Mês: janeiro 2013



Cara de vagabundo

Indagações ocorridas no cotidiano. Desconcertantes, às vezes. O jovem perguntou assim para mim: “Eu tenho cara de vagabundo?” Eu apenas fabriquei um sorriso. Sábado ensolarado, quase horário de almoço dentro de um supermercado lotado no Jardim Novo Horizonte, Maringá. Tudo tão certo. Sábado. Sol. Pós-feriado. Dia de descansar, comprar um pé de alface para o almoço e uma lembrancinha atrasada para a sobrinha. Tudo certo, tudo óbvio, e o jovem me pergunta se ele tem cara de vagabundo. Nada tão óbvio.

Aguardando a mocinha embrulhar muito porcamente a bola de plástico da Galinha Pintadinha que comprei, um jovem, o que me perguntou depois se tinha cara de vagabundo, tenta puxar conversa com a embrulhadora de bolas de plástico do supermercado. Ele é simpático. A menina – agora reparo, está com um All Star vermelho cano alto – parece estar gostando do papo dele, enquanto embrulha lamentavelmente uma simples bola laranja de plástico.

Um calor danado. A calça jeans não foi uma boa opção para aquela manhã de sábado. Olho para o cardápio do restaurante chinês recentemente instalado no supermercado. Porção de frango a R$ 10, para levar; quase levo para o almoço, mas fiquei pensando que poderia demorar uns bons bocados de minutos no embrulho para viagem, tal qual a demora da menina que se debate no exercício de embrulhar uma bola enquanto divide sua atenção papeando com o garoto.

Olho mais uma vez para o empenho hercúleo da menina com papel de presente cinza em uma das mãos, fita adesiva em outra e uma bola de plástico da Galinha Pintadinha em cima do balcão. Percebo que posso estar atrapalhando uma iniciação de paquera entre a garota dos tênis vermelhos e o jovem conversador. Então me distancio, pelo menos no olhar. Tento imaginar o que seria um rosto que denuncia o sujeito como sendo um vagabundo completo. Poderia pensar que muitos dos políticos do nosso País são vagabundos. Mas a barba feita, o cabelo alinhado e as marcas de expressões de uma vida dedicada às “causas” dizem pressupostamente que o cidadão do terno não é vagabundo, não. Quem vê cara, não vê vagabundagem, eu diria. Um vagabundo é quem vaga por aí, quem não trabalha e ainda necessita do trabalho de outras pessoas para poder vagar. Tem gente que não tem trabalho e simplesmente não é vagabundo, traçou como ideal para sua vida o ato de não trabalhar. Um andarilho, por exemplo. Mas o jovem ao meu lado, diria um senhor conservador, uma senhora de classe média alta, tem sim cara de vagabundo. O que são esses brincos, esse cabelo e, meu Deus, esse sorriso na cara?! Olha o seu tamanho, rapaz! Tem força para pegar no pesado, diriam os práticos.

E eu não disse nada, apenas sorri. Não sei lidar com essas indagações cotidianas envolvendo estranhos. Sinto-me ultrajado quando acontece esse tipo de coisa. Fico sem reação. Então, sorrio. Mas, sério, se o rapaz pudesse ler esse texto agora, eu diria para ele: “Você, meu jovem, não tem cara de vagabundo. E não é porque a garota dos tênis vermelhos está provocando sua ira, em um jogo imbecil de paquera, desmerecendo a dificuldade sua em arrumar um emprego, em terminar o supletivo, que você precisa se sentir humilhado. Afinal, nem a porcaria da bola de plástico a ‘funcionária’, que tem carteira registrada e nunca será chamada de vagabunda, sabe embrulhar para presente.”

Peguei minha alface, minha bola em um papel todo amassado e saí do supermercado sentindo cheiro de frango frito. Olhei para trás: e o besta ainda continuava meio que de queixo caído se derretendo pela menina dos tênis vermelhos, com os cotovelos ancorados no balcão de embrulhos para presentes. Vagabundo, que nada. O rapazote tem cara é de apaixonado mesmo.

