Caminho para lugar nenhum da dor

O homem não é nada quando enfermo. Não pisa firme. Infirmu. Em latim ou em português, a dor é sempre cruel. Não tem afirmação nenhuma. Não consegue ser ele mesmo. E nem se reconhece em frente ao espelho. O homem com dor, seja a dor física ou psíquica, perde seus poderes e não serve nem para anti-herói. A dor dói doída. Redundâncias poderiam explicar a dor?

Enganam-se aqueles que pensam que apenas os recém-nascidos não conseguem explicar a dor porque ainda não pronunciam palavra. Afinal, que palavra há para explicar uma dor? Pode-se engolir um dicionário e ainda assim o homem nunca saberá explicar a dor. Pode até dizer onde é a região do sofrimento, onde é que arde, comprime, espreme, queima, fode. A dor fode com a gente. Mas não se pode traduzir em palavra a quantidade do sofrimento que aquela dor está impondo ao reles ser humano, que neste momento não passa de uma criança, de um indefeso, de um vegetal, de um mórbido, de um rato que está prestes a morrer no laboratório.

É nos momentos das dores que as igrejas começam a lotar e que os livros de autoajuda são rapidamente esvaziados das livrarias. E não tiro a razão do homem que, no auge da dor, no auge da insanidade causada pelo sofrimento, pensou que o que lhe restava eram as orações, as mandingas, as preces, as leituras aceleradas e fugazes. Eu mesmo, neste momento, em meio a tantas dores, aprendi a pedir para as questões metafísicas melhoras, alívios imediatos, pelo menos uma trégua com o monstro da dor.

A dor é um monstro implacável, sanguinário e que se alimenta das entranhas do homem. Come as paredes do estômago, os neurônios do cérebro e a metragem da carne sob a pele. Rasga pelos, tecidos e até armaduras de ouro. A dor não respeita ninguém, nem mesmo idade. É democrática a dor: vem para o negro, branco, índio e até para o milionário. Quando chega, a dor tira a paz e promove uma estrada de mão dupla com caminhos sempre negativos: o caminho do ódio ou o caminho da autolamentação. Mesmo optando por qualquer um dos caminhos, ou de repente encontrando atalhos em analgésicos com prazos curtos de eficácia, quem está no caminho da dor nunca chega a lugar algum.

Na dor, tudo é derrota e não adianta chorar, suplicar ou chutar, raivoso, o pé da cama. Resta apenas esperar e tentar não se deixar entregar pela vertigem e até mesmo pela alucinação que só as dores podem causar.

Talvez haja, na dor, um único benefício para o homem fraco: a capacidade de, no próximo dia, no próximo alvorecer, no próximo amanhecer, no próximo mês ou na próxima vida saber valorizar o momento em que a dor resolver passar. É nesse instante mágico que, após a recomposição de todas as forças sugadas pela malfadada dor, o homem finalmente acorda revigorado e pronto para encarar a vida enxergando flores nascendo até em meio ao asfalto, sentindo melhor o gosto do mel e do leite na boca e caminhando com passadas mais firmes, porém tranquilas, para o caminho rotineiro e certeiro, sabendo que, se contar com um pouco mais de sorte nesta vida para não ser acometido pelas enfermidades, pelas dores cretinas, nada poderá impedi-lo de encontrar, se não a felicidade, pelo menos momentos felizes e muita serenidade ao lado das pessoas que o amam reciprocamente.

9 comentários sobre “Caminho para lugar nenhum da dor

  1. Estter 16 de maio de 2012 15:12

    A dor e o sofrimento, quando superados, nos faz seres melhores!
    Excelente texto!

  2. Wilame Prado 16 de maio de 2012 17:08

    Estter, minha cara, fico feliz de rever você por aqui, no blog!
    Um abraço!

  3. Dirceu Herrero 16 de maio de 2012 19:26

    Excelente texto. Esses dias, estava com um incômodo no estômago e marquei médico. No caminho ia pensando: digo que é dor ou incômodo? o que caracteriza a dor? Como explicá-la. Vc explicou: não tem explicação.

  4. Wilame Prado 16 de maio de 2012 23:59

    Obrigado pela leitura, caro Dirceu. Resta saber se de dor em dor é que a gente caleja. Se depender do nosso time, no entanto, estamos mal acostumados, é só alegria! Abraço.

  5. Antonio Roberto de Paula 17 de maio de 2012 09:39

    Esses moços, pobres moços
    Ah! Se soubessem o que eu sei
    Não amavam, não passavam
    Aquilo que já passei
    Por meu olhos, por meus sonhos
    Por meu sangue, tudo enfim
    É que peço
    A esses moços
    Que acreditem em mim (Lupicínio Rodrigues)

    Caro Wilame,as dores do mundo são necessárias. Quem ama sofre, meu caro. As dores e os amores caminham juntas. Acredite em mim. O bom do teu texto é que vc deixa a janela aberta. E isso faz toda a diferença.Abração. De Paula

  6. Wilame Prado 17 de maio de 2012 10:46

    Grande De Paula, grande Lupicínio, todos moços, todos também sabem o que é a dor, o que é o amor, e o que é saber deixar sim a janela aberta pra arejar a casa! Grande abraço!

  7. rafael citelli 24 de maio de 2012 23:06

    Muito bom, parabéns!

  8. Jary Mércio 21 de janeiro de 2013 14:04

    Wilame, belo texto, mas te lembro que viemos a este vale de lágrimas através da dor e é quase certo que dele partiremos com alguma dor (no mínimo, se tivermos sorte, deixaremos alguém com o coração doído). Agora, nem por isso temos que suportar a chibata invisível o tempo todo: para isso existem os analgésicos na gaveta ou na farmácia (e nesta cidade há mais farmácia que esquina); fora que muitas vezes a dor continua lá, doendo, mas nos esquecemos dela, como às vezes a alegria e a felicidade estão lá mas não sentimos: é que nos esquecemos às vezes de ser alegres ou felizes. Aliás, viver é esquecer – ou não caberíamos em nós, ou então seríamos tão pesados, com nossas dores e até com nossas alegrias, que seríamos assim como um buraco negro de nós mesmos, que nos enguliríamos e nos cuspiríamos de volta numa dimensão talvez com tanta dor e alegria que desapareceríamos em meio a elas, ou numa dimensão tão sem dor nem alegria que nela não nos reconheceríamos por não termos o que sentir nem o que lembrar ou esquecer.
    Sim, viver é esquecer (da dor, do amor, seja lá do que for): nem que dure uma vida. Morrer é ser esquecido: nem que dure uma eternidade; mas sempre resta a possibilidade nem tão ruim de sermos esquecidos em instantes, e ainda em vida.
    Abraço, Wilame, e com dor ou sem dor, vamos em frente!

  9. Wilame Prado 15 de agosto de 2013 10:57

    Tem uma imensa razão em tudo o que disse, Jary. Muito obrigado pelo comentário, raro sim (sei da sua resistência quanto a blogs) mas sempre tão preciso e válido. Grande abraço.

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