Mês: dezembro 2012



Estrelinha de Jesus Cristo

O telefone toca de madrugada. A notícia ruim que vem em meio à escuridão de um quarto cheio de fantasmas. A voz é firme e parece de gente que tem o dever de anunciar a morte. A morte anunciada. A vida que pode se transformar na crônica de uma morte anunciada. Os bons morrem jovens, é o que diz a música, ou o ditado, ou sei lá o quê. Tenho minhas dúvidas. Os bons morrem a toda hora. Todo mundo morre a todo instante. A morte que resulta em lágrimas, nostalgia, saudade daquilo que ainda nem foi vivido, corpo judiado pelo impacto, alma que se esvai, corpo que fica, debaixo da terra.

Além de todas as lembranças com aquele que morreu, o barulho do caixão sendo arrastado no chão e os punhados de terra arremessados para dentro da cova costumam ficar guardados na memória para sempre. O beijo da filha no corpo que se despede, a mesma criança que acredita que o pai se tornou uma estrelinha de Jesus Cristo, também é uma imagem marcante. Os seres humanos, incapazes de lidar friamente com despedidas eternas, costumam ficar marcados com os cercamentos da morte e de todos seus rituais.

É como um filme de terror, só que de verdade. As imagens, em flashes de pensamentos turvos, são intermitentes na cabeça. A imaginação do inimaginável. A colisão violenta, vida que se vai como um sopro, metais retorcidos, vidros quebrados, roupas rasgadas e ensanguentadas, ossos quebrando, peles gastando e uma dor incalculável para quem não morreu e que agora precisa velar e enterrar um corpo maltratado pela insanidade resultante dos mais absurdos dos acontecimentos: um trágico acidente de trânsito.

Ninguém nasceu para morrer em um acidente. Carros e motos são armas de destruição em massa na guerra violenta do trânsito em rodovias, estradas, ruas e avenidas. Ninguém nasceu para viver tão pouco. Ninguém merece as complicações psicológicas acontecidas depois da morte trágica do filho, do pai, do amigo. Olha o que fizeram com o menino! Olha como deixaram o menino! Para quê, meu Deus, tamanha violência com aquele que ainda tinha a existência?

Fizeram a barba dele para o velório. Colocaram uma camisa listrada bonita. E ele descansa deitado, confortavelmente em meio às flores, em meio aos entes queridos. Nunca mais vamos saber da existência dele, pelo menos não aqui na Terra. Ele não comemorou o Natal. Não vai brindar na virada de ano. Fazia um vento estranho somente na rua da capela mortuária. Na manhã do enterro, um dia exageradamente claro, fez sol e calor. Rosas foram jogadas. O caixão foi enterrado. Todos deram as costas e se dirigiram rumo ao grande portão do cemitério. Quem não morreu ainda precisa continuar vivendo. Os anos vão se passar e só em datas especiais algumas pessoas vão retornar ao cemitério para ver o jazigo. Isso pouco importa. Para ela (o seu maior feito em vida), agora seu pai é uma estrelinha de Jesus Cristo. E ninguém aqui na Terra pode mudar isso.

*Crônica publicada nesta quinta-feira (27), no caderno D+, do Diário de Maringá

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Deixa ser como será

Ideias norteiam as pessoas por toda a vida. A gente idealiza para, na real, ter motivações em continuar buscando algo novo. Idealizamos uma caixa fechada inteirinha de chicletes quando criança pensando que alcançaríamos a felicidade plena ao receber das mãos do avô aquela quantidade insana de guloseima, ainda na caixa, ainda sem abrir, com aquele mágico e encantador plastiquinho que envolve tudo o que é novo, tudo o que ainda não foi usado, tudo o que sempre sonhamos.

Uma das primeiras sensações sentidas por nós, pode ter certeza, é a decepção. Até os mais mimados são decepcionados já na primeira infância. Só que nos tempos de moleque dá para se esquecer rapidamente das baixas da vida. Há sempre um novo jogo para jogar, um brinquedo para quebrar, um chocolate para comer. E tudo fica bem. Com o passar das décadas, as decepções do ser humano tendem a se tornarem mais sérias, mais doloridas, mais desastrosas. Encaramos, ou pelo menos deveríamos encarar a realidade, que costuma ser foda: não conseguimos passar no vestibular desejado, não conseguimos ser aprovado no teste seletivo do emprego almejado, não conseguimos a paz sonhada no lar e nos trampos da vida. Ah, não conseguimos um monte de coisas.

