Mês: março 2012



Vivemos na era do Datena

 É melhor ter um gato do que ter macacos em casa. Acordei aliviado de sonhos intranquilos e mais calmo fiquei quando percebi que estava de volta à vida real – com um gato miando no quarto pela manhã e não com macaquinhos ligeiros rodeando meu pescoço. Foi ruim a sensação de traição: o dono sendo atacado pelo bicho de estimação. No sonho o macaco, de um salto (quanta habilidade!), vai do chão direto para a minha cara e morde meu nariz. Doeu pra caramba, pelo menos em sonho. Se alguém quer uma dica para a jogatina ilegal diária: é macaco na cabeça!

Tenho visto muitos ataques sanguinolentos, e talvez isso tenha me impressionado. O vídeo em que mostra um pitbull quase arrancando o braço inteiro do dono, em uma batalha utópica entre o senhor e o cão em um chão de quintal que mais parece uma piscina de sangue, é forte. Vivemos na era do Datena: “ibagens, ibagens, me dá ibagens”. Todos querem fazer uma imagem, uma foto, um vídeo, ser o cidadão-repórter.

Lá no jornal recebemos diariamente informações importantes e que rendem reportagens vindas de pessoas que, com uma boa vontade inexplicável, perdem alguns minutos do seu dia para dedurar um cara que deixou animais soltos na pista ou então pedindo email para mandar as fotos que ele, bravamente, conseguiu capturar de um acidente de trânsito. E tudo isso é muito bacana.

O que me revolta, nessa história toda envolvendo sangue, cachorros, macacos e “ibagens” é a falta de ética do marceneiro, ou seja a boa e velha ética que todos deveríamos ter. Gostaria de saber se o autor do vídeo sanguinário mostrando o pitbull (com sede de vingança ou seguindo um instinto animal?) moendo o velho dono recebeu um realzinho sequer pelas inéditas e sensacionais imagens produzidas. Isso me fez lembrar a história do fotógrafo chinês que, para conseguir uma foto de um ciclista se acidentando, deixa camuflada uma cratera que há na pista e se posiciona para não perder o instante ideal do clique flagrante.

Por ter entrevistado a mulher do senhor que quase perdeu o braço com o ataque do cão e também uma vizinha, que aparece no vídeo desesperada tentando fazer alguma coisa, posso confirmar aos leitores que o autor do vídeo ganhou, pelo menos, a antipatia de muita gente, inclusive a minha. Segundo relato dos envolvidos, o cara simplesmente ignorou todos os pedidos, todas as súplicas, todas as clemências, para que fizesse algo de produtivo e que pudesse quem sabe coibir o ataque voraz daquele cão.

Ao contrário, o sujeito, que inclusive mereceria um emprego no Datena (as “ibagens” dele nem tremem em meio àquele desespero todo), faz questão de permanecer ali para não perder um detalhe sequer daquele “fato”. Obviamente que ninguém estava pedindo para ele dar uma de Super-Homem e ter se achegado no ringue empoçado de sangue para iniciar uma “vias de fato” com o dog. Era só ter tentado ajudar, sei lá como: correndo atrás de uma faca, ligando no 190, fazendo uma oração ou pelo menos chamando o cachorro “vem, vem, vem, vem, cãozinho, vem, vem, vem”. Nem isso. Macacos me mordam viu!

*Crônica publicada dia desses no D+ – caderno de cultura do Diário de Maringá.

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