*Crônica publicada no domingo (27), no caderno D+, do Diário de Maringá

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Em Santa Maria, domingo deveria ser dia de viver

O Brasil perde uma parte da sua juventude. Dos mais de 200 mortos encurralados dentro de uma boate em chamas em Santa Maria-RS, muitos deviam estar se preparando para o primeiro ano na faculdade. Inúmeros destes que perderam a vida deviam ser recém-formados, recém-chegados ao ignorante mercado de trabalho. Vários desses jovens que não tiveram mais chances de viver, é bem certo, estavam no meio de um curso de Medicina, Direito, Jornalismo, Odontologia etc.

Mas pode soar frio de minha parte dizer que perdemos um batalhão de mão de obra jovem e qualificada. Seria pensar demais na economia do País e menos naquelas vidas perdidas. Cada vida tinha uma história. Cada jovem tinha pais, amigos, primos e até desafetos. Todos que conhecem algum daqueles jovens perdem uma parte de uma história que foi interrompida em uma malfadada madrugada de domingo, em que todos só queriam se divertir, paquerar, tomar umas bebidas, dançar, dar risadas com os amigos, curtir uma noite na Kiss.

A morte veio para beijá-los. E o beijo da juventude é tão doce. Soa como injustiça.

Ninguém poderá entender, em vida, a morte. Ainda mais quando são mais de 200 vidas, de jovens que deveriam, neste triste domingo de verão, estarem “apenas” vivendo: caras emburradas em um almoço dominical, frango macarrão, pais e irmãos; um simples miojo com restos de uma carne de ontem na república estudantil; passeios no parque ao lado dele ou dela, sorvete, coca-cola, água mineral; sono profundo e uma sede incontrolável, talvez Gatorade talvez jarra de água bebendo no bico mesmo e a expectativa para mais uma rodada de futebol na TV; leituras daquele texto em xerox, afinal a data para a entrega do artigo do mestrado está aí; vontade de ficar quietinho depois de um banho quente, xícara de café e uma espécie de resguardo para a segunda-feira braba não ser tão dificultosa na repartição do trabalho; dia de lavar roupas, de visitar o filho ainda bebê na casa da mãe dele, de brincar com cachorros e gatos, de ver a avó internada no hospital, de ver aquele filme baixado na internet, de ir ao cinema assistir ao grande longa indicado ao Oscar, de catar a bike para queimar umas calorias na ciclovia da cidade, dia de ver o mar, quem sabe, de ver o sol, de ver a chuva que vem vindo, dia de ligar para a irmã que está longe e com saudades, dia de pensar no pai que morreu há alguns anos e que, em sua tentativa imagética consoladora, tornou-se uma estrela que você pode ver quando vai na janela da sala do seu apartamento e olha para o lado esquerdo em direção ao céu, dia de perguntar para sua mãe se as aulas já voltaram e como estão agora as coisas em sua casa nova.

Dia de viver. Em Santa Maria, para esses jovens, domingo deveria ser dia de viver.

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Tom Cruise como “Jack Reacher”: bom passatempo

Tom Cruise, 50 anos, retorna aos cinemas estrelando e produzindo em “Jack Reacher – O Último Tiro”, filme que estreia hoje em Maringá. Mesmo com suas 2h10min de duração, graças a um roteiro bem amarrado e adaptado do best-seller “O Último Tiro” do britânico Lee Child, o longa-metragem consegue prender a atenção do início ao fim. Um bom passatempo para um começo de ano e toda sua paradeira.

Logo nas primeiras cenas, tensão: um atirador de elite extermina cinco pessoas em um local público e um veterano de guerra é acusado pelos assassinatos sem muita chance de defesa. Durante o interrogatório, ele cita, escrevendo em letras garrafais numa folha de papel, apenas o nome de Jack Reacher (Tom Cruise), ex-combatente com passado brilhante mas que resolveu seguir seu próprio caminho, considerado desaparecido para o governo. Com a repercussão do caso, ele reaparece e, ao lado da advogada Helen (Rosamund Pike) tentará descobrir os verdadeiros culpados da matança e, sem paciência, sair castigando os culpados com o punho fechado.

