Mês: outubro 2012



Cigarros

Hoje, às 11h25, estava na Praça Raposo Tavares, ao lado da Rodoviária Velha. Um senhor de meia-idade fumava seu Dallas tranquilamente. Um morador de rua, que já vi várias vezes naquela praça, em outros lugares pedindo dinheiro e até como flanelinha, pediu um cigarro ao senhor de meia-idade. A resposta foi não.

Segundos depois, passou um jovem com um Marlboro vermelho novinho, no plástico. Acho que estava vindo do tradicional estabelecimento Rei do Fumo. Não deu outra. O morador de rua abordou o jovem e conseguiu tranquilamente um cigarro, e de marca melhor do que a do senhor de meia-idade.

Não satisfeito com as tragadas, o morador de rua começou a difamar publicamente o senhor, o chamando de miserável, lazarento, idiota e outros palavrões que prefiro não mencionar. O senhor de meia-idade sentiu-se acuado. Disfarçou, entrou na circular amarelinha, voltou, mas não aguentou os impropérios e disse: “o cigarro é meu, eu que comprei e não quero dar para você”.

O senhor de meia-idade entrou na amarelinha e foi em direção a Mandaguari, em pé. O morador de rua continuou em sua casa, ou seja, na rua, fumando vagarosamente seu Marlboro. Parecia, naquele momento, nem estar ligando para o fato ocorrido há pouco, o de ter xingado um homem em praça pública.

*Texto escrito no blog A Poltrona em 21 de janeiro de 2008.

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“Estamos cantando o som da nossa terra” – AVEduo

Como atração da semana cultural organizada pelo Sesc em alusão ao Dia do Comerciário, comemorado nesta terça-feira (30), Maringá recebe esta noite o AVEduo Feminino – dupla musical composta pela brasileira Andréia Bernardini e pela argentina Viviana Mena e que resgata a música feita na América do Sul.

O show “Eu Sou da América do Sul”, que começa a partir das 20h no Salão Social do Sesc com entrada franca, apresenta um programa selecionado com o melhor da música popular brasileira (MPB) e da música folclórica sul-americana, homenageando grandes intérpretes e compositores de nosso continente, como: Totó la Momposina (Colômbia), Susana Baca (Peru), Violeta Parra (Chile), Mercedes Sosa (Argentina) e as cantoras brasileiras: Elis Regina, Clara Nunes e Clementina de Jesus, entre outros.

Com arranjos próprios para duas vozes, violão e percussão, o Aveduo confere a esse repertório tradicional uma sonoridade única e original.

Viviana Mena concedeu entrevista e falou sobre o projeto do duo, a importância do resgate da música popular produzida na América Latina e ainda sobre a apresentação que acontece hoje em Maringá:

WILAME PRADO – Primeiramente, por que o nome AVEduo?

VIVIANA MENA – O nome AVEduo tem vários significados: AVE como uma saudação universal, outra razão é por serem os pássaros, as aves, os “cantores” da natureza, e também são as duas primeiras letras das integrantes do duo A de Andréa e V de Viviana.

-Como as duas se conheceram? Moram onde? Qual a frequência de ensaios?

Nos conhecemos em 1998 no Conservatório de MPB de Curitiba, moramos na mesma cidade e ensaiamos sempre que pudemos.

-Até por fazerem música que caracteriza a América Latina como um todo, é frequente a apresentação do duo em outros países do continente?

Ainda não, salvo uma ou duas apresentações em Buenos Aires… esperamos que seja mais frequente no futuro próximo.

-Por que o nome “Eu Sou da América do Sul”, trecho de canção de Milton Nascimento?

Porque simboliza, entre outras coisas, a integração cultural do Brasil num panorama sul-americano hispanofalante e porque fala sobre nossa identidade cultural.

-No programa musical do show “Eu Sou da América do Sul”, grandes intérpretes e compositoras sul-americanas são lembradas. Por escolher só cantar música feita ou já cantada por mulheres, podemos dizer que há um discurso feminista ou anti-machista no Aveduo?

