Mês: maio 2012



Apartamento na planta

Esses finais de tarde ficam, dia pós dia, mais cinzas. Aquele “pseudo-frio”que já pede uma blusa de lã. O escurecimento instantâneo que transforma a tarde em noite num piscar de olhos. Cinza, cinza escuro, negro. Negritude já da noite em plena 18h30. Nada de shortinho, saia, bermuda. Nada de perna bonita da moça que passa no Parque do Ingá. Agora é calça sobre calça, blusa sobre blusa.

É quando os homens largam as ferramentas e almejam somente um banho para finalmente se encontrarem com a última refeição, o último arroz com feijão do dia, ou com um pão francês que, graças a Deus, nunca tem faltado na mesa de casa, talvez acompanhado de uma taça de vinho, ou mais claramente falando: de uma dose de pinga, de uma lata de cerveja.

É fim de expediente. Hora de pegar o busão de volta pra casa. De pedalar na magrela. De vestir um capacete e acelerar a moto. Ou então pegar o 1.0 financiado em 60 vezes e, com todo conforto que se tem direito, dirigir pelas ruas, ouvindo as músicas que preencheram seu pendrive e que agora são executadas pelo moderno toca-fitas dos tempos de agora.

Foi em um desses finzinhos de tarde que eu o vi: o construtor. Ele, preferindo o meio de transporte mais antigo do mundo: o pé dois. Do boné vermelho encaixado na cabeça às botas impermeáveis, uma visível camada de pó de cimento fazia parte do figurino. Blusa não combina com aqueles que fazem da força e dos serviços braçais um jeito de vencer na vida. Dê algumas marteladas seguidas num prego, vestindo blusa, e entenderá o que eu digo sobre a necessidade de não se ter blusa por cima dos braços. Mas era fim de tarde, fim do dia, fim da vida. Era hora de voltar. De sair do trabalho. De parar com as marteladas, com as porradas. Então uma camiseta verde e surrada de manga comprida por debaixo da camiseta simples de algodão, cinza e vermelha, com a logomarca da construtora estampada no peito, basta para o construtor espantar alguma fatia do frio de mais um final de tarde.

O construtor vai embora da obra. E antes que o céu escureça de vez, olha pra trás. Uma ponta de sorriso mostra as perdas dentárias e a passagem dos anos. Ele olha pra trás e já consegue enxergar uma parte do prédio ainda descascado, ainda cru, sem acabamento. Com o fim das primeiras e mais longas fases da obra, com fundação e outras estruturas menos visíveis, agora o construtor pode ver, quase que semanalmente, um novo andar, uma nova altura, o crescimento do seu filho.

O construtor olha pra trás e sente que está fazendo um bom trabalho. Despede-se do amigo de obra. Um vai pro bar. Comemorar mais um andar levantado? O construtor vai pra casa. Está torcendo para que ela, a sua mulher, tenha feito aquela sopa de legumes que tanto gosta. Com esse friozinho que faz, é quase lei tomar aquela sopa. Com o pão quentinho que vai pegar na padaria, tudo ficará em paz, tudo ficará bem para que o outro dia seja realmente um outro digno dia.

O construtor dorme e não sonha com seu filho, o seu prédio. Mas eu sonho. Um dia vou adotar aquele filho. Um dia, caro pai da obra, caro construtor, você se despedirá da obra, achando tudo muito bonito, tudo muito bem feito, e partirá para outros prédios, outras obras, outros filhos. E deixará aquele prontinho para gente morar. Em um finzinho de tarde frio, que obriga pelo menos àqueles que não dão martelada no prego a vestir uma blusa, eu vi o pai, vi o construtor olhando pra trás e sorrindo por ver o filho saudável crescendo. Naquele dia também sorri, sonhei com o filho, sonhei com o meu futuro lar. Coisas de gente que compra apartamento ainda na planta.