Declarado como sendo um filme sem muitas ambições pelo próprio Cruise, que afirmou ser “Jack Reacher” “puro entretenimento”, algumas sequências destoam dos velhos e óbvios filmes de ação. De maneira muito superficial, é verdade, discussões relacionadas à pena de morte, à liberdade, à alienação do sistema trabalhista vigente, às lacunas da Justiça e à paixão norte-americana por armas e tiros enriquecem o enredo. Nada que se aproxime de um “A Vida de David Gale”, por exemplo.

Também interessante no filme, mas sem ter recebido tanta atenção (afinal, o que vale mesmo é a ação das brigas e das trocas de tiros), são as costuras de histórias envolvendo as vítimas do atirador, mostrando os dois possíveis lados da trajetória de cada um (o homem assassinado sentado no banco ao lado de um buquê de rosas levaria as flores para a mulher após mais uma briga do casal ou para a amante que estava chegando no local e que também foi alvejada?). Apenas mais um argumento para comprovar que, elementar meu caro, a versão mais realista de Jack Reacher está correta frente à versão mais romântica da bela Helen.

Mas, sim: no longa, como manda o figurino, tem também perseguição alucinante com carros (sendo um amante de bons carros, Cruise escolheu Camaros invejáveis para as cenas) a toda velocidade, um protagonista herói que espanca cinco caras ao mesmo tempo, um investigador policial suspeito, um protagonista que acredita na justiça com as próprias mãos e uma linda loira que tem calafrios pensando em beijos quentes com Reacher, e que precisa, no final, ser salva pelo mocinho.

Feitos absurdos do herói também não poderiam faltar: além de ser craque em artes marciais e tiro, o ex-militar protagonizado por Cruise tem um senso de investigador para nenhum Sherlock ou trupe de CSIs colocarem defeito. Tudo a favor de um final feliz, claro. Algumas cenas engraçadas, como quando dois brutamontes se enroscam na porta do pequeno banheiro na vã tentativa de matar o invencível Reacher, também dão um tempero leve ao filme. Quem esperava, porém, que a estonteante advogada Helen contribuísse mais com cenas picantes ao lado do galã Cruise, decepcionou-se. Jack Reacher não se deixa levar pela emoção.

Ponto alto do filme é a atuação do veterano ator Robert Duvall, eternizado na década de 1970 como Tom Hagen, advogado querido de Don Corleone em “O Poderoso Chefão” e também em “Apocalipse Now”. Proprietário de um clube de tiros, seu papel, já no desfecho do longa, serve como contraponto bem humorado para as cenas tensas finais. Pareceu ter sido encaixado no filme, acima de tudo, mais como uma retribuição do bom amigo Cruise, com o qual não trabalhava desde “Dias de Trovão”, há 22 anos.

EM CARTAZ

Filme: “Jack Reacher – O Último Tiro”

Gênero: Ação

Direção: Chiristopher McQuarrie

Duração: 2h10min

Classificação: 14 anos

*Resenha originalmente publicada no caderno D+, do Diário de Maringá

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Rubem Braga: crônicas de caráter

Com as entrevistas que coletei para produzir a reportagem sobre o centenário de Rubem Braga, comemorado sábado passado (12), pude conhecer outros lados, muitíssimos interessantes, diga-se, do Velho Braga, que, para mim, um leitor doentio de crônicas e que tento me arriscar também nesse gênero literário, é o maior de todos, o que conseguiu nas poucas linhas de uma crônica transmitir prosa refinada, sensibilidade poética e sempre algo marcante para mim, coisa que não conseguia explicar direito quando discorria com amigos sobre o eterno filho de Cachoeiro do Itapemirim-ES.

Graças à bela entrevista concedida por Augusto Massi, 54 anos, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, pude conseguir traduzir em palavras, definidas pelo entrevistado, o que talvez sempre quis dizer sobre a obra de Rubem Braga. No trecho a seguir, Massi, que é o organizador do livro “Retratos Parisienses”, com 31 crônicas do Velho Braga inéditas em livro e que deverá ser lançado no próximo mês pela José Olympio, disse tudo o que um dia eu queria ter dito: “Rubem Braga é uma espécie de reserva ética. Suas crônicas têm caráter. Ao mesmo tempo, dentre todos os nossos escritores é um dos que tem maior senso da beleza. Trata-se de um prosa de voltagem poética.” Leia a entrevista completa:

Qual sua relação com a obra de Rubem Braga?

