Mês: agosto 2012



terceiro sorriso

e parece até um milagre o abrir de olhos

o levantar, cambaleante, da cama

mas não é milagre

é só mais um corpo humano,

fraco e debilitado

que já pede o clássico repositor hidroeletrolítico

e vale até um sorriso, em meio a tanta confusão mental,

simplesmente pelo fato de não ter nascido na Faixa de Gaza

vale o segundo sorriso por saber que,

mesmo com tantas estripulias,

ainda está vivo, andando

e com olhos claros que brilham em frente ao espelho

o terceiro sorriso ele quase dá, sentindo o cheiro dela

que impregnou em sua pele, que se faz outra vida em forma de aroma

que lhe faz rememorar tantos sabores, tanta maciez na pele,

mas o terceiro sorriso logo se esvai, assim como a água do seu banho

indo ralo abaixo

mesmo com tantos problemas neurológicos

envolvendo uma amnésia noturna assustadora

recorda-se, em recortes, de dois corpos na praça,

no motel, no táxi e, finalmente, um adeus taxativo,

uma lágrima representando o quanto ela gosta dele

e também o quanto não o quer mais

o terceiro sorriso nunca mais existiu

mas ele se reconforta na temperatura do banho

sabendo que é difícil fazer atentados mártires

depois de trinta minutos de um bom banho quente

e pela enésima vez naquele dia,

sem sorriso, sem açúcar, com café

botou para tocar no youtube

“Simple Twist of Fate”, de Dylan

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Quis não ficar triste nesse Dia dos Pais *

Ontem, domingo, Dia dos Pais, como não fazia há muito tempo, trabalhei. Em uma época amarga da minha vida, tinha de trabalhar quase todos os sábados e domingos fazendo atendimento por telefone para o corpo técnico de uma operadora de telefonia.

Foram naqueles dias, quando tinha de trabalhar no domingo, voltar para a casa e ficar sozinho esperando a segunda-feira chegar, sem crédito no celular, sem telefone fixo, sem internet e sem companhia, extremamente só em um apartamento sujo, com um carpete mais que sujo, que, exatamente em uma noite de domingo, meio fria, meio quente, olhei para uma estrela e quis acreditar que, conversando com ela, poderia perfeitamente traçar uma comunicação com o meu velho e distante pai.

Acho que foi em 2006. O velho ainda não tinha morrido, mas era como se estivesse morto, já que ele, perdido nas noites sujas da grande São Paulo, quase não dava notícias suas. E como eu queria, naquela noite de domingo, dizer para o meu pai que eu odiava ficar sozinho enquanto passava o Fantástico na TV. Como eu queria convidá-lo para irmos a um bar qualquer e, como nos velhos tempos, ele pedir uma cerveja e eu, uma coca-coca bem gelada e um Suflair para mais tarde. Como eu queria vê-lo abrir a porta da sala, ir para a cozinha, cortar fatias de salame, jogar um limãozinho em cima e dizer assim: “come Jr., que tá gostoso”.

Neste último Dia dos Pais, neste último domingo, quando finalmente voltei a trabalhar em um domingo, quase não me lembrei do velho. Estava feliz por estar aprendendo coisas novas, um tipo de trabalho novo. Neste domingo, indo para o trabalho, percebi que estava quente, clima agradável, sol amigo, crianças brincando no parque, pais e filhos andando juntos, atletas jogando bola na quadra e uma Avenida Brasil absolutamente vazia.

Neste domingo, indo para o trabalho, vendo os filhos de Maringá comemorando a data festiva com os pais de Maringá, não fiquei triste, pelo menos não quis ficar triste. É que, justamente por estar trabalhando, pensei que, talvez, da onde estivesse, meu pai devia estar orgulhoso de mim, um cara indo indo trabalhar em pleno horário de jogo de domingo.

Quis não ficar triste no último Dia dos Pais porque sei que, mesmo aquelas pessoas que sempre destacaram os defeitos do meu velho, mesmo seus inimigos ou aqueles que acabaram sofrendo com algumas atitudes dele, absolutamente todos sempre disseram que uma de suas maiores virtudes era a sua plena disposição para o trabalho – podia ser sábado, domingo, feriado, na semana, qualquer dia que fosse, se tivesse trabalho, meu pai trabalhava, e isso ele fez dos 11 ou 12 anos até os 49, quando veio a falecer, curiosamente no Dia do Trabalho, em primeiro de maio de 2007.

