Mês: abril 2011



Unati desperta o sentido da vida dos alunos*

Uma retomada do sentido à vida. É isso o que muitos professores e coordenadores pedagógicos estão podendo vivenciar com o trabalhado envolvendo pessoas com mais idade nas mais de 150 Universidades Abertas à Terceira Idade (Unatis) espalhadas por todo o Brasil.

A Unati da UEM, que foi criada em dezembro de 2009 e que, este ano, abre pela segunda vez inscrições, oferece aos alunos a opção para escolherem até quatro cursos dos 49 incluídos na grade. Hoje, mais de 40 professores da UEM já participam lecionando na Unati.

O coordenador geral da Unati da UEM, o professor Claudio Stieltjes, chama a atenção para o papel de inclusão e não de exclusão o qual se presta a universidade aberta. Prova maior disso é que, para participar, não se exige grau de escolaridade e sim apenas que o aluno tenha a partir de 60 anos de idade. “Unati é uma educação não formal, permanente e aberta. O aluno escolhe os cursos e atividades que quer fazer, conforme suas necessidades, competências, anseios, rotina e tempo disponível”.

Foi isso o que fez o aluno Arnaldo Vilhena Coelho, de 73 anos: escolheu quatro cursos que mais lhe chamaram atenção. Hoje ele faz Espanhol, Geriatria, Informação, Conhecimento e Sabedoria e Psicanálise na Unati da UEM. Para ele, o objetivo maior da Unati é o de transmitir conhecimento e promover a integração social dos idosos.

Coelho, que disse ter sido despertado novamente para a vida graças à universidade, também dá mostras de que entende de poesia. Trouxe à redação um acróstico que simboliza o quanto se sente agradecido por poder participar da Unati:

Unidos

Nas

Amizades

Teremos

Integração

“Muitos dos alunos da Unati deixaram de ser idosos e passaram a ser vaidosos”, finaliza o aluno.

*Confira, no caderno especial “Melhor Idade”, de O Diário do Norte do Paraná, mais uma reportagem sobre a Unati e outras referentes a temas que dizem respeito à terceira idade. O caderno sai junto à edição do jornal impresso desta sexta-feira (29).

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Hóquei: tacada certeira no sedentarismo

 

Foto de Ivan Amorin: Atletas maringaenses apaixonados pelo esporte mostram suas grandes armas para fazer os gols: os tacos

Não se assuste com as imagens violentas costumeiramente associadas à prática de hóquei no gelo nos Estados Unidos. Embora sejam inevitáveis, os chamados checkings (encontrões permitidos pela arbitragem nos alambrados da quadra), as brigas entre os atletas não costumam ocorrer no hóquei em linha – modalidade mais comum aqui no Brasil e que é praticada em quadras de cimento e com patins de rodinhas.

Pois bem. Mesmo sendo um esporte de contato, a violência não é bem vinda pelos praticantes de hóquei no Brasil. O grande barato é dominar ao máximo a patinação, acostumar-se com a agilidade do jogo, aprimorar a técnica das tacadas mortíferas para se conseguir colocar o disco nas redes e finalmente gritar o gol.

Patinação e muita adrenalina com a disputa de jogo. Dois fatores que fazem do hóquei altamente recomendado. Em outras palavras, o esporte faz bem para o corpo e para a mente. O professor de Educação Física do Cesumar, Joaquim Martins Junior, doutor pela Unesp, explica que a patinação entra no rol dos esportes aeróbicos. Isso significa dizer que proporciona uma grande ingestão de oxigênio e, consequentemente, ativa toda a parte fisiológica e física do corpo. Que beleza, não?

“Se a patinação for realizada ao ar livre, além de ser um vigoroso exercício para o corpo, pois exercita os músculos das pernas e do tronco, provoca outros benefícios ao indivíduo, tais como o relacionamento social com os outros praticantes”, esclarece Martins Junior. Isso e até um pouco mais é o que sente o jogador de hóquei Douglas Lopes do Amaral, que há quase 20 anos patina, sendo 13 deles pelas quadras e com o taco na mão.