Não se trata de discurso feminista nem anti-machista e sim de uma valorização da figura da mulher compositora, intérprete e artistas mulheres em um universo predominantemente masculino.

-O que vão tocar em Maringá?

Uma seleção de música popular, desde MPB até música folclórica argentina e de outros países do continente.

-Já vieram a Maringá antes?

Sim, apresentamos o show “Mujeres Latinas” no SESC Maringá no mês de março, como parte da comemoração do dia da Mulher.

-Como é a apresentação do AVEduo? As duas tocam e cantam? Que instrumentos tocam?

AVEduo tem como característica os arranjos próprios para duas vozes, violão e percussão. Ambas tocamos e cantamos: Andréa toca violão e eu, percussão e bombo legüero, um típico instrumento latinoamericano.

-Por que, na sua opinião, é preciso haver projetos como o do AVEduo, que vai contra o etnocentrismo enraizado no mundo ocidental?

Porque temos que ter orgulho de nossas raízes, de nossa terra, de nossas manifestações culturais. Neste espetáculo, AVEduo canta para recordar, recordar canções de outras épocas, lembrar grandes artistas, lembrar quem nos somos, nossa identidade cultural.

-Na sua opinião, quais principais características do som latino americano?

São muitas, há inúmeros tipos de manifestações musical na América Latina… muito resumidamente poderíamos dizer que é a força e a calidez, a razão e a poesia, a autenticidade e a beleza que caracteriza nossa cultura.

-Quando lançaram pela última vez um CD? É composto com músicas próprias?

Temos um trabalho autoral com música infantil. Em 2010 lançamos o DVD “Oi, tudo bem?”, e este ano estreamos o show “AVE, Crianças!” com o segundo repertório de composições próprias dedicadas ao universo infantil. Também gravamos em 2007 e em 2010 os CDs “Cantos Sagrados” e “Cantos Sagrados II”, com músicas ritualísticas de vários povos e algumas composições nossas como parte de essa estética.

-Como é o processo de criação musical do AVEduo? Cite três canções de autoria própria e comente sobre a sonoridade e a letra da canção.

Bem, o processo de criação é variado… às vezes uma situação, uma frase, um encontro desencadeiam uma canção… Entre outras, podemos citar “Medo de ficar sozinha” um samba e “Aulinha de Inglês”, um blues do repertório infantil e “Portal 818” que é uma música para meditação.

-Mercedes Sosa e Elis Regina são grandes vozes femininas latino-americanas. Por que dedicar um concerto só para as duas?

Porque, além de serem as duas maiores vozes femininas da América Latina, são nossas maiores influências e “maestras”.

-O que falta para a valoração existente na música regionalista da América Latina ser mais reconhecida e consumida pelos próprios latino-americanos e também pelo mundo?

Mais auto-estima e menos postura de colônia, que acha que tudo o que vem de “fora” (EUA e Europa) é melhor.

-Como é o trabalho do duo com a música ritualística indígena?

Muito gratificante, é outro alcance da música, uma dimensão espiritual, plena, outro tipo de conexão.

-Como os leitores podem ouvir e conhecer melhor o trabalho do duo?

Podem assistir ao show que apresentaremos hoje no SESC Maringá e também acessar vídeos no Youtube, colocando o nome AVEduo, para ver canções das diferentes modalidades que foram gravadas.

-O que sente quando está tocando e cantando a América do Sul?

O continente sul-americano é um só, todos os povos estão unidos, irmanados por laços históricos, geográficos e culturais. Sentimos que estamos cantando o som da nossa terra.

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Rogério Ceni é chato pra cara…

Rogério Ceni é um chato. Dias depois de culpar o técnico Leão pela fase ruim que o São Paulo Futebol Clube enfrentou no início do ano, mais uma vez protagoniza polêmica ao questionar decisões do técnico Ney Franco, em péssima partida na noite de quarta-feira (24), que terminou sem gols para os dois lados, mesmo o LDU de Loja tendo um goleiro menor do que eu, com 1,72m.

