Mês: março 2011



O rei morto do parque assombrado*

Faz quase dois anos que ninguém anda no pedalinho da lagoa, vê mais de perto a vegetação nativa do interior e tampouco estende um imenso lençol na grama para ficar observando aves no chão, na água ou no ar. Faz quase dois anos que um dos maiores e mais importantes cartões postais de Maringá está fechado para visitação. Dois anos praticamente inteiros que milhares de pessoas apenas vivem a rodear pelo lado de fora do Parque do Ingá.

Nem mesmo o rei leão suportou a solidão a dois juntamente com sua companheira leoa e quase sem ninguém para ostentar a sua imponência felina ou a sua sonolência diária em meio a fechos de raios solares. Quando me aliei ao batalhão de pessoas que insiste em ficar rodeando do lado de fora do Parque do Ingá, vez ou outra ouvia o rugido do leão – talvez uma forma emergencial de gritar para Maringá que ainda havia vida dentro do parque ou simplesmente apenas mais uma conversa fiada com a leoa.

Registre-se a data: no dia 16 de março de 2011, uma quarta-feira, por volta das 8h da manhã, o rei leão do Parque do Ingá, Kimba, 18 anos, foi levado a uma clínica para se verificar um problema na pata, tomou anestesia geral, mas não resistiu e morreu. Os médicos veterinários aproveitaram o sono anestésico e inclusive fizeram limpezas nos afiados dentes do felino. A leoa Doti, agora mais sozinha do que nunca em um parque assombrado, bem que iria gostar do Kimba com os dentes limpinhos. Mas não houve nem tempo para um afago final e consolador dos leões.

O rei está morto. E o Parque do Ingá também. Virou um parque assombrado, o parque das sombras, sem vida. Não sei no quanto isso pode influenciar na atração turística para Maringá. Posso afirmar, no entanto, que, pelo menos em nível regional, o belo e aprazível parque era destino certo para muitas turmas escolares passarem um dia especial. Os ônibus estacionados todas as manhãs em volta do parque, quando passava por ali todos os dias a pé para trabalhar, não me deixam mentir.

Quando resolveram interditar o parque, logo no início, a promessa era de que o local seria revitalizado para atender ainda melhor aos turistas. Nunca vi na minha vida um chaveiro sequer com a imagem do Parque do Ingá, nem uma camiseta. Uma lojinha de souvenirs instalada dentro do parque estava nos planos da administração para quando o local fosse aberto. Talvez uma taxa de entrada também fosse cobrada para a visitação.

Ficou a impressão de que o objetivo seria terceirizar a administração do local, motivo para grande parte da população suspeitar de que o Parque do Ingá seria privatizado. Se isto realmente foi verdade, muito provavelmente não houve interessados no negócio. Os portões continuam fechados, o rei está morto, pedalinho nem deve ter mais no lago e as pessoas continuam rodeando e rodeando e rodeando apenas do lado de fora do parque das sombras.

Olho para uma foto tirada quando entrei pela primeira vez no Parque do Ingá. Sobre um imenso lençol xadrez providenciado pela professora de catequese e estendido na grama de frente para o lago, jovens sorriem e demonstram descontração naquele momento único. Naquela tarde gostosa que passamos dentro do parque, ninguém nunca poderia jamais imaginar que, um dia, ou melhor, por dois anos, aquele belo local estaria fechado para visitações.

*Crônica publicada ontem, dia 29 de março de 2011, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Para não perder no trabalho e nem no amor*

Uma pesquisa recente divulgada nos Estados Unidos prova o que todo mundo já sabe: é grande o número de pessoas que acabam encontrando um grande amor no próprio ambiente de trabalho. A pesquisa diz que 25% dos entrevistados admitiram que já tiveram pelo menos um caso amoroso na empresa.

Todos têm garantido por lei o livre arbítrio para se envolver amorosamente com quem quiser. Portanto, nenhuma empresa pode proibir seus funcionários de, caso aquela troca de olhares e admiração recíproca acontecer, assumirem um namoro ou até mesmo um casamento.

No entanto, as recomendações de qualquer profissional da área de recursos humanos é bem clara e válida: prevalece o bom senso, que significa evitar gestos carinhosos, apelidos íntimos e até as discussões da relação no ambiente de trabalho.

E quando são os donos?