Ele confessa contar as horas para que o sábado, o dia do treino, chegue logo para finalmente se libertar com o hóquei. Para Amaral, é pura endorfina liberada. E o professor comprova: “a prática de exercícios ativa a produção de determinados hormônios pelo nosso corpo, que, ao ingressar na corrente sanguínea, traz benefícios para muitas das regiões do nosso corpo”.

A principal queixa do atleta, que hoje é presidente da Associação Maringaense de Hockey (AMH) e que inclusive já foi escalado para a Seleção Brasileira, é não ter mais tempo no meio de semana para patinar. “Perdi 4 quilos em um mês. Patinava três vezes por semana durante uma hora e meia ao redor do parque”, jura o atleta, mostrando o retrocesso: uma pequena saliência abdominal já querendo transparecer.

Pratique certo

O professor Martins Junior alerta que alguns cuidados devem ser tomados antes de iniciar a prática esportiva. Recomenda-se fazer uma avaliação médica caso o esporte exija muito do corpo, principalmente do sistema cardiopulmonar. A escolha de roupas e calçados adequados para a prática esportiva também é outra requisição básica para o esporte, enumera o professor.

No caso do hóquei, alguns cuidados especiais devem ser tomados, além dos alongamentos básicos recomendados para qualquer atividade física. “O hóquei, por ser um esporte de choque, necessita de exercícios que ativem a musculatura a ser trabalhada, o que é feito através de uma fundamentação específica, utilizando os principais gestos que serão executados durante esta prática”, afirma Martins Junior.

Correria

A correria em um jogo de hóquei é tão grande que a sensação, conforme descreve Amaral, é de exaustão física e moleza nas pernas. As energias, diz, parecem ter sido todas esgotadas. Não por menos: patinar uma hora equivale a três horas de cooper, segundo estudos referentes ao esporte, que aponta a patinação como sendo o segundo esporte olímpico no mundo que mais movimenta o corpo, perdendo apenas para a natação.

Amaral explica que, em um jogo de hóquei, o atleta não aguenta mais do que três minutos sem ser substituído. Sem lateral ou linha de fundo, o jogo não para um minuto sequer, com a exceção na hora das faltas ou de gols. “São quatro na linha e um no gol. Mas precisamos de pelo menos mais duas linhas de quatro para ir revezando de três em três minutos”. Uma boa tacada pode levar o disco a atingir 160 km/hora.

Esporte completo

-Perde-se até 800 calorias em uma hora de patinação

-A atividade melhora o condicionamento cardiorrespiratório

-É de baixo impacto

-Aumenta a resistência muscular

-Fortalece ossos, músculos, tendões e ligamentos

-Quem patina tem mais agilidade, equilíbrio, velocidade e coordenação

-Ajuda a definir coxas, pernas, bumbum, abdome e costas

Os últimos no futebol podem ser os primeiros no hóquei

Fissurado por patins desde muito pequeno, Douglas Lopes do Amaral, hoje presidente da Associação Maringaense de Hockey (AMH), recorda-se das constrangedoras aulas de Educação Física no colégio quando, invariavelmente, era o último a ser escolhido na formação dos times de futebol.

“Só sobrava eu. Os times brigavam para não me ter no time”, diz Amaral já evocando uma barulhenta gargalhada. É assim, com bom humor, que ele conta como era difícil ser alguém que gostava de esportes mas que não fazia coro à paixão nacional pelo futebol. “Era futebol na rua, no colégio, em todo lugar”.

Até que um filme salvou a vida do, na época, adolescente. Depois de contar ter assistido durante dois anos seguidos, todos os dias da semana, o filme “D2: Nós somos os campeões” (que conta a história dos Ducks – time norte-americano bastante conhecido de hockey no gelo), Amaral estava decidido: iria para o exterior praticar o esporte.