Quem aguenta o Rogério Ceni? Critica ex-técnico, quer mandar mais que o técnico atual e, se não for de seu gosto, faz questão de micar a contratação de determinado técnico. Dizem que ele não deixou o Cuca ser contratado tempos atrás.

Ceni é um jogador de futebol híbrido. Atua em duas funções: como goleiro e batedor de bolas paradas. Vai melhor quando está longe da pequena área. Bate melhor faltas do que defende seu gol. A idade atrapalha, mas é de reconhecimento público que, em toda sua carreira, nunca foi dos mais brilhantes arqueiros. No máximo, um terceiro goleiro da seleção. No máximo, o titular do SPFC por décadas.

Campeão e líder nato, Rogério é um poeta quando calado. E ajuda muito seu time batendo pênaltis, cobrando faltas e ficando quieto quando precisa. Aquela imagem corporativa do clube paulistano ficou para trás. A bagunça do futebol brasileiro também invadiu as salas administrativas do SPFC. E isso acaba dando permissões a jogadores que se acham no direito de questionar técnico, como faz Rogério Ceni, como um ainda moleque chamado Neymar um dia fez com o brilhante professor Dorival Jr.

Mas ninguém vai dizer em rede nacional que “estamos criando um monstro” só porque o chato do Rogério Ceni questionou o bom técnico Ney Franco. Esse monstro já está criado e barbado. Assim como eu, um milhão de pessoas hoje estão reforçando aquilo que um dia o sábio e engraçado Milton Leite falou sem saber que seu áudio tinha vazado ao vivo em rede nacional: “O Rogério Ceni é chato pra caralho”.

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Clipe novo de Bob Dylan é feito por fãs no Instagram

Uma promoção realizada no site oficial de Bob Dylan pediu e os fãs atenderam: fizeram, com o aplicativo Instagram, imagens com cartazes contendo trechos da letra do novo single do compositor, a faixa “Duquesne Whistle“. As fotos enviadas se transformaram em um lyric video lançado nesta quarta-feira (24). VÊ:

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Entrevista na íntegra de Oscar Nakasato, vencedor do Jabuti com ‘Nihonjin’

Oscar Fussato Nakasato, 49 anos, é o primeiro maringaense a vencer o Prêmio Jabuti em uma categoria de ficção. Na noite de quinta-feira (18), a Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou os vencedores das 29 categorias da 54ª edição de um dos prêmios literários mais tradicionais do País. Seu livro “Nihonjin” (Benvirá, 2011, R$ 19,90) foi considerado pelo júri o melhor livro na categoria Romance, desbancando Domingos Pellegrini, Wilson Bueno e outros nomes consagrados da literatura nacional.

Escritor maringaense Oscar Nakasato vence o Prêmio Jabuti de 2012 com “Nihonjin”

Quando soube que era um dos finalistas na categoria Romance, Nakasato, atenciosamente, concedeu uma longa entrevista para mim, que objetivava publicá-la no D+, caderno de cultura do Diário de Maringá. Por falta de espaço, precisei resumir a publicação da entrevista, mas agora o leitor pode ler na íntegra e conhecer um pouco mais sobre a vida desse grande escritor. Leia:

-Primeiramente, nome completo, idade, cidade de nascimento, cidade e bairro atual onde mora, formação acadêmica e profissão.

OSCAR NAKASATO – Meu nome é Oscar Fussato Nakasato, completei 49 anos este mês (setembro). Nasci em Maringá, mas meus pais tinham um sítio em Floresta – PR, onde morei até completar 8 anos. A partir de então, passei a residir em Maringá. Atualmente resido em Apucarana, na Vila Agari, e sou professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Graduei-me em Letras na Universidade Estadual de Maringá depois de uma dolorosa experiência de dois anos e meio no curso de Direito. Também sou mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista.

-Breve histórico da sua biografia ligada à literatura.

