Mês: junho 2011



Obrigado, Chicão*

Um dia, o Chicão, zagueiro do Corinthians, tomou um chapéu sem o jogo estar valendo e ficou bravo com o autor da traquinagem, o moleque Neymar. Derrotado naquela partida, o corintiano esbravejou declarações inflamadas. Sem querer reconhecer o craque que despontava, disse que o atacante do Santos ainda tinha que jogar muita bola para conquistar um título ao seu clube. Chicão é um sábio. Embora tenha deixado muitos santistas queixosos, o zagueiro nada mais disse do que a verdade.

Desse episódio, pouco mais de um ano se passou. E nada como dar tempo ao tempo. Em um ano e meio, o filé de borboleta virou um tubarão que vive a amedrontar gambás e outros bichos pelos arredores do mar santista. Depois das declarações de Chicão (obrigado, cara), Neymar jogou muita bola, obrigado, Neymar conquistou muitos títulos para o seu clube, obrigado, e Neymar deu muito chapéu, até quando o jogo estava valendo, obrigado.

O hoje dono absoluto da camisa 11 do Peixe e da Seleção Brasileira provou para todos, inclusive a muitos santistas como eu, que gênio tem dessas coisas. Faz gol, sim. Finta dois ou três, sim. Mas também sombreia com um chapelaço, só de sacanagem, o zagueiro do time rival. E, vez ou outra, desperdiça um pênalti que cobrou com cavadinha. E, por que não, botar uma máscara após um dos mais bonitos gols da Taça Libertadores da América? Em noite de mascarados, carnaval sem confete não existe; gols do Neymar sem zagueiro entortado, também não há.

Chicão é um ótimo zagueiro. Além de defender muito bem, tem o dom da oratória. Suas declarações são exemplares e felizes, principalmente para o Santos Futebol Clube. No mesmo dia em que aconselhou Neymar a jogar mais bola (ufa), o corintiano declarou uma verdade, ainda que óbvia: “eles ganharam um jogo, não o campeonato”. As palavras de Chicão caíram como praga, só que ao contrário. Depois de seu pronunciamento, o Peixe venceu dois campeonatos paulistas, uma Copa do Brasil e uma Libertadores – torneio, aliás, que o presidente do Corinthians diz não querer mais participar porque não é lucrativo. Será que o Chicão tinha o sonho de jogar uma final da Libertadores? Meus amigos corintianos, pelo menos, sonham em assistir a uma.

Por falar em telespectadores e em coisas da América, Chicão assistirá pela TV o Neymar e outros atletas defenderem as cores do Brasil na Copa América, que se inicia em julho. Se não houvesse hoje uma verdadeira e feliz safra de bons zagueiros brasileiros mundo afora, certamente o corintiano teria uma chance na Seleção Brasileira, comandada pelo seu ex-técnico Mano Menezes. Campeão pelo Corinthians, inclusive na séria B, Chicão, além de sábio nas palavras, foi considerado o melhor zagueiro do Paulista 2011 – torneio que Neymar e companhia fizeram questão de levar para Santos.

Se estivesse vestindo a camisa do Brasil, Chicão certamente não se importaria em tomar um chapéu ou outro do Neymar durante os treinamentos da seleção. Talvez pudessem ser grandes amigos. O craque santista agradeceria de coração as sábias palavras proféticas do zagueiro. Mas não descartemos a hipótese. Ainda é jovem o exemplar zagueiro corintiano. É que Chicão envelheceu rápido e aparenta ter mais do que seus 30 anos completados recentemente. Será que se expôs muito ao sol? Por falta de chapéu não foi.

*Crônica publicada dia 28 de março de 2011 na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná.

36 Comentários


A tragédia mora ao lado*

A máquina da lotérica acabara de computar mais um jogo não premiado da Mega-Sena. Sequer um dos seis números fora acertado. E ele continuara pobre, dinheiro na conta nenhum, e a esperança de conquistar o primeiro milhão de reais por meio do jogo teria de ser protelada por mais alguns dias, quando ele apostará alguns reais em outros seis números projetados novamente pela máquina fazedora de jogos da lotérica.

Mas deixemos de lado o relato profético, o de anunciar mais uma derrota de quem ainda não conquistou seu primeiro milhão. O que importa mesmo são os minutos posteriores à jogatina. Aquele fim de tarde de uma terça-feira tediosa ficaria marcado para o resto da vida daquele homem que só queria ganhar na loteria.