Não precisou. Na aula de informática conheceu um buscador de sites e assuntos e finalmente descobriu que, para a sua alegria, o Brasil não era formado apenas pelo batalhão de meninos e meninas doentes pelo futebol. Sim: também tem hóquei no Brasil e, pela falta de gelo com todo este calor, o brasileiro dá um jeitinho e “taca o disco” na quadra de cimento mesmo.

O hóquei em linha (em inglês, hockey in line) é praticado em diversos países do mundo, a exemplo do Brasil, onde já há praticantes do hóquei no gelo e hóquei na grama também. Patinando atrás do seu sonho, o antes apenas patinador começou a treinar hóquei em linha. Jogou o campeonato brasileiro de hóquei por uma equipe de Londrina e, com apenas 14 anos de idade, acreditava ter bagagem suficiente para já ministrar aulas da modalidade em Maringá e assim ser o grande percursor do esporte na cidade.

Hoje, há 13 anos praticando e ensinando hóquei, o presidente da AMH teve o privilégio de jogar inúmeras vezes pela Seleção Brasileira e de ver pelo menos três de seus alunos também vestindo as cores verde e amarelo nas quadras de hóquei.

A mais nova e boa notícia envolvendo os atletas de hóquei de Maringá é a excursão que alguns farão aos Estados Unidos para jogar um mundialito de interclubes. Amaral, outros dois atletas e ainda uma pessoa da comissão técnica do time da AHM estarão, de 15 a 21 de julho, em Estero, Flórida, no Narch Finals 2011. Eles foram escalados para o time do No Green Card BR, composto por atletas que um dia já foram da Seleção Brasileira.

Pratique hóquei

Entre em contato com o técnico do time da Associação Maringaense de Hockey, Arthur Felipe, para praticar hóquei em linha. A taxa mensal é de R$ 20 e, para iniciar a atividade, é indispensável o uso de joelheira, cotoveleira, capacete e patins, que custará em torno de R$ 200. Os encontros acontecem todos os sábados, a partir das 14h, na quadra do Centro Social Urbano, ao lado do Parque de Exposições. Crianças, jovens, adultos, homens ou mulheres podem participar das aulas. Telefone: 44-8801-1351.

*Leia essa e outras reportagens no caderno Saúde, de O Diário do Norte do Paraná.

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Infeliz Páscoa*

No feriado prolongado que uniu em um pacote só Tiradentes, sexta-feira santa e Páscoa, eu percorri por um imenso corredor da morte. E peço desculpas ao leitor ávido por assuntos mais felizes, coloridos e menos sórdidos. É que mesmo com a provável transferência de alegria e descanso geralmente proporcionada por feriadões longos como este, a única coisa que tenho a dizer sobre os meus dias de ócio diz respeito às estradas brasileiras – verdadeiros corredores da morte, uma morte feia, violenta, chocante, que mistura sangue, pele, ossos quebrados e ferragens retorcidas.

Ouço pouca gente dizer que tem medo de andar de carro. As pessoas têm mesmo medo é do avião, que mata bem menos. Talvez seja aí que mora o perigo. O brasileiro está, há décadas, acostumado a dirigir veículos de passeio, motocicletas e caminhões. Poucos são os que sabem pilotar avião. O resultado disso é uma confiança exagerada por grande parte das pessoas que coloca as duas mãos no volante de um carro e reveza os pés em um movimento de acelerar, frear e pisar na embreagem.

Os motoristas aceleram a 110, 120, 130 km por hora só para ver até quando o motor aguenta, mas se esquecem que a infinita highway pode se eternizar em uma morte drástica, cruel e que, quase sempre, não se limita ao indivíduo que estava dirigindo, mas também aos seus filhos, familiares, aos filhos dos outros.

É mesmo muito triste ver uma série de carros retorcidos em cada posto da Polícia Rodoviária Federal para ostentar um perigo e, oxalá, provocar um certo medo naqueles que ainda não entenderam o quão feio pode se um estrago de uma batida. O troféu da morte são esses carros que ficam no museu das lamentações rodoviárias.