Por isso mesmo, quis não ficar triste no Dia dos Pais, em que passei trabalhando e tentando, pelo menos nesse aspecto, seguir os passos do meu velho, sempre trabalhando. Afinal, é isso o que me resta: trabalhar e, graças a Deus, trabalhar com aquilo que realmente gosto de fazer, que é escrever. E, vez ou outra, também olhar para a estrela e tentar conversar com as pessoas que eu amo tanto, mas que insistem em viver a anos-luz de distância de mim.

*Crônica publicada dia 9 de agosto de 2010.

**E estou cá no trabalho em mais um domingo, em mais um Dia dos Pais, graças a Deus.

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Ótimo espetáculo, ‘Sem Conserto’ é hoje e de graça

Com atuação impecável, a atriz Lorena Lobato fez a plateia rir e chorar no espetáculo “Sem Conserto”, apresentado ontem e que terá dobradinha a partir das 20h30 desta sexta-feira (10) no Teatro Barracão, pela 2ª Mostra de Teatro Contemporâneo em Maringá e que entra na programação do Convite ao Teatro. A entrada é franca.

Claro que, para isso, a atriz teve o tempo todo ao seu lado os encantamentos que só um piano bem tocado, diga-se de passagem, pelo músico Daniel Grajew é capaz de proporcionar, transformando o espetáculo em um chamado teatro-concerto ao recitar as principais obras da música erudita. “Sem Conserto” é curto e direto como um conto. A diferença é que este conto já vem com brilhante trilha sonora (atrapalhada apenas pelo barulho de uma feira sendo desmontada bem ao lado de um teatro sem qualquer isolamento acústico).

*Confira a crítica completa do espetáculo “Sem Conserto” na edição de domingo do D+, do Diário de Maringá. Espetáculo recomendadíssimo! Aproveite e dê uma chegada hoje lá no Teatro Barracão para ver

Lorena Lobato visitou a redação antes do espetáculo (foto de Rafael Silva)

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Oswaldo Montenegro volta a encantar Maringá

O meu amigo Oswaldo Montenegro, mais uma vez, deixou um Teatro Marista lotado à flor da pele, em show realizado na noite do último sábado (4). Marcado para as 21h, surpreso fiquei ao tatear por um lugar na primeira fileira do teatro, por volta das 20h45, e percebendo que a casa já estava cheia e que o sempre muito simpático cantor e compositor já tinha feito o que é de costume em seus shows: puxar uma banqueta e bater um papo com a plateia, respondendo sempre as mesmas perguntas, o significado das letras, as histórias envolvendo bastidores, as músicas preferidas etc.

Oswaldo parece não envelhecer. Parece que já nasceu daquele jeito: sotaque carioca, roupas pretas, cabelão grisalho e barba por fazer também cinza. Mas a maior prova da vitalidade do artista se dá na sua arte: sua voz continua estridente, não preguiçosa e ousada a ponto de desbancar qualquer efeito sonoro de uma gravação em estúdio. Sua receita mágica seria a opção por Coca Zero durante o show? Seu violões, de seis e de doze cordas, também continuam produzindo um dedilhado sempre muito límpido, lúcido, sincero.

O som da flauta de Madalena Salles é outro que continua entrando em nossos ouvidos como se fosse a primeira vez. Na primeira fileira, tive o privilégio de tê-la ao meu lado, desferindo aqueles sopros mágicos da já clássica canção “Lua e Flor”, aquela que diz: “Eu amava/Como amava um pescador/Que se encanta mais com a rede que com o mar”. Você conhece!