A psicóloga e terapeuta de casais Carmen Lucia Cuenca diz que é mais comum casais que são sócios na empresa acabar pedindo sua ajuda para conseguirem administrar esta situação. Segundo ela, os problemas começam a surgir quando os casais levam para a casa os problemas da firma ou vice-versa.

Além disso, afirma Carmen, as pessoas podem vir a perder a individualidade pelo fato de marido e mulher passarem tanto tempo juntos. “A gente recomenda um trabalho que eu chamo de descontaminação. Depois do trabalho, a dica é que cada um vá para um canto fazer uma atividade individual. O homem, por exemplo, pode jogar tênis e a mulher, fazer outra atividade. O ideal é que fiquem umas três horas separados”, recomenda a psicóloga.

Diálogo

Na opinião da psicóloga Eliane Maio, o diálogo é um grande aliado para lidar com os possíveis desafios da convivência dos casais que trabalham juntos. “Se ambos tiverem equilíbrio emocional, unindo respeito e diálogo, com certeza saberão separar os ditos problemas profissionais da vida amorosa”.

Maturidade para saber separar o que deve ser discutido em casa e o que deve ser discutido na empresa também ajuda. “São fatos cotidianos que podem (e devem) ser separados, pois o casal pode se machucar muito quando começa a discutir a parte profissional, que pode estar cheia de conflitos e que deve ser discutida no espaço próprio”, reforça Eliane Maio.

O lado bom: as conquistas

O casal Fábio Paes de Andrade e Juliana do Prado trabalham há cinco anos na mesma empresa. Ela, que atua como gerente administrativa, é subordinada a ele, o diretor geral. Mas só durante o horário de trabalho. Quando chegam em casa, voltam a ser marido e mulher e procuram falar o menos possível do trabalho.

“Aprendemos com o erro. Já tivemos outra empresa onde a coisa tomou um rumo tão incontrolável que acabamos misturando tudo e vivendo em função dos problemas da empresa 24 horas por dia”, relata Juliana.

Para os dois, não há segredos e nem fórmulas milagrosas para se conseguir manter uma boa vida pessoal e profissional quando o casal trabalha junto. É preciso, porém, acima de qualquer coisa, muito respeito de ambas as partes. “Haverão dias de brigas dentro da empresa, mas também haverão dias de glórias compartilhadas. E esse é o lado mágico e gostoso dessa relação”, considera.

*Reportagem publicada dia 20 de março no caderno de Empregos do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Mulher invisível, cavalo escravo*

Cavalo magro, parado na avenida, descansa. Cor cinza. Cor que sofre. Animal sofredor. Suas costelas saltam, parecem machucar a sua pele grossa e com pelos escasseando. Mas, na verdade, não são as costelas que saltam. É a pele que se aproxima cada vez mais do osso graças à ausência de gordura. Cavalo sofredor.

O peso do mundo em suas costas realmente parece muito pesado. O cavalo leva uma carrocinha de madeira podre quase se desmanchando, além da carga de papelão e outros produtos recicláveis. E tem também o seu dono, o dono do seu futuro, o dono do seu destino, a pessoa que um dia comprou ou encontrou um cavalo por aí, pagou ou não por ele e hoje o utiliza para o trabalho. Cavalo sofredor, cavalo escravo.

Uma mulher salta da carroça para trabalhar no recolhimento de lixos recicláveis. Não sei se ela é realmente a sua dona. Afinal, pode ser só mais uma escrava do dono do cavalo e dela. Sim, as mulheres conquistaram muitas coisas na contemporaneidade, mas ninguém há de discordar que ainda existem mulheres aos montes que permanecem sendo escravas, sexuais e de trabalho, dos homens. Mulher sofredora. Escrava? Talvez.

A vaidade morreu, para ela. A sua camiseta, que já foi branca, está encardida e, neste dia chuvoso e lambuzado, tudo o que se vê naquela mulher é a cor marrom clara, cor que sofre também. O que espera dessa vida a mulher escrava da pobreza, a galopar com seus papelões e com seu cavalo cor de tristeza? Aonde vão? De onde vieram? O que farão para sorrir, logo depois da jornada urbana e sacrificante, que deixa as vestes dela marrom e maltrata os cascos do pobre animal com costelas à mostra?