Por que quando ouvimos sirenes, todos miram olhares para a rua, no desespero para não perder um detalhe sequer da ambulância, do caminhão de bombeiros ou da viatura da polícia disparar costura abaixo pela avenida? É como se fôssemos descobrir, no olhar, que casa está pegando fogo, que carro bateu no outro, que bala acertou o outro. Sirenes foram ouvidas por todos da fila da lotérica.

Sua vez havia chegado. Ele pediu para a moça da lotérica computar um jogo da Mega-Sena. Pagou. Foi embora, não sem antes ouvir a reclamação de alguém pela demora na fila. Na rua, sentiu calor, ainda que os termômetros marcassem baixas temperaturas e ventos gelados para aquele fim de tarde. Hipnotizado, olhos atentos à multidão. Como um zumbi, reuniu-se à massa de gente. O calor humano já pedia a retirada da blusa. Sargentos, cabos, tenentes. Repórteres com apelidos de comida antecipam os fatos. Trânsito parado. Curiosos alvoroçados. Uma tragédia! E tudo isso acontecendo em frente à casa do homem que ainda não conquistara o primeiro milhão de reais.

Suas vistas escurecem. O caminho é turvo. Ele não quer ouvir o relato ao vivo do repórter para a rádio. Ele não quer saber das investigações preliminares. Será que o seu coração dispararia tanto assim quando ficasse sabendo que ganhou na Mega-Sena? As bexigas penduradas em uma das muitas casas conjugadas naquele terreno denunciam a festa dos mortos. Um senhor resolveu ser Deus e tirou a vida da mulher e a própria. Está tudo acabado. Não há mais vida naquela casa decorada com bexigas. Só restam as lágrimas dos filhos da mulher assassinada.

O homem que só queria ganhar o seu primeiro milhão consegue entrar em seu lar depois de dar explicações aos fardados. Ultrapassa a faixa preta e amarela que sinaliza impedimento. Sua casa é uma de tantas outras construídas corredor abaixo. Novo no local e reservado, não fez questão de trocar diálogos com os vizinhos. Nem chegou a conhecer o casal morto que morava na casa do fundo, a casa das bexigas.

Logo após trancar a porta da sala, liga para a sua mulher. Mãos tremem ao discar os números. Relata a tragédia com voz vacilante. Pergunta da filha. Está na creche, garante ela. Diz que pensou em besteiras quando viu tanta gente reunida portão afora do local onde moram. E ela pediu que se acalmasse, que à noite faria sopa para comerem, já que estava esfriando. Garantiu que estava tudo bem, embora confessasse abalo por desgraça tamanha praticamente no quintal de casa. Também perguntou se ele havia passado na lotérica.

*Conto publicado dia 21 de junho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

1 Comentário


Vidas que se resumem a carvão animal

Encerrando a “Saga dos Brutos”, Ana Paula Maia demonstra maturidade na construção e economia de diálogos e faz reflexão sobre aos resquícios da morte dos homens

Wilame Prado

A escritora Ana Paula Maia sente admiração é pelos brutos. As histórias dos brutos são as que precisa e quer contar. Ou melhor, já contou. Com a publicação de “Carvão animal” (Editora Record, 158 páginas), ela encerra a “Saga dos Brutos”, formada pelas novelas “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” e “O trabalho sujo dos outros”, que foram reunidas em seu penúltimo livro, lançado em 2009.

Algumas características marcantes da autora permanecem vivas em “Carvão animal”. Nomes compostos e peculiares, por exemplo, continuam sendo os preferidos por Ana Paula na hora de batizar seus personagens. Quem já conheceu Edgar Wilson e Erasmo Wagner de novelas passadas dela, agora é apresentado ao valente bombeiro Ernesto Wesley e ao seu irmão que trabalha no crematório Ronivon.

Não é todos os dias que abrimos um livro e nos deparamos com histórias de bombeiros que se arriscam em altas temperaturas e que estão acostumados em verem o fogo transformar homens em carvão. Também é raro ouvirmos as histórias daqueles que atuam no subsolo de salas crematórias, colocando os mortos em fornos para que, ao final, virem apenas cinzas que ou serão guardadas em um pote para que a família guarde de lembrança ou simplesmente serão jogadas em um jardim de rosas cultivado nos fundos do crematório.