Em uma plateia composta em sua maioria por mulheres, não era raro, olhando para trás, ver olhinhos brilhando e querendo deixar as lágrimas caírem após versos cantados tão bonitos de Oswaldo Montenegro. Os homens, a maioria deles acompanhando suas parceiras, mas também adoradores do som do cara, também não escondiam a satisfação, a alegria e a emoção sentidas ouvindo aquela boa música. Ou vai me dizer que você não se emocionaria ouvindo “A Lista”? A propósito, seguindo a letra da canção, já fez uma lista de grandes amigos, aqueles que você mais via há dez anos atrás? Desses, quantos você ainda consegue ver todo dia? É aí que o negócio pega fundo na alma e, ouvindo Oswaldo Montenegro, acaba se fazendo uma viagem no tempo, uma análise da vida, um balanço de tudo o que se passou e de tudo o que está acontecendo.

Mas, enfim, das velhas músicas boas ninguém esquece e sempre são indispensáveis nos shows. Não que o repertório do “De Passagem”, último álbum do artista lançado este ano, seja ruim, pelo contrário. Há pérolas no CD que também ficarão eternizadas no cancioneiro de Oswaldo Montenegro. No show, ele contou que “Velhos Amigos” é a sua preferida do disco recente. E que música! “Velhos amigos vão sempre se encontrar/Seja onde for, seja em qualquer lugar”.

A música de trabalho também é recheada de significados humanos, mas destoa um pouco do lado nostálgico do artista: o nome da canção, “Eu Quero Ser Feliz Agora”, já diz tudo! Dia desses, meio leve, meio solto, chegando em casa tranquilo da vida, não pude resistir e entoei este refrão, “Eu Quero Ser Feliz Agora”, bem alto, às duas da manhã. Foi libertador.

E bem que Oswaldo poderia ter deixado a plateia de Maringá ainda mais feliz, e naquela hora! Bastava, ao contrário de 1h20 de show, ter esticado para duas horas de apresentação (o valor de R$ 100 no ingresso merecia mais canções) e, assim, sem deixar de lado as clássicas, ter destrinchado melhor os álbuns “Canções de Amor” e “De Passagem”, os dois últimos trabalhos lançados. O artista também bem que podia ter investido em uma turnê com banda, não se importando tanto com os custos de tal tarefa (afinal, eram R$ 100 mangos para entrar!) e podendo, como pedem várias canções dele, não ter se limitado ao seu violão, à flauta de Madalena e aos teclados de ambos.

Mas, tudo bem. Amigo a gente perdoa. Ouvir o bom papo e a boa voz de Oswaldo Montenegro, além dos sopros mágicos de Madalena Salles, é sempre motivo para querer ser feliz no agora, mesmo que, para isso, vez ou outra, seja preciso fazer uma lista dos amigos, dos amores e de tudo o que ficou para trás. Motivo também para continuar amando nesta vida e, se com a rede ou com o mar eu não sei, mas sabendo que o importante mesmo é ter algo para se encantar. Sábado que passou, os maringaenses tiveram um bom motivo de encantamento lá no Teatro Marista.

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o último dia

é, é

um dia olhei pro sol

e cego não fiquei

apenas enxerguei

de repente, toda cegueira se curou

a miopia não voltou

eu pude ver tudo, todos

os segundos, o tempo, a eternidade

pude ver o mundo, e o além-mundo

senti que algo estava errado

quando passei a ver

concluí que algo precisava ser feito…

termine de ler n´A Poltrona

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A estrada que chama, que une, que separa

E aí? Qual estrada vai pegar? Que destino vai seguir? O mundo é grande. Mas o pensamento pode ser pequeno. Na maioria dos casos, só depende das suas próprias pernas, e do quanto sua sandália aguentará andando pela estrada, chutando pedrinhas, olhando o infinito pela frente, sentindo peso nenhum com o passado deixado para trás.

Percorrer, andar, correr, dirigir por aí. Nem sempre é tão fácil quanto parece. Alguns são mais preparados para a estrada, para as caronas, para o dinheiro escasso, para o desprendimento rotineiro da vida comum. Estes, sabem que o destino final não é o que importa e sim o percurso, a viagem. Aproveitam cada cinza do asfalto da infinita estrada, sentem na pele cada pedaço de energia dado pelo sol desnudo, sem prédios, sem nada impedindo de iluminar os estradeiros, os viajantes dentro de um carro velho.