Se cavalos são escolhidos pelos dentes, aquele pangaré cinza será o último da fila. O seu sorriso também morreu, juntamente com sua dona e escrava. Cavalo sorri? Fico a me perguntar. Isso eu não sei, mas posso ter certeza de que aquela mulher, não. Mas, então por que o mundo sorri? Por que comemoram o crescimento do PIB? Por que ainda conseguimos seguir o caminho pelas ruas da cidade, com os nossos carros, sem sequer notar aquela dupla de sofredores, e muitas vezes deixando os pneus passarem em poças para jogar a água suja na camiseta branca daquela mulher?

Mas pode ser que a invisibilidade seja algo que a agrade. Se a vaidade morreu, se a sua camiseta esgarçada branca está marrom, se a chuva fina que cai em suas costas não incomodam, se as feridas daquele raquítico cavalo já não atacam de rancor o seu coração, se o seu sorriso nunca foi visto por ninguém da cidade, então pode ser que ela tenha se entregado à invisibilidade.

Mas eu consegui vê-la. E, desde aquele dia chuvoso, quando avistei o sofrimento de seres invisíveis, eu também resolvi tentar sumir. E hoje me tranco em casa morrendo de vergonha por viver sem muitos desconfortos e por saber que vai ser difícil sarar as chagas das patas do cavalo, precisa de muito pasto para suas costelas serem camufladas e jamais a camiseta esgarçada daquela mulher vai desencardir.

*Crônica publicada dia 22 de março na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Crie filhos e seja bem sucedido*

“Quando uma criança de dois anos de idade faz birra num supermercado, ou um adolescente grita ‘Eu odeio você!?, os pais costumam pensar: Se eu conseguir passar por isso, passarei por qualquer coisa”. Este é o primeiro parágrafo do livro “Liderança começa em casa”, da autora norte-americana Ann Crittenden, lançando recentemente no Brasil pela editora Verus.

O livro defende a ideia de que as pessoas que passam pela experiência de criar os filhos conseguem desenvolver habilidades poderosas para atuar no mundo corporativo. Ann, que atuou por oito anos como repórter do jornal The New York Times, entrevistou mais de cem mães e pais ativos e envolvidos com a criação dos filhos, mas que também são bem-sucedidos nos negócios, na lei, na política, na diplomacia, no meio acadêmico, na indústria do entretenimento e no mundo sem fins lucrativos.

A conclusão do seu trabalho deixou muita gente impressionada, principalmente aqueles que ainda fazem coro ao discurso estereotipado de que ter filhos pode atrapalha a carreira profissional. A autora revela em seu livro que muitas mães hoje já estão reconhecendo que as habilidades praticadas em casa são perfeitamente transferíveis para o ambiente de trabalho.

Pesquisas

Além das inúmeras entrevistas, Ann também divulga algumas pesquisas que comprovam o sucesso profissional de mães que ocupam cargos gerenciais nos Estados Unidos. Uma dessas pesquisas, feita com 61 mulheres de boa formação pelo Centro de Liderança Criativa em Greensboro, Carolina do Norte, avaliou se múltiplas funções faziam com que a eficácia no trabalho fosse maior ou menor.

E praticamente todas as mulheres disseram que as responsabilidades assumidas no campo pessoal, principalmente a maternidade, melhoraram o seu desempenho profissional. Outro estudo, também divulgado no livro e realizado pelo Centro de Pesquisa sobre Mulheres do Wellesley College, com mulheres líderes de sucesso, entre CEOs, reitoras, advogadas, médicas e escritoras, apontou que quase todas que tinham filhos diziam acreditar que ser mãe havia feito com que se tornassem melhores executivas.

Comprovação científica

Em “Liderança começa em casa”, Ann também buscou comprovar a sua tese com base em estudos científicos. A autora cita pesquisas recentes acerca do cérebro e que sugerem que pode existir uma base genética comprovando que a maternidade e ainda a amamentação enriquece partes do cérebro envolvendo o aprendizado e a memória de cada um – fatores cruciais para qualquer cargo de liderança numa empresa.

Mães bem-sucedidas

Relatos de mulheres extremamente bem-sucedidas foram utilizados por Ann para enriquecer ainda mais a obra e reforçar a ideia de que, definitivamente, os filhos não vieram ao mundo para atrapalharem seus pais no mercado de trabalho. Pelo contrário.