Trabalho dos brutos

É o trabalho destes homens brutos que dá fôlego à literatura de Ana Paula. Ela parece levar a sério a premissa de que o trabalho dignifica o homem, mesmo sendo este trabalho muitas vezes desumano, sem nenhum reconhecimento por parte da sociedade e, paradoxalmente, tão crucial como o de um médico ou de um advogado. A autora constrói a personalidade e a identidade de seus personagens de acordo com o que fazem para ganhar dinheiro e sobreviver. Até porque, pouco ou nada resta para eles além do trabalho, seja abatendo porcos, serrando latarias em acidentes de carros, cremando corpos ou colhendo carvão em minas subterrâneas.

Na apresentação de “Carvão Animal”, Ana Paula deixa claro uma de suas pretensões ao escrever a saga dessas pessoas: “Carvão animal é um romance que se passa dez anos antes das duas primeiras histórias, e assim encerra uma saga que teve por fundamento expor como o caráter do ser humano pode ser moldado pelo trabalho que executa, como o meio intervém na construção das identidades e como essas identidades modificam o meio”.

A autora parece respeitar a integridade e a importância dos trabalhos executados por homens brutos. É como se fosse uma tentativa de jogar luz aos olhos da humanidade, que parece não enxergar essas pessoas, tal qual nossa cegueira pré-fabricada perante, muitas vezes, aos moradores de rua e outros tantos marginalizados. Com uma certa inocência proposital, até porque parece ser algo impossível homens brutos terem um mínimo de dignidade tamanha a rudeza da vida, Ana Paula descreve a saga de seus personagens os presenteando com uma dignidade e uma força de tocar a vida sem muitas reclamações, tampouco ambições. Tristes, sim, esses brutos, porém, não fraquejam e parecem realmente viver um dia de cada vez, sem pestanejar, mas não sorrindo jamais.

Menos diálogos

Sendo a sua quarta obra, em “Carvão animal” a autora demonstra maturidade e se supera principalmente na construção do texto. Seguindo a mesma fórmula de “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”, a prosa ligeira e visual (a autora já revelou em seu blog que grande parte de sua inspiração literária vem do cinema) transforma o leitor em um ser ansioso para chegar às últimas páginas do livro, assim como quando assistimos a um bom filme. Só que desta vez Ana Paula resolve, de maneira inteligente, não se prender tanto aos diálogos dos personagens e consegue desenvolver melhor parágrafos narrativos.

Isso não significa dizer que ela abandonou de vez os travessões, mas deixou só mesmo o essencial na boca dos brutos para que se possa provar o “jeitão” deles viverem e pensarem. Aliás, existem momentos em que só mesmo um bom e velho diálogo consegue repassar ao leitor a atmosfera do local e do que está ocorrendo por ali. Assim como quando Ronivon e o seu Palmiro conversam sobre a demanda de trabalho no crematório, sobre o tempo que a cremação pode demorar e sobre o carteado de logo mais à noite:

“- Ronivon, como vão esses aí?

– Mais ou menos. Tem um velho seco feito um graveto.

– Esses são os piores.

– Sim. E ainda era fumante.

– Me lembro desse tipo no meu tempo de cremador. O corpo já está acostumado ao fogo e ao calor. Resistem por muito tempo.

– Infelizmente ainda tenho mais seis corpos, acho que não vou poder ir hoje à noite.

– Mas o carteado sem você fica desfalcado. Olha, são seis corpos, mas apenas três queimadas.

– Acho que esse velho seco vai me atrasar o dia.

– Teve pouca gente no velório dele. Não estavam nem abatidos.

– Pelo visto alguém vai ter que despejar o velho no córrego lá de trás…

– Mas o carteado é religioso.

– Eu sei, Palmiro. Tudo depende da hora que conseguir sair.

– Tudo o que eu posso desejar neste momento é que este forno arda mais que o inferno.”