Conseguimos outros tanto de coisas bacanas, é verdade. Mas as decepções parecem marcar mais, calejar o peão de maneira mais aguda.

Mesmo com tanta decepção por aí afora, é bacana também quando conseguimos emplacar vitórias. Ao final de algo exitoso, o ciclo sendo fechado quase sempre é digno de comemoração, de festa, de brindes. É preciso sim seguir em frente, mas, particularmente esta noite, deixemos nos levar pela dança, pela alegria da música, pela sensação de que “só mais uma noite”.

Comemorar também faz parte e, embora sempre tenha recusado fazer bailes de formatura e outros festejos mais quando finalizava etapas de estudos, hoje quero que esta noite seja linda e amplamente aproveitada por uma linda garota que se forma no Ensino Médio. A menina mais bonita, com o vestido mais bonito, com o sorriso mais belo, hoje me dará a honra de ser seu padrinho na noite de gala.

Dançaremos valsa, tomaremos espumantes, gastaremos risadas desnecessariamente. Ouviremos o funk, o pagode e o sertanejo como se fossem Bach e Beethoven. Farei vistas grossas para as várias princesas que resolverem abdicarem dos sapatinhos para sujarem seus pés (detesto) no meio do salão para pular e requebrar. “Só mais uma noite”, deixe estar.

Aliás, “Deixa ser, como será”, como diz no início do refrão de uma das mais belas canções dos Los Hermanos “Retrato Pra Iaiá” – música, aliás, escolhida pela menina bonita para tocar quando seu nome for anunciado e finalmente invadirmos o recinto, aguardando o começo da valsa, todos felizes por sua conquista.

Deixemos ser como será; para quando a gente se encontrar; pode ser a pé, pode ser com um céu de um parque a nos testemunhar; nada disso importa. Vamos apenas nos lembrar das datas felizes, guardá-las no coração porque, sinto informar princesa, as decepções continuarão acontecendo em sua vida, os desafios serão ainda maiores daqui para frente, mas, enfim, vamos sem nos preocupar, tudo está posto em seu lugar, não adianta tentar prever para se enganar, é dia de deixar estar.

A moldura, minha linda, deve ser clara e simples. É o que está dentro o quê realmente importa. Deixa ser como será!

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Coisas de dezembro

Saí distraído de casa na noite da quinta-feira passada. Parecia ser uma noite qualquer, tirando o calor sobrenatural que fazia por entre ruas e árvores de Maringá. Um ou dois quarteirões avançados com o carro, logo alguma coisa começava a me dizer que, pensando bem, aquela não seria uma noite de quinta-feira qualquer. Havia magia, cores sobressalentes e até mesmo um fundo nostálgico no ar. Coisas de dezembro.

Já na Avenida Brasil, percebo um movimento atípico de pessoas. Tinha mais gente na rua, mesmo depois de o sol ter sido desligado naquele dia. Farmácias mais cheias, e não de gente comprando remédio e sim aproveitando aquele comércio noturno para catar mais uma lata de refrigerante ou garrafinha com água na geladeira do estabelecimento. Pessoas na calçada gastam chinelos, tênis e sandálias. De dentro do carro, é preciso parar nas faixas de pedestres e esperar a paralisação do tráfego depois de algum motorista ter resolvido fazer meia volta na avenida se utilizando do estacionamento na espinha de peixe. Naquela quinta-feira, devo ter demorado dez minutos a mais para chegar onde queria ter chegado. Sem estresse. Estamos em dezembro.

Comecei a entender que aquela não seria uma quinta-feira qualquer, ainda na Avenida Brasil, quando presenciei, no fluxo contrário, ao lado das Lojas Pernambucanas, um comboio viabilizando um buzinaço. Nenhum protesto. Diferentemente do que acontece atualmente lá na Argentina, Maringá e o Brasil estão neutralizadamente em paz. Eram os vários caminhões da Coca-Cola pedindo para a gente acreditar na magia. As magias de dezembro.