Será que, cada vez mais, os motoristas desaprendem a dirigir? Leio no jornal que, de acordo com balanço divulgado pela Polícia Rodoviária Estadual (PRE), houve aumento de quase 90% no número de acidentes em relação ao feriado de Páscoa de 2010 na região de Maringá. Como assim? O que está acontecendo com os motoristas? Seria o aumento de pessoas que têm acesso a veículos? Seria o aumento de pessoas que compram a carteira? Seria o aumento da ingestão de bebidas alcoólicas ao volante? Seria a capacidade que qualquer carro tem, até mesmo os 1.0, de correr aos 160 km/hora?

Os mortos vão sendo recolhidos das estradas. Os carros viram sucatas. As famílias passam a Páscoa mais reunidas do que nunca, só que em um velório triste, muitas vezes com a perda de várias pessoas e com caixões lacrados para evitar aos olhos humanos o quanto a morte pode ser violenta e o quanto ela pode reduzir a pó a nossa frágil carcaça. O chocolate, as motivações religiosas, os encontros de pessoas queridas, nada disso fez com que tivéssemos um feriadão feliz. Os corredores da morte, que matam mais que guerra, evidenciam que, mais uma vez, tivemos uma infeliz Páscoa.

*Crônica publicada dia 26 de abril de 2011, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Teoricamente vivos*

Rosas vermelhas e brancas, outro tipo de flor amarela e uma centena de pétalas servem de cobertor para a pessoa que morreu. Pode estar frio ou pode ser até mesmo em uma manhã abafada de um verão tardio que invadiu o outono. Não importa. O cobertor de flores estará lá para aquecer um corpo já sem alma e enfeitar algo que, absolutamente, não se consegue maquilar: a tristeza da morte.

Uma cruz prateada combina com um bem adornado castiçal reluzente e que segura um toco de vela queimada, mas que, ao contrário da morte, ainda leva uma chama de vida. Aquele homem, um filho de uma mãe morta, não tinha chorado ainda. Foi por pouco que aquele líquido que sentimos salgado na boca não caiu bem em cima da vela e, assim, exterminando de vez um resquício de vida acessa.

Sim, porque, embora estejamos todos teoricamente vivos ao redor da pessoa que morreu, na verdade estamos todos mortos também dentro da capela. Enlutados. A diferença entre nós e aquela mãe já morta é que um sangue que passeia por todos nossos corpos insiste em nos fazer respirar aquele ar abafado e que pesa mais de cem quilos. Tem cheiro de cobertor. Cobertor de flores.

Mas, veja só: a contemporaneidade também contaminou as cerimônias fúnebres. Um adesivo bem grande colado no aparelho de ar-condicionado explicita a “beneficência” da única e monopolizadora rede funerária da pequenina cidade do interior do Paraná. A logomarca da empresa sugere que morrer significa viver uma nova vida. O politicamente correto traduz um marketing disfarçado em “gentilezas”. Portanto, se agora todos os mortos daquela capela mortuária estamos conseguindo não suar o sangue dos mortos-vivos é porque um imenso ar-condicionado nos refresca.

Os velórios do século 21 são mais ventilados e também iluminados. Ainda que a vela apagasse com aquela ímpar lágrima de um filho, não teríamos problemas para enxergarmos. Ao contrário da escuridão da morte em que todos estamos fadados, é justa e paradoxalmente na capela mortuária que temos um excesso de luz irritante e denunciador. As lâmpadas fluorescentes evidenciam a nossa velhice em tempo real. Vejo, em pleno velório, a morte agindo em todos nós. Prova maior disso são os cabelos ficando brancos em nossas cabeças indiscriminadamente.

Estamos todos mortos, com sangue nas veias e suor controlado por causa da “gentileza” da funerária, só esperando um câncer, uma diabetes, uma pressão alta ou um ataque cardíaco nos golpear. Quem sabe também veremos a vela se apagar em um ridículo acidente de trânsito ou em mais um atentado de um maníaco sofredor de bullying que resolve pegar em armas para se vingar dos “infiéis”.