Abalurdes: lugarejo frio e semirrural

No lugarejo onde os homens de “Carvão animal” sobrevivem está fazendo muito frio nos últimos dias, um inverno rigoroso está anunciado e as nuvens são encrespadas por conta dos carvoeiros da região. Não se sabe ao certo se Abalurdes é uma cidade grande ou pequena. Apenas que está localizada em uma região carbonífera, em que já se perdura por 50 anos o período de exploração de milhares de toneladas de carvão mineral, fato que torna o céu carvoento em todos os fins de tarde.

Quando Ernesto Wesley se dirige, com sua lambreta 1974, ao sítio de seu Gervásio no intuito de comprar esterco para seu minhocário, a autora revela algumas características do espaço em que escolheu para a ficção. Em um trajeto silencioso, oito quilômetros separam a casa dele com a zona rural, caminho em que o aspecto é desolador, como Ana Paula escreve, “com depressões na estrada e cercado de morros… é uma região cortada por rios contaminados e pequenos pastos. A paisagem humana mistura-se à paisagem semirrural. A cada três quilômetros, um novo bairro. São pequenos bairros, de movimentação confusa, comércio espalhado e pouca sinalização. Pessoas, carros, bicicletas, bêbados, crianças, porcos e gaiolas de galinhas são cortados pela mesma estrada, que em pontos perigosos possui uma placa com uma caveira sinalizando o alto índice de acidentes fatais”.

“Tu és pó e ao pó tornarás”

“Carvão animal” é uma novela curta e envolvente dividida em dez capítulos. Ao longo da leitura, Ana Paula Maia escreve sobre coisas fortes e difíceis, mas que, pela naturalidade com que é apresentada por meio da prosa, faz com que nos acostumemos facilmente com homens que viram cinzas em escombros e que só poderão ser identificados caso seus dentes sejam encontrados. A escritora parece querer provar o quanto é frágil e banal o corpo humano, a vida humana, pelo menos quando se morre.

A importância do dente, mais do que a trajetória da vida, é assunto trazido logo no primeiro parágrafo da obra: “No fim tudo o que resta são os dentes. Eles permitem identificar quem você é. O melhor conselho é que o indivíduo preserve os dentes mais que a própria dignidade, pois a dignidade não dirá quem você é, ou melhor, era. Sua profissão, dinheiro, documentos, memória, amores não servirão para nada. Quando o corpo carboniza, os dentes preservam o indivíduo, sua verdadeira história. Aqueles que não possuem dentes se tornam menos que miseráveis. Tornam-se apenas cinzas e pedaços de carvão. Nada mais”, escreve Ana Paula.

Um dos personagens principais do livro, Ernesto Wesley, entende a importância dos dentes. Como bombeiro, sabe que a lambida cruel das labaredas pode reduzir a cinzas o ser humano, que terá sorte se conseguir ser identificado por meio da arcada dentária. Preocupado com isso, “…limpa cuidadosamente todos os vãos e conclui a limpeza com um enxágüe bucal sabor menta. Seus dentes são limpos. Poucas obturações. Um molar possui uma jaqueta de ouro. Derreteu a aliança de casamento da mãe morta e revestiu o dente. Isto é para identificação, caso morra trabalhando ou em outras circunstâncias. Ter um dente de ouro é peculiar, e isto fará com que o reconheçam com maior facilidade” (página 11).

Ana Paula escolheu, brilhantemente, a citação de Gênesis 3:19 como epígrafe do livro: “Tu és pó e ao pó tornarás.” Talvez seja mesmo o pó um dos grandes temas centrais de “Carvão animal”, obra em que autora consegue interligar histórias de homens que têm em comum principalmente o fato de trabalharem em áreas pouco atraentes para a maior parte da sociedade. Mesmo sendo irmãos, não é o laço sanguíneo a maior semelhança entre Ernesto Wesley e Ronivon. É sim o pó, as cinzas e o carvão, seja mineral ou animal. O bombeiro vê o homem reduzido a carvão nos incêndios. O cremador transforma corpos mortos e vazios em carvão animal, cinzas que reduzem a vida a ponto de não ter mais origem, de não se saber se realmente aqueles restos de cinzas são do José, do João ou de um animal qualquer.

Tal qual a cor da capa do livro, cinza é o tom de toda a obra de Ana Paula. É difícil enxergar o sol em meio ao céu cinzento. Tampouco traços de brilhantismo em seus personagens, que não são nem heróis nem anti-heróis. Todos parecem viver naquele lugarejo já acostumados com a sombra, sentindo frio, temendo o inferno e sabendo que o céu não existe. Em “Carvão animal”, tudo é cinza e a vida se resume a pó, carvão e cinzas.