Augusto Massi – A mais civilizada possível: sempre fui um leitor. De uns cinco anos pra cá passei a condição de pesquisador neurótico e estudioso nervoso de sua obra. Vou ter que fazer análise por muitos anos.

Como foi a temporada de Rubem Braga na Europa como correspondente e que resultou em vários textos, reunidos em “Retratos Parisienses”, livro organizado pelo senhor?

A medida que comecei organizar o livro, fui adquirindo a certeza de que 1950 foi um dos melhores anos da vida do jovem cronista. Ele estava com 37, novamente solteiro, vivendo confortavelmente na capital francesa, rodeado de amigos e pintores brasileiros. Gente como Cícero Dias, Clóvis Graciano, Portinari, Antonio Bandeira etc. Dito isso, trabalhou duro como correspondente do Correio da Manhã, o principal jornal da época. Escrevia uma crônica diária, “Recado de Paris”, publicada sempre na página 2, e entrevistas ou reportagens especiais para o suplemento cultural.

Como conseguiu esse material?

Eu coleciono jornais e revistas antigas. Tempos atrás comprei uma coleção do Literatura e Arte, suplemento cultural do Correio da Manhã. Os números que me faltavam, consultei a Hemeroteca Digital Brasileira, uma ótima ferramenta disponibilizada pela Fundação Biblioteca Nacional-RJ.

Quais suas conclusões após ter reunido o material sobre o olhar do Velho Braga sobre a Europa e sobre os grandes artistas e pensadores que teve a oportunidade de entrevistar?

Este material, inédito em livro, ajuda a compor uma nova imagem do cronista. Primeiro, oferece uma noção mais concreta dos seus interesses literários, fornece pistas sobre sua formação política, por fim, nos permite reavaliar a sua relação com as artes plásticas. “Retratos Parisienses” pode relativizar certa mitologia que vem sendo construída em torno do homem solitário, que não era dado a leituras etc. Ora, as 31 crônicas e entrevistas que compõem o volume mostram, na verdade, que ele tinha uma consciência muito aguda do que caracterizava a cena cultural do pós-guerra. Também sabia perfeitamente que a vanguarda representada por Jean Cocteau e André Breton estava entrando em declínio, que Jean-Paul Sartre e Thomas Mann eram dois dos principais intelectuais europeus da época, que Picasso e Matisse eram mais importantes do que Chagall e De Chirico.

Por que é importante ler Rubem Braga até hoje, na sua opinião?

Ele representa o amadurecimento e a consolidação das principais conquistas modernistas. Num certo sentido, ajudou a modelar a língua brasileira atual, conferiu poesia ao cotidiano e soube valorizar aquelas coisas que a maioria das pessoas ainda considera desprezíveis e insignificantes. Rubem Braga é uma espécie de reserva ética. Suas crônicas têm caráter. Ao mesmo tempo, dentre todos os nossos escritores é um dos que tem maior senso da beleza. Trata-se de um prosa de voltagem poética.

Qual a importância dele para a crônica brasileira?

A linha evolutiva da crônica vai de Machado de Assis a Rubem Braga. É o ponto de chegada. Penso que todo um ciclo da nossa experiência, principalmente, a passagem da roça pra cidade, está entranhada e sedimentada em sua prosa. Talvez, por isso, ele é o único cronista que libertou a crônica do jornal, conferindo a ela a dimensão de um clássico moderno. Não é pouca coisa. Em outras palavras: é para poucos.

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Rubem Braga e seu amor humilde à natureza

Ao lado da também jornalista Leusa Araujo, Januária Cristina Alvesibi organizou o livro “Rubem Braga, o Lavrador de Ipanema”, com 14 crônicas “verdes” de Rubem Braga. O livro deverá ser lançado até março pela Record. Januária, em entrevista concedida, comentou sobre os 100 anos do Velho Braga, sobre seu amor “humilde” pela natureza e também sobre a importância das crônicas dele para a história da literatura brasileira:

Por que resolveram organizar “Rubem Braga, o Lavrador de Ipanema”, seleção de 14 crônicas de amor à natureza?

