é natural que você queira saber logo quem foi o assassino da menininha de cinco anos. Mas, talvez, enquanto você esteja colado nas notícias da tevê, querendo ver pela vigésima vez a reconstituição da cena do crime feita pela perícia, sua própria filha queira mostrar um novo desenho que fez na escola ou queira brincar um pouquinho antes que você tenha de ir trabalhar.

Por acaso, já regou a plantinha solitária lá da sacada de seu apartamento? Por que você não liga para aquele seu irmão que, há tantos anos, mora bem longe daqui e que vive tão solitário? Esqueça esta história de mandar os parabéns via Orkut para as pessoas que mal conhece. Se não puder falar com elas pessoalmente, ou ligar, mande pelo menos um e-mail pessoal e descreva o que sente por elas. Mas vê se não vai enviar aquelas mensagens prontas. As pessoas querem ser únicas, e são! A gente é que não percebe.

Faz quanto tempo que você não acorda meia hora mais cedo para preparar o café da manhã, evitando assim que sua mulher se desgaste logo pela manhã? Faz quanto tempo que você não diz o quanto ama sua mãe? Por acaso, sem contar os tempos de criança, já beijou alguma vez o rosto de seu velho pai? Eu, que já perdi o meu, arrependo-me de não ter feito isso antes dele morrer.

Comovemos-nos com tudo que a mídia vomita para nós. Mas nos esquecemos de que, ao nosso lado, seja no trabalho, em casa, na faculdade, na rua, existem pessoas que também precisam de atenção, carinho ou de um simples: “como vai, tudo bem?”

Portanto, a partir de agora, desligue essa tevê! Sinta o cheiro de uma rosa, agradeça seu alimento diário e sinta o gosto da comida na boca. Perceba o quanto sua blusa quente te proporciona conforto, e ame-a. Assista a um filme de animação junto dos filhos e perceba o quanto é sincero aquele sorriso enorme estampado em seus rostos. Beije sua mulher como se fosse a última – como cantou o mestre Chico Buarque. E, claro, leia Crônico como se fosse a última crônica que fosse ler, mesmo sabendo que terça-feira que vem tem mais. Afinal, nem tudo está perdido.

*Crônica publicada na Coluna Crônico em 29 de abril de 2008. Também publicada em A Poltrona.

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Zé Gabina bebedor de Coca-cola

Eu nem queria contar

É a pedido do Tio Beba,

homem que manda e desmanda na Guerra,

sua transportadora de cargas,

que hoje escrevo algumas linhas simples

Sobre um tal de Zé Gabina

Homem dos antigos

Lutou, lutou e continua lutando

Trabalhadorzinho que só, o Zé

Aprendeu aprendendo a viver

O seu trabalho é o seu mundo

E o quintal desse mundo é sua família

Carinho maior não há

quando o Zé se presta a olhar

e prontamente atender

Aos pedidos da Carol,

sua filha

O Zé joga bola conosco

Dá risada, finta, chuta e

respeita a molecada

Mas um dia deu um chute errado na vida

E saiu contundido da rotina do lar

E isso quem conta é o Tio Beba,

amigão do Zé, mas que gosta,

vez por outra,

de sacanear

Diz-se que,

no dia em que pau comeu,

polícia baixou e a casa quase caiu

Mas o Zé é gente boa,

sabe consertar, remediar e enfaixar a ferida

Conseguiu, com muito carinho,

acertar as contas com a patroa

É claro que houve negociata

De quinta-feira, dia da bola, dia do jogo

O Zé ficou proibido de beber –

o principal motivo da turma ir pro jogo –

E jogo mesmo só foi ter participação do Zé

duas, três semanas depois

Só o tempo dá tempo ao tempo

E o Zé voltou

Até mais magro ficou

Cerveja, só no copo dos outros,

principalmente no copo do Tio Beba

O refrigerante gelado agora é seu líquido

E as conversas de repensar a vida,

catar as folhas do quintal do seu mundo,

ou seja, estar em paz no lar, com a família

Alguns têm o privilégio de ouvir do Zé

Que disse, ouvidos atentos dos demais,

“cerveja só no sábado

e uma ou duas depois do almoço de domingo”

Mas isso o Tio Beba até paga pra ver acontecer

Conhece seu amigo

Conhece o bicho homem

E não é que, dia desses,

o Zé, depois daquele jogão de bola

Olhou pra cerveja

A cerveja olhou pra ele

E fez as pazes com o líquido

Era uma quinta-feira

E agora a gente espera,

na expectativa,

Pra saber se tudo correu nos conformes

Lá no barraco do Zé

E se, na semana que vem,

ele volta pro jogo,

nem que for tomando Coca-cola

Divagações
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