Um bisneto de 13 anos chora a morte da bisa, que viveu 90 anos. Ele não sabe, mas chora também pela morte das doze crianças que tinham mais ou menos sua idade e que foram covardemente alvejadas em Realengo. O único vivo-morto e não morto-vivo daquela capela mortuária chora porque sabe que as crianças assassinadas por Wellington ainda não queriam se cobrir com flores e que poderiam ter vivido até dez vezes mais do que viveram. Poderiam ter completado 100 anos e, até este dia chegar, sabe-se lá se precisaríamos cobrir com flores os mortos, mesmo estando em uma sala refrigerada, em uma manhã quente de um sábado morto de outono com cara de verão.

*Crônica publicada dia 19 de abril de 2011 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Não matarás*

O que escrever de um rapaz que tem a coragem de efetuar mais de 60 disparos dentro de um colégio, matando doze crianças e ferindo outras tantas? Números, em determinados momentos, não servem para nada. São tão frios. Larissa Santos Atanásio, que tinha 13 anos, no mundo dos numerais, é uma das doze vítimas fatais do sociopata Wellington Menezes de Oliveira. Covardemente, esse rapaz, que teve frieza suficiente para mirar a sua arma na cabeça de meninas, suicidou-se (pelo menos é o que diz a polícia envolvida no caso) aos 23 anos. Sim, números, novamente. Para encerrar o papo de números, quero apenas salientar que ele viveu 10 anos a mais do que Larissa. Covardia.

Reportagens pipocam a todo momento na televisão, nos sites e nos jornais impressos. A indicação da pauta é entrevistar psicólogos, sociólogos, historiadores, filósofos, enfim, intelectuais que estudam e observam o comportamento humano. Além disso, perspicazes jornalistas conseguiram encontrar “colegas” de classe de Wellington. E afirmam: ele sofreu bullying. Isso, porém, inocenta o matador de “brasileirinhos e brasileirinhas”, assim como a presidente Dilma Rousseff os chamou enquanto deixava escorrer lágrimas em uma homenagem feita momentos depois dos assassinatos no colégio em Realengo?

Se cada vítima de bullying resolvesse externar todo o seu sofrimento pegando em armas e matando pessoas, viveríamos em um caos. Todos somos culpados pelo bullying. É uma cultura enraizada no viver coletivamente. Vivemos em uma selva de pedra onde os fracos não têm vez. Por isso, não haveria munição suficiente para Wellington se vingar de todo o possível sofrimento que fez parte da sua vida. Ele precisaria efetuar mais de 190 milhões de disparos. Este assassino, queremos ou não, é filho do Brasil e de toda uma gama de comportamentos equivocados e ensinados desde que nascemos.

É quase impossível escrever sobre este assunto e não cair nas armadilhas do discurso pronto, do dualismo entre o bem e o mal, na cegueira do ódio e da compaixão. Ódio pelo assassino. Compaixão pelas crianças envolvidas e pelas famílias que estão condenadas a uma vida que será muito mais triste do que o de costume, por terem perdido de maneira tão violenta um filho querido. Sentimos raiva de Wellington principalmente por ele ter assassinado de maneira tão escrupulosa as inocentes crianças no colégio. Mas fico a me perguntar qual seria a nossa reação se ele tivesse perseguido as pessoas que lhe fizeram mal no passado, seja em um bullying ou em qualquer outra prática.

