Sobre leitura, imprensa e outras questões de Borges

“Ele me disse:

– Agora você vai ver uma coisa que nunca viu.

Estendeu-me com cuidado um exemplar da Utopia de More, impresso na Basileia em 1518, no qual faltavam folhas e lâminas.

Não sem fatuidade repliquei:

– É um livro impresso. Em casa haverá mais de dois mil, embora não tão antigos nem tão preciosos.

Li em voz alta o título.

O outro riu.

Ninguém consegue ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não terei passado de meia dúzia. Além disso, não é importante ler, mas reler. A imprensa, agora abolida, foi um dos piores males do homem, já que tendeu a multiplicar até a vertigem textos desnecessários.

-No meu curioso ontem – respondi -, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã acontecem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém conhecia a história prévia daqueles entes platônicos, mas, sim, os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão que era própria do gênero.

Tudo isso era lido para o esquecimento, porque em poucas horas era apagado por outras trivialidades”….

…”As imagens e a letra impressa eram mais reais que as coisas. Somente o publicado era verdadeiro. Esse este percipi (ser é ser percebido) era o princípio, o meio e o fim de nosso singular conceito do mundo. No ontem que me tocou, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia o seu próprio fabricante. Também eram frequentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse de dinheiro não dá maior felicidade nem maior tranquilidade”.

*Trechos do conto “Utopia de um homem que está cansado”, extraído do “Livro de Areia” (Coleção Folha, página 72), de Jorge Luis Borges. Não dá nem para comentar a lucidez dessas palavras de Borges. O próprio, no epílogo do livro, escreveu: “‘Utopia de um homem que está canasado’ é, a meu ver, a peça mais honesta e melancólica da série”. Um dos melhores contos que já li. Recomendo!

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