5 Comentários


Aprender a aprender com da Vinci e Nailor

O professor de literatura Nailor Marques Jr., conhecido por grande parte dos maringaenses e agora ainda mais requisitado após brilhante entrevista concedida ao Jô Soares recentemente, continua sendo porreta.

Ontem, lotou uma sala daquelas gigantescas de cursinho, lá no Colégio Nobel. Assunto: “Aprender a Aprender com Leonardo da Vinci”. A moçada que tenta vestibular se fez maioria. E deve ter mesmo aprendido a aprender com os aprendizados do gênio da Vinci e com o perspicaz Nailor.

O que me chama a atenção nos textos sempre muito bem falados por Nailor é a sua capacidade de convencimento, utilizando-se de um humor válido e, acima de tudo, de muito conhecimento. O professor parece ter nascido com o dom da oratória, consegue passar a mensagem. Mas, como todos sabem, de nada adianta o meio ou a forma se não há conteúdo. Nailor tem. E, como um experiente cronista, tece sua fala misturando conteúdo, humor e cotidiano. Até o chato do Jô não conseguiu interrompê-lo em meio às coisas legais que parece sempre ter a dizer.

Quem, há mais de décadas, acompanha as palestras do professor (e conheço muita gente que até já decorou as falas dele), declara-se sempre muito agradecido pelos ensinamentos obtidos. Eu, que fui pela primeira vez em sua palestra e pude trocar emails e perguntas em entrevistas para o jornal, hoje posso dizer também que é muito válido assistir sua performance ou trocar ideias com ele.

Nailor joga no meu time e de muitos leitores daqui. Bate palmas para o conhecimento, declara-se apaixonado pelos estudos, pelo conhecimento, e nem por isso se diz um nerd. O “jeitinho brasileiro”, o “deixa a vida me levar”, o “que pensa que é bonito ser feio” são abominados pelo professor.

Chega mesmo a parecer algo arrogante quando ele defende aqueles que buscam sempre o aperfeiçoamento, o constante aprendizado, a constante busca pelo melhor, e isso sem se tornar um ‘chatonildo’ viciado em pensamento positivo, em livro de autoajuda. Mas não é arrogância não. É afirmação. É uma voz solitária, mas que vem sendo cada vez mais ouvida por essas bandas, que afirma o quanto é bacana ler, estudar, saber e se tornar melhor dentro de casa, dentro do trabalho, em qualquer lugar.

Comente aqui


Sobre leitura, imprensa e outras questões de Borges

“Ele me disse:

– Agora você vai ver uma coisa que nunca viu.

Estendeu-me com cuidado um exemplar da Utopia de More, impresso na Basileia em 1518, no qual faltavam folhas e lâminas.

Não sem fatuidade repliquei:

– É um livro impresso. Em casa haverá mais de dois mil, embora não tão antigos nem tão preciosos.

Li em voz alta o título.

O outro riu.

Ninguém consegue ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não terei passado de meia dúzia. Além disso, não é importante ler, mas reler. A imprensa, agora abolida, foi um dos piores males do homem, já que tendeu a multiplicar até a vertigem textos desnecessários.

-No meu curioso ontem – respondi -, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã acontecem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém conhecia a história prévia daqueles entes platônicos, mas, sim, os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão que era própria do gênero.

Tudo isso era lido para o esquecimento, porque em poucas horas era apagado por outras trivialidades”….

…”As imagens e a letra impressa eram mais reais que as coisas. Somente o publicado era verdadeiro. Esse este percipi (ser é ser percebido) era o princípio, o meio e o fim de nosso singular conceito do mundo. No ontem que me tocou, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia o seu próprio fabricante. Também eram frequentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse de dinheiro não dá maior felicidade nem maior tranquilidade”.

*Trechos do conto “Utopia de um homem que está cansado”, extraído do “Livro de Areia” (Coleção Folha, página 72), de Jorge Luis Borges. Não dá nem para comentar a lucidez dessas palavras de Borges. O próprio, no epílogo do livro, escreveu: “‘Utopia de um homem que está canasado’ é, a meu ver, a peça mais honesta e melancólica da série”. Um dos melhores contos que já li. Recomendo!

