Mês: novembro 2011



Domingo. Ela. Eu

Ela não entende porque eu preciso comemorar o gol que os outros times da capital levam. Eu não entendo como ela não gosta de torcer contra o Corinthians. Ela não entende porque eu sempre quero mais uma latinha. Eu não entendo como ela consegue beber leite de soja. Ela entende nada sobre eu estar cansado mesmo sem ter feito nada. E eu desconheço o entendimento para tanta força dessa mulher. Meus beliscões e “carinhos” fortes são vistos como estranhos. Acho estranho da parte dela também ficar me chamando carinhosamente com vozinha de criança. O prazer de relar em sua pele a garrafa gelada de água é desprazer imenso pra ela. Não consigo controlar a raiva quando ela puxa minha unha pra cima. Na TV, ela não quer ouvir e nem ver nada sobre futebol. Então eu quero zapear só em jogos e comentários esportivos. Eu não quero ver sangue, heróis que sabem tudo vestidos de branco e outros heróis que sabem tudo também só que vestidos de preto. Então ela quer seriados médicos e de investigação. Ela quer sair, dar uma volta, espairecer a cabeça. Só que eu não quero passear no shopping, uma das únicas opções naquele momento. Ela quer Banzé Lanches porque não é gorduroso e a salsicha é de primeira. Então eu quero Bolotas Lanches, com gordura pingando e refrigerante grátis. Ela quer dormir…e eu quero mais. Eu não quero dormir, mas ronco demais – pelo menos é o que ela diz. Eu prefiro móveis conservados e menos pelos brancos em minhas roupas pretas, e ela quer companhia felina, carinho e risadas só de olhar pro gato que parece porcelana chinesa quando está com sono. Eu quero camisa velha do Juventus de Turim pra sair em uma noite fresca de domingo pelas ruas calmas e com chão molhado, após mais uma chuva de Primavera, de Maringá. Ela simplesmente não deixa eu me vestir do jeito que quero, e sugere-impõe a camiseta nova estampada. Quero luz, visão da janela e emoção regada a nuvens, estrelas, sol, quase um mar. Ela quer persiana fechada, escuro, edredon e que eu ainda busque seu travesseiro no quarto. Ela quer jogar fora o resto da pizza. Eu quero ver se cabe mais um pedaço de pizza em meu estômago, mesmo com as formigas e com a eminente diarreia. Ela só pode com os de picolés de fruta, uva, morango, acerola, essa intolerância à lactose acaba com ela. E eu me acabo nos de leite, milho verde, mamão papaia, creme, leite condensado, coco. Ela quer ler os encartes promocionais da Pernambucanas. Eu quero que ela leia agora a matéria que escrevi, mas não digo nada pra não parecer um desesperado por sua leitura. De novo na TV, ela quer o Pânico pra simplesmente dar risada do Jô Suado, do Melhor do Melhor do Mundo e do japonesinho que imita a Sabrina Sato. Eu finjo querer café filosófico e concerto no Theatro Municipal de São Paulo, mas também dou risada demais e deixo no programa tosco e suave. Ela não quer que acabe logo o domingo porque no outro dia é segunda-feira e tem que trabalhar. Eu também não. E vamos dormir concordando com pelo menos alguma coisa. (crônica publicada dia 6 de novembro no jornal O Diário do Norte do Paraná; também está em A Poltrona).

4 Comentários


a exclusão é necessária

a exclusão é necessária

nesse mundo cheio de gente, animais, plantas e bichinhos virtuais

a exclusão é necessária

via de regra, excluídos ficamos, a gente

é que…

somos não de plástico

sem perfumes trazidos do paraguai, somos lá não muito cheirosos

e nem podemos ser chamados de filhinhos,

assim como cães e gatos…

http://migre.me/62mGA

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