Estrelinha de Jesus Cristo

O telefone toca de madrugada. A notícia ruim que vem em meio à escuridão de um quarto cheio de fantasmas. A voz é firme e parece de gente que tem o dever de anunciar a morte. A morte anunciada. A vida que pode se transformar na crônica de uma morte anunciada. Os bons morrem jovens, é o que diz a música, ou o ditado, ou sei lá o quê. Tenho minhas dúvidas. Os bons morrem a toda hora. Todo mundo morre a todo instante. A morte que resulta em lágrimas, nostalgia, saudade daquilo que ainda nem foi vivido, corpo judiado pelo impacto, alma que se esvai, corpo que fica, debaixo da terra.

Além de todas as lembranças com aquele que morreu, o barulho do caixão sendo arrastado no chão e os punhados de terra arremessados para dentro da cova costumam ficar guardados na memória para sempre. O beijo da filha no corpo que se despede, a mesma criança que acredita que o pai se tornou uma estrelinha de Jesus Cristo, também é uma imagem marcante. Os seres humanos, incapazes de lidar friamente com despedidas eternas, costumam ficar marcados com os cercamentos da morte e de todos seus rituais.

É como um filme de terror, só que de verdade. As imagens, em flashes de pensamentos turvos, são intermitentes na cabeça. A imaginação do inimaginável. A colisão violenta, vida que se vai como um sopro, metais retorcidos, vidros quebrados, roupas rasgadas e ensanguentadas, ossos quebrando, peles gastando e uma dor incalculável para quem não morreu e que agora precisa velar e enterrar um corpo maltratado pela insanidade resultante dos mais absurdos dos acontecimentos: um trágico acidente de trânsito.

Ninguém nasceu para morrer em um acidente. Carros e motos são armas de destruição em massa na guerra violenta do trânsito em rodovias, estradas, ruas e avenidas. Ninguém nasceu para viver tão pouco. Ninguém merece as complicações psicológicas acontecidas depois da morte trágica do filho, do pai, do amigo. Olha o que fizeram com o menino! Olha como deixaram o menino! Para quê, meu Deus, tamanha violência com aquele que ainda tinha a existência?

Fizeram a barba dele para o velório. Colocaram uma camisa listrada bonita. E ele descansa deitado, confortavelmente em meio às flores, em meio aos entes queridos. Nunca mais vamos saber da existência dele, pelo menos não aqui na Terra. Ele não comemorou o Natal. Não vai brindar na virada de ano. Fazia um vento estranho somente na rua da capela mortuária. Na manhã do enterro, um dia exageradamente claro, fez sol e calor. Rosas foram jogadas. O caixão foi enterrado. Todos deram as costas e se dirigiram rumo ao grande portão do cemitério. Quem não morreu ainda precisa continuar vivendo. Os anos vão se passar e só em datas especiais algumas pessoas vão retornar ao cemitério para ver o jazigo. Isso pouco importa. Para ela (o seu maior feito em vida), agora seu pai é uma estrelinha de Jesus Cristo. E ninguém aqui na Terra pode mudar isso.

*Crônica publicada nesta quinta-feira (27), no caderno D+, do Diário de Maringá

2 comentários sobre “Estrelinha de Jesus Cristo

  1. Léslier Maria Pelegrini 27 de dezembro de 2012 22:46

    Muito lindo… muito triste… tristemente lindo… e real!!!

  2. Taimara 4 de janeiro de 2013 19:56

    E por um momento todos os sonhos são destruídos, as esperanças acabam e para nós que continuamos aqui, para nós que ainda não nos tornamos “uma estrelinha de Jesus Cristo”, só resta um caminho: seguir em frente, por mais dor que isso cause, até o momento em que também nos tornaremos uma estrela, aos olhos de alguns.

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