Será que vibraríamos e o elegeríamos como sendo o anti-herói que resistiu aos mais fortes? Só para ilustrar, lembre-se que muita gente aprovou o ato violento do garoto australiano Casey Heynes, que reagiu ao bullying se utilizando da força para tacar um menino pentelho e magricela no chão. Com a queda, o garoto poderia ter batido a cabeça e morrido. Levantando essa questão, quero que entenda, leitor, que em nenhum momento estou defendendo ou tentando encontrar justificativas para o ato desumano do assassino Wellington. Quero, sim, repudiar qualquer ato violento praticado contra outra pessoa. Será que um dia conseguiremos viver respeitosamente em grupo? Conseguiremos respeitar o 5º mandamento, que suplica um “não matarás”

*Crônica publicada hoje, dia 12 de abril de 2011, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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O viver quando velho*

Como alguém que completou 80 anos deve ver o pôr-do-sol? E uma despedida? Para alguém já com uma certa idade, o quê deve significar um ‘simples’ tchau? O que será que nossos avós sentem quando nos despedimos, prometendo voltar em breve? Será que ficam aliviados de terem se livrado de um jovem sem espírito e coração? Ou pressentem que será a última vez que verão os filhos dos seus filhos?

Não deve ser tarefa das mais fáceis viver um dia de cada vez, sabendo que o futuro é incerto e que as chances de ser ter a vida esgotada são muito maiores do que há alguns anos atrás. Por isso mesmo, penso que viver quando velho deve ser algo intenso, uma vida cheia de rituais importantes e agradecimentos mais sinceros até mesmo pelo ar que se está respirando, pela comida que se está ingerindo, pela presença, ainda que rara, de parentes e amigos queridos.

Antes de começar a escrever, pensei em podar a minha expressão linguística, tornando-a politicamente correta e, convenhamos, totalmente eufemística. Traduzindo, iria usar o termo “idoso” e não “velho”. E que me desculpem os velhinhos, mas quando eu tiver mais idade não quero ser chamado de idoso. Pretendo aceitar a minha velhice. É o processo natural. O tempo passa, o tempo voa. As coisas envelhecem, inclusive o ser humano. E isso não significa dizer que o velho é ruim. Lembrem-se dos uísques doze anos.

O professor Claudio Stieltjes, coordenador geral da Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati) da UEM, deve concordar comigo quando o assunto é eufemismo. Dias desses, tive o prazer de entrevistá-lo. Entre outras coisas, ele me disse que preferia o termo “terceira idade” ao termo “melhor idade”. Como muito bem pontuou a professora Regina Taam, coordenadora pedagógica do Unati, a melhor idade é quando estamos vivemos momentos bons. E isso pode acontecer quando criança, quando adolescente, adulto ou bem mais velho.

O desafio de se viver bem se torna maior na velhice, creio. Uma pessoa mais velha naturalmente encarou, por exemplo, muitos velórios de entes queridos. As pessoas ao redor vão morrendo. Um amigo aqui, outro amigo lá. Os pais, há décadas já se foram. Alguns filhos também podem acabar morrendo. E isso parece ser algo triste mesmo. Há muitos motivos para se entristecer, sejamos sinceros.

Mas, o que fazer nessas horas? Para onde correr? Entregar-se? Não, pois, com 5, 25 ou 85 anos de idade, aquele sol vai estar se pondo pela tarde e acharemos bonito o crepúsculo, os rituais precisarão ser cumpridos, os agradecimentos deverão ser feitos religiosa e diariamente. Além do que, aquele sorriso sincero do seu bisneto te fará perceber o quanto ele se parece com seu neto, que se parece com seu filho.

Percebendo que a vida continua com o repasse genético de gerações e gerações, o velhinho finalmente chega a conclusão de que também há motivos para se alegrar. É quando ele se pega, em um dia qualquer da semana, enquanto coa aquele café de manhãzinha, com um quase sorriso esboçado no rosto enrugado e a cantarolar uma música bonita que o faz lembrar de uma moça muito bonita e que um dia ele chamou de meu amor.

*Crônica publicada dia 5 de abril de 2011 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Arquitetura que conta a história de Maringá*

História arquitetônica retratada em belo quadro de Edgar Werner Osterroht (na fotografia acima, antiga do Cine Horizonte, na Vila Operária, em 1951)

Saia de casa. De preferência, a pé. Caminhe pelas ruas de Maringá, mas sem deixar de notar, ao seu redor, o que foi construído pelas mãos dos homens. Repare que não foi apenas Deus que atuou com maestria na cidade, presenteando os maringaenses com as mais belas árvores, parques e bosques.