Em 1999 fui premiado com os contos “Olhos de Peri” e “Alô” no Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e Editora Cone Sul, que os publicou com outros três num volume que se chamou “Contos”. Em 2003, fui vencedor do Concurso Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Prêmio Especial Paraná, com o conto “Menino na árvore”, que também foi publicado com outros contos e poemas premiados no mesmo concurso. Em 2011, meu romance “Nihonjin” venceu o Prêmio Benvirá de Literatura e foi publicado pela Editora Saraiva. No mesmo ano, o romance dividiu o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Contos do Sol Nascente”, de André Kondo, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota.

-Conte em detalhes como é seu dia a dia. O que faz durante a manhã, tarde e noite. É casado, tem filhos? Quanto tempo trabalha?

Ano passado, logo após ser anunciado como vencedor do Prêmio Benvirá, eu disse que minha prioridade é a docência, e em entrevista recente, mais de um ano após o prêmio e com uma vendagem expressiva de “Nihonjin”, reiterei essa condição. Minha rotina inclui as atividades da universidade, onde trabalho em regime de dedicação exclusiva, e as obrigações como esposo de uma mulher tão bonita quanto exigente e pai de dois filhos adolescentes e modernos. Além disso, atualmente dedico grande parte do meu tempo e da minha disposição para construir a minha casa, tarefa muito árdua para alguém com pouco talento para lidar com questões práticas. Pretendo escrever outros livros, mas construir outra casa, jamais.

-Como é o seu processo de escrita? Quantas horas escreve por dia, de que jeito, no computador mesmo, no silêncio, com a luz apagada, bebendo, fumando, longe do barulho, com a janela aberta, atolado de papeis de pesquisa, atolado de anotações feitas num caderninho etc?

Já tentei estabelecer uma rotina para escrever, mas não deu certo, pois não tenho disciplina. Como nunca entendi o ato de escrever como trabalho, não me sinto responsável para cumprir horários e metas. Por isso, às vezes passo um mês sem escrever, o que, contraditoriamente, me enche de culpa. Então corro até o computador e procuro me redimir teclando algumas linhas ou páginas. Às vezes interrompo a escritura para ler um parágrafo de Clarice Lispector ou de Guimarães Rosa, é uma necessidade de me iluminar. Gosto de escrever em computador com internet, pois quando tenho alguma dúvida, mesmo em relação a um vocábulo, faço a pesquisa imediatamente.

 -O que te obriga a escrever? O que te incomoda ou surpreende a ponto de não resistir à feitura de um texto?

Às vezes o que me obriga a escrever é a sensação de culpa por estar há muito tempo sem escrever, outras vezes escrevo porque preciso logo traduzir uma sensação em palavras para de algum modo represá-la, pois tenho medo de perdê-la para sempre. Em geral escrevo porque tenho prazer no ato.

 -De onde tirou a ideia do romance ‘Nihonjin’ e quanto tempo demorou para escrevê-lo?

“Nihonjin” nasceu de uma decepção. Quando iniciei a minha pesquisa sobre personagens nipo-brasileiros na ficção para a minha tese de doutorado, já sabia que não encontraria muito material, mas não imaginava que esses personagens fossem tão escassos. Então, antes de terminar a minha tese, já comecei a esboçar o romance, aproveitando as pesquisas que havia feito sobre a imigração dos japoneses no Brasil e o seu processo de aculturação. Passei por períodos de intensa produção e outros de absoluto recesso, levando cerca de quatro anos para terminar o romance.

– Para compor o personagem Hideo Inabata, inspirou-se em algum amigo ou familiar?

Hideo é, antes de tudo, um personagem de ficção, fruto de pesquisa em livros de História, Sociologia e Antropologia, mas vejo nele traços de alguns tios.

– Como é sua relação com o Japão? Seus pais nasceram lá, já foi para lá, aprecia a cultura?

Sou sansei, ou seja, sou neto de japoneses. A minha relação com o Japão ou com a cultura japonesa foi conflituosa na adolescência, quando passei por uma fase de negação das minhas origens. Nesse período procurava fazer amizade com quem não tinha ascendência japonesa e me interessava pela cultura ocidental. Depois me dei conta de quão ignorante eu era em manter tal postura e do quanto eu perdia em me afastar da cultura japonesa, descobri que o grande barato era exatamente ser essa mescla, esse ser híbrido. Então estudei língua japonesa no Instituto de Língua Japonesa da Universidade Estadual de Maringá durante dois anos, depois escolhi a análise de personagens nipo-brasileiros para a minha tese de doutorado. Espero, um dia, como o narrador de “Nihonjin”, ir ao Japão e sentir essa “ida” como um “retorno”.