Janurária Cristina Alvesibi – Desejo de apresentar a obra de Rubem Braga aos jovens leitores brasileiros. Foi este “amor humilde à natureza” – além da paixão pela obra do autor – que animou esta seleção de crônicas. O livro reúne 14 crônicas de amor à natureza escritas entre os anos de 1930 e 1980 e comemora o aniversário do nosso maior cronista que completaria cem anos em 2013. Ecologista avant la lettre – Rubem Braga defende as causas ambientais movido a sentimentos do mundo e não a discursos. É assim, por exemplo, que lamenta o destino do Córrego Amarelo, em Cachoeiro do Itapemirim, sua terra natal: “(…) Não. Esta crônica não pretende salvar o Brasil. Vem apenas dar testemunho perante a História, a Geografia e a Nação, de uma agonia humilde: um córrego está morrendo. E ele foi o mais querido, o mais alegre, o mais terno amigo de minha infância” “(Chamava-se Amarelo” – uma das 14 crônicas selecionadas para homenagear o centenário de Rubem Braga.)

Rubem Braga se utiliza das árvores, do seu amor à natureza, como uma metáfora para falar de determinados momentos históricos – como fala da 2ª. Guerra mundial na crônica “Essas Amendoeiras” de 1948 (em O Homem Rouco) e das coisas da vida. Suas crônicas possuem subtextos e devem ser lidas sob diferentes pontos de vista. Daí a riqueza de apresentá-las aos jovens leitores que, além de terem acesso a um texto irretocável, conhecerão, pelos olhos do “Velho Braga”, um outro universo de informações e sentimentos.

Como conseguiram o material?

A Editora Record e a família de Rubem Braga disponibilizaram as crônicas publicadas pela editora para esse trabalho. A seleção foi nossa, com a anuência de ambos, numa parceria que resultou num belíssimo livro, um verdadeiro legado à literatura e à causa da preservação da natureza.

Como é a história do lavrador de Ipanema, apelidado dado a Braga pelo amigo Paulo Mendes Campos?

Que outro brasileiro formou um verdadeiro telhado verde na cobertura de um grande edifício? Pois Rubem Braga plantou no alto do edifício da rua Barão da Torre, em Ipanema, um sem número de espécies de plantas e árvores frutíferas, como pitangueiras, goiabeiras, pés de romã e até uma mangueirinha carlota! Contou com ajuda do paisagista Roberto Burle Marx e de outro amigo jardinista, o baiano José Zanine Caldas. Rubem Braga fez uma espécie de “resistência humilde” diante do enorme poder destruidor dos homens sobre a natureza. Atitude do lavrador urbano hoje tão valorizada pelos ambientalistas. Não foi à toa que seu amigo, o paisagista Augusto Ruschi, eternizou o cronista numa espécie de orquídea descoberta em 1970: a Physosiphon Bragae Ruschi. E seu amigo Paulo Mendes Campos, frequentador da casa do amigo e ciente dessa sua paixão pela natureza, carinhosamente o apelidou de “o lavrador de Ipanema”.

Qual a importância do Velho Braga para a crônica brasileira?

Rubem Braga é mestre em escrever verdades universais como se fossem coisas passageiras e sem importância. Este é o traço que o marca na literatura brasileira. Nenhum outro escritor brasileiro abraçou a crônica – esse gênero entre a prosa e a poesia – como lugar ideal, onde se está bem à vontade para fazer a ficção do cotidiano. Nunca pensou em outro gênero. Parecia sempre um escritor sem outra pretensão: “confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido” – declarou certa vez. É dele também a célebre descrição sobre o trabalho do cronista. Até hoje, no imaginário de qualquer candidato ao posto, segue a lição: “Mas o cronista de jornal é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha e sai.” (Manifesto, 1951). Não há dúvida que Rubem Braga continua a ser o mais importante cronista brasileiro, tanto a crítica acadêmica quanto o público reconhecem. Mas é preciso manter viva a obra, despertar o interesse de novos leitores – especialmente para o seu lado “verde”.

Por que ler Braga?