Além do verde que predomina tem também muito vidro, metal, concreto e asfalto por aqui. Uma série de obras, casas, prédios e condomínios, que, em seu conjunto, guarda consigo toda uma história vista pelo viés arquitetônico.

E é sob esta ótica que o historiador da gerência de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura, João Laércio Lopes, conta, com prazer, como a arquitetura de Maringá foi se desenvolvendo, com o passar das décadas até chegar aos dias de hoje.

Esquecemos a roça

Para o historiador, embora haja conhecimento da história arquitetônica do plano urbano de Maringá, pouco ou nada se sabe da arquitetura rural do município, que se perdeu pela falta de interesse da maior parte das pessoas.

“O plano urbanístico forte da cidade ocultou o mundo rural. Mesmo com a ideia de ‘Cidade Jardim’ e ainda tendo em sua área física 3/4 como sendo rural, não sabemos quase nada da história da arquitetura rural”, lamenta Laércio, citando ainda que, em 1960, dos pouco mais de 100 mil moradores de Maringá, cerca de 70 mil viviam no campo.

Casas de madeira

A história urbanística maringaense passa por fases comuns no desenvolvimento das cidades, com o diferencial que, ao contrário de Londrina, por exemplo, Maringá foi totalmente projetada e bem organizada.

O seu primeiro plano urbanístico mais abrangente (lembrando que o plano com as primeiras quadras no Maringá Velho já havia sido feito em 1943) foi realizado pelo engenheiro civil e urbanista Jorge Macedo Vieira no ano de 1945 e dividia a cidade em oito bairros, indo da Zona 01 à Zona 08.

“A expansão urbana em Maringá é muito ligeira. Mas, quando ainda a cidade era um grande sítio, as primeiras casas, chamadas de ranchinhos, eram feitas com tronco de palmito, que era cultivado na cidade naquela época e que servia para a construção e para a alimentação”, diz o historiador Laércio.

Depois disso, logo começaram a ser construídas as casas de madeira, estimulando assim a criação de serrarias na cidade. O historiador afirma que as casas de madeira reinaram em Maringá dos anos 40 até a década de 60.

Alvenarias e grandes prédios

Já na década de 70 começam a ser construídas em maior quantidade as casas de alvenaria. Nesta época era comum também se encontrar em Maringá edificações com fachadas de alvenaria e com fundos de madeira. Láercio ressalta que, já na década de 60, alguns grandes edifícios foram erguidos na cidade, como o Edifício Três Marias e o Maria Tereza.

Um marco na construção civil

Com a grande expansão demográfica vivida em Maringá na década de 80, saltando de 168 mil para 240 mil habitantes, a área da construção civil pegou carona e também obteve aceleração, principalmente com a construção de inúmeros prédios residenciais.

É quando, na opinião de Laércio, que o mercado imobiliário maringaense passa a ganhar força, o que é uma realidade até nos dias de hoje. “Na Zona 01, ali nas avenidas Arthur Thomas e na Tiradentes, por exemplo, foi onde vimos um grande crescimento imobiliário na década de 80, com a construção de vários prédios”, exemplifica o historiador.

Os horizontais

João Laércio explica que não houve grande salto demográfico na década de 90 em Maringá, situação logo invertida a partir dos anos 2000, quando a cidade passou de 290 mil para, segundo o último Censo (2010), 367 mil habitantes.

Junto com mais um aumento da população, começa-se desenhar em Maringá uma classe social mais abonada e com melhores condições financeiras. A partir de 2000, explica o historiador, a cidade passa a ver com grande expressão as construções dos chamados condomínios residenciais horintozais.