-Você foi o vencedor do 1º Prêmio Benvirá de Literatura, tendo um livro considerado melhor do que outros escritos por 1.932 concorrentes de todo o Brasil com obras inéditas. Espera vencer? Como ficou sabendo do prêmio? Antes disso, ‘Nihonjin’ foi rejeitado por editoras?

Sempre acreditei em “Nihonjin”, por isso o enviei somente para grandes editoras, pois sei que as pequenas têm dificuldades em dar visibilidade às obras que publicam. O romance foi rejeitado por todas, e também não ganhou o Prêmio Sesc de Literatura, do qual participei. Por isso, enviei os originais para o Prêmio Benvirá evitando criar grandes expectativas, mas ninguém participa de um concurso pensando que não tem nenhuma chance de ganhar. Um dia, ao chegar a Maringá após uma viagem a Goioerê, abri minha caixa postal e li duas mensagens, um do Thales Guaracy e outro do Luís Colombini, editores da Saraiva, ambos dizendo que tentaram entrar em contato comigo por telefone e que gostariam de falar sobre o Prêmio Benvirá. Meu coração começou a bater mais forte, disse à minha esposa que algo de bom estava acontecendo, que “Nihonjin” talvez tivesse sido premiado. Como era tarde, entrei em contato com eles por telefone no dia seguinte, e então anunciaram o prêmio. Abracei a minha esposa, senti uma paz muito grande, mas não pulei, não gritei. Fiquei feliz, simplesmente.

-Dentre seus concorrentes está ‘Herança de Maria’, de Domingos Pellegrini, que também foi vencido no Benvirá. Sabendo disso, acha que suas chances são maiores para vencer o Jabuti de melhor Romance?

De forma nenhuma. Após o anúncio do prêmio Benvirá, o Pellegrini entrou em contato comigo e humildemente me parabenizou. Mas veja, “Herança de Maria” também está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, do qual também participei, sem resultado positivo. Isso somente confirma que há um grau de subjetividade muito grande nos prêmios de literatura.

-Quais suas apostas, além da torcida para o próprio livro, tanto no romance como no conto e no infantil?

Há muitos autores que não conheço, mas os favoritos sempre são os nomes já consagrados. Espero que haja surpresas. Se fosse o “Oscar”, eu apostaria no meu concorrente Wilson Bueno, outro paranaense, pois seria uma forma de realizar uma homenagem póstuma, já que ele faleceu em 2010. Entre os contistas/cronistas, estou torcendo pelo Luís Henrique Pellanda, cujas crônicas acompanho no site “Vida Breve” (vale a pena conferir), mas o quase invisível Dalton Trevisan e a simpática senhora Lygia Fagundes Telles são grandes candidatos. Gosto do Fabrício Carpinejar (outro que escreve em “Vida Breve”), que concorre na categoria de Literatura Infantil, mas o Ziraldo também é candidato… De qualquer forma, cito esses nomes pelo conjunto da obra, pois ainda não li os livros que participam do prêmio.

-Ouvi uma história dizendo que você talvez pararia de escrever. Por que?

É uma estória, como diria o Guimarães Rosa. A Lygia Fagundes Telles, que está com 89 anos, diz que escreve todos os dias, e o Ignácio de Loyola Brandão, com 76, afirma que o ato de escrever o mantém vivo. Eu escrevo pouco, mas quero escrever até os cem anos.

 -Só escreve romance ou gosta de contos, crônicas?

Sempre escrevi contos, pois sou conciso. Imaginava que jamais escreveria um romance. “Nihonjin”, ainda que seja breve, foi uma grande conquista. Tomei gosto, preparo um novo.

 -Como é sua rotina dando aulas, o que sente, quais são os grandes desafios de se ensinar literatura?