A morte abastece os vivos

Talvez uma das considerações mais válidas na obra da autora carioca seja a capacidade de argumentar, ainda que de maneira funesta, sobre a importância que se tem a morte transformada em carvão animal, em cinzas nos fornos crematórios. Em um dos capítulos, Ana Paula deixa um pouco de lado a narração dos movimentos de seus personagens brutos para dizer que, assim como o espaço para armazenar lixo está se findando, também fica escasso os lugares para se enterrar corpos humanos.

A autora diz que, com o passar dos anos, haverá mais corpos embaixo da terra do que em cima dela, com solo e água completamente contaminados por necrochorume (um líquido que sai dos corpos em decomposição e possui substâncias tóxicas). Em brilhante passagem na página 59, ela escreve: “A morte ainda pode gerar morte. Ela se espalha até quando não é percebida”. É esse argumento que acaba convencendo Ronivon a aceitar mais dignamente o seu trabalho nos fornos crematórios, que são, no mínimo, mais assépticos.

Finalizando o seu arsenal de justificativas para a importância da morte queimada e não da morte enterrada, a autora ainda explica que o calor gerado pelos fornos crematórios, passando por um conversor termoelétrico, transforma-se em energia elétrica que ajuda a suprir parte da energia usada tanto no crematório quanto no hospital da cidade, além de outros estabelecimentos próximos. A morte é encarada como moeda de troca para abastecer os vivos com energia elétrica. Os mortos indigentes do hospital são doados ao crematório, que gera energia elétrica para boa parte da população por meio do carvão animal.

Entrevista – “Acho que a soberania masculina se manterá”

1-Quanto tempo demorou para escrever “Carvão animal” e como faz para pesquisar a vida de homens que trabalham em resgates de acidentes e incêndios, em crematórios e em fornos de carvão?

Ana Paula Maia – Demorei seis meses com a maior parte do texto, porém eu já havia iniciado meses antes, sem avançar com a história. A pesquisa é através de artigos de jornais e vídeos de reportagens principalmente, mas a imaginação é a parte principal nisso tudo. Uso uma parte pequena da pesquisa, só mesmo a informação que terá relevância dentro da história que estou contando.

2-Agora, com o fim da “Saga dos Brutos”, imagina como serão seus novos livros, seus novos personagens?

O meu universo se manterá no próximo livro, com personagens semelhantes. Dificilmente conseguirei me desprender do que criei, ao menos não neste momento. Escritores têm fases, eles podem mudar o tema ou o modo como abordam um tema recorrente em sua obra. Ainda me interessa escrever sobre o mesmo tema: a condição do homem e seus horrores.

3-Sei que prefere escrever histórias mais pesadas, sem tanto romantismo. Quando for desenvolver personagens femininas (já que em seus últimos livros foca mais em histórias de homens), acha que estas também serão seres um tanto quanto embrutecidos pelo trabalho, pela vida?

Não faço ideia. Ainda não tenho nenhuma personagem feminina relevante. No próximo livro, acho que a soberania masculina se manterá.

Para ler

Título: Carvão animal

Editora: Record

Número de páginas: 158

Preço: R$ 29,90

Trecho do primeiro capítulo de “Carvão animal”

Luzes vermelhas e amarelas brilham no meio da auto-estrada. Dois policiais sinalizam para os carros seguirem por uma única faixa. O carro pára e eles descem. O asfalto ainda está quente, reflexo do intenso calor do dia.

A distância, Ernesto Wesley percebe o emaranhado da lataria esmagada. Dois carros e um caminhão colidiram. Fundiram-se. Trabalhará mais do que havia imaginado. Coloca um macacão especial, luvas de aço, um capacete para soldar e apanha a motosserra para libertar as vítimas das ferragens. Espera ser acionado. Outra equipe de socorro já havia chegado ao local. Ernesto Wesley só precisará derrubar as árvores. É o que costuma dizer quando separa as ferragens.

– São cinco vítimas, ou melhor, seis. Três estão presas nas ferragens, incluindo um cachorro. As outras duas já foram levadas pro hospital – diz um dos bombeiros da outra equipe.