“Quando é preciso liderar pessoas, quando você precisa organizar as pessoas, provavelmente não existe um conjunto de habilidades melhor do que aquele que a mãe comum costuma ter em casa. Os sermões que você passa a seu filho de dez anos em um período de 24 horas provavelmente são as mesmas lições que você pode aplicar ao mundo dos negócios”, opina, no livro, Ann More, presidente da Time Inc.

Já a presidente e executiva da Oxygen Media, Geraldine Laybourne, diz acreditar que as mulheres que precisam lidar diariamente com os filhos conseguem encarar qualquer crise que possa ocorrer no trabalho. “Aprendi mais a respeito de gerenciar meus subordinados e meus superiores com a criação de meus filhos do que em qualquer curso de administração”, revela.

Aprender a escutar com filhos

A psicóloga Cristiane Xavier Fraga é casada, mãe de três filhos pequenos e gerente de Recursos Humanos de uma grande empresa de Maringá. Para dar conta da dupla jornada agitada, conta ela, é preciso traçar uma verdadeira logística em seu dia a dia, dividindo, é claro, os compromissos entre trabalho, casa e filhos com o marido.

Ao ficar sabendo do assunto principal do livro “Liderar começa em casa”, de Ann Crittenden, Cristiane confirma na prática a tese de que, sim, criar filhos faz com que os pais desenvolvam novas habilidades e que, inclusive, podem ser transferidas ao trabalho. A psicóloga diz que, graças aos seus filhos, hoje consegue ouvir muito mais as pessoas, o que, para a sua profissão, é algo imprescindível.

“Com a experiência da maternidade, mudamos o nosso conceito de mundo, temos que trabalhar a nossa capacidade de compreensão e entendimento da situação. O ato de aprender a escutar é algo muito relevante para o convívio da família. E para o desenvolvimento do meu trabalho, esta habilidade é muito importante, pois lido com pessoas”, relata Cristiane.

4 Pontos positivos de pais no mercado de trabalho

1 – Multitarefa – a capacidade de se manter envolvido em diversas atividades de uma vez.

2 – Habilidades interpessoais – permitem às pessoas compreender e trabalhar com os adultos de modo bem-sucedido.

3 – Capacidades humanas de crescimento – técnicas de capacitação e orientação que permitem a um gerente ou líder desenvolver os pontos fortes das pessoas e trazer à tona o melhor delas.

4 – Hábitos de integridade – a boa criação dos filhos exige a prática constante de certas qualidades conhecidas como antigas.

Para ler

Título: Liderança começa em casa

Autora: Ann Crittenden

Editora: Verus Editora

Número de páginas: 272

Preço sugerido: R$ 29,90

*Reportagem publicada dia 13 de março no caderno de Empregos do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Mundinho que cabe no bolso*

Uma fotografia me convenceu de que o mundo pode ser melhor. Embora não estivesse presente no momento em que o retrato foi feito, enxerguei alegria genuína ao ver a imagem de uma pequena e adorável criança pulando em uma cama elástica.

Para a menina da foto, com sua sinceridade, com sua felicidade, o mundo fica melhor quando se está pulando em uma cama elástica. Feliz aquele que sabe o que fazer para tornar o seu mundo ou o mundo de todo mundo melhor, assim como a menina usando fraldas a saltitar explodindo alegria.

E como somos mesquinhos quando nos quedamos a imaginar o que poderia ser um mundo melhor para nós, adultos. Ganhar na Mega-Sena, ter o carro do ano, comprar a casa própria, poder viajar ao exterior. Sonhos de consumo que, nos dias de hoje, são tão comuns e que fazem parte do pensamento de tanta gente que é difícil alguém que tenha a moral de criticar esse tipo de sonho sem estar sendo hipócrita. Teríamos um mundo melhor com dinheiro? Sim, mas este mundo é tão pequeno. Cabe apenas no bolso do paletó.

Para o médico Anton, personagem do filme “Em um mundo melhor” (vencedor no último Oscar de melhor filme estrangeiro), são em momentos únicos e singelos da vida que o seu mundinho fica um pouco melhor. Ver um grupo de crianças africanas correndo atrás da camionete, cumprimentando-o e sem medo algum de escancarar sorrisos para ele, faz seu mundo ficar melhor. Pura retribuição e consideração pelo trabalho é o que sente o médico a observar as crianças felizes a correr e a gritar.