Considerado o “Príncipe da Crônica”, Rubem Braga é um autor primordial do gênero no Brasil e deve ser lido com uma referência. Sobre seu trabalho escreveu o crítico Domício Proença Filho (em “Ao Leitor”, em “Rubem Braga Aventuras”, Record, RJ, 2002): “A crônica se faz, normalmente, do relato de fatos próximos ou distantes, acompanhados de comentários do autor, sempre a partir de um olhar autorizado e crítico: o cronista parte de um fato qualquer, de uma paisagem, de uma pessoa, de uma sensação, de um pensamento e, num texto curto, apresenta suas considerações pessoais. (…) O cronista permite-se viajar na imaginação e nas impressões subjetivas, nutrientes eficazes de um discurso em que se configuram dimensões literárias e não literárias.”

Embora Rubem Braga tenha passado a maior parte de sua vida como “o medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever” (mais de 15 mil crônicas, dos 14 aos 62 anos), o leitor terá sempre a impressão de que o Velho Braga (como ele se autodenominava desde jovem) é um velho contador de histórias, humilde, com as mãos calejadas pela lida na terra, deitado na rede, à sombra de uma árvore centenária, e com o vento soprando ao fundo. De fato, em toda a sua obra podemos encontrar esta tensão entre o homem urbano, preso num apartamento, no bonde, ou numa redação de jornal, olhando as amendoeiras, sentindo o barulho da chuva, comemorando o nascimento de um pé de milho no seu jardim, e pressentindo a chegada do outono “vinha talvez do mar e, passando pelo nosso reboque, dirigia-se apressadamente ao centro da cidade, ainda ocupado pelo verão.”

Ou seja, cada árvore, cada córrego, cada mudança de tempo leva o autor – este “bicho do asfalto” – para o seu lugar de origem: a natureza. Assim, as árvores remetem tanto às lembranças da infância, ao conhecimento do mundo, quanto ajudam a refletir sobre a ordem da vida social e a desordem natural. Na crônica, “O Mato”, por exemplo, Rubem Braga expressa este desejo de ser apenas o homem do mato: “(…) sentiu vontade de deitar e dormir entre a erva úmida, de se tornar um confuso ser vegetal, num grande sossego, farto de terra e de água; ficaria verde, emitiria raízes e folhas, seu tronco seria um tronco escuro, grosso, seus ramos formariam copa densa, e ele seria, sem angústia nem amor, sem desejo nem tristeza, forte, quieto, imóvel, feliz.”

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José Castello dá entrevista falando sobre Rubem Braga

Rubem Braga completaria 100 anos de idade no último sábado (12) se vivo estivesse. O escritor e jornalista José Castello, autor do livro “Na Cobertura de Rubem Braga” (que será relançado mês que vem pela José Olympio) concedeu entrevista comentando sobre o mestre da crônica, sobre sua vida, obra e os cronistas contemporâneos. Leia:

Como foi o processo de organização do livro “Na Cobertura de Rubem Braga”, que será lançado em fevereiro?

José Castello – Na verdade, trata-se – até onde sei – apenas de uma edição comemorativa do livro lançado em 1996 pela mesma JO. Digo “até onde sei” porque falo do texto, não sei dizer se houve modificações na capa, nas imagens, na parte gráfica etc. Quanto ao livro, a ideia não foi minha, na verdade, mas da própria Maria Amélia (editora do grupo). Em um encontro na editora, ela comentou comigo que adorava a cobertura deixada pelo Braga (àquela altura já morto) e achava que ela até daria um livro. Ela já tinha até um nome na cabeça: “Na cobertura de Rubem Braga”. Imediatamente, eu lhe disse que queria escrever o livro e adotei o belo título que a Maria Amelia inventou.

Fiz uma visita à cobertura, ciceroneado pelo Roberto, filho do Braga. Entrevistei uns poucos amigos. Mas a base de minha pesquisa foi mesmo a releitura das crônicas do Braga. E também a leitura de 800 crônicas inéditas que ele escreveu para a “Revista Nacional”, editada por seu amigo Mauritônio Meira. Não chegam a ser bem crônicas, era uma coluna de notas breves – mas todas escrita no formato de pequenas crônicas. Nunca pretendi escrever uma biografia do Braga. Meu projeto foi sempre o de escrever uma crônica sobre o cronista e suas crônicas. O feitiço contra o feiticeiro…

Pelas informações coletadas, o que diria da vida e obra do Velho Braga?