Ensinar leitura e literatura em tempos de ditadura da imagem é um grande desafio. Recentemente li no jornal Rascunho a Márcia Tiburi dizendo: “As pessoas que lêem são mais interessantes, mais inteligentes, mais bonitas, mais bacanas, mais poderosas — são tudo. Quem não lê é um otário.” Achei espetacular o exagero! Mas logo me lembrei de várias pessoas que não leem e não são otárias. Ocorre que sempre julgamos sob um ponto de vista muito particular. De qualquer forma, tenho plena convicção de que a leitura, principalmente a boa ficção, torna as pessoas mais inteligentes, mais sensíveis e mais educadas. A leitura nos afasta da barbárie. E ter o texto, o romance, a poesia, como objetos de trabalho é um grande privilégio. Ser professor é um barato, um verdadeiro exercício de cidadania, pois, tendo concluído a Licenciatura em Letras e estudado tanto Literatura, é um dever partilhar o que penso que sei com os outros.

-Qual sua opinião a respeito dos prêmios literários?

Nunca houve no Brasil tantos prêmios, bienais, feiras e semanas dedicados à literatura. E os balanços das editoras demonstram que nunca o país vendeu tantos livros como agora. Faltam os leitores. É paradoxal, mas milhares de pessoas vão a esses eventos, milhões de livros são vendidos, e ainda há poucos leitores. Os prêmios literários, como essas outras atividades, promovem a visibilidade do produto livro, mas ainda se esforçam para promover a leitura. Não vejo, porém, que o caminho esteja errado. Aqui cabe o ditado: água mole em pedra dura bate tanto até que fura.

-Quais suas referências literárias? O que gosta de ler? Da sua leitura, o que te influencia na hora de escrever? Qual seu livro de cabeceira?

O meu livro de cabeceira é aquele que estou lendo, e ele está, agora, literalmente, sobre a mesinha de cabeceira, mas me acompanha aonde eu vou. É “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, uma leitura tardia de um romance que foi publicado em 1997. Não o escolhi, a Universidade Estadual de Maringá o elegeu como uma das obras do Vestibular, e me vi obrigado a lê-lo. É uma daquelas obrigações que se tornam prazer. Daqui a uma ou duas semanas, outro livro estará sobre a minha mesa de cabeceira, talvez um desses indicados para o Prêmio Jabuti. Leio muito, mas não somente ficção. Gosto muito de ler revistas e jornais, levo-os ao banheiro e me demoro mais que o necessário. A vida é mais que fazer necessidades. Gosto dos clássicos, de Machado de Assis a Guimarães Rosa, e de alguns mais novos, como o Luiz Rufatto, cujo romance (que não é romance) “Eles eram muitos cavalos” me deixou perplexo. É assim, as influências vêm de diversas páginas.

-Quem, ultimamente, no Brasil e no mundo, estão fazendo literatura de respeito?

Não tenho autoridade nem condições para fazer essa indicação. Seria uma leviandade, pois não tenho lido suficientemente os escritores da atualidade, principalmente os estrangeiros.

-Morar no interior do PR atrapalha no sucesso de um escritor, mesmo ele tendo feito um livro premiado como o seu?

Atores e cantores que querem fazer sucesso geralmente vão a São Paulo ou ao Rio de Janeiro para ficar sob os holofotes, mas os escritores não precisam se projetar dessa forma, embora o comentarista de literatura Afonso Borges tenha observado recentemente em seu boletim Mondolivro, na rádio CBN, que os escritores, ultimamente, não podem ficar reclusos, pois precisam participar de mesas redondas e seminários nos diversos eventos literários que ocorrem no país. Rubem Fonseca e Dalton Trevisan precisam ser avisados dessa nova “revolução na vida dos escritores brasileiros”, como qualifica Borges. Manuel de Barros, festejado pela crítica, pela academia e por leitores fieis, segue vivendo muito bem no Mato Grosso do Sul. Hoje há escritores que vivem, sim, sob holofotes, mas não creio que essa condição seja essencial. No meu caso, eu pude participar do Prêmio Benvirá e realizar toda a negociação da edição do livro, incluindo a revisão que antecedeu a publicação, sem sair de Apucarana. Fui a São Paulo somente para receber o prêmio. Se eu morasse lá, daria mais entrevistas, participaria de mais eventos e, assim, “Nihonjin” teria maior visibilidade, mas creio que eu e meu romance podemos viver bem em Apucarana ou Maringá.