Pesquisas comprovam que a atitude solidária ou filantrópica tem um efeito benéfico muito grande não apenas para quem é ajudado, mas também para quem ajuda. Anton ajudava, com sua força de trabalho médica, o povo africano a curar suas feridas causadas por uma guerra civil insana e culturalmente enraizada naquele local. Certo: um mundo melhor para ele e para os africanos.

Mas, como nunca as coisas podem estar boas ao mesmo tempo para todo mundo, o mundinho da sua família, sofredora com a sua ausência em razão das viagens frequentes que faz para a África, não pode ser considerado dos melhores. Elias, seu filho mais velho que tem 10 anos, sofre bullying na escola e a sua mulher, Marianne, opta pelo divórcio à distância matadora de qualquer relacionamento amoroso.

No filme “Em um mundo melhor” percebe-se claramente que cada um pode sim fazer do seu mundo e da sua vida algo melhor. Só que é preciso escolher o caminho a seguir e também ter consciência de que há consequências para as escolhas. Anton ajudou o mundo de todo mundo ao se arriscar ajudando um povo africano, mas, para isso, pagou um preço: um mundo mais sofrido para o filho, que, confuso, deixa-se levar pelo amigo incosequente Christian, outro que tem um mundo encharcado de dor pelo fato de ter perdido a mãe recentemente.

Viver em um mundo melhor para todo mundo não é fácil não. Olhando a foto da menina que vive a felicidade sincera pulando em uma cama elástica tento elencar os fatos que poderiam tornar o meu mundinho e o mundo de todos melhor. E como é difícil admitir para mim mesmo que o meu egoísmo dificilmente me tirará do conforto deste apartamento para buscar, em algum momento, fazer um algo a mais para o mundo, como fez o médico Anton, como tanta gente faz.

*Crônica publicada hoje, dia 15 de março, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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É briga de cachorro grande*

 

Atsuko Kimura com o gordinho Pagu, que nunca incomodou vizinhos e é transportado na gaiola (Foto de Ricardo Lopes)

A decisão de barrar cachorros mais pesados em condomínios residenciais de São Paulo tem causado polêmica entre moradores. Alguns regimentos internos, além de barrar os animais ‘mais grandinhos’, também estão limitando para dois o máximo de animais que cada um pode ter em seu lar. Está se tornando comum, principalmente na entrega das chaves de prédios que acabaram de sair da planta, liberar a moradia para animais com no máximo sete quilos.

O diretor de condomínios em Maringá do Sindicato da Habitação e Condomínios do Paraná (Secovi-PR), Junzi Shimauti, diz ser contra esta decisão. Para ele, não depende do tamanho ou da quantidade de cachorros no lar e sim se vão incomodar ou não os outros moradores do condomínio.

A recomendação passada aos síndicos, conta Shimauti, é quanto ao barulho dos latidos, transporte dos bichos nas áreas sociais do condomínio e também com relação aos cuidados com a higiene. “Recomendamos que o transporte dos animais seja feito em gaiolas e, se for preciso, com focinheiras. No elevador, os animais devem ser transportados no colo para não representar nenhum perigo aos vizinhos. E se o vizinho se sentir incomodado com o animal no elevador, o dono do bicho deve descer pela escada”, explica o diretor.

Discriminação

Shimauti diz se preocupar com as recorrentes restrições que surgem nos condomínios. Para ele, muitas normas internas de condomínios acabam desrespeitando os direitos garantidos por lei no Código Civil.

“É a mesma coisa que acontece com as repúblicas. Alguns condomínios costumam proibir a formação de repúblicas por causa do barulho, mas e se os moradores são quietos? Quantos casais não fazem barulho também e chegam inclusive a quebrar portas durante as discussões? No caso dos cães ou de moradores, o que tem que ver é se realmente incomodam os outros ou não”, relaciona.

Ainda que qualquer restrição quanto ao porte do animal seja encarado como uma discriminação, Shimauti, no entanto, prega o bom senso dos donos. “Você também não vai querer colocar dentro de um apartamento um pitbull, né? Creio que até mesmo os defensores dos animais seriam contra isso, pois é um ambiente inadequado para um cachorro tão grande”.