Braga é o fundador da crônica moderna brasileira. A crônica, tal qual a conhecemos, é na verdade um gênero brasileiro. Foi criada por uma geração fabulosa de escritores de nosso século 20, que inclui também o Nelson Rodrigues, o Carlos Drummond, a Clarice Lispector, o Paulo Mendes Campos, o Sérgio Porto, o Fernando Sabino, o Otto Lara Resende e tantos outros. Braga foi, na verdade, o consolidador do gênero, seu grande mestre. Nelson fez crônica, mas fez teatro. Clarice fez crônica mas fez romances. Drummond fez crônica, mas fez poesia. Braga, entre todos eles, foi o único que se dedicou integralmente à crônica e, por esse motivo, eu penso, tornou-se seu grande mestre. A crônica é um gênero anfíbio, entre o jornalismo e a literatura. Os jornalistas veêm os cronistas com desconfiança, eles lhes parecem mentirosos e fantasiosos. Os escritores também: eles lhes parecem apegados demais às circunstâncias e, além do mais, venais – já que crônicas são escritas, quase sempre, primeiro por encomenda, para jornais e revistas, e vendidas por unidade. A crônica tem um pé no real, outro na fantasia, e é isso que a define e que lhe garante a autonomia como gênero literário.

Por que resolveu fazer o livro em forma de dicionário? Braga e suas crônicas preenchem dicionário de A a Z?

A ideia do dicionário me surgiu por acaso. Na verdade, quando comecei a fazer minha pesquisa e minhas leituras, resolvi organizar o material por temas, para me facilitar na hora de escrever o texto final. Decidi então organizá-las por verbetes, como um dicionário. Um dia, muito tempo depois, relendo minhas pesquisas (meus verbetes), percebi que aquele dicionário era, na verdade, meu livro – e não uma pesquisa para o livro! O acaso ajuda muito um escritor, sempre dei grande importância a ele.

O que pensa sobre a importância do cronista para a história da literatura brasileira?

Braga é importante, sobretudo, para a história de nosso cotidiano. Veja, muita gente diz que ele foi correspondente de guerra. Sim, de fato foi enviado para o front da guerra, em 1944, pelo Diário Carioca. Mas não fez reportagens de guerra, não atuou como um repórter, não se preocupou com os grandes temas da guerra, mas com os pequenos dramas e acontecimentos humanos. O objeto do cronista (como de qualquer escritor, e por isso crônica é literatura) é o singular, o particular, o pequeno, e não o geral. Ele não é um cientista, mas um ficcionista que decide, armado com os poderes da ficção, enfrentar o real.

E sobre os cronistas atuais? São todos devedores do grande estilo de Braga?

Cada um segue seu caminho. Pense em João Paulo Cuenca, Luis Fernando Veríssimo, Eliane Brum, Humberto Werneck. Aqui no Paraná temos dois cronistas de imenso talento: Rogério Pereira e Luis Henrique Pellanda. Pois bem: para cada um a crônica é uma coisa diferente. Cada um – exatamente como fazem os romancistas – escreve no seu estilo, adota seu caminho. Agora, sem dúvida, ninguém se torna um bom cronista sem ler os grandes cronistas do século 20, em particular o Braga.

Faltam Velhos Bragas hoje em dia na crônica brasileira?

Os tempos atuais não são muito adequados à crônica. Vivemos o tempo da hipervelocidade – e a crônica é o território da lentidão. Vivemos o tempo das imagens – e a crônicas se interessam pela introspecção. Vivemos em um mundo muito agitado e agressivo, e a crônica se interessa pela lentidão e pela contemplação. Mas, pensando bem, talvez a potência da crônica hoje possa ser ainda maior. A crônica e os cronistas, hoje, trafegam na contramão – e por isso, certamente, têm um senso crítico muito aguçado a respeito do presente, têm muita coisa importante a dizer sobre ele.

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