-Já viajou para onde divulgando ‘Nihonjin’?

Lancei o romance somente em São Paulo, na ocasião da premiação, em Maringá e em Apucarana.

-O que sua família acha da sua ascensão como escritor?

Logo após receber o meu prêmio, um tio de São Paulo veio a Maringá e trouxe um recorte de jornal com uma entrevista e uma fotografia. Esse fato revela a relação que se estabeleceu entre a minha família e a repercussão do prêmio e da publicação de “Nihonjin”. Todos sentem esse orgulho ingênuo de ver o nome de um familiar impresso nas páginas dos jornais, e isso me emociona. A minha esposa, que acompanhou mais de perto a minha trajetória e sempre me incentivou, agora compartilha as alegrias que “Nihonjin” me trouxe.

 -O que espera para o futuro? O que ter feito uma boa história representou para sua vida? Acha que vai conseguir superar Nihonjin ou está com a síndrome de Raduan Nassar, que disse ter parado de escrever por achar não ter capacidade de escrever nada melhor do que Lavoura Arcaica.

Espero não ter o destino de Raduan Nassar, que, realmente, não escreveu nada de interessante após o belíssimo “Lavoura arcaica”. Há pouco tempo o Paulo Lins justificou os quinze anos que separam “Cidade de Deus” e “Desde que o samba é samba”, lançado este ano, dizendo que o seu primeiro romance lhe custou tanto tempo e causou tanta tensão e desequilíbrio emocional que ele precisava descansar. “Nihonjin” não me cansou e não me desequilibrou emocionalmente, pelo contrário, me estimulou a escrever mais. Espero não entrar na paranoia de ter a responsabilidade de escrever algo melhor que “Nihonjin”.

-Fique à vontade para comentar o que quiser.

Já “falei” demais. Obrigado.

Trecho do romance “Nihonjin”

“_ Haruo, não seja impertinente! O espírito não conhece distâncias! E o nosso espírito é japonês!

Era isso que ensinava naquela noite aos vinte e poucos alunos amontoados num velho galpão de madeira. Meninos e meninas reunidos ao redor de mesas improvisadas com tábuas e cavaletes, sentados em longos bancos, com os cadernos repletos de hiraganas, katakanas e ideogramas. Hideo propusera-se a ser professor voluntário porque aquelas crianças, impedidas pelo governo de ir ao nihongakkō, não poderiam crescer como se fossem gaijins.

Os policiais chegaram sorrateiramente e, antes de invadirem o galpão, espiaram pelas frestas e viram as crianças sentadas, em silêncio absoluto, atentas ao que dizia sensei.

_ Esses japoneses fazem lavagem cerebral”, comentou um deles. “Crianças não se comportam dessa maneira.

Quando os homens entraram, Hideo não ofereceu resistência. Disse somente para que deixassem as crianças em paz e quis saber quem havia feito a denúncia. Os policiais, obviamente, não responderam. Recolheram todos os cadernos e dois livros do professor. Um menino tentou resistir, segurou firme o seu caderno, na outra ponta o policial, e os dois mediram forças, e cada um tinha a sua, a do braço e a da alma, e esta alimentava aquele, por isso a criança era quase homem, olhava o adversário como um igual, e o homem, que tinha a malícia que o menino ainda não alcançara, soltou de repente o caderno, e o menino foi ao chão. Hideo, que assistia à luta e via, orgulhoso, a força do menino, aproximou-se, então, disse-lhe em voz baixa que era verdadeiramente um súdito do imperador, ajudou-o a se levantar, pegou o caderno e o entregou ao policial, pois não adiantava resistir. Os alunos se encolheram num canto do galpão, algumas meninas choravam, todos emudecidos pelo medo.”