Comente aqui


Caminho para lugar nenhum da dor

O homem não é nada quando enfermo. Não pisa firme. Infirmu. Em latim ou em português, a dor é sempre cruel. Não tem afirmação nenhuma. Não consegue ser ele mesmo. E nem se reconhece em frente ao espelho. O homem com dor, seja a dor física ou psíquica, perde seus poderes e não serve nem para anti-herói. A dor dói doída. Redundâncias poderiam explicar a dor?

Enganam-se aqueles que pensam que apenas os recém-nascidos não conseguem explicar a dor porque ainda não pronunciam palavra. Afinal, que palavra há para explicar uma dor? Pode-se engolir um dicionário e ainda assim o homem nunca saberá explicar a dor. Pode até dizer onde é a região do sofrimento, onde é que arde, comprime, espreme, queima, fode. A dor fode com a gente. Mas não se pode traduzir em palavra a quantidade do sofrimento que aquela dor está impondo ao reles ser humano, que neste momento não passa de uma criança, de um indefeso, de um vegetal, de um mórbido, de um rato que está prestes a morrer no laboratório.

É nos momentos das dores que as igrejas começam a lotar e que os livros de autoajuda são rapidamente esvaziados das livrarias. E não tiro a razão do homem que, no auge da dor, no auge da insanidade causada pelo sofrimento, pensou que o que lhe restava eram as orações, as mandingas, as preces, as leituras aceleradas e fugazes. Eu mesmo, neste momento, em meio a tantas dores, aprendi a pedir para as questões metafísicas melhoras, alívios imediatos, pelo menos uma trégua com o monstro da dor.

A dor é um monstro implacável, sanguinário e que se alimenta das entranhas do homem. Come as paredes do estômago, os neurônios do cérebro e a metragem da carne sob a pele. Rasga pelos, tecidos e até armaduras de ouro. A dor não respeita ninguém, nem mesmo idade. É democrática a dor: vem para o negro, branco, índio e até para o milionário. Quando chega, a dor tira a paz e promove uma estrada de mão dupla com caminhos sempre negativos: o caminho do ódio ou o caminho da autolamentação. Mesmo optando por qualquer um dos caminhos, ou de repente encontrando atalhos em analgésicos com prazos curtos de eficácia, quem está no caminho da dor nunca chega a lugar algum.

Na dor, tudo é derrota e não adianta chorar, suplicar ou chutar, raivoso, o pé da cama. Resta apenas esperar e tentar não se deixar entregar pela vertigem e até mesmo pela alucinação que só as dores podem causar.

Talvez haja, na dor, um único benefício para o homem fraco: a capacidade de, no próximo dia, no próximo alvorecer, no próximo amanhecer, no próximo mês ou na próxima vida saber valorizar o momento em que a dor resolver passar. É nesse instante mágico que, após a recomposição de todas as forças sugadas pela malfadada dor, o homem finalmente acorda revigorado e pronto para encarar a vida enxergando flores nascendo até em meio ao asfalto, sentindo melhor o gosto do mel e do leite na boca e caminhando com passadas mais firmes, porém tranquilas, para o caminho rotineiro e certeiro, sabendo que, se contar com um pouco mais de sorte nesta vida para não ser acometido pelas enfermidades, pelas dores cretinas, nada poderá impedi-lo de encontrar, se não a felicidade, pelo menos momentos felizes e muita serenidade ao lado das pessoas que o amam reciprocamente.

9 Comentários


O inesquecível Detran

O Detran e seus serviços conseguem ser inesquecíveis na vida de um ser humano, pelo menos o humano brasileiro. Maringá, cidade que aniversaria, não merece o Detran que tem. Ninguém merece, afinal de contas.