Ernesto Wesley verifica o estado dos carros e do caminhão. O motorista do caminhão foi o único que não sofreu nenhum dano. Está de pé, próximo aos bombeiros, tentando ajudar. Este é o seu quinto acidente e de todos escapou. A placa quadrada pregada no caminhão preocupa os bombeiros. É líquido inflamável. Explosão química seguida de fogo é uma das coisas mais difíceis de se escapar. Um dos bombeiros fez a checagem e constatou que não há risco de vazamento. Ernesto Wesley liga a motosserra e já não ouve nenhum gemido, sirene ou coisa que o valha. Está imerso no anestésico impacto da serra e no barulho estridente provocado pelo atrito da lâmina contra os nós de ferro.

A única coisa que agrada Ernesto Wesley neste árduo trabalho de serrar ferragens são as fagulhas que se lançam no ar, ao léu, dançando nervosamente. Algumas delas não se espalham no ar, elas descem e tocam o chão.

Uma menina de cinco anos está presa e acordada. Seu cachorro labrador está esmagado sobre seu colo. O sangue do animal cobriu o rosto da menina e ela durante todo o tempo chama pelo cão. Será preciso serrá-lo junto com as partes do carro; o problema será o trauma para a menina. Primeiro será necessário remover a cabeça e depois os outros membros. Se não fosse o cachorro, a menina estaria morta. Ernesto Wesley não pode se comover. Ele precisa derrubar as árvores. Ainda que sinta arder o coração sempre que resgata alguma criança, não importam para os outros seus acidentes pessoais. Nesta profissão não é possível remoer as próprias tragédias. Não é permitido nenhum tipo de emoção. É sobremaneira uma atividade que enrijece o caráter e que o coloca de frente para as piores situações. Tudo se torna pequeno quando deparado com a morte. Não uma morte calma, sonolenta, mas a morte que espedaça, desfigura e transforma seres humanos em pedaços desconjuntados. Crânios esfarelados, membros esmagados e decepados. Quando alguém em estado de choque percebe que seu pé está a dois metros de distância ou que sua perna caiu no vão que separa as pistas, nunca mais se esquecerá. Podem-se perder: amor, dinheiro, respeito, dignidade, família, títulos e posição social. Isso tudo pode ser reconquistado, mas um membro decepado, nada o trará de volta a seu lugar.

Serra a cabeça do cachorro e parte do painel do carro. Sangue e resíduos de ferro se estilhaçam. A menina está em choque. Duas horas e ela resiste e sai das ferragens segurando uma pata. O mais comovente foi o resgate da menina, mas o pior seria o de seus pais.

O pai perderia algum membro, caso Ernesto não se concentrasse muito. O que dificultou ainda mais foi a chuva forte que durou cerca de quarenta minutos e encharcou seu macacão. Todos os homens parecem fatigados. Restam poucos curiosos no local.

O mais cansado de todos é Ernesto Wesley, e isto fica evidente quando a serra trepida entre as engrenagens do veículo, bambeia em sua mão e atinge a panturrilha do homem. Ele pára um pouco. Respira fundo. Olha para os lados. Está serrando faz cinco horas.

– Este homem deve ser substituído – ordena o oficial responsável pela operação.

O outro bombeiro, que foi juntamente designado para o trabalho com Ernesto Wesley, assume o controle da motosserra. Após vestir o uniforme de proteção, ele dá dois tapinhas nas costas de Ernesto Wesley.

– Agora é comigo. Vá descansar um pouco. Você está horrível, homem.

– Eu te disse que odeio serrar. Estou com muita dor de cabeça.

O bombeiro, quando tenta remover a mãe, ela já está morta. É possível verificar seus batimentos, pois a cabeça está reclinada sobre o banco traseiro, ao lado da janela aberta. Ele precisa serrar por mais uma hora. Fagulhas são lançadas vez ou outra. E, quando se tem líquido inflamável vazando sem que ninguém perceba, isto é fatal. O pior nesta profissão é que o erro de um atinge a todos os outros. Não é possível cometer erros. Mas, quando acontece, geralmente é fatal. O bombeiro que serrava foi lançado para o outro lado da pista enquanto Ernesto Wesley engolia um analgésico ao lado da ambulância. O corpo do homem em chamas cruzou alto o céu da madrugada. Ele sentiu a pele enrugar, os cabelos encarapinhar e, ao bater no asfalto, ainda vivo, escutou os ossos estalarem em choque com as chamas que inflamavam rápido até as entranhas. Tornava-se carvão animal e podia sentir o forte cheiro queimado de sua pele, músculos, nervos e ossos.

