Mês: outubro 2011

 

Fernando Pessoa no lar da feliz idade

“o lar da feliz idade, assim se chama o matadouro para onde fui metido. que irónico nome e só então me ocupava o pensamento. o esteves sem metafísica ali contente de sentimento tão genuíno e o senhor pereira tão parecido a um amigo e eu a julgar que ia ter um ataque de qualquer coisa, porque aquela novidade era demasiada. era uma novidade que, sobretudo no meu estado para morto, continha uma energia de vida radical e inesperada. caramba, com oitenta e quatro anos um homem ainda pode ficar deslumbrado e todo incrédulo, como se viesse para criança pasmar diante de um gelado. e eu pedi apenas mais uma vez, não me engane, homem, diga-me a verdade, conheceu o fernando pessoa. e ele respondeu, é como lhe digo, senhor silva, conheci, era eu um moço novo longe até de saber que aquele seria o nosso grande poeta. a vida tem dessas coisas, quando não esperamos mete-nos numa grande história. bem, ou num grande poema, que também acaba por contar uma história, ou não é. acenei afirmativamente, pus-me para trás de novo, as fogueiritas espalhadas pelo meu corpo e eu estupefacto já não ouvia o senhor pereira, que, glorioso, troçava de mim por só ao fim de vinte e três dias de feliz idade ter percebido que partilhávamos o lar com um mito da poesia portuguesa.” – Valter Hugo Mãe, página 51-52 do livro a Máquina de Fazer Espanhóis (Cosac Naify, 254 páginas).

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