Doze quilos de simpatia

Há cinco anos, o cachorro Pagu é morador do Residencial São Pedro I, localizado no centro de Maringá. E, ainda que já tenha alcançado os seus doze quilos de muito charme, esse adorável exemplar da raça Pug não costuma incomodar nenhum dos seus vizinhos. Seus donos, o casal Paulo e Atsuko Kimura, pelo menos nunca ouviram nenhuma reclamação.

No prédio onde moram, o regimento determinou que, nas áreas sociais do condomínio, como em corredores e elevadores, os animais devem ser transportados em gaiolas. Dentro do apartamento, não há restrições quanto ao tamanho, peso ou quantidade de animais.

Paulo Kimura diz que, nos quatro apartamentos do seu andar, há três cães e também uma ave, que, embora cante o dia todo o Hino Nacional, não lhe incomoda. Pagu, que sai duas vezes por dia do apartamento para respirar novos ares e curtir um pouco a vida lá fora, é considerado um animal de pequeno porte, extremamente dócil, mas que, por sentir muita fome, pode ganhar peso mais facilmente.

Cachorro de apê

Na hora de escolher a raça do cão para morar em apartamento, nem sempre o menor é o melhor. Opte pelos que são menos ansiosos mesmo sozinhos, que tende a latir menos e que não necessitem tanto de atividades diárias. Raças que se enquadram nesses quesitos são Maltês, Pug, Bichon Frisé, Buldogue Francês, Boston Terrier, West Terrier e inclusive o grandão Rottweiler, que consegue ficar quieto no apartamento desde que possa passear diariamente com seu dono.

*Reportagem publicada dia 6 de março no caderno de Imóveis do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Carnavais marcantes*

Quando não se está anestesiado, os dias de carnaval costumam ser marcantes. Lembro-me com riqueza de detalhes o que estava sentindo no carnaval 2010 para começar a escrever o conto “Colombina” e publicá-lo na terça de carnaval. Não conseguia tirar da cabeça um namoro rompido de um grande amigo, que ficou mais de seis anos com uma garota e que, em uma bela manhã, resolveu acabar com aquilo que estava ceifando sua vida.

Então resolvi contar a história de um casal que havia comprado antecipadamente um pacote turístico para passar o carnaval em Salvador. Quando chegou a data da viagem, os meus personagens já tinham se separado. Foram do mesmo jeito, dormiram em quartos separados, ele bebeu todas enquanto assistia pela TV o deprimente desfile das escolas de samba e ela encontrou um cara forte para receber carinhos.

Também me recordo do carnaval 2009. E o fato de sempre chover nesta época do ano instigou-me a produzir outro conto, também para a coluna Crônico. O conto “Feriado chuvoso”, inclusive, será publicado no meu primeiro livro de contos, que a editora me prometeu o lançamento, veja só, para só depois do carnaval. Basicamente, é a história de um homem que sai de casa fantasiado para uma festa e que toma chuva no meio do caminho.

Não me lembro do carnaval 2008. Provavelmente tenha sido só mais um feriado casual e que, justamente por ainda não estar escrevendo neste espaço do jornal (a coluna Crônico nasceu dia 18 de março de 2008 e completa três anos este mês), o ato de escrever nesta data não me fez registrar algumas das sensações sentidas neste longo, misterioso e cheio de significados feriado. Ou estaria anestesiado?

Neste carnaval 2011, procurei observar bem o que se passava ao meu redor para esboçar algumas conclusões a respeito. Depois de consumir por alguns instantes a programação carnavalesca da TV e depois de ouvir da janela do quinto andar do prédio sons frequentes que emanavam dos potentes alto-falantes de picapes maringaenses que desfilavam pelas ruas com as canções sertanejas, estava com o material pronto na cabeça para produzir um texto ácido, desiludido e totalmente crítico ao carnaval.

Mas, desde domingo, depois de cumprir plantão no site do jornal, uma cena imaginária invadiu o meu ser e não me deixou pensar em outra coisa. Tive de noticiar um fato lastimável: uma coletora de recicláveis encontrou, dentro de uma sacola de supermercados, em meio ao lixo, um feto humano. Identificada apenas por Cinara, a mulher, que encontrou um princípio de vida interrompida embrulhada em papel toalha e dentro da sacola, estranhou o peso daquilo que provavelmente imaginou ser o resto do consumo desenfreado de uma família qualquer.