Seus dentes estavam intactos e até os legistas concordaram: eram os melhores incisivos que viram num morto.

*Resenha publicada no caderno D+, dia desses atrás, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

4 Comentários


Porta aberta*

Será a última vez que ele entrará por aquela porta, tentando, em vão, com uns tapas desarticulados, consertar o trinco defeituoso. Também será o último desejo de bom dia para a maior parte da equipe que já se encontrará na sala do trabalho. Ligará, pela última vez, o computador e, em seu último dia trabalho naquela empresa, realizará suas tarefas normalmente.

Uma noite mal dormida é como ingerir um gole de café que já esfriou na caneca. Não dá para cuspir de volta. E, na madrugada daquela sexta-feira geladíssima de um outono rigoroso, nem mesmo o cobertor grosso que se transformou em casulo foi capaz de fazer seus pensamentos se desligarem para que o sono viesse logo de uma vez. Seria também a sua última noite mal dormida na solidão de um quarto emprestado em casa de parentes. Ficaria pensando na última fechada de porta, no trinco quebrado, na equipe, no PC sendo ligado e em como é ruim tomar café gelado em copos de plástico que, de tão vagabundos, vacilam entre segurar a bebida que já foi quente ou derreter logo de uma vez. Como seriam o café e os copos de plástico de seu novo local de trabalho?

As despedidas são cruéis, anuncia um de seus colegas. Mas, para a maior parte das pessoas que estava naquela sala, há que se acreditar nos menos dolorosos “até breve” aos maledicentes “adeus”. Ele também quer acreditar em despedidas amenas, mas no fundo sabe que será muito difícil rever os agora antigos colegas de trabalho. É a vida, que teima em substituir tudo e todos. A gente troca de carro, de casa, de trabalho, de marca de cerveja e, também, de colegas de trabalho.

A gente bem que tenta, mas, salvo em raras exceções, quando as relações amistosas de pessoas que convivem tantas horas diárias no trabalho acabam virando amizade sincera, nossa vida é dividida por camadas, por fases. Tem a fase ou camada da época da faculdade, do colégio, das férias e a época em que a infância o aproximava mais até mesmo dos próprios parentes. Depois disso, começam as fases de trabalho. O primeiro emprego, o segundo, o terceiro, enfim. Em cada lugar desses que passamos, em cada camada de nossas vidas, pessoas queridas são deixadas no meio do caminho.

Ao ver aquela pessoa, que tanto te ajudou com seus afazeres diários no serviço, meio que cabisbaixo, deixando o café esfriar e talvez pensando que nunca mais entrará por aquela porta quebrada da sala, resta aos colegas de trabalho desejarem uma nova fase, uma nova camada de vida e prometer, em breve, marcar aquele churrasco, aquele almoço, aquele happy hour. Mas ele desconfia um pouco do que sempre se tenta marcar para breve, que parece demorar tanto a acontecer. Desconfia também das coisas marcadas: quando é para acontecer, acontece e pronto.

Preferindo ligeiros mas sinceros abraços dos mais próximos e não uma despedida espalhafatosa, naquele dia, como tantos outros, ele foi o último a deixar aquela sala. Desligou o computador pela última vez, recolheu um ou outro pertence e, antes de apagar as luzes, olhou bem para aquele lugar. Já no escuro, preferiu nem mexer no trinco quebrado. Sabia que estava indo, mas, assim como seus pais o ensinaram, deixava para trás a porta aberta de mais um lugar por onde passou.

*Crônica publicada dia 14 de junho na coluna Crônico, no caderno D+ do jornal O Diário do Norte do Paraná.

4 Comentários


A saga do coração*

E de repente o órgão ditador dos batimentos da vida virou uma pedra de concreto das mais duras. Mas, com uma voadora bem dada com os dois pés, algo (ou alguém?) tinha feito aquela pedra quebrar em mil pedaços.

E só o tempo foi capaz de juntar aqueles pedaços de vida mal curados. Só o tempo cura.