Instantes depois, em meio a uma agradável partida de futsal, ouço, ao longe, fogos de artifício. Inicialmente, tardo a conseguir uma referência. O Brasileirão acabou, pensei. O período eleitoral também já ficou para trás, lembrei. Mas logo obtenho conclusões acertadas: era dezembro, era preciso acreditar na magia, estava calor, as farmácias vendiam matadores de sede em vez de remédios – as doenças foram esquecidas –, os chinelos e pneus eram gastos no asfalto quente e a família maringaense estava reunida, vivendo, curtindo a cidade, deixando-se levar pela magia dos caminhões de refrigerante e, pelo menos na noite daquela quinta-feira, muita gente trocou a novela e o Facebook para viver a magia do Natal e aguardar a chegada do Papai Noel na praça da Catedral. Os milagres de dezembro.

Juro que tinha me esquecido deste detalhe – a da chegada do Papai Noel – e, estranhamente naquela noite de quinta-feira, como nunca tinha feito em todos retornos para a casa após o futebol, resolvo voltar pela Avenida Tiradentes e não pela Avenida Brasil. Já ali na altura do Colégio Marista, esquina com a Paraná, sou membro ativo de um trânsito incomum, daqueles que, ao ver o semáforo abrir e fechar quatro ou cinco vezes, poderia fazer o motorista xingar o Papai Noel de velho gordo e safado. Mas não. É preciso acreditar na magia. Fenômenos de dezembro.

Ao meu lado, dentro de um carro considerado conceito de design pela montadora sul-coreana, um sujeito bem vestido ouve em volume alto uma narração de rodeio. Que coisa estranha. Atrapalha o Bob Dylan que sai das pequenas caixas de som laterais do meu pequeno carro. Mas não tem problema. Melhor do que ouvir, é ver a magia da noite daquela quinta-feira de dezembro. A criança segurando o enorme balão da Minnie Mouse no banco de trás de um carro velho; a moça das pernas bonitas aproveitando o movimento para vender coisas que brilham no escuro, incluindo uma tiara com laço para se colocar na cabeça e que se parece com o laço da Minnie; motoristas milagrosamente dando a vez para quem está saindo com seu carro da praça da Catedral; cidadãos armados com seus latões de variadas marcas de cerveja da Ambev à paisana, sem aparentes conflitos; o cartaz colorido do X-Frango, X-Bacon e outros gigantescos lanches que sempre são mais gostosos na imaginação fértil da fome do que quando realmente está se mordendo aquele pedaço de pão exageradamente recheado; a namorada feliz se apropriando de parte do sorvete de casquinha do namorado; mulheres recolhendo seus colchonetes que protegeram toda família da sujeira da terra e do perigo das formigas enquanto aguardavam muito confortavelmente a chegada do Papai Noel sentados na grama; gente nem se importando que amanhã ainda seria sexta-feira e deixando-se levar pela magia, acreditando nesta magia e, certamente, retornando aos lares menos angustiadas, talvez até refletindo sobre a possibilidade de se ter momentos felizes ao lado da família, numa noite quente de quinta-feira, esperando o Papai Noel chegar.

Bom seria se tudo isso não fosse apenas coisas que acontecem em dezembro.

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Prêmio de literatura e selo editorial Biblioteca Paraná

Por Agência Estadual de Notícias

O Prêmio Paraná de Literatura 2012 foi entregue na manhã desta terça-feira (11), no auditório Paul Garfunkel, na Biblioteca Pública do Paraná. Alexandre Vidal Porto, Lila Maia e José Roberto Torero foram os vencedores, nas categorias romance, poesia e conto. A publicação dos três livros vencedores marca o início do selo editorial Biblioteca Paraná, que vai editar obras de autores nascidos ou radicados no Estado, além de reeditar títulos relevantes que estejam esgotados ou fora de catálogo.

As obras vencedoras são “Sérgio Y. vai à América”, de Alexandre Vidal Porto; “As maçãs de antes”, de Lila Maia, e “Panis et circenses”, de José Roberto Torero. Cada autor recebeu 100 exemplares de seu livro, que teve tiragem de mil. O restante será distribuído para bibliotecas do Paraná e de outros estados.

O diretor da Biblioteca Pública, Rogério Pereira, explicou que o Prêmio Paraná de Literatura 2012 surge em um momento de valorização e discussão do livro e leitura no país. “A leitura está sendo discutida como nunca e o prêmio integra esse contexto”, afirmou Pereira.