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O limite físico de Neymar está em jogo*

Por Fabio Chiorino

Onze minutos de jogo. Uma bola espirrada da defesa para o ataque encontrou Neymar. E o menino, mais uma vez, espantou a todos. Driblou três jogadores com aquela peculiar facilidade que nos faz perguntar se não está a enfrentar juvenis. Bola por baixo das pernas de um, corte seco em mais dois e gol do Santos. Neymar cravava mais uma placa, ao completar 200 jogos vestindo a camisa do Peixe.

Enfim, qual o limite de Neymar?

*Termine de ler o lúcido artigo do jornalista Fabio Chiorino lá no site Esporte Fino.

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Veja trailer de Django Livre, novo filme de Tarantino

“Django Livre”, o novo filme de Quentin Tarantino, estreia no Brasil só dia 18 de janeiro de 2013, mas o trailer oficial foi divulgado neste segunda-feira (15) pela produtora. Com a proposta de fazer um faroeste tradicional, o diretor admite que o resultado foi algo nunca visto por ele até hoje nos cinemas. VÊ:

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Arrependimentos da infância*

Eu quero voltar a ser criança! Chega de responsabilidades. Chega de trabalho. Vou pegar o relógio do tempo, atrasar alguns anos e jogar as pilhas no mato. Vou voltar à época em que comia sucrilhos de manhã assistindo Pica-pau, Tom & Jerry, Ursinhos Carinhosos e Fantástico Mundo de Bob.

Só que, dessa vez, tudo vai ser diferente. Vou fazer todas as lições de casa, prometo mãe. Não vou jogar bola no corredor e assim manchar as paredes. Nem videogame a madrugada inteira para depois, no outro dia, colocar alho debaixo do braço, simular uma febre e assim não ir à aula. Eu prometo pai. De terça e quinta, darei o sangue na escolinha de futsal. Quem sabe, no próximo jogo, eu consiga vaga no time titular. De quarta e sexta, vou sorrindo para as aulas de natação, sem reclamar do cloro da água. Prometo a vocês.

No colégio, vou tomar coragem e entregar aquela cartinha de amor, em que tanto me dediquei caçando palavras difíceis no dicionário, para a Gabriela, minha primeira namorada. Assim, acho que terei mais chances de não ser trocado por um moleque três anos mais velho do que eu.

Sei como deve se sentir, professora Roseli. Um aluno igual a mim, que até tira notas e até faz umas redações legais, não deveria bagunçar no fundão da sala. Saiba que isso não se repetirá. Sentarei na primeira carteira e não vou desperdiçar folhas de caderno com bolinhas e aviõezinhos.

Juliana, minha querida irmãzinha, pode ficar despreocupada. Nunca mais vou mexer nas suas coisas. Mas, só uma pergunta: quem é Alexandre que te mandou um cartão apaixonado?

Poxa vó! Fico tanto tempo sem ver a senhora e quando chego em sua casa, só quero saber de tomar seu iogurte caseiro e brincar com os primos de balança caixão na lajota. Isso não está certo. Senta aqui do meu lado. Conta para mim como foi que você conheceu o vô. Ele sempre foi bravo assim? Aposto que se encantou pelos olhos verdes dele.

Mãe, dessa vez, nem toquei na lata de leite condensado para fazer brigadeiro no microondas. Pode preparar seu bolo tranquila. Mas, posso rapar a panela que a senhora utilizou para fazer a cobertura, pelo menos?

Poxa mãe, o bolo é pra mim! Só porque é o Dia das Crianças! Não precisava. Até presente você comprou! É muita bondade sua! Obrigado! Mas, espera um pouco: o que eu vou fazer com um este monte de pilhas recarregáveis que você me deu? Está bem. Já sei. Vou botar pra funcionar o relógio do tempo de novo. Afinal, você tem razão, ninguém merece uma criança tão sem graça como eu.

*Crônica narrada em homenagem ao Dia das Crianças no dia 11 de outubro de 2008, no programa RUC Revista, da RUC FM (94,3)

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