Com o coração remediado, com os mil pedaços colados, ele caminha pela rua, em mais uma manhã fria e cheia de claridade de um sábado outonal. Pode estar indo comprar pão ou pode simplesmente estar indo.

O destino em si não importa. O que importa é o caminho.

Caminhando, o homem feliz com seu coração colado chega a um parque verde. Sente que respirar ali por perto é algo muito prazeroso e simples de se praticar. É quando ele se recorda que está vivo.

As descobertas vitais do seu corpo o estimulam a correr. Ele precisava correr e não apenas mais caminhar. Não era fuga, e sim o caminho a seguir.

Só parava de correr quando sentia sede.

E seguiu correndo por muito tempo. E seu tênis de marca furou de tanto correr. E a meia rasgou com a quentura do asfalto. E seus pés ficaram esfolados, machucados, sangrando e, logo depois, calejados, duros feitos cascos de cavalo. E ele só precisava correr, comer um pouco e beber bastante água. E ele, quem sabe, poderia até mesmo ser um cavalo solto na pastagem. Era o seu caminho e ele precisava seguir.

Passaram-se alguns dias, talvez anos, nunca se sabe. Até que ele concluiu que, depois de permanecer por debaixo de muito sol, tempestades, estrelas, luas e até chuvas de granizo, tinha finalmente chegado ao ponto final.

Era a hora de parar. Tinha certeza de que finalmente todas as chagas do passado estavam curadas. Tinha plena convicção de que o seu coração havia se recomposto.

Mil corações, seus pedaços, haviam se transformado em um grande coração, novamente. E não mais de pedra e sim de carne, de alma, de vida. E este era o problema. Se era vital e não de concreto, o coração estava novamente exposto às desventuras dos sentimentos e poderia, a qualquer momento, voltar a ser um bife torrando na frigideira.

Ele não devia jamais ter parado de correr. Ele não queria ver o seu coração fritado de novo.

Quando acreditou ter encontrado o ponto de chegada, eis que a viu pela primeira vez. Aquela beleza, um anjo na figura de mulher, destruiu o seu chão. As pernas tremeram e ele só se lembra de que era setembro e que, naquela noite, nem os ventos frios baixavam a febre do seu peito, em meio ao gosto de uva daqueles lábios.

Beijou a mulher, deixou-a ir e, logo em seguida, rasgou o peito com uma faquinha de serra (a mesma usada para cortar o bife da frigideira) e jogou aquele coração fervente na lixeira mais próxima.

Depois disso, tentou voltar a correr para frente, queria ser cavalo solto de novo nos prados bucólicos, mas o único caminho que conseguia seguir era em direção àquela mulher, que, desde então, passaria a vida inteira tirando pedacinhos do seu próprio coração na tentativa de reconstruir o dele.

Naquela noite de ventania de setembro, a saga do seu coração original se encerrou ao apodrecer em meio a latinhas de refrigerante, papéis de bala e restos de comida no lixo. Mas o seu novo coração, ainda que em permanente construção e dependente dos pedaços dela, é incrivelmente mais revigorado e saudável.

*Conto publicado hoje, dia 7 de junho, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

1 Comentário


Macacos do Parque do Ingá gostam de chips?

Ontem foi um dia feliz para muitas famílias, que puderam voltar a entrar e visitar o Parque do Ingá. Os macacos do parque também devem ter tirado a barriga da miséria e, por isso mesmo, comemorado a volta da população até o parque.

Muito já se falou sobre a prática equivocada de alimentar os animais com alimentos industrializados e que não fazem bem nem mesmo ao ser humano. Se hoje estão com diarreia eu não sei. Só sei que, pelo menos ontem, o prato principal da macacada foi chips! Será que gostam mais de Ruffles ou de Fandangos?

Veja abaixo foto enviada pela leitora Juliana, que flagrou famílias alimentando com ‘salgadinho’ os macacos. “Ontem eu fui ao Parque do Ingá, foi um passeio bem legal, o Gui adorou, mas fiquei indignada com a falta de consciência das pessoas ao darem salgadinhos aos macacos. Muitas pessoas estavam fazendo isso, outras diziam `esqueci de trazer chips`. Aff, não acreditava…”, desabafa ela.

 

Os macacos do Parque do Ingá preferem Ruffles ou Fandangos?

1 Comentário