O diretor lembrou que, no passado, o Paraná promoveu o Concurso Nacional de Contos, que teve grande repercussão e que valorizou o talento de grandes nomes, como Dalton Trevisan, Clarice Lispector, João Antônio e Luiz Vilela. “Queremos recuperar a importância desse prêmio, que já foi referência nacional”, completou Pereira. Também participou da cerimônia a diretora-geral da Secretaria de Estado da Cultura, Valéria Marques Teixeira.

Premiados
Devido a compromissos profissionais, José Roberto Torero viajou ao Japão para acompanhar a Copa do Mundo de Clubes. Sua esposa, Maria Rita Torero, recebeu o prêmio em seu lugar, na categoria contos. Ela afirmou que o livro surgiu durante a viagem do casal, em 2011. Em lua de mel, eles estavam em Firenze, na Itália. Torero foi até uma livraria, onde comprou uma caderneta que o estimulou literariamente. “Ele disse que iria escrever um grande livro nesta caderneta, o que resultou em Panis et circenses”, contou Maria Rita.

Alexandre Vidal Porto é embaixador em Tóquio e veio a Curitiba especialmente para a solenidade. “Um autor nunca sabe se a obra que escreveu é de fato boa. Vencer um prêmio em que todos se inscrevem com pseudônimo e que conta com o aval de uma comissão tão admirável, é realmente uma honra, e representa um grande estímulo”, disse Vidal Porto.

A maranhense radicada no Rio de Janeiro Lila Maia, que venceu na categoria poesia, disse que escreveu As maçãs de antes há três anos e tinha muita esperança que o livro viesse a ser publicado. “Mas nem sonhava que poderia vencer um prêmio tão importante como este. Minha vida muda a partir de agora”, afirmou Lila.

Prêmio
O Prêmio Paraná de Literatura foi criado este ano com o objetivo de valorizar e fortalecer a produção literária brasileira contemporânea. Em sua primeira edição, o concurso selecionou obras inéditas, de autores de todo o Brasil, em três categorias que homenageiam figuras importantes da literatura paranaense: Romance (prêmio Manoel Carlos Karam), Contos (prêmio Newton Sampaio) e Poesia (prêmio Helena Kolody). Cerca de 900 trabalhos foram inscritos e analisados por uma comissão julgadora que definiu um vencedor em cada categoria.

As obras foram avaliadas pelo júri formado por três membros em cada categoria. José Castello, João Cezar de Castro Rocha e Luiz Ruffato foram os jurados da categoria Romance. Marçal Aquino, Rodrigo Lacerda e Caetano Galindo escolheram o melhor livro de contos. Heloisa Buarque de Hollanda, Miguel Sanches Neto e Antonio Carlos Secchin analisaram as obras de poesia.

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Cheiro de terra molhada

Uma forte sensação de abandono. Todos sumiram. Tinham outros afazeres. Uns precisaram morrer. Outro queriam viver mais intensamente. Uma forte chuva caiu, mas, de dentro daquele pequeno apartamento na Rua K., ela nem pôde ver o movimento das águas, nem mesmo sentir o cheiro da terra. Tudo parecia tão distante do alto daquele oitavo andar. Todos estão distantes. Se tudo isso tivesse acontecido há, sei lá, uns quatro anos, reflete ela, certamente botaria tudo a perder. Mas hoje não. Agora não. Talvez não, nunca mais. Passou a acreditar em propósitos. Levou a sério aquela história de se escrever certo por linhas tortas. A maior provação? O afastamento das pessoas. A maior alegria? Ana, a pequena filha de sete meses e meio. Junto dela, pode cair o mundo em águas, e as pessoas podem se mudar até de país. Enquanto prepara a mamadeira na cozinha, olhando para os miúdos olhos abertos e suaves de Ana, ela se deixa levar pelo pensamento e sente uma nostalgia ao contrário, uma já saudade do que nem aconteceu: pensa com carinho no dia em que, depois de uma torrencial chuva e chegada do sol, levará a sua filha até lá fora para explicar que aquele cheiro é cheiro de terra molhada.

