Mês: abril 2012



Lamentações dos dois irmãos no dia de Páscoa

Conversavam como velhos amigos embora fossem irmãos, tão velhos como as feridas de suas pernas, que não os deixam em paz. Coçam, chamam a atenção e pedem até mesmo para que eles às vezes manquem. O sentido da Páscoa não foi tema recorrente, pareciam que viviam naquelas poucas horas de uma tarde abafada de domingo entre o céu e a terra, quase que crucificados pelo tédio da vida. E pelas coceiras das pernas.

Ninguém se lembrou de Jesus Cristo em um raio de 500 quilômetros da onde os dois estavam. Mas, de repente, talvez pela força da mídia, talvez pela embriaguez de tanto chocolate derretido e Kaiser quente, os que se foram, e não ressuscitaram como Ele, invadiram o pensamento dos dois.

E aquilo tudo era uma injustiça das mais sujas possíveis: dois velhos com feridas nas pernas sozinhos porque os queridos já se foram e eles simplesmente não tinham coragem de apontar uma arma para a testa. Nem arma e nem força nos dedos tinham para puxar o gatilho também.

Ao final da tarde, quando finalmente uma chuva de se criar fungos nos pés refrescou um pouco aquele fim de tarde de um domingo deprimente de Páscoa, o telefone verde, antigo e pouco usado da sala tocou: eram notícias ruins de São Paulo. Mas isso eles já sabiam quando ouviram o som produzido pelo maldito telefone, que só tocava quando do outro da linha alguém com a voz baixa e encabulada iria anunciar mais uma morte anunciada.

Paulo morreu exatamente ao meio-dia daquele domingo de Páscoa, talvez no exato momento em que um dos seus irmãos velhos coçava algumas das feridas nas pernas debaixo de um teto de amianto quente e nada convidativo. E mais uma vez um ente querido iria embora do mundo e não ressuscitaria.

Graças a Deus, o sono veio rápido  e os velhos morreram algumas horas também, só que ainda podendo sonhar ou ter pesadelos. O início da manhã daquela segunda-feira só não foi mais triste e totalmente pesado porque os irmãos pelo menos ainda tinham um ao outro. E a vida continuava: um coava o café e o outro dava ração para o vira-lata. Mas precisavam ser rápidos: o ônibus para São Paulo sairia às 10h da rodoviária daquele lugarejo onde, em milhares de anos, os dois tinham a certeza de que poucos deixariam de pensar no feriado e no chocolate no dia de Páscoa e que nenhum dos seus entes queridos poderia renascer depois da morte.

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Primeiras porradas

Um teste apenas. Paciência. Um dia tudo voltará ao normal (algum dia foi?), pensa Horácio. A vida é um teste? Então por que parece nunca estar pronto para o grande dia, o dia da apresentação, do espetáculo, da peça infantil que seu pai esqueceu de estar presente, do jogo da final que seu time nunca chegou, da hora do mergulho na piscina grande do Ibirapuera que você adiou para sempre, da hora H, do dia D, do dia do fico, do dia do bota-fora, da despedida, do beijo, do soco, do grito, do silêncio?

Silenciado, paciente e nunca pronto para o que der e vier, de nada adianta, Horácio, rodear o quarteirão um milhão de vezes para ver se a coragem chega. Nem de avião, muito menos de bicicleta Monark, a coragem chega aos perdedores.

A maneira mais confortável de ser um derrotado quase conformado com tudo, considera ele, é criticando aqueles que venceram, aqueles que ganharam o primeiro milhão, que aprenderam muito com os livros de autoajuda, que descobriram “O Segredo”, que pularam cedo da cama e, com os colhões que Deus lhe deu, resolveram conquistar o mundo, ainda que com um ou outro ansiolítico agindo bem pela corrente sanguínea.

Para abrir uma padaria é preciso coragem. Para abrir caminho no meio da mata fechada é preciso coragem. Pouca ou nenhuma coragem é necessária para se ficar deitado na cama de olhos abertos esperando a vida passar, e infelizmente fazendo o que é preciso fazer. Lembre-se bem, cara!

Mas não tem outro jeito, algumas regras são impostas, o que ele lamenta: escovar os dentes, tomar banho, comer, beber água e trabalhar. Mas o pior de tudo é a obrigação de ter de conviver, de ter de conversar com pessoas que considera cretinas, ou até mesmo com pessoas que ama, mas que simplesmente já não conseguem fazê-lo feliz.

Pensando bem, pondera, os derrotados também têm um pouco de coragem, caso contrário nunca mais veriam a luz do sol.

Talvez fosse melhor ter sido uma pessoa pior, pode pensar Horácio. Durante todos esses anos, ter partido pra briga, ter dado porrada, ter tido coragem (será que escolhemos isso?), faria dele um vencedor. Mas nunca é tarde para tentar – poderá dizer principalmente quem aprendeu isso sentado nos bancos de uma igreja, assistindo uma comédia romântica, vendo palestras que nunca dizem nada ou lendo um livro estúpido. Mas é verdade mesmo: talvez tenha mesmo chegado a hora de dar porrada, homem!

Apreciando cada dia mais o poder de um som pesado e sentindo cada vez mais o pulsar das veias em sintonia com o ar puxado propositalmente com força para dentro dos pulmões, as primeiras porradas bem dadas na vida de Horácio, um quase ex-derrotado, foi consertar a postura e nunca mais andar de cabeça baixa, a não ser dentro dos shoppings da pequena cidade para não correr o risco de ter de cumprimentar os sempre chatos que um dia teve o prazer de conhecer muito superficialmente mas o suficiente para decretar que são desprezivelmente vencedores.

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