“A arquitetura de Maringá expressa o arrojo da cidade. Os residenciais fechados expressam também a necessidade que muitos maringaenses sentiram com relação à falta de segurança. Os condomínios horizontais são legítimos, ainda que perdem a questão estética da arquitetura de se mostrar a obra. Ninguém, a não ser os moradores, contemplam as casas construídas”, expressa Laércio.

História, arquitetura e turismo

Mirando os olhos para os acontecimentos importantes do passado na área da arquitetura, a população pode entender o quanto se faz importante a preservação de construções e obras espalhadas pela cidade em geral.

Na opinião da arquiteta e urbanista Fabíola Castelo de Souza Cordovil, a população, inclusive, deve participar mais das intervenções urbanas que ocorrem em Maringá. “É importante entender que as obras e as modificações na legislação urbanística afetam a paisagem e a vida cotidiana de todos”, diz ela.

O pesquisador e gestor de eventos da Acim, Miguel Fernando Perez Silva, salienta que a história da arquitetura de Maringá é muito rica e conta com episódios memoráveis desde o lançamento da pedra fundamental da cidade, no dia 10 de novembro de 1942.

Ele, que atualmente desenvolve diversas pesquisas históricas da cidade e as divulga principalmente em seu blog (maringahistorica.blogspot.com), defende a conservação histórica de Maringá também como forma de atrair ainda mais turistas.

“Se não temos praia, o que atrai o turista? Pode ser um grande evento, uma festa típica, etc… ou estruturas históricas. Maringá pode ter um city tour pelos bairros, com profissionais capacitados a contar a história do local”, comenta Silva.

Obras públicas de Maringá construídas ao longo de sua história

Ao contrário do plano urbanístico de Maringá, que foi construído rapidamente pela Companhia Norte Melhoramentos do Norte do Paraná, as obras públicas da cidade foram sendo construídas paulatinamente ao longo dos anos, conforme aponta a arquiteta e urbanista Fabíola Castelo de Souza Cordovil, que defendeu recentemente uma tese de doutorado, tratando sobre engenharia, arquitetura e urbanismo na construção de Maringá entre 1947 e 1992.

Ela, que também é professora do curso de Arquitetura da Universidade Estadual de Maringá (UEM), considera o conjunto das obras públicas como sendo de grande destaque no cenário arquitetônico e urbanístico da cidade.

Ao longo da história do município, Fabíola enumera algumas obras que marcaram época e que até hoje enriquecem esteticamente e historicamente Maringá. A exemplo do prédio da Biblioteca Municipal Bento Munhoz da Rocha Neto, localizado na Avenida XV de Novembro.

“A construção (biblioteca) foi declarada no relatório de gestão de Silvio Barros (pai do atual prefeito), com a data de novembro de 1976. A edificação em concreto aparente e revestida com grande área de superfície envidraçada em sua parte superior foi uma obra marcante. O projeto foi do engenheiro-arquiteto Luty Vicente Kasprowicz”, diz a arquiteta.

Fabíola também cita como obras importantes para a história da arquitetura de Maringá a Estação Rodoviária (demolida no ano passado) e também o Estádio Willie Davids. “O estádio estabeleceu-se na área determinada no plano inicial e foi tema de lei ainda em 1953. Há evidências do início da construção do estádio na terceira gestão municipal, a primeira de João Paulino. Segundo as fontes, o projeto foi encomendado a Jaime Lerner, arquiteto de Curitiba em ascensão, mas foi modificado ao longo da construção”.

Fato curioso citado pela arquiteta envolve a história do Paço Municipal de Maringá, que, nas primeiras cinco gestões municipais, funcionou em uma casa no mesmo terreno onde hoje se encontra a biblioteca central. “O Paço Municipal foi construído em duas etapas: a primeira foi realizada pelo escritório de (arquiteto José Augusto) Belucci; a segunda etapa não seguiu o projeto do arquiteto e foi concluída na gestão de Said Ferreira”, informa Fabíola.

*Reportagem publicada no caderno Construir & Decorar do dia 27 de março de 2011.

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