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Sobre velhice, amor e Portugal

“A Máquina de Fazer Espanhóis” (editora Cosac Naify, R$ 39, 256 páginas) foi o segundo romance de Valter Hugo Mãe a chegar no Brasil. Primeiro veio o excelente “O Remorso de Baltazar Serapião” (editora 34, 197 páginas, R$ 37), vencedor do Prêmio José Saramago de melhor romance em 2007 e que encantou o próprio Saramago, que definiu o livro como sendo um “tsunami linguístico, semântico e sintático”.

O Nobel de Literatura e autor de “Ensaio Sobre a Cegueira” tinha razão: o primeiro romance de Mãe que chegou nas mãos dos brasileiros é arrebatador porque conseguiu unir, em uma obra só, estilos semelhantes a três grandes imortais da literatura universal. “O Remorso de Baltazar Serapião” tem um rico e original texto aproximado do próprio Saramago, tem a musicalidade da prosa de Guimarães Rosa e a genialidade ao descrever o absurdo quase indescritível semelhante ao que fez Gabriel García Márquez.

Por tudo isso, a expectativa dos leitores foi grande com a chegada de “A Máquina de Fazer Espanhóis”, o grande vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura deste ano. A obra não pode ser considerada ruim, mas, obviamente, seria mesmo difícil que se aproximasse do outro romance de Mãe. Para levantar questões envolvendo a história política e os costumes do povo português, como exemplo a antiga rivalidade entre os times de futebol Benfica e Porto, o escritor narra a trajetória de António Jorge da Silva, um barbeiro de 84 anos que, depois de perder a mulher, passa a viver em um asilo.

As ironias do protagonista referentes aos inúmeros problemas que chegam com a velhice dão a mescla entre humor e drama que envolve os habitantes do chamado Lar da Feliz Idade, o nome do asilo onde António se instala e motivo para as mais variadas formas de rabugices. “o lar da feliz idade, assim se chama o matadouro onde fui metido. que irónico nome e só então me ocupava o pensamento”, diz António, que narra em primeira pessoa a história.

As mais instigantes histórias passadas no Lar da Feliz Idade e as reminiscências de cada um daqueles velhinhos tornam, a princípio, o romance descompromissado, uma boa leitura aprazível e engraçada: são os fantasmas que visitam os velhinhos de noite, as brincadeiras na roda de amigos, as suposições que os idosos fazem sobre o passado da fanática torcedora do Porto dona Leopoldina e as incríveis histórias envolvendo o centenário Esteves sem Metáfisica – um dos moradores mais antigos e que jura ter sido a inspiração para o poeta Fernando Pessoa ter escrito o belo poema “Tabacaria”.

Mas não é só isso. “A Máquina de Fazer Espanhóis” é, a princípio, uma reflexão sobre o que é o amor na terceira idade e sobre a falta, praticamente desumana, que uma companheira ou companheiro faz para alguém de idade na altura da morte. É também, principalmente, uma reflexão sobre a consequência da ditadura salazarista em toda uma geração de portugueses, pessimista e que se sente desvalorizada quando comparada a outros países europeus, como a Espanha.

Pela boa história, o romance merece ser lido. E pelo impecável projeto gráfico desenvolvido pela edição da Cosac Naify, o livro merece ser adquirido. Além da capa – a pintura “Pássaros Negros” desenhada pelo escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli – o livro contou com um acabamento todo especial, com alinhamento, formato, fonte e separações de capítulos diferenciados.

Em “A Máquina de Fazer Espanhóis”, Valter Hugo Mãe mantém-se fiel ao artifício formal de sua tetralogia que diz ser sobre as quatro idades do homem – composta ainda por “Nosso Reino (2004), “O Remorso de Baltazar Serapião” (2006) e “O Apocalipse dos Trabalhadores” (2008), preferindo não usar maiúsculas, nem mesmo em seu próprio nome e títulos da obra. Recentemente, o escritor comunicou que deixaria de fazer isso porque, segundo ele, cansou de ter de explicar o motivo pelo qual só escrevia em minúsculas. Em “O Filho de Mil Homens”, novo romance de Mãe lançado em abril deste ano pela Cosac Naify, as maiúsculas estão lá.

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Com belo texto, Chico Buarque faz homenagem a Niemeyer

Por Chico Buarque

“A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar.

Mais tarde, em um aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.

Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar!

Pois bem, internaram-me em um ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo.

Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.

Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar”. – texto de Chico Buarque, em homenagem ao arquiteto Oscar Niemeyer.

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