Quer sentir a impotência diante da burocracia burra? É la no Detran. Sabem do que estou falando quem precisou renovar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou resolver algum perrengue com o órgão que trata das coisas do trânsito – esse ingrato.

Como eu, muitos esperam até o última migalha do tempo hábil para renovar a carteira. Para tal, não basta apenas chegar a data de vencimento do documento mas sim esperar os 30 dias restantes da prorrogação. É no último dia que se costuma renovar a bendita. Por ser o último, é agora ou nunca, é viver ou morrer. E não adianta olhar para a fila, desanimar e ‘deixe estar’. Já era o tempo, amigo. É você e o leão dentro da jaula 2 x 2m.

É quando o cidadão que precisa de permissão para sair pilotando motos ou dirigir carros 1.0 comprados em 60x respira fundo e pede pra mocinha bonita uma senha. 47. Só pode ser brincadeira! Cheguei às 9h. Como, em menos de uma hora, 47 pessoas já conseguiram pegar uma senha antes de mim? Só pode ser aleatório. Sendo ou não, só Borges mesmo para consolar na leitura que acalenta um pouco a ansiedade da espera sentado em uma cadeirinha desconfortável do Detran.

Poderia descer parágrafos adoidados só falando de fila hoje. É que isso nem os amigos costumam acreditar. Só vendo pra crer, pode dizer alguns. Mas, pasmem: são umas quatro, cinco filas antes de o processo para a renovação da CNH ser finalizado. É a fila para dizer que você quer renovar, a fila para pagar a taxa que ultrapassa R$ 100, a fila para tirar a foto e passar as digitais num treco que marca as digitais, fila para marcar um horário com uma clínica especializada que fará exame de vista e finalmente fila para fazer o exame de vista. Um dia pode ser pouco para tal. Tem gente que deixa para renovar carteira nas férias. Não tive esse luxo. Precisei chegar atrasado no trabalho. E sair mais cedo também, naquele dia.

Bom: pelo menos a foto até que ficou decente. E desta vez o médico oftalmologista (dizem que em algumas cidades um ortopedista é quem faz o exame) do Detran não me considerou um sujeito de visão monocular. Quem é que enxerga naquela parafernalha velha, suja e enferrujada do Detran que dizem medir sua capacidade de visão? Enfim. Agora já não é mais no Detran que se faz o teste da visão. São em clínicas autorizadas. Para mim, amigo do amigo do amigo que resolve abrir uma pseudo-clínica só para também mamar na teta do Detran. No fim, farinha do mesmo saco: horrível prestação de serviço.

A noite caía e a fila aumentava naquela pseudo-clínica autorizada que fica na zona 02 de Maringá. A atendente, que demonstrava não ter noções básicas de informática, debatia-se com o programa do Detran na tela. O dr. precisou parar de ‘doutorar’ para ver se conseguia ‘operar’ a máquina do PC. Que nada. Apelou-se para a canetada. Próximo: sou eu! Ufa! Finalmente a novela do Detran acabou. Vou enxergar as letrinhas no maquinário e garantir cinco anos de direção segura e defensiva. Lorota. Dia errado. O Detran é mesmo inesquecível.

O dotô disse para mim que preciso ir ao médico e que não enxergo nada. Foi quando fiquei bravo. O Detran não vai me passar para trás de novo, pensei, cheio de razão. Assim como o valente que tira para fora da bainha a faca, tirei violentamente do meu bolso uma carta-recomendação do meu dr. oficial, o grande e honesto oftalmologista Valdir Ishida, confirmando que o paciente “W…” tinha se consultado recentemente e atualizado o grau dos óculos. Esperto que só, o dr. autorizado do Detran imediatamente fez alguma mágica no maquinário e, de uma hora para outra, o cara aqui passa a enxergar as letrinhas no maquinário maldito. “Você que não encostou o rosto direito, patrão. Se cuida hein. Em uma semana sua carteira chega no endereço”, disse o sem-vergonha. Corri dali. Agora, Detran e eu só daqui cinco anos.

4 Comentários