Aquela sacolinha de mercado contendo vida era mais pesada do que Cinara poderia imaginar. Aquela sacolinha com um feto embrulhado em papel toalha (o mesmo tipo de papel utilizado por mim na noite de sábado para sugar a gordura da batata frita) representa todo o peso do mundo nas costas de qualquer pessoa que se considere um humano.

Sem falsos moralismos, depois de noticiar o encontro de uma pequena vida que teve como caixão primeiro apenas uma sacola plástica, passei a não entender ainda mais o carnaval e o porquê de tantas festas, tantos sorrisos, tanta alegria do povo brasileiro.

*Crônica publicada hoje, dia 8 de março de 2011, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Fica com Deus, Moacyr*

Milhares de manchetes e títulos de notícias passam pelos meus olhos diariamente nos sites de notícias. E, assim como muita gente, confesso já estar congelado, frio, distante das tragédias anunciadas. É tanta disputa pela tragédia maior, pelo maior número de acessos ou Ibope, que a comoção demora só até o tempo de conferir a próxima notícia que escorre sangue. Escandalizou-se tudo. Vai chegar o dia em que leremos até mesmo a crônica da nossa própria morte anunciada e nem assim ficaremos perplexos.

Notícias mais ou menos assim não vão nos assustar: “Deverá ocorrer, na próxima semana, a morte de quem está lendo esta matéria. Conforme aponta dados repassados pelo ‘Ministério das Mortes Anunciadas’, o leitor entrará em óbito depois de sofrer um grave acidente envolvendo o seu veículo e um caminhão. Estima-se que cerca de 20 pessoas deverão participar do velório, que ficará marcado por algumas lágrimas da mãe e da mulher da vítima. Em alta madrugada, moleques de rua e boêmios deverão participar do evento fúnebre com o intuito de tomar chá, café e comer bolacha de água e sal”.

Às vezes, porém, abrimos os jornais ou entramos em sites e somos alvejados com uma pequena linha de manchete que acaba nos atingindo como um cruzado de direita ou um balaço de pistola na testa. “Aos 73, morre escritor gaúcho e membro da ABL Moacyr Scliar”, noticia a Folha de S. Paulo, jornal onde ele assinava, às segundas-feiras, uma coluna de ficção baseada em notícias publicadas no jornal.

Lembro-me das ligeiras, mas sentidas, lágrimas que escorreram dos meus olhos quando perdemos o escritor português José Saramago, ano passado. É nessas horas que gostaríamos de ser personagens de livros. Bom seria se Saramago vivesse no mundo do seu livro “As intermitências da morte”, que se inicia com a genial frase: “No dia seguinte ninguém morreu”.

Gostaria muito que esse dia seguinte tivesse sido este domingo que passou, data da morte do nosso grande escritor Scliar. Mas não foi, talvez nunca será. Como talvez nunca veremos andando por aí um ser metade homem metade cavalo, o centauro da pacata família Tratskovsky, muito bem retratada no clássico romance “O centauro no jardim”, escrito em 1980 pelo gaúcho.

Talvez tenha sido a partir da leitura deste livro que descobri o prazer de ler Scliar, hoje autor brasileiro mais lido por mim. Ainda jovem, quando consumia vorazmente as páginas de “O centauro no jardim”, descobri que o mundo da literatura é cheia de possibilidades e que eu poderia um dia até tentar escrever alguma coisa, pois, sim, literatura é legal! Dizem que Gabriel García Márquez decidiu ser escritor depois de perceber que havia a possibilidade de escrever sobre um homem que acorda inseto, após leitura de “A metamorfose”, de Kafka.

Homens insetos e homens cavalos estão eternizados nas páginas dos livros. Kafka, Scliar e Saramago morreram, mas deixam um legado, um tesouro para o mundo. O que escreveram, já está escrito e ninguém pode mudar, com exceção de algum equívoco ou outro de tradutores. O mundo anda mesmo tão frio e imediatista, mas é quando estamos diante de seus livros que podemos nos sentir em paz. Obrigado, escritores! Fica com Deus, Moacyr.

*Crônica publicada hoje, dia 1º de março, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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