Outros, não aguentam tanto a estrada. Vivem dizendo que querem se matar, sentem-se desconfortáveis quando vão ou quando ficam. Preferem escrever poesias, sonhando com a estrada quando estão em terra firme e sentindo saudades de casa quando estão rodando por aí.

Outros ainda, simplesmente encontraram na estrada o seu lar, o seu porto seguro. Eles não têm família, ou não quiseram ter. Eles não conseguem formar família porque sentem falta rapidamente da estrada. Geralmente, os que têm no sangue a verve do sempre estar em movimento, de sempre estar querendo descobrir o que há por detrás da cortina, acabam atraindo pessoas sensatas que sabem usufruir de maneira provisória o que a estrada tem a oferecer, sem nunca se esquecer de voltar, de quando em vez, para casa e dizer para aquela pessoa que lhe espera: “eu voltei, estou bem”.

Sozinhos, na estrada, estes serem mais sensatos são pequenos. Precisam dos amigos estradeiros. Precisam daqueles loucos que detêm os mapas de todos os caminhos, menos o caminho da volta para casa. São os originários da estrada que nunca deixam o sorriso cair, a bebedeira acabar. Eles atraem mulheres dispostas a dar carinho, já aceitando as pré-condições de que todas as trocas afetivas serão passageiras e os vínculos terão data de validade. O sensato, ao lado do estradeiro, não tarda a pegar um bloco, um guardanapo ou um pedaço de jornal para escrever tanta sensação nova, tanta descoberta, tanta vivência mais arraigada de significados para a vida quando se está na estrada.

E então ele escreve um livro. E então ele conquista seus sonhos. E então possui um arsenal de memórias inesquecíveis, palpáveis e fortemente reconfortantes para continuar tocando o barco.

E então o sensato se livra da estrada. A estrada não se livra dele. Nunca a estrada sairá de seus pensamentos. Um dia voltará a rodar, fica pensando. Mas não agora. Agora é hora de ter os pés no chão. De ter corretamente o mapa do caminho de volta para casa, todos os dias, todas as horas. E então o que restará é um crescimento pessoal intrínseco – fruto das viagens, da estrada, do horizonte que não acaba, e isso tudo jamais percebido pelo sensato, mas sim por todo o resto.

O homem sensato, que já viajou, que já pegou a estrada, passa pela rua e as pessoas sentem a grandeza dele, percebem a vivência e o quanto consegue pisar com mais segurança na terra firme. E o homem sensato nunca vai esquecer das provas de amizades, dos frutos do amor, das dificuldades, das alegrias, das dores, dos descaminhos nos caminho, dos trabalhos, do ócio, do jazz, do balcão da boate, do olhar daquela menina, e principalmente do dia em que se sentiu só, abandonado, na pior, sem amigo, sem amor, sem dinheiro, sem forças mas, incrivelmente, com a certeza de que precisava continuar andando na estrada para registrar tudo isso, para deixar nas páginas da história e para tentar compreender, após sentir na pele, como é que um ser humano, tendo chamados persistentes da estrada que o aguarda, pode ter a coragem de não oferecer a mão para o outro que suplica socorro.

*Crônica inspirada no filme “Na Estrada”, de Walter Salles, em cartaz no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping

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‘não amo o próximo, nem sei o que é isso’

“dispenso a exortação, fique aí, no círculo da tua luz, e me deixe aqui, na minha intensa escuridão, não é de hoje que chafurdo nas trevas: não cultivo a palidez seráfica, não construo com os olhos um olhar pio, não meto nunca a cara na máscara da santidade, nem alimento a expectativa de ver a minha imagem entronada num altar; ao contrário dos bons samaritanos, não amo o próximo, nem sei o que é isso, não gosto de gente, para abreviar minhas preferências; afinal, alguém precisa, pilantra – e uso aqui tua palavrinha mágica – ‘assumir’ o vilão tenebroso da história, alguém precisa assumi-lo pelo menos para manter a aura lúcida, levitada sobre tua nuca; assumo pois o mal inteiro, já que há tanto de divino na maldade, quanto de divino na santidade; e depois, pilantra, se não posso ser amado, me contento fartamente em ser odiado – trecho da novela “Um Copo de Cólera”, de Raduan Nassar (Coleção Folha – Literatura Ibero-Americana, página 48)

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